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Catherine Morland: a improvável detetive de Jane Austen

Dentre as muitas características do período vitoriano (1837-1901), o medo social de perigos ocultos ou a fobia de um mal invisível que poderia circundar a vida comum foi um dos pontos mais contundentes da rotina da classe média e alta. Esse medo, originado principalmente nos preconceitos ao desconhecido, a imigrantes e aos estrangeiros fez com que parte da população visse com olhos ansiosos o surgimento das forças policiais organizadas e de seu representante mais evidente: o detetive. Da realidade para a ficção foi um pulo e, a partir de 1850, a literatura inglesa se viu cada vez mais recheada de figuras (amadoras ou não) que usavam o poder da observação e a distinção de intelecto para desvendar crimes.

Mas apesar de haver uma quantidade de fontes consideráveis que possibilitam rastrear o surgimento do detetive masculino nas páginas, a busca por detetives mulheres é mais sombria e o ponto de origem destas está envolto no mistério do “anônimo”, do “pouco conhecido” e do “desconhecido de outra forma” (Veisz). Isso não quer dizer que não existam na literatura pré-vitoriana algumas tentativas de detecção de crimes feitas por mulheres, mesmo que de forma mais leve e centradas, muitas vezes, na esfera íntima ou doméstica, espaços em que as personagens circulavam com mais facilidade. Algumas características básicas da ficção policial (o crime ou a suspeita de um, a busca por evidências ou motivações dos suspeitos e o confronto final com a verdade) já apareciam em romances como A Abadia de Northanger de Jane Austen. Para Susan Zlotnick, por exemplo, a protagonista deste romance, Catherine Morland, pode ser identificada como uma “Nancy Drew do século XVIII” ao tentar agir heroicamente e provar que um crime havia sido cometido dentro de uma abadia antiga e misteriosa. 

Publicado postumamente em 1818, A abadia de Northanger havia sido originalmente esboçado na década de 1790, momento em que a literatura gótica estava em seu ápice após o lançamento de Os mistérios de Udolpho de Ann Radcliffe. Na trama, Austen se apropria da linguagem e das convenções do gênero para criar uma paródia elogiosa e divertida que dá voz a uma protagonista que sonha em passar por uma aventura de heroína gótica em masmorras assombradas, mas que acaba se deparando com a vilania ainda mais cruel no mundo real. No livro, a jovem Catherine Morland de 17 anos visita Bath com as Allen, amigos da família, e é lá que sua aventura começa ao conhecer os Thorpe e os Tilney, por quem vai nutrir uma amizade. Num jogo de aparências e verdades, característico de Austen, ela vai descobrir aos poucos as verdadeiras intenções de cada um dos envolvidos e sua afeição pelo jovem Henry Tilney se torna mais evidente. É por causa dessa amizade que ela é convidada a passar um tempo na Abadia de Northanger, propriedade da família dele, uma ideia que lhe é duplamente excitante, pois une a visita a uma residência antiga e misteriosa e a companhia de Henry e sua irmã Eleanor.

“Suas paixões por edifícios só era menos intensa do que sua paixão por Henry Tilney – e os castelos e abadias costumavam configurar o fascínio dos devaneios que não fossem dominados pela imagem dele.”

(A Abadia de Northanger)

Jane Austen

No entanto, contrariando as divagações românticas de Catherine, quando chega lá ela descobre que pouco restou do edifício monástico do tempo da Reforma devido às intensas e constantes redecorações encabeçadas pelo pai de Henry, o Capitão Tilney. Ao invés de uma abadia desconfortável, fria e decadente com claustros assombrosos cheios de correntes enferrujadas, o que ela encontra em pé é uma residência confortável e, em muitas partes, moderna e banal. Mas a imaginação criativa de Catherine não se dá por vencida e logo um baú antigo e depois um rolo de papéis embolados estão entre as coisas a que ela tenta imbuir um significado sombrio por alguns capítulos da trama. E é essa sua fome por livros góticos e heroínas corajosas que se deparam com segredos obscuros que acaba por originar uma das características mais interessantes da narrativa: a veia detetivesca obstinada da nossa protagonista.

“os romances góticos ensinam Catherine sobre desconfiança e ocultação, sobre segredos cruéis escondidos sob superfícies formidáveis e imponentes.”

