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As 5 melhores atuações femininas em adaptações de clássicos


Histriônica: é assim que muitas pessoas definem a forma de atuação de artistas nos filmes clássicos. Quando falamos em atrizes, esse adjetivo fica ainda mais forte. Bette Davis e Joan Crawford, por exemplo, são campeãs desses adjetivos. Geralmente, histriônico é um adjetivo utilizado para descrever como elas eram exageradas, com seus olhos arregalados quase saltando pela tela.

No entanto, uma atuação histriônica é apenas uma forma de atuar de uma época. Assim como daqui a 30 anos as pessoas poderão classificar as atuações das atrizes de hoje como exageradas. A questão central é que uma forma de atuar representa sua época. Durante muito tempo, na época da Old Hollywood, não se falava sobre métodos de atuação. Lee Strasberg e a atuação moderna, influenciada por Bertold Bretch, só apareceria nos anos 1950.

Esta lista reúne cinco atuações de obras do audiovisual adaptadas de clássicos da literatura, de diferentes épocas e atrizes. Sempre digo que sou uma pessoa de filmografias. Gosto de mergulhar na filmografia de determinadas atrizes, e foi assim que conheci um pouco de cada uma. Não podemos comparar uma Vivien Leigh a uma Bette Davis, simplesmente porque suas formas de aproximação de um personagem são diferentes. Talvez o único ponto em comum entre essas sete atuações é o fato de que elas tocam em águas muito profundas em nós. É impossível não se envolver com a entrega de uma Nathalia Timberg como a governanta Juliana na novela A Sucessora, de 1978. Independentemente da época, elas nos entregam uma emoção diferente.


Nathalia Timberg como Juliana (A Sucessora, 1978)

Nathalia sempre foi conhecida como uma atriz de vilãs. Um dia, durante uma conversa, um fã dela me disse que ela seria nossa Bette Davis brasileira. Se formos pensar pelo lado das vilãs, faz muito sentido. Timberg interpretou muitas ao longo da carreira. Porém, de todas as mulheres asquerosas, uma se destaca: a governanta Juliana, de A Sucessora, novela de Manoel Carlos adaptada do romance homônimo de Carolina Nabuco.

Ao contrário das ricas falidas que Nathalia estava acostumada a interpretar, Juliana é uma serviçal. Discreta, sempre com tons escuros ou pastéis, a ideia era que ela não tivesse tanto destaque na novela. Contudo, Manoel Carlos percebeu que a personagem tomou uma grande proporção e deu mais destaque a ela. Uma escolha bastante acertada.

O que encanta em Juliana é sua ambiguidade. Há quem a leia como apaixonada por Roberto Stein (Rubens de Falco), o patrão, mas também por sua falecida primeira esposa, Alice. Juliana fala muito pouco durante a novela. Ao contrário de suas vilãs verborrágicas dos anos seguintes, Juliana é um falcão. Ela observa e fala pouco. Todo seu tormento pode ser sentido através de olhares que ela nos revela. É nos cantos, nem sempre com a câmera focada nela, que Nathalia Timberg faz a magia acontecer.

Uma de suas cenas mais tocantes e marcantes da carreira é quando, durante um acesso de loucura, ela aperta os espinhos de uma rosa e se fere com eles. Suas mãos começam a sangrar enquanto ela vomita o texto, sua raiva e seu ódio por Marina (Susana Vieira), a segunda esposa de Roberto, a intrusa que roubou o lugar de Alice. É uma das cenas preferidas da própria atriz, que sempre se emociona muito quando a revê. Ali, podemos ver a entrega de Nathalia. Ela chegou a se machucar de verdade. É assim que ela se aproxima das personagens, sempre procurando ser fiel à verdade delas. Uma atuação inesquecível e que esperamos ver muito em breve no GloboPlay.

Conheça o livro: A Sucessora, de Carolina Nabuco


Joan Crawford como Mildred Pierce (Alma em Suplício, 1945)

Ao contrário de Nathalia Timberg, que sempre procura papéis que nada tenham a ver consigo, a Mildred Pierce de Joan Crawford, em Alma em Suplício (Mildred Pierce, no original), tem tudo a ver com o passado da atriz. Talvez por isso essa atuação tenha lhe valido o único Oscar na carreira, uma vez que ela conseguiu se identificar muito com o drama de Mildred.

Alma em Suplício foi uma combinação de fatores muito interessantes que culminaram na noite em que Joan recebeu o Oscar de Melhor Atriz em sua casa, em Brentwood. Ela tinha acabado de terminar seu contrato com a MGM, estúdio que a acolhera por quase 20 anos. Existem muitos boatos em torno dessa saída, se foi amigável ou não. Na verdade, isso pouco importava em um cenário em que Joan entraria em um estúdio, a Warner Brothers, em que uma rainha já reinava: Bette Davis.

