Vitorianas Macabras: o terror escrito por mulheres


Vitorianas Macabras é uma coletânea de contos de terror escritos por autoras da era vitoriana, organizados por Marcia Heloisa e publicados pela Macabra, selo da DarkSide Books. Foram treze os contos selecionados e, desses, apenas três são de autoras que já haviam sido traduzidas no Brasil. Além de ser uma obra interessante para quem se gosta do gênero, o livro também é um resgate de mulheres que acabaram sendo deixadas de lado no mundo literário. 

Em Monster, She Wrote: The Women Who Pioneered Horror & Speculative Fiction, livro de não-ficção sobre as mulheres que estiveram à frente do terror literário em suas diversas formas, escrito por Lisa Kröger e Melanie R. Anderson, a cada início de capítulo há um pequeno artigo que contextualiza a temática e fala um pouco sobre como aquelas autoras - algumas conhecidas em sua época - acabaram no ostracismo. O tempo apaga a todos, mas homens costumam ser lembrados por eras. 

O tempo também distorce as coisas. É comum que mulheres de outros séculos sejam vistas como submissas, passivas, damas que se importavam com chás, decorações e a educação dos filhos. Claro, essa é uma ideia errônea. Mulheres são pessoas complexas e suas vidas não eram de contemplação e beleza, com somente grandes desventuras românticas, como o diz a ideia geral que se tem sobre aquelas de séculos passados. Muitas trabalhavam arduamente, sustentavam a família, até mesmo seus maridos, filhos e agregados. E muitas eram escritoras publicadas em revistas literárias, como a Weird Tales, ou em publicações de editoras em formatos mais clássicos. 

Várias autoras presentes na coletânea Vitorianas Macabras ganhavam a vida trabalhando com literatura. Romancistas, ensaístas, contistas... elas faziam de tudo. Quanto mais olho para o passado, mais me surpreendo ao encontrar mulheres que foram além das restrições de seu tempo e criaram obras incríveis. Felizmente, existe um movimento de resgate dos trabalhos de mulheres. Algumas editoras têm se empenhado nisso e fico feliz por ter tido acesso aos contos de treze escritoras maravilhosas, muitas as quais eu não conhecia. 

Milan Kundera diz em A Imortalidade que o homem sentimental é aquele que valoriza o sentimento - não necessariamente aquele que o sente, pois todos temos emoções. Mas é, segundo ele, a valorização desse aspecto que nos define como isso ou aquilo. Da mesma forma, quando se fala na época vitoriana, não se está apenas falando sobre o período em que a Rainha Vitória reinou, mas também de toda uma estética de valorização da morte, com etiquetas muito especificas para o luto, vestimentas diferentes para cada grau de parentesco, rituais que envolviam espelhos, maçanetas, laços e abelhas; funerais elaborados, camafeus com mechas de cabelo... Tudo isso fazia parte do processo de luto vitoriano. 

Não é à toa, portanto, que muitas histórias daquela era envolvam o terror que vem da constante lembrança de um ente querido, seja em forma de nostalgia ou, como geralmente utilizada, como remorso ou um modo de refugiar-se no passado. 

A maior parte dos contos presentes em Vitorianas Macabras envolve tais narrativas. Os personagens são assombrados por seus próprios temores, memórias e amores, mais do que por espíritos de fato - ainda que eles certamente existam nos contos. As casas cumprem função de túmulo, às vezes metafórico, mas por vezes literal. É nesse espaço, que deveria ser seguro e acolhedor, onde seus maiores temores acontecem. 

É esse o caso de "A Prece", conto de Violet Hunt que nos mostra uma mulher presa a uma situação indizível. Ou "O Conto da Velha Ama", de Elizabeth Gaskell, onde todas as mulheres presentes na casa são atormentadas por uma lembrança devastadora. 

Ainda que mais de um século tenha se passado desde a publicação de muitos daqueles contos, não é difícil adentrar na atmosfera de medo e opressão que os cercam. Não vivemos mais em uma sociedade que valoriza a morte, mas o assombro com o passado ou a percepção de que não se pode fugir do que há em sua própria casa continuam sendo tão aterrorizantes quando naquela época. O medo, afinal de contas, é imortal. 

Se pensarmos em mérito, todas os contos mereciam ser citados separadamente, mas como são mais de dez presentes na antologia, comento aqui sobre alguns deles. 

O Mistério do Elevador, de Louisa Baldwin

Um ascensorista de elevador de um hotel de luxo, em 1895, depara-se com um evento sobrenatural quando um dos hóspedes, um coronel importante, não aparece, como faz rotineiramente, para subir ao seu quarto. É um conto de assombro no melhor estilo. 

Mortos em Mármore, de Edith Nesbit

Conto absolutamente perfeito que mistura religião, história, folclore e horror. Um jovem casal não habita uma casa assombrada, mas sim uma memória. O gótico se faz presente pela inquietação e a dúvida psicológica. Fica a cargo do leitor notar o sobrenatural na história do vilarejo onde residem. 

Napoleão e o Espectro, de Charlotte Brontë

Charlotte era tão apaixonada pela história de Napoleão Bonaparte que escreveu um conto com o imperador como protagonista. No site, já falamos sobre ele

Deixo, também, uma lista com meus contos preferidos, por ordem de agrado: 

  1. O Conto da Velha Ama, de Elizabeth Gaskell
  2. O Coche Fantasma, de Amelia B. Edward
  3. A Maldição da Morta, de H. D. Everett
  4. Mortos em Mármore, de Edith Nesbit
  5. O Mistério do Elevador, de Louisa Baldwin
  6. A Prece, de Violet Hunt
  7. A Sombra da Morte, de Mary Elizabeth Braddon 


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Texto e imagem de destaque: Mia Sodré

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