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As Inseparáveis: a história de uma amizade como testemunho político

 

Juntas havíamos lutado contra o destino abjeto que nos espreitava.

Os diários escritos por Simone de Beauvoir durante os anos de ensino superior (1926-1929) são marcados por uma longa lacuna. Entre os dias 15 de novembro e 12 de dezembro de 1929, a jovem estudante — que até então registrava diligente e detalhadamente seus dias com letra miúda e quase incompreensível em cadernos escolares — se cala. Nem uma palavra. Nem um registro. Na versão publicada desses diários, apenas uma observação da editora, Sylvie Le Bon de Beauvoir: “25 de novembro – morte de Zaza”.

O silêncio e essa observação são as indicações da importância daquele acontecimento. Zaza é Élisabeth Lacoin e sua história é mais conhecida das leitoras e dos leitores dos livros de Simone de Beauvoir pelo primeiro dos quatro volumes de seu projeto memorialístico, publicado em 1958, Memórias de uma Moça Bem-Comportada. No livro, encontramos Élizabeth pouco antes de chegarmos a um terço da leitura. Simone tem dez anos de idade, frequenta uma escola para meninas da burguesia católica de Paris e já estabelecera sua reputação de melhor aluna quando Zaza, menina poucos dias mais velha do que ela, se integra à turma. Zaza imediatamente se aproxima de Simone para recuperar as lições perdidas ao longo dos meses que passou longe da escola devido a um grave acidente. O comportamento, um certo mistério e a inteligência de Zaza logo despertam a admiração de Simone e, apesar das diferenças entre elas, uma saudável competição pelas melhores notas e a preferência das professoras, o formalismo das interações sociais da época e o controle rígido das mães, as duas meninas constroem uma amizade que as acompanhará até o início da vida adulta.

Memórias de uma Moça Bem-Comportada termina exatamente na lacuna encontrada nos diários da jovem Simone de Beauvoir: a morte de Zaza. “Juntas havíamos lutado contra o destino abjeto que nos espreitava, e pensei durante muito tempo que pagara minha liberdade com a sua morte.” Essa última frase dá ao livro um efeito trágico e perturbador que nos leva a perguntar: Por que a liberdade de Simone teria sido paga com a morte de Zaza? 

A resposta não é apresentada no volume seguinte das memórias, A Força da Idade, mas pode ser ao menos pressentida em As Inseparáveis, novela escrita por Simone de Beauvoir em 1954 e lançada agora no Brasil, em tradução de Ivone Benedetti, pela editora Record.

Lançando mão do recurso da ficcionalização da vida, Beauvoir nos apresenta, nesse texto, a história dessa amizade sob uma nova lente, em que as emoções da menina, adolescente e jovem Sylvie Lepage são o pano de fundo para contar a trágica história de Andrée Gallard. Mas os nomes fictícios não deixam dúvida: Sylvie é Simone e Andrée é Zaza. Todos os acontecimentos que marcaram essa amizade, e que conhecemos desde as memórias, estão em As Inseparáveis: o encantamento da melhor aluna da escola com a novata que tem um comportamento ousado e uma história misteriosa; as tardes em que brincavam e estudavam juntas; a adolescência e suas inseguranças, dúvidas e segredos, a trajetória intelectual de Sylvie, as obrigações familiares e religiosas de Andrée.

Lançado na França em agosto de 2020, As Inseparáveis despertou interesse midiático por supostamente revelar uma paixão de Simone de Beauvoir, mais do que uma amizade, por Zaza. E pelas semelhanças da relação entre elas e a história narrada por Elena Ferrante em A Amiga Genial, sucesso incontestável da literatura contemporânea. 

Simone de Beauvoir e Élisabeth Lacoin

De fato, as semelhanças entre a história de Lenu e Lila e Simone e Zaza são muitas, e é bastante possível que Elena Ferrante tenha se inspirado, em parte, em Memórias de uma Moça Bem-Comportada para compor suas personagens. Mas essa é uma leitura do texto beauvoiriano que só pode ser feita por aproximação e projeção. Quanto ao interesse amoroso, parte dessa interpretação se deve ao fato de que a própria autora tenha optado por deixar de publicá-lo sob a alegação de que seria “íntimo demais”. 

