últimos artigos

Effie Gray: a história de um dos maiores escândalos vitorianos

Effie Gray, filme de 2015, conta a história da protagonista homônima que em plena Era Vitoriana viveu uma das histórias mais escandalosas de seu tempo. E embora o filme seja bem fiel à história - o tanto quanto possível para uma adaptação cinematográfica que tem por objetivo entreter o público -, a verdade é ainda mais escandalosa. Casada muito jovem com o crítico de arte John RuskinEphemina Gray era uma jovem de 20 anos quando adentrou a casa dos pais do marido para lá viver com ele. A recepção fria dos sogros era apenas um indício do que encontraria nos seis anos de casamento que se seguiriam àquele momento. Quando a noite de núpcias chegou, Effie ficou logo sabendo que seu marido não tinha intenção alguma em tocá-la: ele sentia nojo dela. E assim o casamento não foi consumado. 

Quando pensamos na impossibilidade desse casamento, uma resposta possível da mente racional é culpar a moral vitoriana por tal resultado virginal. Mas há base nisso? 

O sexo na Era Vitoriana era, no mínimo, um assunto tabu. A Era Vitoriana ocorreu no século XIX, no reinado da Rainha Vitória, durante 20 de junho de 1837 a 22 de janeiro de 1901. Embora exista a ideia de que os vitorianos eram muito pudicos para pensar em - ou mesmo praticar - sexo, a realidade que se pode averiguar através de documentos da época é outra. O assunto era um tabu, de fato, mas nem por isso deixava de existir. O que acontecia era a feroz insistência, especialmente vinda de cima, para que a prática sexual se limitasse ao casal, dentro do lar matrimonial. E havia razões para isso: além da questão religiosa, também existia uma onda fortíssima de sífilis no Reino Unido, uma doença incurável à época, que levava à insanidade e morte. Outro contribuinte para a restrição das relações sexuais eram as mortes de mulheres durante partos - um número assombrosamente alto. Na Era Vitoriana, 1 em cada 200 mulheres morria durante o parto ou em decorrência dele (por febre puerperal, por exemplo). Em termos de comparação, hoje o número é de 9 a cada 100.000 partos. 

Todavia, ao olharmos para os números concernentes à prostituição durante a Era Vitoriana, somos imediatamente informados de que toda essa repressão sexual - e os motivos terríveis que levavam alguns a pregar a abstinência ou moderação - não funcionava. Apenas em Londres havia cerca de 80.000 prostitutas durante a década de 1890. Na época, a população londrina era de 5,5 milhões de pessoas. Considerando a proporção de metade/metade entre homens e mulheres, é possível chegar ao número de 1 prostituta para cada 34 homens em Londres - isso se não colocarmos as mulheres na conta também, é claro. Hoje, o número de mulheres prostituídas no Reino Unido inteiro chega a 72.800 - menos do que existia na Londres vitoriana, que era apenas uma cidade. É impossível olhar para esses números sem pensar que os vitorianos eram pessoas muito sexuais. 

É também preciso considerar que a pornografia existia - e muito - durante a Era Vitoriana. Por boa parte das décadas, a pornografia se restringia a livros e fotografias, com livrarias especializadas em conteúdo erótico e pornográfico. Já em meados da década de 1890, os primeiros filmes pornográficos começaram a surgir - e o resto é história. 

Elspeth Marr, nascida na Escócia em 1871, escreveu em seu famoso livro da época, A Victorian Lady’s Guide to Life, que "A sua nudez é o trabalho de Deus, o Criador. Permita que os homens a admirem - e sejam religiosos entre os lençóis". No mesmo livro ela afirma: "Sexo é como pão. O que seria da vida sem ele? Algo muito chato, certamente". Se essas não parecem frases vitorianas, é porque nós conhecemos mais o mito pudico de uma era do que sua realidade. 

O drama de Effie Gray 

Ao casar com John Ruskin, Effie Gray esperava muitas coisas: que sua personalidade sociável ajudasse o marido em seus empreendimentos, que pudesse governar sua casa da maneira que lhe aprouvesse, que teria uma parceria para o resto da vida, e, claro, que teria filhos com o homem que a desposara. Mas isso estava longe da realidade. 

A mãe de Effie sabia, pelas cartas da filha, que o relacionamento com Ruskin estava cada vez pior - mas ela só foi entender o quanto tempos depois quando, em carta, Effie pediu ajuda aos pais para escapar do casamento ao qual estava atada. Na carta em questão, ela afirma que John Ruskin acreditava que ela era inadequada para ser mãe já que "para ele, se caso eu não fosse muito má, seria ao menos louca". Ouvir essas rejeições do marido, com acusações cada vez mais insanas, deixou a jovem Effie doente. Ela vivia com doenças psicossomáticas, que a deixavam fraca e de cama - afinal, estava vivendo uma mentira e sendo constantemente desprezada. 