(Claudia Johnson)

É no capítulo 22 que Catherine Morland encontra pela primeira vez o objeto de sua fixação e investigação obstinada: a sra. Tilney. Mãe de Henry e Eleanor, ela é introduzida brevemente pela filha em tom melancólico e saudoso quando esta fala de sua morte abrupta anos antes. Catherine, imbuída de fantasias sobre mulheres presas em cativeiros ou assassinadas por vilões, logo tem sua imaginação incitada e passa a supor que uma morte tão rápida não haveria de ser natural: seria a sra. Tilney vítima de uma trama maquiavélica? Claro que sim! Em questão de segundos, Catherine levanta a hipótese de que o general Tilney é um assassino de esposas tal qual o personagem de seu livro favorito, Os mistérios de Udolpho, e, a partir daí, ela vai se esforçar para encontrar as provas que justifiquem sua teoria.

“Ela estava convencida de que a sra. Tilney tivera um casamento infeliz. O general certamente havia sido um marido insensível. Ele não amava o passeio favorito da esposa: podia ter amado ela, então? E além disso, mesmo que fosse um homem bonito, alguma coisa em suas feições denunciava que ele não a tratara bem.”

(A Abadia de Northanger)

Para Catherine, o retrato da sra. Tilney estar no quarto da filha e não no do marido é prova de seu desprezo pela esposa morta. O caráter brusco e súbito da doença significaria um assassinato planejado após anos de abusos. A negativa do general de permitir a entrada nos aposentos da falecida denotaria sua tentativa de acobertar o que fizera lá dentro. O fato de o quarto da sra. Tilney ficar na ala onde, presumidamente, no passado eram as celas do convento, deu ao general livre passagem para concluir seu plano. E ela vai além... e se ao invés de morta a sra. Tilney está na verdade presa nas masmorras? É sua missão descobrir e libertar a prisioneira!

As evidências do crime (e o próprio crime), é claro, aos nossos olhos de leitores externos se mostram um pouco melindrosas, mas há algo de divertido, sem falar em muito cativante, na investigação encabeçada pela nossa honrosa heroína ao tentar fazer justiça a uma mulher que ela acredita ser vítima de violência e ocultação criminosa. Sem falar que, ao incorporar a detetive amadora, mesmo que incitada por ideias mais fantasiosas do que prováveis, Catherine traz à tona um aspecto real da vida de muitas mulheres como a sra. Tilney: figuras nas sombras, apontadas como esposas e mães de alguém, usadas para unir fortunas ou famílias e que, após a morte, se tornam epitáfios genéricos e memórias nebulosas ou vagas, mesmo que para a família. Austen, sempre muito perspicaz em sua voz narradora, parece apontar aqui para o assassinato se não físico, de memória, que acometia muitas mulheres assim que contraíam matrimônio com figuras egocêntricas e vaidosas como o general Tilney. Mais do que os restos mortais da sra. Tilney, Catherine busca os restos de lembranças que possam apontar que a senhora da casa havia sido real e importante.

“Ela era uma mulher distinta? Era bonita? Existia algum retrato dela na abadia? [...] o interesse de Catherine pela falecida aumentava a cada pergunta, houvesse ou não resposta.”

(A Abadia de Northanger)

Apesar do tom quase cômico dos devaneios investigativos de Catherine, ao final, descobrimos que ela não estava totalmente errada sobre a personalidade cruel do general Tilney. Em uma reviravolta digna de ficção, ele expulsa a jovem da abadia sem aviso prévio, dinheiro ou possibilidade de organização, quando descobre que a família dela não é tão rica quanto ele supunha. É um movimento abusivo e absurdo que o coloca em um nível muito parecido ao do tirano gótico que ela imaginara. Apesar de não ser um assassino, o general ainda é um homem egoísta que faz valer suas vontades contra o discernimento, a educação e a cortesia ao colocar uma jovem desacompanhada à mercê dos perigos de uma longa viagem desacompanhada em diligência aberta, apenas por capricho.

Como disse Claudia Johnson sobre Austen: “posicionar-se em julgamento divertido sobre o mundo requer um grau de audácia”, e em A Abadia de Northanger ela definitivamente se utiliza dessa ousadia bem-humorada para expor, nas entrelinhas, que o fantástico ou absurdo das histórias de ficção muitas vezes nasce das pequenas maldades do mundo e na falsidade pomposa das maneiras. E que pessoas mal-intencionadas podem, no fim, ser muito mais maléficas do que monstros escondidos em claustros abandonados.

Referências 

  • A Abadia de Northanger (Jane Austen, na tradução de Rodrigo Breunig) 
  • Do romance de Newgate à ficção de detetive (F. S. Schwarzbach)
  • Northanger Abbey (Deirdre LeFaye)
  • Northanger Abbey, Gothic Parody, and the History of the Fictional Female Detective (Elizabeth Veisz)
  • The Juvenilia and Northanger Abbey: The Authority of Men and Books (Claudia Johnson)



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