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“Prefiro um dos nossos”: Super Sam, Chapolin Colorado e a intervenção estadunidense em terras mexicanas

Chapolin Colorado foi uma série produzida e transmitida pelo conglomerado midiático Televisa, no México, durante os anos de 1973 a 1979. Seu criador e intérprete, Roberto Gómez Bolaños, deu vida a Chapolin Colorado, um super-herói que é invocado através dos dizeres “Oh! E agora, quem poderá me defender?”. Chapolin foi idealizado por Bolaños como uma satíra aos heróis estadunidenses cuja aparência está impregnada no imaginário popular até hoje. A série fez muito sucesso nos anos 1970, em toda a América Latina, sendo que no Brasil, em conjunto com a série Chaves, outra criação de Bolaños, foi transmitida pelo canal aberto SBT. Ainda que o último episódio tenha sido exibido há mais de 40 anos, a série continua popular e é transmitida em canais à cabo, além de ser facilmente encontrada no YouTube. 

Chapolin possuía como arma a marreta biônica, uma alusão ao martelo de Thor, e vestia  um uniforme vermelho e amarelo com suas iniciais no peito, como o Super-Homem. O herói latino-americano também possui outros artefatos, como suas anteninhas de vinil, capazes de "detectar a presença do inimigo”, as pílulas de nanicolina que, quando ingeridas, reduzem drasticamente o tamanho do indivíduo por algumas horas e a corneta paralisadora que, quando acionada, congela as pessoas. Chapolin enfrenta inimigos do cotidiano, como ladrões e assassinos, além de seres sobrenaturais, como vampiros, lobisomens e bruxas. Ao contrário dos super-heróis habituais, Chapolin não possui uma aparência atlética e máscula, além de ser medroso, mulherengo e covarde, mas, devido a seu bom coração e disposição sincera em ajudar a quem lhe chama, sempre consegue defender os seus. 

Não sabe-se com certeza quantos episódios foram produzidos, sendo que fontes divergem sobre a quantidade. De toda maneira, algo em torno de 286 episódios foram filmados, incluindo os denominados episódios perdidos (aqueles de que sabe-se da existência, mas cujas gravações desapareceram), episódios inéditos (aqueles sem tradução para o português) e os episódios comuns (cujo acesso é fácil e eram transmitidos pelo SBT).  Os episódios são interdependentes, e em cada um deles Chapolin vive uma nova aventura. Embora alguns personagens sejam corriqueiros nas histórias, como os vilões Alma Negra e Tripa Seca (ambos interpretados por Ramón Valdés) e Poucas Trancas (Rubén Aguirre Fuentes), suas participações são aleatórias e os mesmos atores interpretam personagens diferentes a cada novo enredo. Diversas histórias da literatura clássica foram adaptadas para o universo “chapolinesco”, dentre elas Romeu e Julieta, de William Shakespeare, Fausto, de Goethe, Drácula, de Bram Stoker, Frankenstein, de Mary Shelley, e Pigmaleão, de  George Bernard Shaw

Um dos personagens icônicos da série é o também herói, Super Sam. Interpretado pelo já citado ator Ramón Valdés, Super Sam tem os cabelos e barba grisalhos, um uniforme azul, vermelho e branco, com capa e cartola. Sua língua nativa é o inglês, portanto, fala em espanhol (ou em português, na versão dublada) com um forte sotaque e tem como arma um saco cheio de dólares. Seu bordão é “Time is money, oh, yeah!”, frase que profere sempre que é invocado ou quando concretiza suas intenções. Em uma clara alusão ao famoso Tio Sam, símbolo nacional estadunidense, o personagem satiriza a presença e a influência dos EUA na esfera político-social do México.

Para compreendermos esse cenário, voltemos um pouco no tempo. Em 1961, o governo do então presidente dos EUA John Fitzgerald Kennedy promove o plano intitulado Aliança Para o Progresso. A intenção do programa era criar uma relação econômica com a América Latina que favorecesse a entrada de capital estrangeiro nos países latino-americanos promovendo, por meio de políticas liberais, a subserviência econômica e produtiva aos EUA. A fim de garantir o cumprimento de seus ideais, os EUA financiou e apoiou os golpes militares no Brasil, Chile e Argentina. Os desdobramentos da Guerra Fria e a Revolução Cubana ofereciam aos regimes ditatoriais a desculpa de que a repressão e a violência eram necessárias para combater a ameaça comunista, quando, na verdade, tudo não passava de um processo de reestruturação dos termos produtivos e econômicos em favor dos interesses capitalistas. Segundo a historiadora Priscila de Andrade Rodrigues, 

“[...] concluímos que Aliança para o Progresso foi uma extensa gama de programas econômicos e sociais, que agrupam em um contrato de colaboração, EUA e países latino americanos, fomentando o desenvolvimentismo do continente em troca de alinhamento ao projeto ocidental de economia e política no contexto da guerra. Este processo permitiu aos EUA uma ramificação de departamentos especializados no estudo e levantamentos sobre a América Latina e atuação dos EUA na mesma, gerando documentações e relatórios estratégicos para a hegemonia sólida do poderio imperialista no continente.”

