Sombras e Fadas: a cultura do estupro nas fábulas remodeladas

Sombras e Fadas é um livro publicado pelo escritor brasileiro Tiago Cordeiro, através da Drops Editora, em que algumas fábulas clássicas são reimaginadas e, dessa forma, reescritas sob a ótica de seu autor. Entre as histórias recontadas estão João e Maria, A Pequena Sereia, Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Feijão, entre outras, todas com seus títulos remodelados para que exista uma conversa entre os personagens e a adaptação de suas histórias — adaptação esta que, em algumas das fábulas, vestiu uma roupagem já muito conhecida por nós em algumas narrativas ficcionais: o uso da cultura do estupro como um meio de alteração chocante do enredo. 

Por ora, pode argumentar-se que as narrativas se passam em momentos muito diferentes dos atuais, em que a organização da sociedade e o poder do mais forte eram estruturados de forma a tornar frequente o ato do estupro. No entanto, mesmo quando se adapta um enredo para lá de centenário, tendo-se o conhecimento que se têm hoje em dia e as mil outras formas de se contar uma história, faz-se sim possível repensar a real necessidade de incluir o acontecimento em ficções como forma de demonstrar uma vida miserável para os personagens criados por outras pessoas. Entre tantos tipos de sofrimento humano, porque a violência contra a mulher é sempre a mais utilizada? 

Essa indagação faz-se ainda mais forte quando se nota que não são todas as fábulas (ainda bem?) em que a personagem sofre com tal ato violento. No caso de João e Maria, por exemplo, o passado tenebroso é originado da negligência paterna após a morte da mãe, e o ato que possui a função de chocar o leitor é a morte da bruxa da floresta em uma ação de cooperação protetiva entre os irmãos. Para A Pequena Sereia, continua sendo a "punição" de escolher entre o seu amor humano e sua vida no mar. Porém, quando o sofrimento é relacionado à ideia de fragilidade feminina, como são os casos de Chapeuzinho Vermelho e A Branca de Neve, o autor sentiu que era necessário inserir a violência sexual, um destes contos se iniciando até mesmo com a frase horrenda que reforça ainda mais o absurdo da coisa, "Ajoelhou tem que rezar".

De acordo com Andrea Almeida Campos, em seu artigo A Cultura do Estupro Como Método Perverso de Controle nas Sociedades Patriarcais, "[...] o problema nos assoma na medida em que essa perversão, no que diz respeito à prática do estupro, é legitimada pelos modelos sociais construídos e impostos pelos processos civilizatórios que têm como marco o início da história. É a legitimação de uma prática perversa através de sua normalização que inaugura, então, a sua “cultura”." , e de fato, é notória a naturalidade com que se insere tal cultura nas ficções atuais, onde não se tem o propósito de destrinchar o problema, apenas de reforçá-lo. No mesmo estudo, Andrea prossegue: "Quanto à culpa pela prática do estupro, fosse contra mulheres ou contra os homens mais frágeis, esta, mesmo na prática desse crime macabro, historicamente, revelou-se, inclusive, inexistente. Pelo contrário. Não apenas a prática seria um “direito” dos homens sobre as mulheres de sua propriedade: esposas, irmãs, sobrinhas e filhas, como poderia se configurar como um troféu, uma conquista, uma expressão de exercício e de consolidação de poder quando as vítimas não pertencessem às suas famílias, às suas cidades, aos seus países." Em Sombras e Fadas, as duas fabulações em questão baseiam-se justamente nessa ideia de propriedade e de mulheres que de alguma forma não pertencem a própria narrativa. Como já dito anteriormente por Sybylla, do blog Momentum Saga, em seu texto "Estupro na ficção e os escritores preguiçosos", a problemática é que a grande maioria dos autores que inserem a violência sexual em suas ficções não o fazem como maneira de retratar a vida da vítima e as consequências do ocorrido para esta, mas sim como um desenvolvimento de enredo, despersonificando ainda mais a vítima por eles criada, e que em ambos os casos da obra aqui discutida, eram ainda tidas como protagonistas. Fica então a dúvida: para que existe essa personagem em sua história, se afinal de contas, o desenvolvimento de seu próprio arco é não desenvolvê-la?


O presente livro foi cedido pela Drops Editora.

Referências


Texto e imagem de destaque: Tati Ferrari

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