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Catarina, a Grande, e o ódio a mulheres em posições de poder

Trinta e quatros anos no poder e escândalos misóginos são o que envolvem a figura de Sophie Friederike Auguste von Anhalt-Zerbst-Dornburg, ou, como ficou mais conhecida, Catarina II, a Grande, uma das maiores monarcas que o mundo já viu. Ela era uma iluminista por natureza, tinha uma grande amizade com Voltaire e conquistou seu lugar como imperatriz da Rússia após dar um golpe em seu marido, um tsar com inclinações tirânicas incapaz de governar. Catarina foi uma dessas mulheres incríveis que constroem seu caminho pela força se preciso for, mas não é assim que ela é lembrada.

Catarina, a Grande & Potemkin é um livro enganoso. Tenho consciência que estas podem parecer palavras duras demais para um livro de um autor tão conceituado, mas elas têm um porquê. Entre suas mais de 800 páginas — cem delas apenas de referências —, o foco que o escritor e historiador Simon Sebag Montefiore confere é iluminar a figura de Gregóri Potemkin, o amante, amigo e provável marido secreto de Catarina, em detrimento dela mesma. 

Ao abrir o livro, a expectativa é a de conhecer a história da grande Catarina e de como seus feitos, de princesa estrangeira na Rússia do século XVIII a imperatriz soberana amada por seu povo, são marcantes e a distinguem na história de um país de dimensões continentais e reviravoltas com personagens que possuem seus próprios holofotes e são imediatamente associados à Rússia, como Ivan, o Terrível ou Anastasia Romanov e o mito criado em torno da jovem menina assassinada durante a Revolução Bolchevique. O nome de Potemkin não passa despercebido no título da biografia, mas nunca imaginei que ele seria a figura central da história; o romance que teve com a imperatriz é bastante conhecido, mas é claro que ela poderia viver sem ele — como viveu muito bem antes e depois, após o término do romance —, ao passo que ele não teria sido nada sem ela. Após cerca de duzentas páginas, no entanto, tudo que havia lido sobre Catarina até então eram os nomes de seus amantes, a forma como era voluptuosa e incorrigivelmente romântica, e descrições físicas que sempre a chamavam de feia, com feições masculinas e gorda como uma matrona; como se essas características fossem uma espécie de demérito. A obra de Montefiore é misógina, sendo um apanhado sobre a grandeza de Potemkin e como todos deveriam render-lhe as muitas glórias conquistadas por Catarina.

Aos 14 anos, Catarina foi levada de seu país de origem para a Rússia, prometida em casamento a Pedro III, herdeiro do trono. Pedro era um rapaz rude e cruel que a detestava e não possuía aptidão alguma para governar. Por alguns anos, enquanto a imperatriz Isabel da Rússia governava, ela tentou manter o casamento por seu próprio bem, mas era quase intolerável suportar os arroubos de grandeza de Pedro, que se sentia diminuído não somente por sua esposa, uma jovem e intelectual princesa alemã cujo prazer eram os livros de grandes filósofos, mas também por sua tia, a imperatriz, que o escolheu como sucessor por não ter filhos. Pedro nunca aceitou a ideia de que mulheres pudessem reinar por seu próprio direito, sem o comando de um homem, e se sentia emasculado pelo poder em mãos de mulheres, que tentava suprimir de todas as formas.

Catarina, a Grande quando ainda era a princesa Sophie Friederike Auguste von Anhalt-Zerbst-Dornburg

Aos 33 anos, após a morte da imperatriz Isabel e a ascensão de Pedro, Catarina temia por sua vida. Seu marido já havia deixado claro que se livraria dela, possivelmente através de um assassinato, e de seu filho, já que não acreditava ser pai do menino. Ninguém, da corte ou da população, gostava de Pedro, mas todos amavam Catarina e conspiraram ativamente para que ela tomasse o poder no lugar do marido. Seis meses após a coroação, ela de fato ascendeu como imperatriz, destronando Pedro e dando o golpe tão desejado por todos que a cercavam. É claro que ela teve ajuda de homens da corte e do exército para conseguir alcançar o governo, mas Montefiore descreve esse momento como responsabilidade de seu amante da época, Conde Orlov, como se Catarina não tivesse força ou capacidade de conseguir nada sem a ajuda de um de seus amantes, e essa é a ideia que permeia toda a biografia.

Potemkin bem teve suas contribuições e foi um homem de muitos feitos militares, admirado por diversas pessoas por seu espírito vivo e por ser a alma da festa. Mas foi através de Catarina que conseguiu a ascensão política e social. Sua ambição começou a ser saciada quando ele ajudou no golpe orquestrado por ela, e só foi completamente satisfeita quando se tornou, anos mais tarde, amante oficial da imperatriz, sendo uma das pessoas mais importantes da Rússia e com poder real para fazer e desfazer o que bem entendesse.

