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Olhos de cigana oblíqua e dissimulada: figuras femininas no realismo-naturalismo

O realismo-naturalismo literário nasce da divergência ao subjetivismo sentimental e idealizado do Romantismo, essa estética de fuga da realidade. Assim explica Sérgio Schaefer: “[...] o sujeito-autor procura narrar com o máximo de objetividade (literária) os fatos existentes e persistentes numa dada realidade e num dado momento social, político e cultural. Existe, na opção literária realista-naturalista, uma preocupação em contextualizar, em manter os pés firmemente presos ao solo, deixando-os sujar de pó ou de lodo. Mas, principalmente, procurando caminhar junto com os fatos, assimilando suas verdades, mesmo que parcialmente”. O mesmo enfatiza o caráter libertário do século XIX, onde o Naturalismo rejeita o prévio Romantismo em prol do científico, da natureza física, animal, humana, social, política, cultural. "O mistério do mundo é o visível, não o invisível", diz Oscar Wilde.

Essa rejeição, porém, é faca de um único gume. No afã de cristalizar e retirar o caráter de acontecimento, registra em verossimilhança que não parece caber o poder do não, de desmontar aquilo que reduplica, de transformar os objetos de que se apropria. Por isso, a obsessão naturalista pelo retrato fiel. Ao invés de negar a realidade histórica representada ficcionalmente, o naturalismo acaba por fixar o mundo enquanto imagem. A denúncia não funciona como um convite iconoclasta à mudança histórica. Jorge Wolff escreve que "o desejo mimético de reprodução sem ruptura, como documentalismo e não uma literatura-lâmina, acaba se convertendo em fantasmagoria, perseguição a uma realidade que não percebe ser também um simulacro".

Dessa forma, nasce o famoso conflito entre Eça de Queiroz, na doutrina do realismo natural e cotidiano, e Machado de Assis, quando o último, na sua ótica de “verdade moral”, de utilizar palavras que “dizem não dizendo, mostram não mostrando” e de que se deve descolar-se do fato bruto, critica a falta de ressignificação psicológica, como “o escuso e o torpe eram tratados com um carinho minucioso e relacionados com uma exação de inventário”:

“Era realismo implacável, consequente, lógico, levado à puerilidade e à obscuridade [...]. Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis [...]. Se, por vezes, o Sr. Eça de Queirós esquecia por minutos as preocupações da escola; e, ainda nos quadros que lhe destoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de uma expressão verdadeira; a maioria, porém, atirou-se ao inventário.”

O escritor cria, então, um realismo antagônico ao Naturalismo, um realismo sobrenatural, profundo, satírico e fantástico. Ademais, assim diz o próprio Brás Cubas, autor-defunto: 

“Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”

No Naturalismo, porém, há de se encontrar nessa pintura detalhada do cotidiano uma monstruosidade: o feminino. Logo, a leitura se faz em atrito, pensar nesse passado pintado a partir da perspectiva do presente e pensar o presente (e o que ele destrói ou revive) a partir desse passado. Segundo Susan Sontag, "os elementos mais poderosos numa obra de arte são, muitas vezes, seus silêncios". Observa-se o grotesco da existência, questionador das sociedades que não toleram os seres desviantes, escandalosos, marginalizados, imorais ou amorais. 

“[...] Simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher”, é descrita a personagem Rita Baiana em O Cortiço. Luísa em O Primo Basílio é, de acordo com Machado de Assis, vista como “um caráter negativo, e, no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral”. Como Eva, como Pandora, a mulher no Naturalismo é profana, é culpa das desgraças do homem, é desejo sexual patológico (vício doentio alimentado com adultério ou prostituição). Mais fêmeas bestiais do que mulheres: “Margarida era muitíssimo do sexo, mas das que são pouco femininas, pouco mulheres, pouco damas e muito fêmeas.” É morta por sua pureza ou pela ausência dela, “rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue”. A morte é sempre o fim da mulher no Naturalismo, fisicamente ou não. A “morte” é a traição, o medo ou remorso, a prisão, a prostituição, a loucura, o abuso sexual, morrer é estar às margens da sociedade.

A narrativa dessa ideologia estética encaminha-se para duas mortes limítrofes: degradação de si e da alma ou suicídio, casamento ou camisa de força, “tendo homem e sociedade como seus inexoráveis algozes”, afirma José Neres. Diferente do Romantismo, em que a morte é uma forma de redenção. É a traição do artista explicada por Ursula K. Le Guin: apenas a dor é intelectual, apenas o mau é interessante. Esse é o camp na estética da existência romântica. Já no realismo-naturalismo, a estética da existência é de um camp escatológico, bestial; o amor pela natureza humana descrito por Sontag, uma sensibilidade aos fracassos apaixonados. Irônico, considerando o esotérico artificial e exagerado do camp, que deveria ser um oposto ao Realismo, mas há muito do Naturalismo, esse código decorativo tão sério que deixa de ser natural, tão complexo que é simples; amoral, enlameado, vulgar. Tragédia que não é tragédia: cotidiano.

