O Rio moderno dos anos 20: às custas de quê? E de quem?


Os roaring 20s, ou loucos anos 20, foram uma época de muita euforia em todo o mundo. No entanto, às vezes eu tenho a impressão de que sabemos mais sobre esse movimento fora do Brasil do que dentro dele. O que aconteceu no Brasil neste período? Quem eram as figuras de peso que marcaram essa época? Perguntas cujas respostas nos ajudam a esboçar um panorama daqueles tempos.

Nosso recorte se delimitará ao Rio de Janeiro, a então capital do país. No fim de 2019, Ruy Castro lançou Metrópole à Beira-Mar: o Rio Moderno dos Anos 20, talvez sem imaginar que hoje estaríamos vivendo uma pandemia e que muito daquela atmosfera de medo e morte, causada pela gripe espanhola, voltaria a nos assombrar. 

Tive a oportunidade de ler esse livro durante uma viagem para o Rio de Janeiro, o que foi incrível porque eu passeava pelos lugares dos quais o livro falava. Visitei, por exemplo, as ruínas da antiga mansão de Laurita Santos Lobo, em Santa Teresa, a rainha dos salões cariocas. No entanto, Ruy não deixa algo claro neste livro: afinal, a modernidade chegou às custas de quê? E de quem?

Para entender o Rio de ontem e de hoje, é preciso se fazer a pergunta do parágrafo anterior. Afinal, a modernidade trazida pelos endinheirados, como Álvaro e Eugênia Moreyra, deu-se ao bota-abaixo das classes menos favorecidas. Hoje vamos passear por um Rio de Janeiro que mais parecia Paris do que qualquer outra coisa.

O Rio Moderno: às custas de quê? E de quem?

Antes de entrarmos propriamente nos anos 20, é conveniente fazer uma espécie de flashback do período que antecedeu essa época no país. Tudo começou em 1889, quando o Brasil tornou-se uma república por meio de um golpe.

A República trouxe transformações sociais e políticas muito profundas que acabaram dando origem ao que veríamos mais tarde nos anos 20 no Rio de Janeiro. O livro Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi enumera algumas dessas mudanças. Uma delas diz respeito à abolição da escravização. Com a mão-de-obra livre no mercado, muitos ex-escravizados foram jogados aos subempregos, ou seja, em ocupações mal remuneradas. No início da República, mais da metade da população vivia de subempregos ou na informalidade. Gatunos, bicheiros, carroceiros, todos eles sofriam com as condições precárias de trabalho.

Outra questão importante diz respeito ao agravamento dos problemas de saneamento e de habitação. Os problemas dos cariocas com o abastecimento d' água não eram de hoje. Por conta disso, o Rio teve que lidar com epidemias de varíola e febre amarela em 1891 e 1896. Havia até mesmo uma cláusula de insalubridade no contrato de trabalho dos diplomatas ingleses que representavam a Rainha Vitória, porque o Rio de Janeiro era conhecido como o "cemitério dos turistas" naquela época.

Como o Rio de Janeiro queria se modernizar e parecer com Paris, logo começaram as primeiras reformas urbanas na cidade. Assim como o Barão de Haussmann havia remodelado Paris, o Brasil queria criar sua própria Europa, ainda que as desigualdades sociais fossem tão abissais quanto hoje. 

O Rio de Janeiro teve uma seara de prefeitos engenheiros, mas um deles se destaca: Pereira Passos. Isso porque ele foi o responsável pelo bota-abaixo, ou seja, uma série de reformas urbanas violentas na cidade, com o intuito de higienizar a cidade. Pereira Passos estudara em Paris e acompanhou de perto as obras de Georges Haussmann para criar uma cidade "civilizada". Civilizada aqui quer dizer livre de todos os indesejáveis da sociedade: pessoas pobres, negras e indígenas.

Não é à toa que o lema da República, e que consta em nossa bandeira até hoje, é: "Ordem e Progresso". Um progresso que viria com um bota-abaixo e o embranquecimento da população. É nesse momento que começam a vir os primeiros imigrantes portugueses e italianos para o Brasil. As teorias eugenistas estão a todo vapor.