Rainhas dos estúdios geralmente têm regalias em relação a outras atrizes. Papéis promissores são oferecidos a elas primeiro, por exemplo. Ao chegar na Warner Brothers, Joan passou muito tempo recusando papéis que considerava fracos. Ela, inclusive, pediu para que suspendessem seu salário, já que ela não estava trabalhando.

O papel de Mildred, uma dona de casa que se torna uma bem-sucedida mulher de negócios do ramo alimentício, tinha tudo a ver com o passado de Lucille LeSueur, nome verdadeiro de Joan Crawford. Assim como Mildred, Lucille comeu o pão que o diabo amassou durante seus tempos de anônima. Na biografia The Girl Next Door, escrita por Charlotte Chandler, Joan afirma que, durante muito tempo, ainda sentia o cheiro das roupas lavadas por sua mãe em uma tina. Foram tempos difíceis, de pobreza e ausência paterna. 

Por isso, ela se identificava com a trajetória de Mildred, que apesar de tudo havia conseguido ascender socialmente. Michael Curtiz era o diretor do filme, e ele relutou durante muito tempo com a ideia de tê-la na adaptação do romance policial de James Cain. Joan quebrou a relutância dele ao se candidatar voluntariamente para um teste. É importante lembrar que, naquela época, as atrizes consagradas não faziam testes.

Após o teste e uma espécie de "chalalá" de Jerry Wald, o produtor do filme, Curtiz se convenceu de que ela era ideal para a obra. O que vemos em Alma em Suplício é uma entrega muito interessante da parte de Crawford. Mildred é complexa, em certos momentos do filme ela parece a vilã, em outros a mocinha, e Crawford consegue sustentar isso de forma muito verdadeira.

Alma em Suplício inaugura a era de Joan Crawford na Warner Brothers. Ela faria outros filmes com a mesma pegada de seu primeiro no estúdio. Particularmente, uma das melhores fases da atriz.

Conheça o livro: A História de Mildred Pierce, de James M. Cain 


Bette Davis como Regina Giddens (Pérfida, 1942)

Pérfida (The Little Foxes, no original) é um dos filmes menos falados de Bette Davis. Quando pensamos em seus maiores papéis, o que nos vem à mente é Margo Channing, de A Malvada ou Baby Jane, de O que Terá Acontecido a Baby Jane?.  Porém, Davis fez outros papéis mais marcantes no cinema, principalmente em sua fase no estúdio Warner Brothers. Pérfida faz parte de um momento que eu, particularmente, acho a fase de ouro dela no estúdio: o comecinho dos anos 1940.

Nesse filme, dirigido por William Wyler, parceiro de Davis em seus melhores trabalhos, ela interpreta Regina Giddens, uma mulher de uma família de novos ricos do sul dos EUA, no século XIX. Os Hubbard fizeram fortuna explorando escravizados em uma plantação de algodão do sul. Agora que o progresso se aproxima, os irmãos Giddens (Regina, Ben e Leo Hubbard) desejam mais e, para isso, precisam enganar Oscar (Herbet Marshall), o marido paspalho de Regina.

Uma frase que disseram sobre Bette Davis poderia se aplicar a esse filme: "Quando Bette Davis é má, ela é melhor ainda". É exatamente isso que sentimos ao assisti-la em Pérfida. No começo do filme, até nutrimos uma simpatia pela personagem, mas isso dura muito pouco. Ao longo de toda a trama, ela humilha a filha e a cunhada, mas a apoteose acontece quando ela assiste à morte do próprio marido sem fazer nada.

Pérfida foi inspirado em The Little Foxes, peça teatral de Lillian Hellman. Naquela época, Hollywood não fazia filmes que criticassem o capitalismo com tanta clareza. Pérfida, ao lado de As Vinhas da Ira, é um filme que usa a história da família Hubbard para mostrar como o capitalismo e a ganância matam. Anos depois, Lillian seria vítima da caça às bruxas em Hollywood. Foi tachada de subversiva.

Conheça o livro: The Little Foxes, de Lillian Hellman 


Vivien Leigh como Karen Stone (Em Roma na Primavera, 1961)

Conhecida por Scarlett O'Hara e Blanche Dubois, Vivien Leigh ficou marcada no imaginário cinematográfico por dois papéis radicalmente diferentes. No entanto, um dos papéis mais esquecidos, talvez por o filme ter sido um fracasso de bilheteria, foi o de Karen Stone no filme Em Roma na Primavera (The Roman Spring of Mrs. Stone, no original).

