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A escrita surrealista de Leonora Carrington em A Corneta

Leonora Carrington é inglesa de nascimento, mas viveu grande parte de sua vida na Cidade do México. Conhecida como uma das últimas pintoras surrealistas, faleceu aos 94 anos em 2011. Filha de mãe irlandesa, Leonora cresceu ouvindo sobre contos de fadas e folclore irlandês e galês, se interessava também pelas mitologias celta e egípcia, foi amplamente inspirada pela cultura mexicana, literatura fantástica, astrologia, tarot, bruxaria e feminismo, temas que seriam amplamente difundidos em suas magníficas pinturas e também em suas histórias. 

A artista foi internada à força em um hospital psiquiátrico na Espanha durante um colapso nervoso na década de 1940. A situação mental frágil de Leonora naquele momento tinha diversas razões; dentre algumas é possível citar a prisão de seu até então parceiro, o pintor Max Ernst, pelos nazistas. Após o fato, ela teve de fugir com amigos durante o estopim da Segunda Guerra Mundial. As perdas e violências que ela sofreu no caminho corroboraram para que ficasse esgotada mental e emocionalmente. Mas ao ser internada o diagnóstico dela foi de histeria. Afinal, Leonora não era vista como uma mulher completamente sã há muito tempo, sua personalidade era considerada por muitos como excêntrica e sua recusa a ser categorizada no papel de apenas uma musa do Surrealismo fez com que ela se tornasse uma voz que se levantou contra o conformismo e o papel relegado à mulher na arte. Foi uma das fundadoras do Movimento pela Libertação das Mulheres na década de 1970, e falou abertamente sobre seu período convivendo com o grupo de surrealistas e como eles não pareciam estar interessados na mulher como artista, e sim em como elas poderiam servir de combustível para que a imaginação masculina fosse transformada em arte. Lugar este no qual Leonora nunca aceitou ser colocada, ela era uma artista e lutava para ser vista e respeitada como tal. Como ela própria disse em uma entrevista em 1993:

“Era um grupo formado essencialmente por homens que tratavam as mulheres como musas. Isso era bastante humilhante. Por isso, não quero que ninguém me chame de musa de nada. Nunca me considerei uma ‘mulher-criança’, que era como André Breton enxergava as mulheres. Nunca quis ser compreendida dessa forma, também não tentei mudar ninguém. Caí no Surrealismo porque sim. Nunca perguntei se tinha o direito de entrar ou não.”

Leonora escreveu uma autobiografia intitulada Lá embaixo, na qual relata o período em que viveu internada no hospital psiquiátrico. E de certa forma, juntando as peças e tecendo as tramas como uma aranha costura suas teias, é possível notar semelhanças entre a história da própria Leonora e a da protagonista de seu romance A Corneta. Com sua estreia em 1974, o livro de uma das mais fascinantes artistas surrealistas foi publicado no Brasil pela Alfaguara em 2023, e conta com o posfácio de Olga Tokarczuk.

A trama segue a história de Marian Leatherby, que, aos 92 anos, segue muito lúcida e cheia de vida, apenas se encontra com uma leve dificuldade auditiva. Após ganhar de presente da melhor amiga Carmella uma grande corneta auditiva, Marian descobre os planos de sua família para lhe enviar para um asilo. A partir desse momento, Marian se vê tendo de aceitar o fato de que sua vida iria mudar e ela não teria escolha, não poderia mais acordar e passar o dia com seus gatos e suas plantas e perderia sua individualidade, apenas porque aqueles que deveriam acolhê-la chegaram à conclusão de que ela nem mesmo poderia mais ser considerada humana:

“A vovó”, falou Robert, “mal pode ser classificada como ser humano. Ela não passa de um pedaço de carne babenta em decomposição.”

[...]

“Lembre, Galahad”, adicionou Muriel, “essas pessoas velhas não têm sentimentos que nem você ou eu. Ela estaria muito mais feliz numa instituição com estrutura para cuidar dela. Eles são muito organizados hoje em dia.”

