Edgar Allan Poe: o homem atormentado pelo corvo


Edgar Allan Poe nasceu em 1809, filho de um casal de atores itinerantes, na cidade norte-americana de Boston, em Massachusetts. Ainda muito cedo, por volta dos três anos de idade, lidou com a perda e o luto, por meio, primeiro, do falecimento do pai, e dois anos depois, da mãe, que deixou a ele e seus dois irmãos, Rosália e William. As três crianças órfãs, então, ficaram aos cuidados da companhia de teatro em que seus pais trabalhavam. 

Como se a desgraça não fosse pouca, um tempo depois, o prédio em que a companhia funcionava e que, consequentemente, era a casa dos irmãos, foi totalmente destruído em um incêndio. Tal tragédia separou-os ao serem enviados para diferentes casas de família adotivas, na qual Edgar ganhou o sobrenome que o levaria à história da literatura. A partir daí, as atribulações na vida daquele que se tornaria um grande escritor parecem, por um curto período, dar uma trégua. 

Em 1826, com 17 anos, Poe se matrículou na Universidade de Virgínia, onde estudou, durante um ano, diferentes línguas. As festanças universitárias da época, no entanto, soavam mais atraentes ao seu espírito jovem, levando-o a endividar-se com jogos de apostas e azar, e o pai adotivo, contrariado com a irresponsabilidade, cortou seus gastos com o universitário, o expulsando de sua casa mais tarde.

Retornando para Boston, Poe, mais do que nunca, com o controle sobre sua própria narrativa, organizou seu primeiro livro de poemas para publicação: Tamerlão e outros poemas. Se as esperanças eram ter reconhecimento pela primeira vez, o desejo infelizmente não foi atendido. Edgar, então, seguiu para a carreira militar no exército. Sua saída posterior da carreira e a falta de dinheiro o levaram de volta para suas tentativas de publicação literária em revistas e jornais da época, como o The Saturday Visiter, no qual ganhou um concurso com seu conto fantástico de terror "Manuscrito Encontrado Numa Garrafa" — cujo inicio, com a frase "Da minha pátria e minha família não tenho grande coisa a dizer. Seu mal proceder e a acumulação dos anos tornaram-me estranho a uma e a outra.", parece quase descrever a história familiar de seu autor —, que o fez ser publicado semanalmente. Sua coluna rotineira no jornal o levou a outras publicações e contatos com editores, mas a depressão e suas consequentes tentativas de suicídio não tornaram o momento muito comemorativo. 

Em 1836 casou-se com sua prima, Virginia, de apenas 13 anos. Mudou-se para Nova York, onde seguiu com suas publicações. Foi nessa nova cidade, no jornal Evening Mirror, que um de seus poemas mais reconhecidos, "O Corvo", traduzido no Brasil por Machado de Assis e Fernando Pessoa, foi publicado anonimamente, narrando a visita inesperada da ave, que transforma uma noite tranquila em inquietante. Daí em diante, o que poderia ser uma carreira de sucesso ainda em vida passa a ter suas primeiras linhas traçadas. 

"Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”."

Com a depressão econômica em ápice no ano de 1843, iniciou-se, também, o movimento dos refugiados da escravidão nos Estados Unidos, que motivou Poe a escrever e publicar "O Escaravelho de Ouro", conto que ambienta a relação entre um ex-escravo, Júpiter, e o personagem principal, William Legrand, que surpreendentemente encontra um escaravelho misterioso em sua propriedade. O sucesso da publicação a levou ao teatro no mesmo ano. 

Se as chances literárias de Poe estavam crescendo, a morte de Virginia foi, para ele, o inicio do fim. Seu vício pela bebida alcóolica ganhou nova força durante o luto, e enquanto se envolvia com grandes nomes do meio literário, foi consumido pelo alcoolismo, pelo vicio em láudano (mistura de vinho branco, açafrão, cravo, canela e ópio), e por alucinações. Em 1849, pouco antes de seu falecimento, foi encontrado embriagado e caído em uma rua. Faleceu dias após o evento, em meio a delírios. 

Se por um lado é inegável a grandiosidade e o talento de Edgar Allan Poe como autor de contos e poemas, capaz até mesmo de criticar de forma inteligente a natureza humana e seus egoísmos de maneira atemporal, como no caso do conto A Máscara da Morte Rubra, que se fez tão atual em 2020, por outro, é triste perceber como as circunstâncias a que foi submetido em vida tornaram-no, para além da aptidão com a escrita, tão realisticamente atormentado por um corvo falante. 


Referências




Texto e imagem de destaque: Tati Ferrari

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