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Guerra Sem Fim e o problema da ficção científica escrita por homens


Muitas pessoas escreveram sobre a guerra. Desde veteranos até escritores cuja imaginação corria livremente por fronts de batalha, a guerra foi retratada sob muitos ângulos, todos igualmente horríveis. Não há celebração de vitória que justifique uma guerra. A ganância e os poderes econômicos são o que mais têm levado nações a entrar em conflito desde os primórdios da humanidade. E, apesar de toda a pompa militar, não há honra em estar na guerra, não há honra em servir a seu país, não há honra em servir de carne para ser morta para proteger pessoas que decidiram coisas sobre as quais você não foi consultado. 

Aviso: este texto contém spoilers!

“Esta noite mostraremos oito maneiras de matar um homem de maneira furtiva.” É assim que Joe Haldeman, veterano do Vietnã, inicia seu primeiro e mais conhecido livro, Guerra Sem Fim, a partir das lembranças da guerra na qual lutou. O livro, que pode ser encarado como um manifesto pacifista, conta a história de um conflito travado entre a Terra e uma raça alienígena chamada de tauriana (por ser pertencente à Aldebaran, estrela da constelação de Touro). Não há muitas justificativas para explicar aos soldados por que eles estão ali: os taurianos são maus e nós precisamos nos defender — é tudo de que eles precisam saber. Através de lavagens cerebrais, drogas estimulantes que causam alucinações de combate, para que o ódio contra o inimigo seja construído, e uma linha de tempo semelhante à que ocorre em Interestelar, com lapsos e saltos para o futuro numa escala de centenas de anos, não há escapatória para os jovens que estão ali: é matar ou morrer matando.

Acompanhamos a inutilidade da guerra por meio dos olhos de William Mandella, um jovem soldado estadunidense que foi tirado de sua pacata vida como recém-formado professor de Física na década de 1990 para lutar. Mandella não possui o mínimo desejo de matar os inimigos dos terráqueos, tampouco se importa com sua própria vida ali. A princípio, ele e mais cem jovens haviam sido convocados para travar uma guerra espacial durante dois anos, quando seriam liberados para voltar à Terra, com honrarias e um salário acumulado que lhes deixaria ricos até o fim de suas vidas. Contudo, ele sabia que provavelmente não sairia dali vivo, já que era comum todos os dias limpar os restos mortais, derretidos no chão, de um de seus companheiros.

Conforme o tempo passa, os soldados vão diminuindo e Mandella é um dos poucos que restam da missão original. Os dois anos, embora longos, passam rapidamente entre batalhas inúteis e perdas dolorosas. Com autorização para voltarem à Terra, ele e sua parceira, Marygay Potter, retornam a seu planeta natal, com esperança de viverem uma vida normal. No entanto, normal está longe da realidade. Por conta dos saltos no tempo que a nave em que viajaram teve de fazer para conseguirem se deslocar no espaço na caça a taurianos, muitas décadas se passaram e agora o mundo definitivamente não é o mesmo que eles deixaram. Embora seus pais ainda estejam vivos, Mandella e Marygay se deparam com uma sociedade extremamente violenta, em que não há mais possibilidade de viver pacificamente, sequer de caminhar na rua, sem estar fortemente armado ou com um guarda-costas lhe protegendo.

Para além da violência extrema que tomou conta da organização mundial, todo o dinheiro que ganharam durante seus anos de combate já não vale quase nada. Em consequência da guerra, a alimentação começou a ficar escassa, a população aumentou e não havia mais como alimentar a todos. Portanto, as moedas de cada país foram extintas para dar lugar a uma única moeda: calorias. Com as calorias, que funcionam como vales-alimentícios, o mundo inteiro fala a língua da escassez e é necessário economizar muito para se conseguir sobreviver, já que é proibido cultivar alimento em uma horta própria e a maioria dos empregos desapareceu, em uma crise causada pelo número excessivo de pessoas no planeta e a erradicação de diversos trabalhos, que agora são realizados com tecnologia automática. Apesar de Mandella e Marygay desejarem desfrutar de um sossego, vivendo juntos e tranquilamente, isso lhes é negado e as únicas alternativas são permanecer na Terra, sobrevivendo em um mundo onde a violência é a única palavra e os alimentos estão escassos, ou voltar à guerra, recebendo uma promoção e mais riquezas.