Baseado no único romance do dramaturgo Tennessee Williams, o filme conta a história da atriz Karen Stone (Vivien Leigh), afastada dos palcos e agora morando na Itália. A vida, para ela, se tornou um tédio infinito, regada a festas vazias em sua casa. Solitária, a atriz acaba conhecendo Paolo (Warren Beatty), um rapaz mais jovem, e acaba se envolvendo com ele. 

Tennessee Williams sempre me fascinou com suas personagens femininas e com Karen Stone não poderia ser diferente. No entanto, suas mulheres sempre têm um tipo de transtorno ou perturbação, o que me faz pensar: será que a velhice feminina, para o dramaturgo, é uma condenação? Karen Stone está condenada a ser relembrada por momentos gloriosos em sua juventude, agora ela não tem mais o mesmo glamour. Quando Paolo entra em sua vida, ele está ciente do quanto Karen precisa de atenção e se aproveita disso.

Existe algo muito interessante na atuação de Leigh nesse filme: ela não pede por nossa simpatia. Sua Karen Stone é distante, fechada, talvez um pouco rígida demais. Ela não está ali para agradar ao espectador. Gosto de pensar que sua força assusta o espectador mais atento. Porém, essas qualidades "nada simpáticas para uma mulher" dão todo o toque que a personagem precisa. Karen se expressa no não dito, por meio de olhares e gestos. Uma das cenas mais fortes desse filme é quando ela requisita a presença de Paolo em sua cama. É uma cena bastante simples: ela tira o vestido, fica de camisola, deita-se na cama e Paolo vai deitar-se no peito dela. Porém, é na simplicidade que reside o poder e a mensagem da cena. Karen não tem nada de frágil, embora aparente.

Em Roma na Primavera foi o penúltimo filme de Vivien Leigh. Este e seu último filme, A Nau dos Insensatos, mostram, de certa forma, como Hollywood era cruel com suas atrizes mais velhas: só chamamos mulheres mais velhas para interpretarem personagens transtornadas e infelizes? Existe algo além disso? Certamente, naquele 1961 não existia. Porém, isso não invalida a entrega de Vivien Leigh como Karen Stone. Ela passava por uma situação bastante parecida com a de sua personagem naquela época, ela é Karen Stone em diversos aspectos.

Conheça o livro: The Roman Spring of Mrs. Stone, de Tennessee Williams 


Mia Farrow como Rosemary Woodhouse (O Bebê de Rosemary, 1968)

O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby) é, na minha opinião, um dos melhores filmes de horror já feitos no cinema. Como nenhum outro, ele consegue nos falar sobre medos universais que cercam as mulheres: o estupro, o abuso da parte do marido e dos amigos, o controle sobre o corpo da mulher. Ironicamente, foi dirigido por um notório abusador, Roman Polanski.

A história gira em torno de Rosemary Woodhouse (Mia Farrow), uma jovem recém-casada com o ator Guy (John Cassavettes). Eles se mudam para um prédio diferente, em Nova York, com vizinhos excêntricos, mais especificamente o casal Roman (Sidney Blackmer) e Minnie Castavet (Ruth Gordon).

Até o momento em que Rosemary fica grávida, ela não parece ter muita relevância. Após engravidar é que começamos a ver o motivo de ela estar no filme, de que talvez as coisas não sejam exatamente como pensamos. Mia Farrow usa tons muito clarinhos logo no começo mas, quando a gravidez se consolida, ela começa a usar tons escuros, muito vermelho e preto. Isso, juntamente com a atuação da atriz, marca o momento de virada, quando ela percebe que existe algo errado com seu marido e seus vizinhos.

Sempre pensamos que é muito difícil interpretar vilãs, mas mocinhas também são um desafio. Mocinhas críveis, pelas quais torcemos, pode ser um trabalho mais delicado para uma atriz. Mia Farrow já tinha um tipo angelical, um rosto de olhos fundos, o que cooperava, mas isso não é o suficiente. É incrível perceber o quanto ela consegue fazer com tão pouco. Rosemary não fala muito. Tudo acontece pelos olhos da personagem, e aos poucos ela vai saindo de um estado letárgico para assumir (ou pelo menos tentar) uma posição diante do fato de tentarem controlar suas ações e seu corpo.

Conheça o livro: O Bebê de Rosemary, de Ira Levin 

Esta lista é apenas um gostinho do que muitas dessas atrizes nos entregavam em seus papéis. Poderíamos criar uma lista com 100 atuações, mas acho que não daria conta de tantos papéis incríveis. Que privilégio para nós, espectadores, assistirmos a essas produções.

Jessica
Tradutora e apaixonada por pesquisar sobre temas obscuros, sejam telenovelas ou peças de teatro perdidas por aí. Gosta de passar o tempo revirando o Arquivo Nacional em busca de novas descobertas ou lendo sobre a Old Hollywood. Parece séria, mas adora ouvir Gretchen sozinha na sala.

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