Effie Gray, por Thomas Richmond (1851)

Ao pedir a ajuda dos pais, ela os avisou que, ao contrário do desejo de seu pai, o melhor era não confrontar os Ruskins - Effie tinha certeza de que o pai de John Ruskin recorreria a alguma tática escusa para que o nome da família não fosse parar na lama. Havia também o medo de que sabendo o que Effie planejara, John Ruskin se visse obrigado a consumar o casamento - de forma totalmente não consensual, forçando-a a deitar-se com ele para que ela não pudesse pedir a anulação. 

Até 1857, o divórcio era algo extremamente raro. Para ocorrer, era preciso um Ato Parlamentar especial. Na Inglaterra, as mulheres não podiam ter propriedades - nada era delas, nem casas, terrenos, dinheiro que ganhassem caso conseguissem trabalho, ou mesmo suas roupas. Mulheres não podiam fazer testamentos, certificando-se de que seus bens passassem a quem lhes aprouvesse - haja vista que, pela lei, elas não possuíam nada, sendo eternamente tuteladas. Em caso de a esposa deixar o marido, saindo de casa, ele poderia, por lei, levá-la de volta obrigatoriamente, forçando-a a viver com ele. 

A única saída de Effie, portanto, era tentar a anulação por motivos de não consumação do casamento. Após seis anos casados, era impraticável que ela permanecesse virgem. No entanto, essa era a realidade. Ela precisaria de pelo menos um laudo médico que atestasse a sua virgindade - o que ela poderia conseguir, mas, John Ruskin mantinha um diário das "flutuações de humor" da esposa, e poderia usá-lo para acusá-la de ser histérica, o que, dependendo do juiz, talvez fosse aceito como motivo para que o casamento não tivesse sido consumado. A situação de Effie era delicada - mas ela tinha de tentar. 

Finalmente, Effie tomara impulso; agora, não havia volta. Como disse Suzanne Fagence Cooper em Effie: the passionate lives of Effie Gray, John Ruskin and John Everett Millais

"A manhã de terça, 25 de abril de 1854, estava terrivelmente fria. Effie disse adeus ao seu marido, John Ruskin, pela última vez na plataforma da Estação King's Cross. Então, ele a ajudou a entrar no trem. Sentando-se ao lado da irmã, Sophy, ela evitou o olhar de Ruskin, preocupada em arranjar sua crinolina no compartimento apertado. Effie esperava nunca mais vê-lo. Para um homem que havia feito seu nome como um crítico visionário de arte moderna, John Ruskin poderia ser incrivelmente tapado. Sua atenção era focada em pinturas, não em pessoas. Ele estava ansioso para voltar à casa de seus pais e aos seus livros, não notando nada incomum na aparência tensa de Effie. Havia se tornado hábito dela. [...] Effie sabia que a sociedade londrina ficaria escandalizada por sua decisão de deixar John Ruskin. Os escritos dele o tornaram algo como uma celebridade. Ele se tornara o crítico de arte mais admirado de sua geração. Quando Charlotte Brontë leu suas palavras, ela exclamou: 'Eu sinto como se estivesse andando com uma venda nos olhos - este livro parece ter me dado olhos'. Elizabeth Barrett Browning concordou. Ela achava que John Ruskin não era 'um homem qualquer'. Ele era inspirador, ele era brilhante, ele era convidado para todas as melhores festas, e ele tinha uma bela renda pessoal. Então por que Effie estava fugindo?"

Effie era um modelo para muitos pré-rafaelitas e considerada uma das mulheres mais bonitas na sociedade artística britânica durante seu tempo. Ela escreveu uma carta para seus pais explicando que eles não puderam consumar o casamento após seis anos juntos. Na carta, ela dizia: 

"Ele alegou várias razões, aversão a crianças, motivos religiosos, um desejo de preservar a minha beleza e, finalmente, no ano passado, ele me contou seu verdadeiro motivo... Ele havia imaginado que as mulheres eram muito diferentes do que ele viu que eu era, e esse era o motivo pelo qual ele não me tornou sua esposa, porque ele estava enojado com a minha pessoa já na primeira noite."

Isso é confirmado pela própria declaração de Ruskin na corte durante os procedimentos da anulação. Ele disse: 

"Pode ser considerado estranho que eu consiga me abster de uma mulher a quem a maioria das pessoas considera tão atraente. Mas embora seu rosto seja bonito, sua pessoa não foi formada para excitar paixão. Pelo contrário, havia certas circunstâncias nela que comprovavam isso."

E quando foi pedido que ele elaborasse esses detalhes, há quem diga que ele falou dos pelos pubianos e da suposta menstruação excessiva de Effie, e admitiu que sua única experiência com o corpo feminino nu advinha de estátuas e pinturas clássicas, o que o levou a acreditar que mulheres não tinham pelos no corpo. Então, quando a viu, ele pensou que ela fosse deformada. Mas essa é uma informação controversa: historiadores debatem isso há mais de um século, e não há muitas evidências que apontem para tal declaração. Pode muito bem, portanto, ser uma especulação de pessoas que tentaram entender a mente de Ruskin. De qualquer forma, os fatos são: Effie era considerada lindíssima, de personalidade agradável -, mas algo em sua aparência o enojou. 

John Ruskin era pedófilo? 