No Romantismo, uma morte sagrada. No naturalismo-realismo, uma morte profana: humana, não um suicídio por amor ou um amor necrófilo, mas, sim, uma mãe que tem seu filho devorado por porcos. Dessa forma, a dor não é bela, mas quase cotidiana; não dramática, mas bíblica. Em vez de morbidez, se tem raiva e pobreza. Aqui, a degradação é de fora pra dentro. Destarte, Aluísio Azevedo descreve Bertoleza: “sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panelas e enchendo os pratos”. Ou Domingos Olímpio denomina sua heroína Luzia-Homem, um nome em contraposição à obediência e castidade da jovem, uma criatura fantástica que é tragicamente atacada e morta por um personagem vil.

É possível fazer uma ligação com Sarita Colonia, santa peruana popular, padroeira dos marginalizados, amplamente venerada no país apesar de não-canonizada. Irônico que, enquanto migrantes, pobres, delinquentes, prostitutas e queers a reivindicam como patrona, ela é, assim, também desprezada/excluída. A Igreja Católica não a reconhece pois Sarita é pobre, chola e associada à marginalidade, não sendo o bastante toda sua fé e caridade. Em Sarita, enxergam uma santa que não se importa em protegê-los e não os condena por seus pecados. Uma fé que sobrevive no profano. O Naturalismo, de modo parecido, dá santidade aos vivos, diferente da extravagância católica bordada na pequenez e podridão humana sob o divino. O pecaminoso em paradoxos visuais e sensíveis da feminilidade quando em contexto de simbologia e iconografia católica, como em O Crime do Padre Amaro, numa estilística sensorial, que descreve violência e perturbações mentais sem tom de tragédia lacrimosa, é rubro como sangue. 

Na nudez das mazelas do meio e dos detalhes do íntimo e psicológico, do natural e do cultural, a figura feminina naturalista é estranha e enfatiza uma fuga de padrões, de formalidades, de virgindade. Ilusão científica de veracidade em denúncias de patologias sociais, como em O Ateneu, de Raul Pompeia, que começa com a seguinte frase: "Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta". E prossegue o relato do menino Sérgio, que encontra um mundo hostil de falso moralismo e desvios éticos: "Não era um ser humano: era um corpo inorgânico, rochedo inerte, bloco metálico, escória de fundição, forma de bronze, vivendo a vida exterior das esculturas, sem consciência, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, glória! mas feito estátua".

A patologia do feminino é também de um misticismo onírico, zoomorfia ao ponto que a monstruosidade feminina chega em seu cerne, como em A Nevrose da Cor, de Júlia Lopes de Almeida, única autora mulher do Naturalismo, autora esquecida que escreve misandria e misoginia com uma raiva inerente à sua feminilidade. É quase uma escrita feminina sobre escrita feminina.

Quem são as mulheres do Naturalismo?

Quem são em Correio da Roça? Pois ao colocar em sinergia contexto histórico, questões de classe, a vida de mulheres e suas relações com o mundo do trabalho e da educação, a autora representa mulheres que contam sua própria história. A obra epistolar foi criticada pelo excesso de temas "femininos" como uma ficção doméstica. Assim, sobre a condição feminina e a vida no campo, inspira o labor nas mãos das mulheres e a construção de uma comunidade matriarcal como força transformadora para o progresso: "Toda a mulher forma um ambiente em redor de si, mais facilmente do que o homem. Se ela tem gosto, se tem educação e se tem energia, esse ambiente será sugestivo dessas qualidades e produzirá grandes benefícios em todos que dela se aproximarem".

Quem são as figuras femininas d'O Cortiço? Traindo seus maridos, vivendo como prostitutas de luxo, homoeróticas, perdendo seus filhos, fugindo de casa, morrendo no hospício. A Bruxa ateando fogo ao cortiço. Criada e amante. No fim das contas, a criatura mulher é sempre paixão e sangue. "[...] depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor [...] E no seu sorriso já havia garras." O narrador expõe a compreensão de Pombinha sobre a fraqueza dos homens, animais fortes que são frágeis e servis sob a delicadeza feminina. Um feminino feroz e brasileiro, com olhos de cigana oblíqua e dissimulada.

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