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A força de Heathers (1988): uma denúncia satírica da glorificação do sofrimento adolescente

Ao longo das décadas, histórias focadas em adolescentes tiveram seus impactos através de diferentes abordagens cabíveis aos períodos retratados em questão. De A Primeira Noite de um Homem (1967), passando por Curtindo a Vida Adoidado (1986) até chegarmos ao mais recente Fora de Série (2019) - talvez este o mais gracioso dentre os exemplos -, a representação dessa etapa tão conturbada quanto instigante é sempre um prato cheio para investigar camadas que vão além das transformações corporais, mas que, sobretudo, revelam o que pode estar por vir na vida adulta de indivíduos que ainda ensaiam seus papéis no mundo que se apresenta diante deles.

Pensando nesse contexto não se pode negar que quando falamos de narrativas que contemplam as dinâmicas do ensino médio e suas implicações sociais para os adolescentes que figuram neste espaço o imaginário coletivo recente devota uma importância impressionante para obras como As Patricinhas de Beverly Hills (1995) e Meninas Malvadas (2004). Esta última, um ícone da cultura pop, empresta seus diálogos para memes virais em situações diversas, ao mesmo tempo em que oferece uma crítica mordaz das estruturas internas do ambiente escolar. No entanto, se este filme se consagrou como um exemplar da categoria, podemos dizer que o terreno construído por Atração Mortal (Heathers, 1988) é bem evidente nessa trajetória (ou, para deixar mais claro: Atração Mortal andou para que Meninas Malvadas pudesse voar).

Atração Mortal (título lamentável que recebeu no Brasil) não é apenas um precursor destes outros dois filmes, mas também uma crítica contundente ao pensamento condicionado de grupo muito presente no ensino médio. O culto a essa comédia de tom mórbido e satírico sobre dois alunos do ensino médio que, involuntariamente, tornam o suicídio popular, cresceu tanto ao longo dos anos que chegou a receber uma coroação típica do status de clássico: a adaptação para um musical da Broadway. Audaciosa até para o dias de hoje, a história tem em seu centro Veronica (Winona Ryder), uma garota que tenta sem entusiasmo fazer parte do grupo das populares de sua escola, quando conhece um rebelde - Christian Slater encarnando um agente do caos digno de um Coringa que mistura traços de Jack Torrance - que lhe ensina uma maneira controversa de fazer política social: matando os populares da escola. 

Veronica só está inserida na formação das populares por se sujeitar a pequenas humilhações diárias, o que a faz desprezar as Heathers ao mesmo tempo em que se autodespreza pela submissão. A personagem não destoa das Heathers (o grupo formado por três estudantes com o mesmo nome) apenas por não se chamar da mesma forma, mas também pela sua precoce autoconsciência e pelos sinais de empatia que as outras não exibem. Ao conhecer JD (ou Jason Dean), que é cético em relação à hierarquia imposta pelo grupo, Veronica se interessa pela sua postura indiferente e rebelde e, assim, os dois se tornam parceiros amorosos se ligam, também, pela violência brutal.

Ao se juntarem, o filme toma contornos de uma tragicomédia que apresenta duas espécies de párias que se identificam pelo desprezo ao mundo artificial que habitam, mas que diferem em pontos cruciais na maneira como escolhem lidar a partir do que conseguem assimilar desse ambiente. Assim, o embate toma proporções violentas em um duelo que opõe o niilismo do rapaz às tentativas de reparação de Veronica. Esta última, inclusive, percebe imediatamente como as mortes dos alunos estão se tornando palco para as mais diferentes manifestações de vaidade - seja dos adultos, seja dos estudantes que percebem uma lacuna a ser preenchida. Neste ponto, o filme nos lembra de como existe uma fascinação cultural em encarar a adolescência como um espetáculo sombrio, chegando a fazer comentários afiados que envolvem transtornos alimentares sem transformar o tema em piada, mas demonstrando como esses desdobramentos não surgem em um vácuo, mas são parte de uma estrutura repleta de abusos naturalizados. É mais uma forma de ilustrar uma decepção que, por vezes, chega mais tarde: a de que os adultos, indivíduos em quem depositamos uma confiança desmedida quando temos essa idade, talvez não saibam tão bem o que estão fazendo como esperávamos.

Essa estrutura de castas típica do Ensino Médio - tendo nos Estados Unidos o seu retrato mais difundido e cruel - acaba por distrair seus integrantes da percepção de que a maioria de suas ações não têm sentido. O personagem de Slater chega a separar passagens de Moby Dick para criar a ilusão de que existe um significado mais profundo ao redor do que está acontecendo, quando, na verdade, não existe. Felizmente, é através de Veronica que passamos a questionar o mundo bizarramente paranoico e vingativo de Atração Mortal. Enquanto um circo se arma em torno da narrativa dos falsos suicídios, há uma Heather que realmente cogita fazê-lo, enquanto outra aluna, vítima de diferentes tipos de humilhações e ofensas, Martha, realmente tenta acabar com sua vida sem que isso cause maiores comoções - apenas um comentário maldoso de uma aluna impiedosa.

Enquanto Veronica é capaz de perceber as contradições e injustiças dessas dinâmicas, Jason Dean segue na sua missão de agente do caos, separando definitivamente seus rumos - e desfechos. E é por isso que a escolha final da protagonista de expropriar a última Heather do papel de líder desse sistema nefasto e escolher Martha para ser sua acompanhante é o ponto alto da sensibilidade do filme. Após o clímax que justapõe uma superfície alegre e aparentemente indefectível - com líderes de torcida e uma plateia eufórica - enquanto, literalmente, no porão acontece um combate brutal entre JD e Veronica, a obra mostra visualmente como essas camadas sociais não se sustentam. Acabar com o jogo e seguir ao lado de alguém que jamais conseguiria qualquer benefício nessa batalha é uma lufada de ânimo para um personagem adolescente que começa a expor qual tipo de adulto deseja se tornar. Afinal, “agora que você está morta, o que você vai fazer com a sua vida?”. Aquela versão submissa e inconsequente passa a dar espaço para que uma versão mais madura possa, enfim, surgir.

O que fica no fim é um sentimento surpreendentemente satisfatório que jamais trai as proposições levantadas pela história. O filme joga luz às complexidades de uma fase formada por quem reivindica o seu lugar no mundo e deseja ser levado a sério - com toda ousadia intrínseca ao momento. A adolescência é, afinal de contas, quando nosso íntimo vai se tornando mais exposto para todos ao nosso redor, quando, de uma hora para outra, chegamos na vida adulta com um vislumbre que passa a nos incluir nessa percepção. Tornar-se adulto é um caminho interminável e assustador do qual jamais nos recuperamos integralmente. E Atração Mortal é um macabro coming of age que nos desperta a fúria de construir outros cenários possíveis ao nos convidar a olhar com mais atenção para toda essa trajetória maluca. Entretenimento puro. 

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