Marian vivia há 15 anos com o filho Galahad, sua esposa Muriel e o neto Robert. Uma senhora ativa e independente, que mantinha seu quarto e jardim em ordem, visitava e conversava com Carmella. A casa da melhor amiga se torna um porto seguro para Marian, e lá ambas têm liberdade para ser quem são, conversarem sobre todo tipo de assunto, escreverem cartas para pessoas que nunca vão lê-las, inventar histórias e pensar em planos mirabolantes. A personagem Carmella foi inspirada na grande amiga de Leonora Carrington, a também pintora mexicana Remedios Varo. A semelhança entre Marian e Leonora também é algo interessante, principalmente quando nossa protagonista chega no asilo. Um lugar confuso e estranho, que não parece real e, ao mesmo tempo, parece ter sido meticulosamente preparado para que quem está de fora não acredite nos relatos das senhoras que ali vivem, como se elas estivessem tentando fazê-los duvidar da realidade. A arquitetura confusa, que mais parecia um castelo medieval do que um hospital, possuía também pavilhões em formados confusos que não levavam a lugar nenhum, assim como os chalés em que cada uma das moradoras viviam, uma cabana em forma de bota, um chalé suíço que parecia um relógio cuco, um cogumelo vermelho e amarelo, um bangalô em formato de bolo de aniversário, uma tenda de circo e um iglu de esquimó. Além de, é claro, a aparentemente vazia torre do castelo. Além disso, os móveis no quarto de Marian eram pintados:

“Primeiras impressões nunca são muito claras, só posso dizer que parecia haver vários pátios, claustros, chafarizes desligados, árvores, arbustos, gramados. O prédio principal era um castelo, rodeado por vários pavilhões de formatos incongruentes. Habitações em forma de cogumelos, chalés suíços, vagões ferroviários, um ou dois bangalôs comuns, algo com o formato de uma bota, outro que imaginei ser como uma múmia egípcia descomunal. Era tudo tão estranho que cheguei a duvidar da precisão da minha capacidade de observação. [...] Os únicos móveis de verdade eram uma cadeira de vime e uma mesinha. Todo o resto era pintado. O que quero dizer é que as paredes eram pintadas com os móveis que não estavam lá. Era tudo tão bem-feito que a princípio quase me enganou. Tentei abrir o guarda-roupa pintado, uma estante com livros. Uma janela aberta com uma cortina esvoaçando com a brisa, ou que teria esvoaçado se fosse uma cortina de verdade. Uma porta e prateleiras com diversos tipos de enfeites. Toda essa mobília unidimensional tinha um efeito estranhamente deprimente, como bater o nariz contra uma porta de vidro.”

Após ser internada no asilo, Marian passa a ter pouco ou praticamente nenhum contato com seus familiares, o que de certa forma não a afeta tanto assim. Após se tornar invisível e um tormento para eles por tantos anos, ela aprendeu a focar em sua própria companhia e em seus desejos, como o de viajar à Lapônia. Marian na verdade se encontrava preocupada apenas com seus gatos, e logo fica aliviada ao descobrir que Carmella os adotou. Mesmo que os acontecimentos narrados por Marian possam parecer surreais demais para qualquer um fora do asilo, ela encontra conforto em Carmella, que não questiona e não tarda em apoiar e tentar ajudar a amiga. Mesmo que ambas sejam senhoras na casa dos 90 anos, e consideradas excêntricas com suas visões e sonhos proféticos e planos de fuga que envolvem cavar túneis e minas de urânio, Carmella possui uma autonomia e respeito perante a sociedade, pois detém um status econômico elevado. Neste caso, ela não é uma simples idosa que não possui mais serventia perante a sociedade patriarcal e capitalista, Carmella tem o poder do dinheiro, que pode comprar admiração, respeito, conforto e uma fuga, nem que seja da dura realidade, para a amiga Marian. Como dito por Olga Tokarczuk:

“Uma marginalização ainda maior é atingida ao empurrá-las rumo à inexistência social; muitas vezes, essas senhoras se tornam empobrecidas financeiramente e desprovidas de qualquer influência. Elas se transformam, em vez disso, em criaturas inferiores que não merecem qualquer preocupação alheia; a sociedade faz pouco mais do que tolerá-las e oferecer-lhes (com bastante relutância) algum tipo de cuidado. [...] Esse é o status de Marian Leatherby, a narradora idosa de A corneta, quando começamos a ler o romance. Ela está cheia de vida, mas com dificuldade de audição. E ela é duplamente excluída —primeiro, como mulher; depois, na condição de mulher velha. É essencial à personagem uma qualidade que ela compartilha com o romance como um todo: a excentricidade (a excentricidade é um dos modos permitidos a uma mulher idosa quando ela não está desempenhando o papel de avó bondosa). [...] Carmella foi autorizada a manter alguma influência no mundo porque é uma mulher velha rica, e não há nada que as pessoas respeitem tanto quanto o dinheiro e as pessoas que dispõem dele. Por isso, Carmella desfruta do poder inquestionável de fazer as coisas acontecerem. Suas aparições na Instituição desoladora são dramáticas; suas ideias são absolutas, guiadas não pela razão mas pela imaginação e por uma maneira diferente de pensar. Em sua personagem, a excentricidade é elevada à categoria de divindade.”