Como pesquisadora da obra de Simone de Beauvoir, entretanto, acredito que as duas leituras acabam por reduzir a potência dessa obra e interesso-me mais por compreender o texto no conjunto dos escritos da autora e em sua relação com o final de Memórias de uma Moça Bem-Comportada

As Inseparáveis foi escrito por Beauvoir em 1954, ano em que a escritora foi premiada com o prestigioso Goncourt por Os Mandarins. Nele, Beauvoir lança mão de recursos narrativos completamente diversos daqueles utilizados nessa obra ficcional, ainda que as duas obras partam de histórias vividas pela autora e apresentem uma das marcas do estilo autobiográfico de Beauvoir — mesclar os elementos biográficos das personagens, expondo as convergências e ambiguidades da relação eu/outro. Os Mandarins é um romance clássico, longo, profundamente enraizado na história da França após a Segunda Guerra Mundial, com uma multidão de personagens do meio intelectual francês, em que grande parte da história é narrada por meio de diálogos. Uma estrutura que revela claramente as intenções e preocupações políticas da autora.

As Inseparáveis é um escrito que se constrói a partir do íntimo, dos silêncios, das consequências das palavras não ditas nas emoções, observações e pensamentos de Sylvie. Há, nele, obviamente, espaço para os diálogos, mas esses se concentram nas interações entre as jovens amigas, em suas confidências e cumplicidades Ao dar voz aos sentimentos de Sylvie e Andrée — e de suas mães, que têm papéis importantes na história —, Beauvoir nos faz enveredar muito sutilmente para além das histórias dessas mulheres. Trata-se de um livro claramente centrado nas experiências vividas e nas possibilidades de destinos traçados pelas famílias burguesas católicas para as mulheres. A lente de aumento narrativa lançada por Beauvoir sobre essa amizade evidencia, a um só tempo, os aspectos íntimo e político (para usar uma conjunção que viria a se tornar tão importante para o feminismo) da história das mulheres de sua geração, de sua classe social e de sua origem religiosa. Assim, ela nos faz vivenciar a partir das personagens algumas das mais contundentes críticas presentes em O Segundo Sexo quanto à opressão patriarcal no interior da família burguesa católica. Beauvoir nos fala assim de classe, religião e família e como as mulheres de sua geração que escaparam a tudo isso ainda carregam em sua liberdade o peso das frustrações e sofrimentos de outras mulheres. 

Diz-se, com frequência, que escritoras e escritores contam muitas vezes a mesma história em uma tentativa de esgotar ou de encontrar a forma definitiva de questões que permanecem latentes e inenarráveis ao longo de sua vida. No caso de Simone de Beauvoir, a história de Zaza talvez seja uma dessas histórias nunca esgotadas. Afinal, ela retornou à história da amiga muitas vezes em seus escritos. Primeiro, no conto “Anne”, da antologia Quando o Espiritual Domina (escrita em 1937, mas só publicada em 1979). As Inseparáveis (1954) foi a segunda tentativa de contar essa história. Em O Segundo Sexo (1949), o destino de Zaza se misturou aos de tantas outras jovens nas páginas do segundo volume, dedicado à experiência vivida das mulheres de sua classe social e sua nacionalidade. Memórias de uma Moça Bem-Comportada (1958) foi o primeiro de seus livros a trazer a público, por completo, a história trágica de sua amiga. Mais tarde, ela fez outras considerações sobre a história em Balanço Final, último volume de suas memórias, publicado em 1972. Mas essa história, para Beauvoir, é mais do que a vida de uma amiga genial ou a jornada trágica de uma heroína. É a história da luta contra as opressões de gênero. 

 

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Texto: Heci Regina Candiani
Arte: Sofia Lungui
Jessica
Tradutora e apaixonada por pesquisar sobre temas obscuros, sejam telenovelas ou peças de teatro perdidas por aí. Gosta de passar o tempo revirando o Arquivo Nacional em busca de novas descobertas ou lendo sobre a Old Hollywood. Parece séria, mas adora ouvir Gretchen sozinha na sala.

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