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Colette e sua trajetória entre palavras e autenticidade


Paris recebeu Colette no final do século XIX, após seus primeiros anos longe dos centros urbanos em um povoado francês, na Borgonha. Era uma moça jovem, com vinte anos e ares do campo, quando atraiu a atenção de um homem catorze anos mais velho: Henry “Willy” Gauthiers-Villars. Eles se casam em seguida, estabelecendo um casamento que por si só não se sustentaria, devido ao abismo criado entre as diferenças de idade e de experiências de cada um deles, algo que Willy utiliza para criar uma hierarquia na relação e exercer controle sobre Colette em muitas situações. Apesar disso, Colette deixa a vida no campo e ao mesmo tempo, quem costumava ser. Ao pisar em Paris, tudo lhe direciona para se transformar na mulher que será. 

Colette e o marido, Willy

Ela escreve o primeiro livro em torno do ano de 1900. Até então, o casamento com Willy, que ela acreditava fortemente ser por amor, mantinha-na em casa, ignorante das traições e esquemas do marido, e indo de quando em quando em festas onde não se encaixava devido aos resquícios da vida do interior que ainda trazia em suas roupas, gestos e olhares. Isso, de certa forma, auxiliou-a a enxergar a sociedade parisiense em autenticidade e crítica, reconhecendo aqueles que se exibiam de uma forma e na realidade eram de outra. Na época em que iniciou sua prática como escritora, o casal passava por uma situação financeira difícil, e o marido lhe pede que escreva algo, e ela o faz, inspirada em sua infância. Assim, nasce Claudine à L’École, publicado sob o nome de Willy, que recebe todo o sucesso e reconhecimento em seu nome, sem mencionar Colette como a verdadeira autora. 

O enredo é inspirado na vida que Colette levava antes de se casar e ir para Paris, vivendo em um povoado no campo, estudando na escola local e se aventurando com suas amigas e colegas da adolescência. Os demais livros da série Claudine, lançados anos depois, também possuem um viés autobiográfico, trazendo situações e acontecimentos vividos e reelaborados pela autora. Obviamente, nesse tempo, o público ainda pensava que as obras eram de Willy e elogiava sua perspicácia e talento ao retratar tão bem os pensamentos de uma menina, e depois, de uma jovem mulher na cidade. 

Colette na peça de teatro Le Rêve de L'Egypte

Logo após o lançamento do primeiro livro, ocorre um sucesso nas vendas, e isso incita Colette a escrever mais e mais, aumentando sua fama e riqueza sem levar quaisquer créditos por isso. Após muitos problemas envolvendo as traições de Willy e um novo fracasso financeiro devido às suas dívidas, Colette pede divórcio e luta para recuperar a autoria de suas histórias, ao mesmo tempo em que luta por si mesma, pela própria autonomia e independência. Esses primeiros anos da vida da escritora são retratados em um filme de 2018, Colette, dirigido por Wash Westmoreland

Estrelado por Keira Kightley no papel da protagonista, o enredo tem a preocupação de mostrar a vida de Colette desde sua mudança para Paris até a formação como escritora, narrando o início do casamento e de sua carreira literária. É mostrada também a forma como o marido Willy (Dominic West) se apropriou de seu trabalho e a explorava terrivelmente conforme o sucesso ia crescendo.  Também apresenta a jovem descobrindo sua sexualidade e se relacionando com outras mulheres, conhecendo novas pessoas e expandindo seus horizontes, algo que eventualmente, a auxilia na decisão de pedir o divórcio e tomar a frente em seus escritos. 

Keira Knightley é sempre brilhante em suas atuações, e nessa não foi diferente, sendo muito aclamada pela crítica ao representar com fidelidade a personalidade e a fase específica da vida da escritora francesa.

Colette foi uma personalidade em sua época, influenciando gostos e comportamentos na sociedade francesa nas primeiras décadas do século XX. Tornou-se uma escritora conhecida, trabalhou como jornalista, teve ocupações de destaque no teatro e mostrava em qualquer oportunidade sua necessidade da arte e de se expressar artisticamente. O início de seu percurso nesse mundo deu-se através do casamento e dos abusos de seu marido Willy, que não apenas a incitou a escrever o primeiro livro que lhes devolveu o sustento financeira, como também presenteou-os com uma posição de reconhecimento na vida social francesa, mas que a mantinha trancada por horas e até dias dentro do quarto para que escrevesse as continuações de Claudine. Contudo, a solidificação de si mesma como escritora veio da própria Colette. Não se sabe como a autora não desistiu da escrita após ser obrigada pelo marido a escrever exaustivamente enquanto o via colher os louros de seu trabalho. Talvez porque, para ela, a escrita tornou-se uma extensão do seu ser, tal como as outras atividades artísticas que realizava. Para ela, era como colocava para fora suas angústias, como ocupava um lugar no mundo e o construía. A autenticidade e força de Colette não permitiam que sua escrita realmente pertencesse à Willy, então talvez por isso, ela não tenha desistido. O nome dele estava nas capas de lançamento de seus livros, mas cada curva na história era feito puramente dela. Na história dessa mulher, fica explícito que cada curva também era um feito puramente derivado de sua autenticidade. 