Quando o governo de Pereira Passos começou, em dezembro de 1902, ele implementou medidas para tentar impor um pouco de "civilidade" à cidade. Por exemplo, não se podia mais circular sem camisa, vender leite na rua e bilhetes lotéricos nas ruas, praças e bondes. Vale observar que essa civilidade sempre vem atrelada a um controle dos corpos. De quem? Vocês já devem saber a resposta.

Uma das obras mais lembradas de Pereira Passos, mas que na verdade foi feita com recursos do governo federal, foi a abertura da Avenida Rio Branco. Saía a Rua do Ouvidor, artéria do Império, e entrava uma avenida de proporções monumentais que rasga a cidade de mar a mar. A Rio Branco terminava na Praça Floriano Peixoto — a futura Cinelândia. É interessante observar o que foi construído ao redor dela: o Teatro Municipal, a Escola de Belas Artes. Tratam-se de construções que visam preservar um Rio de Janeiro branco, europeu, que usava colarinhos sufocantes em um calor de 40 graus.

Quando a cidade entrou nos anos 20, suas avenidas já lembravam muito Paris. O Palace Hotel, de Octavio Guinle e do barão de Saavedra, era o ponto de encontro mais disputado da cidade. De obra de dois arquitetos italianos, os irmãos Jannuzzi, ele também era mais um símbolo daquela cidade que queria ser o cartão-postal do Brasil. 

Também começavam a mudar os costumes. Homens aposentavam os fraques e se apresentavam com paletós curtos. Já as mulheres abandonaram os espartilhos e os vestidos subiram mais um pouco, nas canelas. Os mais velhos se chocavam ao ver jovens flertando como se não houvesse amanhã nas ruas.

Antes de adentrar de fato na modernidade, ou seja, ingressar nos anos 1920, o Brasil enfrentou a pandemia de gripe espanhola. É importante mencionar isso, não só porque estamos vivendo uma pandemia agora, mas porque o Carnaval após a gripe foi um dos maiores que o Rio de Janeiro presenciou.

De acordo com Ruy Castro, a gripe chegou no dia 16 de setembro de 1918, "quando atracou no porto o correio britânico Demerara, vindo de Lisboa, mas com uma escala fatal em Dakar". Os marujos desceram, beijaram mulheres e as contaminaram. A doença era fatal: em questão de dias, o enfermo passava mal, caía doente e agonizava. Começava com uma dor de cabeça aguda e evoluía para calafrios. O suspiro final era quando o enfermo ficava roxo por causa da cianose.

A população carioca demorou a entender a gravidade da doença. Assim, ela foi se espalhando pela cidade e atingiu todas as classes sociais. Carolina Nabuco nos conta em  sua autobiografia Oito Décadas que faltava o básico: leite, pão e carne. Em um único dia morreram 1.100 pessoas. Ela viu táxis transportando caixões feitos às pressas. Quando faltou madeira para os caixões, as pessoas passaram a largar os corpos na rua.

Por isso mesmo, quando a gripe espanhola foi embora, o Rio viveu seu maior Carnaval. Quem sobreviveu não podia perder. No Correio da Manhã, no dia 20 de janeiro de 1919, lá estavam os seguintes versos assinados por Pierrot:

Quem não morreu na Espanha
Quem dela pôde escapar
Não dê mais tratos à bola
Toca a rir, toca a brincar
Vai ao prazer aos confins
Remexe-se a terra inteira
Ao som vivaz dos clarins
Ao ronco do Zé Pereira
Naquele 1919, para comemorar o triunfo da vida, as moças desfilaram com seus grupos, de carro, pela Avenida Rio Branco. Essa tradição é, inclusive, retratada em A Sucessora, novela de Manoel Carlos e inspirada no romance homônimo de Carolina Nabuco. De vez em quando, as moças começavam a flertar, e aí era aquele corre: elas manobravam o carro para encostá-lo ao lado da paquera.

Além do carnaval de rua, os clubes também ferveram — como o High Life, na Glória, com seu concurso de fantasias e um baile que durou quatro dias. Os cariocas comemoraram cantando muitas marchinhas com o tema da gripe ("A Espanhola está aí/ A coisa não está brincadeira/ Quem tiver medo de morrer/ Não venha mais à Penha") e usando muito lança-perfume nas axilas e no pescoço.

Assim começavam os loucos anos 20 do Rio de Janeiro.


Texto: Jessica Bandeira 
Imagem de destaque: Sofia Lungui 

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