Por mais que a personalidade de Potemkin fosse estrondosa e ele mesmo fosse um pavão humano, é um grande exagero de Montefiore, ao escrever a história de amor entre os dois, colocá-lo como centro, fazendo parecer que Catarina era governada por ele, quando, na verdade, as mesmas cartas que ele analisou para seu livro sugerem o contrário. Sem Catarina, Potemkin não era nada, e ele tinha plena consciência disso. Acontece que Catarina era uma mulher romântica, que gostava genuinamente das pessoas e amava estar em relacionamentos. Infelizmente, tanto na sociedade do século XVIII quanto hoje, isso pode ser visto como fraqueza, mas é apenas mais um aspecto da personalidade de uma mulher que lutou muito não apenas para chegar ao poder, mas para mantê-lo e manter a si e a seus filhos seguros.

Não consigo pensar em uma pessoa sequer que não possua um passado romântico repleto de erros e aventuras. Até o mais conservador tem suas histórias para contar, e é normal que tais relatos virem notícia quando se é uma personalidade famosa. Mas a forma como a vida amorosa de Catarina é tratada é algo que vai muito além disso. Todos os tsares, inclusive o santo Nicolau II, tiveram amantes e casos bem conhecidos pela população. Contudo, isso nunca afetou a moral desses grandes homens. Pelo contrário: quanto maior o número de conquistas, maior a reputação e respeito prestado a eles. Já Catarina, por ser uma mulher bem resolvida com sua sexualidade e ter tido diversos amantes ao longo da vida, foi alvo de piadas horríveis na época e ainda hoje é lembrada não por seus feitos políticos, que foram muitos, mas pelo número de homens que passaram por sua cama.

Ser mulher nunca foi fácil e sabemos bem disso. Ser uma mulher numa posição de poder é ainda pior, pois todos os olhos estão constantemente voltados para sua vida, procurando por uma falha, uma coisa banal sequer que tenha potencial para ser transformada em um escândalo e que arruíne uma reputação. Muitos, mesmo atualmente, acreditam na mentira inventada na época de Catarina que afirmava que ela, não satisfeita com os homens de sua vida, tomou por amante um cavalo, praticando zoofilia. Não preciso nem dizer o quão desonesta e misógina é essa afirmação, mas ela nos permite perceber o quanto ainda se ridiculariza mulheres que ousam ser mais do que coadjuvantes de suas próprias vidas. Ela cometeu seus erros e muitas vezes outorgou poder a homens que claramente não possuíam capacidade para exercê-lo, mas nunca se deixou levar por seus sentimentos de forma a comprometer o governo. Pensar isso conhecendo sua trajetória é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. 

Catarina, a Grande já como imperatriz da Rússia

É Catarina, com suas próprias ideias iluministas, que tenta criar um novo código de leis para o país, possibilitando liberdade aos servos e uma vida melhor para toda a população. Apesar das reuniões feitas, o projeto não saiu do papel por culpa da Igreja e da nobreza que jamais permitiram a melhoria de vida de seus servos ou mesmo a abolição do sistema de servidão, que sustentava o estilo dessa classe improdutiva e incapaz, que ruiu na Revolução de 1917. Contudo, tal abertura para discussão e real tentativa de mudança foi algo muito progressista para a época e que só aconteceria novamente em 1905 — obviamente falhando, o que culminou na Revolução Russa. No entanto, isso apenas mostra o quão desonesto foi implicar que suas atitudes e conquistas políticas se devem aos homens que ela levava para a cama. Apesar da estima prestada e do possível amor que sentia por seus amantes, Catarina sabia muito bem separar as coisas e, no final do dia, continuava a ser a soberana e nenhum homem lhe tiraria isso.

Montefiore, porém, tem a audácia de dizer que Catarina “tinha uma vida privada, coisa que nenhuma das líderes de hoje têm. Veja [a primeira-ministra britânica] Theresa May ou [a chanceler alemã] Angela Merkel, elas têm uma vida privada quase sem cor”. Me pergunto o que faz esse homem ter a certeza de que sabe sobre a vida privada dessas mulheres com tanta propriedade. É verdade que cada vez mais as atitudes de governantes e pessoas públicas se tornam escândalos em questão de segundos nas redes sociais, mas é simplesmente prepotência machista crer que a vida dessas mulheres não têm cor só porque elas são discretas. Mulheres sempre foram julgadas, seja por seus excessos ou pela falta deles, e isso não é novidade. Mas não podemos permitir que a palavra final a respeito de suas vidas seja dita por um homem de ego inflado.

A misoginia envolvendo a figura de Catarina é tão grande que não parou nem após sua morte. Além de críticos e historiadores que atribuem suas conquistas a seus amantes, seu próprio filho, Paulo I, ao assumir o trono, decidiu que sua primeira ação como tsar seria instituir as Leis Paulinas, que modificaram as regras de ascensão de tsares, excluindo completamente mulheres da linha de sucessão. Tamanho era o ódio a sua mãe e às mulheres que, mesmo no governo, Paulo não podia admitir que a Rússia tivesse novamente uma mulher no poder. Os tempos mudam, mas o ódio permanece intacto entre as gerações.

Entre os feitos de Catarina se encontram a expansão da Rússia, a construção de cidades, a defesa do estado laico e a retirada de religiosos do centro do poder. Mas isso não parece o suficiente para Montefiore e outros que escreveram sobre ela, resumindo toda uma trajetória política de mais de trinta anos — sendo ela a mulher que mais tempo governou as terras russas — em fofocas sobre sua vida sexual.



Para saber mais: 
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e leitora profissional, quando não está lendo, escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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