Além da moeda única e da política de livre armamento populacional, uma das medidas que o governo tomou é o incentivo à homossexualidade. Com o crescimento desenfreado da população e a falta de recursos para alimentar a todos, se chegou a um consenso de que seria melhor se a heterossexualidade fosse considerada anormal e os relacionamentos homoafetivos se tornassem o padrão, assim não haveria mais nascimentos no mundo além dos que o governo determinasse, em laboratório. A homossexualidade, agora ensinada amplamente como o correto, tomou conta da sociedade, que não aceitava mais Mandella e Marygay como algo natural. Esse, além das mortes de seus já idosos pais, é um dos motivos que contribuem para que ambos aceitem voltar à guerra espacial.

Na nota do autor à edição brasileira, escrita especialmente para a editora Aleph, ele afirma que foi interrogado pela editora acerca da representação de pessoas homossexuais em Guerra Sem Fim e se essa poderia ser lida como preconceito. Apesar de se desculpar e dizer que desumanizou pessoas homoafetivas no livro, o autor se defende explicando que essa era sua visão na década de 1970, quando escreveu a história, e afirma que um livro tão pequeno (com menos de 70 mil palavras, como ele disse) não poderia dar mais profundidade ao assunto, pois se concentra mais na guerra e na política. Entretanto, sabemos que existem livros do mesmo tamanho ou até menores, como O Conto da Aia, por exemplo, com conteúdo político e distópico, que não soam preconceituosos e dão uma gama de tons às personalidades de seus personagens homoafetivos, não os colocando na caixinha de homens efeminados ou mulheres duronas. Para além da óbvia, porém impossível de não ser feita, comparação com a estrutura social imaginada por Haldeman e as fake news do “kit gay” e da “ditadura gayzista”, amplamente divulgadas durante as últimas eleições, o que se pode perceber é que o autor de fato foi homofóbico em sua história, e, em minha análise, tal homofobia só poderia ter vindo de um homem hétero, branco e militar, como é o perfil dos mesmos que forjaram as tão conhecidas mentiras que colocaram a extrema-direita no poder do país. É possível que o autor, de fato, não pense mais da maneira que pensava quando colocou o livro no mundo. Contudo, a história permanece inalterada e seu conteúdo, de uma homofobia nauseante, é impossível de ser ignorado, mesmo que o resto do livro seja bom e construa uma excelente crítica ao vazio existencial da guerra.

“Nos poucos momentos em que fiquei acordado após, finalmente, me deitar, o pensamento de que a próxima vez que eu fechasse os olhos pudesse ser a última veio à minha mente. E, em parte por conta da ressaca da droga, mas sobretudo por causa dos horrores do dia anterior, eu me dei conta de que não estava nem aí.” (p. 93)

O livro avança até o ano de 2458, quando Mandella, agora major, novamente entra em conflito contra os taurianos e descobre, por fim, que eles são uma espécie inteligente pacífica, que estava vivendo tranquilamente até a chegada dos seres humanos em seus territórios. Os taurianos não conheciam a guerra até então, e demorou séculos e um verdadeiro genocídio para que conseguissem se comunicar com os comandantes do planeta Terra para entrarem em acordo, sendo só então revelado que os motivos para aquela terrível guerra foram a ignorância humana e a ambição, pois um conflito de tamanha proporção ajudaria a indústria armamentista e daria uma espécie de ideologia aos terráqueos, que não viviam nada grande e conjuntamente desde os horrores do Vietnã.