Os fatos também nos levam a outros caminhos, alguns particularmente perturbadores. Um deles é a hipótese de que John Ruskin tenha sido um pedófilo. 

O primeiro biógrafo a sugerir que Ruskin era um pedófilo foi Tim Hilton no primeiro volume de sua biografia de Ruskin: John Ruskin: the early years, publicada em 1985. Também foi ele o primeiro a sugerir que talvez Effie estivesse menstruada na sua noite de núpcias. 

Embora há um historiador que afirme, contra outras diversas pesquisas, que Ruskin, na verdade, não consumou seu casamento com Effie apenas por ter ficado decepcionado ao descobrir que a família de sua noiva havia feito os arranjos da união não pelo amor que um sentia pelo outro, mas sim por questões financeiras, ainda há um ponto sem nó: Rose La Touche

Rose La Touche, por John Ruskin (1860)

A jovem Rose tinha 9 anos quando Ruskin, já um homem adulto de 39 anos, se interessou por ela. A princípo, a ideia era que ele fosse uma espécie de professor das crianças La Touche, guiando-os ao mundo da arte. Porém, ele de pronto encantou-se pela criança, e descreveu esse encantamento de uma forma um tanto perturbadora: 

"Rose entrou na sala de desenho cuja porta estava aberta, silenciosamente me encarando com seus olhos azuis enquanto ela atravessava a sala; me estendeu a mão, como um bom cachorro dá sua pata, e então foi um pouco para trás. Ela estava com 9 anos em 3 de janeiro de 1858, embora agora esteja com quase 10; nem alta, nem baixa para a idade; um pouco tensa quanto fica parada. Seus olhos às vezes de um azul profundo, e então cheios e mais suaves. Os lábios perfeitamente adoráveis de perfil - um pouco grandes demais, e angulosos vistos de frente; o resto de suas feições é de beleza perfeita, como as meninas de pura raça irlandesa geralmente são; o cabelo, talvez, mais gracioso na franja cacheada, e mais macio do que se vê por aí, nos cachos caídos acima do pescoço."

Ainda que fosse um homem envolvido com arte e que, por isso, tendesse a perceber detalhes, a maneira como ele notou a criança foi estranha - e ter sentido a necessidade de registrar a perfeição física dela foi mais esquisito ainda. Mais estranho foi ver, como afirma Tim Hilton, biógrafo de Ruskin, um homem com seus 40 anos dizer, de uma criança de 10, que ela era "muito madura para sua idade" e que ele "não sabia o que fazer com isso", insinuando que a criança lhe provocava. O próprio Ruskin afirmou que pessoas sábias haviam lhe aconselhado a não expor tanto o que sentia em relação a Rose... Mas Ruskin disse que estava muito velho para ouvir conselhos. 

Quando tinha Rose tinha 14 anos, Ruskin, de 44, começou a cortejá-la abertamente. Dos 14 aos 18, Ruskin tentou casar com ela ao tentar conseguir a permissão de seus pais - que não concordaram com o pedido, tendo sido avisados, em carta escrita por Effie Gray, sua ex-esposa, de quem John Ruskin realmente era. Ela não permitiria que ele arruínasse a vida de Rose. 

O destino de Effie 

Felizmente, em 1854, Effie Gray conseguiu anular seu casamento com John Ruskin, pois não havia razões médicas ou de caráter para que este não houvesse sido consumado - a ideia mais aceita naquela época era que Ruskin padecia de uma "impotência incurável". No ano seguinte, Effie casou-se com o pintor pré-rafaelita John Everett Millais, tornando-se Lady Millais. 

Quadro com retratos da família Millais (1870) / reprodução Wikimedia

Ainda durante o casamento com Ruskin, Effie conhece Millais e aproximou-se dele durante uma viagem à Escócia na qual o pintor acompanhou ambos, já que Ruskin havia encomendado uma obra dele. Há quem diga que Ruskin, querendo livrar-se da esposa, incentivara a ligação dela com Millais - mas isso é um tanto improvável, já que, de qualquer maneira, isso suscitaria um escândalo, e um homem vivia de sua reputação na Era Vitoriana. A família Ruskin queria evitar um escândalo a qualquer custo - todavia, tornou-se o centro de um dos maiores que ocorreram na Londres vitoriana. 

Casados por 41 anos, apenas a morte separou Everett Millais e Effie Gray - em 1896, Millais faleceu, e Effie ficou viúva - mas teve a viuvez que esperava, rodeada de filhos - foram oito no total -, sabendo que, ao olhar para trás encontraria uma vida completa, repleta de felicidade com um homem que realmente a amou e esperou por ela. 

Referências 

Mia Sodré
Mestranda em Estudos Literários pela UFRGS, pesquisando O Morro dos Ventos Uivantes e a recepção dos clássicos da Antiguidade. Escritora, jornalista, editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre e faz amizade com todo animal que encontra.

Comentários

  1. Ameei o texto, sempre me interessei por esse grupo de pessoas e as ligações entre eles. Adorei com você levantou fatos e boatos. Deixam a gente especulando, né?

    ResponderExcluir

Formulário para página de Contato (não remover)