Ao longo da vida, e principalmente após o fim de seu casamento com Willy, Colette teve diversas relações românticas, tanto com mulheres quanto homens. Quando se pesquisa acerca da escritora, não é difícil achar relatos desses romances, especialmente aqueles com mulheres. Isso nos dá indícios de que Colette não buscava esconder sua orientação sexual, apesar da discriminação e hostilidade que tenha sofrido por isso, algo que manteve sua habilidade literária afastada de um posto na Académie Française. A relação mais conhecida e que influenciou positivamente sua carreira e seu crescimento como indivíduo, foi com Mathilde de Morny, a Condessa de Balbeuf, conhecida como Missy. Sozinha, a condessa já quebrava com os padrões conservadores da sociedade parisiense, vestindo-se ao que era considerada a moda masculina e relacionando-se abertamente com mulheres. O filme de 2018 dá um destaque para a proximidade entre elas e mostra uma cena famosa em que as duas, atuando em uma peça de teatro, se beijam em frente ao público, que se escandaliza.

Colette e Missy. A condessa a apoiava em seus projetos, inclusive o de atuar.

Várias de suas obras – mais de vinte escritos publicados no total – continham alguma passagem que chocava o público tamanha sua ousadia em transformar atos em palavras e vice-versa. Algumas foram também a base para adaptações cinematográficas e inúmeras peças teatrais. Gigi (1944) foi uma das mais famosas, como também A Vagabunda (1910), Chéri (1920), La fin de Chéri (1926) e L’Étoile Vesper (1947). 

Ela abordava temas que iam da homossexualidade até o relacionamento de uma mulher com um homem décadas mais novo, passando por questões de sua infância e adolescência, em especial a relação profunda que tivera com a mãe e sua estima por ela.

Hoje, quando conhecemos mais sobre Colette e suas obras, temos noção de que a série Claudine e todo seu sucesso derivaram de sua habilidade como escritora, e  não de seu ex-marido Willy. Contudo, na época essa história foi atribuída a ele, e as pessoas o viam como um grande escritor. Colette ficava atrás, silenciada e escondida sob camadas e camadas de mentiras bem arquitetadas por ele. Imaginemos como foi para ela tirar camada por camada, para que aparecesse e se revelasse para a sociedade. Após tantas camadas impostas por tanto tempo, a liberdade e a recusa ao silêncio se tornaram sua forma de viver. 



Sua importância no meio clássico, portanto, vai além de suas inúmeras obras. Colette, por si só, exalava personalidade e autenticidade em seus feitos, podendo com toda certeza ter inspirado e motivado muitas mulheres a fazer o mesmo. Sua posição social, é claro, a auxiliava muito nisso. Mas, acima de tudo, seu desapego do olhar, da aprovação alheios e mesmo de uma identidade que pudesse paralisá-la se se mantivesse em constante busca de ser fiel a ela, foi um fator relevante na construção de sua subjetividade como personagem pública, escritora e mulher. 

É necessário enfatizar que os livros da autora são dificilmente encontrados no Brasil, a maioria são em edições antigas, achadas em sebos somente. A única edição recente lançada é da editora Nova Fronteira, de A Ingênua Libertina, em 2019. Isso nos leva a pensar que está mais do que na hora de nos atentarmos e reconhecermos o papel dessa mulher na história da literatura e as contribuições que ela proporcionou ao mundo da escrita. Sobretudo firmando um caminho para outras mulheres que quisessem seguir seus passos, seja na carreira de escritora, seja vivendo de forma autêntica e livre sua sexualidade, opiniões e escolhas.  


Texto: Camila Ferrari 
Arte em destaque: Sofia Lungui
Camila Ferrari
Pesquisadora e apreciadora de tons sóbrios. Com um pé na realidade e outro em algum mundo fantástico, é através da leitura e da escrita que define as bordas de si mesma. Sente o aroma de café de longe e é habilidosa em deixar livros espalhados pela casa.

Comentários

  1. Que texto bacana! Adorei, inclusive preciso rever o filme com a Keira Knightley!!

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