Durante o período de caça às bruxas, muitas acusadas eram mulheres mais velhas, que, segundos os acusadores, se ressentiam da juventude das mulheres jovens. Mas não apenas isso, uma mulher idosa não poderia mais ter filhos e cuidar de crianças e do marido, e de certa forma a sociedade da época pensava de forma similar com a que temos hoje. O que fazer agora com uma mulher viúva idosa que não mais pode cuidar dos outros, como foi designado a elas na ordem patriarcal? As meninas são ensinadas que o papel de cuidadoras é delas desde a mais tenra idade, e a partir do momento em que os papéis mudam e a velhice é vista como sinônimo de incômodo, o papel da mulher se torna um problema ainda maior, elas passam a ser vistas como descartáveis. As mulheres jovens que eram acusadas de bruxaria tinham em suas imagens a ideia da sedução maléfica e castradora masculina, eram aquelas que mesmo podendo amamentar crianças com leite, escolhiam alimentar seus animais familiares com sangue. Quanto à bruxa idosa, a visão sobre ela na sociedade se torna ainda mais assustadora, ninguém está a salvo do seu grotesco corpo e dos pensamentos cruéis de uma mulher sem mais nenhuma serventia, que via a todos como suas possíveis vítimas. 

O que Leonora faz em A Corneta, colocando uma mulher de 92 anos como narradora ativa e protagonista, é mudar a ordem natural dos acontecimentos. Ao dar voz a Marian, Leonora inverte os papéis e a voz silenciada de uma mulher que viveu quase 100 anos é retomada. E ao recuperarem suas autonomias, Marian e suas amigas se sentem livres pela primeira vez em décadas, e não estão dispostas a se deixarem controlar de novo, como fica bem claro em um trecho do romance:

“Embora a liberdade tenha nos chegado um pouco tarde, não temos intenção de abandoná-la outra vez. Muitas de nós passamos a vida com maridos dominadores e rabugentos. Quando enfim fomos libertadas deles, passamos a ser manipuladas por nossos filhos e filhas, que não apenas não nos amavam mais como nos consideravam um fardo e motivo de constrangimento e vergonha. Você acredita, mesmo nos seus sonhos mais selvagens, que agora que provamos a liberdade vamos nos deixar ser pressionadas por você e por seu companheiro depravado?”

Ler A Corneta é como entrar em um mundo único que apenas uma surrealista poderia criar. Toda a estrutura do romance pega o leitor de surpresa e as tramas que se seguem são precisamente encaixadas onde deveriam estar. Mesmo que não faça sentido em um primeiro momento, se torna uma espécie de história fantástica mesclada com uma denúncia contra o etarismo e o papel da mulher na sociedade durante a terceira idade. Marian passa por situações inusitadas durante toda a história, e se vê envolvida em uma complexa trama de assassinato, aparecimento de criaturas gigantes escondidas em torres e deusas antigas que a fazem entrar em contato com a divindade feminina há muito tempo esquecida, fica encantada com um quadro de uma freira piscando que possui uma fascinante história envolvendo a caça ao Santo Graal, uma rainha abelha, médicos abusivos e oportunistas, uma mulher com cabeça de lobo chamada Anubeth, uma visita ao inferno e finalmente a chegada de uma nova era do gelo. 

O leitor ouvirá a história diretamente de Marian e de suas companheiras; pouco importa se esses relatos fazem sentido, se parecem sonhos surrealistas de uma mente excêntrica. A história foi contada e escrita por homens desde o início dos tempos e quando se tornam idosos  são vistos como grandes sábios, e raramente alguém ousa debatê-los, por mais absurdas que suas certezas possam parecer. Neste caso, porque a história de Marian seria tão surreal? Marian e Leonora possuem mais algo em comum, como o período em que Leonora permaneceu internada no hospital psiquiátrico e quem via de fora dificilmente acreditava no que ela dizia a respeito do lugar e suas experiências, fazendo com que o véu entre o sonho e o mundo desperto se tornasse tão fino que mal poderiam ser separados. Assim sendo, a história de Marian também não precisa ser real para ser verdadeira.

“Foi assim que a Deusa recuperou seu Cálice Sagrado com um exército de abelhas, lobos, sete mulheres velhas, um carteiro, um chinês, um poeta, uma arca atômica e uma lobismulher. O exército mais estranho, talvez, já visto neste planeta. [...] Este é o fim da minha história. Eu contei tudo fielmente, sem qualquer exagero de natureza poética ou não.”


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Referências

Babi Moerbeck
Carioca nascida no outono de 1996, com a personalidade baseada no clipe de Wuthering Heights, da Kate Bush. Historiadora, escritora e pesquisadora com ênfase no período do Renascimento, caça às bruxas e iconografia do terror. Integrande perdida do grupo dos Românticos do século XIX e defensora de Percy Shelley. Louca dos gatos, rainha de maio e Barbie Mermaidia.

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