Não é novidade alguma que as guerras são fomentadas pelo bem do crescimento da indústria armamentista e por ambição de homens cujo poder vem da miséria populacional. Nisso, Haldeman se sai bem, mostrando claramente as motivações perversas por trás de quaisquer guerras, sejam elas as que já conhecemos dos livros de História ou as da ficção científica, com armas a laser e contra alienígenas que supostamente seriam uma ameaça a nossa existência. Entretanto, apesar da descrição realista da crueza dos conflitos armados, não há como deixar de lado os pontos morais levantados pelo autor durante toda a leitura. Seja na Terra ou no espaço, a homofobia se faz presente, assim como uma forte misoginia, que chega ao ponto de não permitir que uma mulher chegue a um cargo elevado somente porque ela teve um comportamento mais emocional, propício a mulheres, de acordo com o livro.

É muito difícil ler ficção científica escrita por homens, especialmente os clássicos, justamente pela questão da representatividade de minorias e como elas são tratadas quando, em raras ocasiões, surgem nas histórias (também é preciso ressaltar que, embora grande parte da ficção científica escrita por homens seja tremendamente problemática, há novos autores que têm se destacado e usam de sensibilidade para construir seus personagens sem o uso de preconceito algum). O livro, de fato, é muito bom, a crítica à guerra é válida e atual, o vazio existencial vivido pelos soldados é tocante e podemos ver claramente o desespero de cada um ali que estava dando sua vida para nada. No entanto, não é possível ler uma obra dessas hoje em dia sem atentar para os aspectos preconceituosos da mesma, ainda mais porque a narrativa homofóbica não é apenas pontual, de um estranhamento a respeito da mudança pela qual a sociedade que Mandella conhecera havia passado durante as décadas em que ele esteve longe, pois isso, apesar de desconfortável, seria compreensível, já que ideias e concepções não mudam do dia para a noite e um estranhamento ao novo é normal. Mas mesmo após ter convivido durante um bom tempo na Terra com pessoas homoafetivas, inclusive sua mãe, Mandella ainda faz mal vistas de seus colegas homossexuais e lésbicas quando volta ao combate. Sendo ele o único hétero no grupo, se sente deixado de lado e não sabe como lidar com as mulheres, perguntando-se se agora deve tratá-las como se fossem um irmão, já que seu comportamento para com o sexo feminino, até então, havia sido puramente de interesse sexual; ou seja, a pobre jornada do homem hétero que se acha injustiçado pela existência de mulheres lésbicas, uma história ridícula e que já conhecemos, tratada com seriedade no livro.

Ao final da história, há um salto para um futuro onde a guerra acabou, e Mandella e seu grupo são os últimos combatentes a voltarem. Nesse futuro, em 3143, os seres humanos se disseminaram pelo espaço e raramente são héteros. Para os que ainda insistem na heterossexualidade, há um planeta onde podem viver suas vidas e terem filhos de forma natural, já que agora o controle populacional é feito através da clonagem de um modelo geneticamente perfeito de pessoa, construído para funcionar como uma mente única, uma sociedade harmonizada em um só pensamento de paz. Mandella, não aceitando direito essa chocante nova realidade, encontra uma carta de sua antiga parceira, Marygay, que chegara antes dele à nova Terra, lhe dando instruções para que ele viajasse no tempo e a encontrasse. Ele, então, literalmente volta no tempo para viver com ela, se tornando pai e conseguindo a paz que tanto desejou durante toda a narrativa. É um final bonito, apesar de utópico para um livro tão deprimente e sombrio. Contudo, não apaga todos os erros que o autor cometeu ao conceber uma distopia em que o personagem principal, homem hétero, sofre por viver em um mundo queer. 


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Texto: Mia Sodré
Arte: Sofia Lungui
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e leitora profissional, quando não está lendo, escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

Comentários

  1. Eu li esse livro na base do ódio. Achei bom que a editora perguntasse para o autor sobre seu posicionamento homofóbico no livro, mas o autor também não pensou em editar sua obra pra não soar tão ofensiva também.

    Toda vez que eu bato na tecla do racismo, misoginia e homofobia dos clássicos eu tomo pedrada. Alguns deles são chocantemente ofensivos e galera bate palma.

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