Embora o México não tenha vivido sob um regime ditatorial militar durante os anos 1960 e 1970, o país também era alvo do interesse estadunidense e enfrentava disputas internas derivadas dos ideais capitalista e comunista. Assim, a exemplo do que ocorreu com as fronteiras vizinhas, as elites mexicanas firmaram acordos com os EUA a fim de manter-se no poder, garantir a hegemonia ianque e dissipar a ameaça comunista. Nesse contexto, a Televisa, o sistema de televisão responsável pela produção dos programas Chapolin Colorado, Chaves e de diversas novelas, nasce e concretiza seu poderio. Assim como outros segmentos empresariais da época, a Televisa originou-se a partir de um esquema político de monopolização de empresas menores de televisão e consolidou-se como um difusor de interesses e valores das elites mexicanas e, claro, dos ideais e interesses estadunidenses. 

Diante dessa breve contextualização, analisemos o caso do personagem Super Sam. Apesar de ser conhecido no universo de Chapolin Colorado, Super Sam aparece apenas em quatro episódios durante a série, sendo o primeiro deles intitulado De los metiches, libranos, señor!, de 1973. Nessa história, ambientada em uma residência rural no México, o personagem russo Dimitri Panzov (Édgar Vivar) deseja se casar com uma simples camponesa (Florinda Meza), cujo nome não é citado. A camponesa recusa as investidas do pretendente, mas, diante do assédio e da insistência de Dimitri, entoa o famoso bordão “Ó! E agora, quem poderá me ajudar?” e, para sua surpresa, invoca o Super Sam, não o Chapolin. Ao notar a presença do herói estadunidense, a camponesa agradece sua disponibilidade e diz que prefere um dos seus e só então, Chapolin aparece. 

Bolaños era declaradamente anticomunista, católico e pertencia a uma família conservadora e bastante abastada. Por ser o criador, roteirista e intérprete do Chapolin Colorado, pode-se afirmar que através desse episódio visualizamos seu posicionamento diante dos conflitos gerados pela Guerra Fria e dos embates comunismo vs capitalismo. Dimitri, autoritário e indesejado, claramente representa a Rússia, assim como Super Sam, os EUA. Ambas as nações são indesejadas em território mexicano, o que pode ser expressado pela fala da camponesa ao dizer que prefere um dos seus e obviamente pela postura de Dimitri, rejeitado desde o início do episódio. No final, Chapolin acaba por apertar um detonador e explodir a casa onde Dimitri e Super se encontram, sugerindo o quanto ambos são incômodos, embora o primeiro seja um pouco mais indesejado, visto que ele é o vilão, enquanto o segundo permanece como herói. Em todos os episódios, a dinâmica entre Chapolin e Super Sam é sempre a mesma: alguém profere o famoso bordão de invocação do Chapolin, mas quem aparece é Super Sam; o personagem diz que prefere um dos seus e então Chapolin entra em cena. Os dois brigam e causam confusões entre si, mas sempre estão do mesmo lado e lutam pelo mesmo ideal. Esse posicionamento, combinado às convicções pessoais de Bolaños, sugere que a presença estadunidense era uma espécie de mal necessário visto que ela era a única capaz de afastar os ideais comunistas e oferecer os ideiais de mundo desenvolvido segundo os padrões capitalistas. 

No episódio Historia de uma vieja mina abandonada que data del siglo XVII y que está a punto de derrumbarse, de 1976, Chapolin e Super Sam dividem o protagonismo novamente. A missão dessa vez é salvar uma moça (Florinda Meza) que está amarrada dentro de uma mina abandonada prestes a ser explodida por um vilão. Ao surgir de maneira intrometida, Super Sam é surpreendido pela fala da moça, que afirma: "Não queremos heróis importados. Por isso temos Chapolin que é o herói da América Latina. Não importa que seja tonto, burro, fraco, baixinho, feio, etc. etc. etc.”. Super Sam apronta algumas peripécias com Chapolin, mas quando a situação se complica, diz que recebeu um chamado da Califórnia e foge. Outro momento interessante é quando, para despistar seu companheiro, Chapolin diz que há ouro na mina, ao que Super Sam abandona tudo e vai atrás do metal. Esse episódio sugere mais uma vez o caráter abelhudo da intervenção estadunidense assim como denuncia sua índole gananciosa, aspecto que, obviamente, é marcado pelo bordão do personagem e pelo fato de sua arma ser um saco de dólares. Mais uma vez, apesar das discordâncias, Super Sam continua sendo um herói. 

Super Sam aparece em mais dois episódios, sendo eles Todos caben em um cuartito, sabiendólos acomodar, de 1977, e El retorno de Super Sam, de 1978. Os dois episódios reforçam os conceitos já mencionados anteriormente sobre a personagem e sua relação com Chapolin. Entretanto, é interessante notar que no episódio de 1978, ao ser indagada sobre quem é Super Sam, uma das personagens responde que o herói é uma espécie de Chapolin com conta bancária, sugerindo novamente uma forte relação entre os EUA e o poder financeiro, ou, o capital. 

Bolaños afirma, em entrevista concedida em 1976, que Chapolin era “una sátira a esos superheroes [...] tipo Batman, Superman etc. Que hablan ingles, que son importados. Yo no digo que Chapolin es mexicano. Es ibero-americano”. Ao dizer que Chapolin era tratado como uma sátira e considerando as posições políticas de seu criador, concluímos que a intenção de Bolaños com o personagem não era servir uma crítica ao poderio ideológico e econômico dos Estados Unidos sob o México, mas sim representar o humor unicamente como humor, entreter o público, posição que afirma em entrevistas. Ainda que Bolaños declarasse e enxergasse sua obra como apolítica, é inevitável que os ideias da época e de si próprio fossem projetados. 

O curioso é: embora Bolaños fosse abertamente anticomunista, católico e conservador, Chapolin Colorado pode ser facilmente lido enquanto um personagem de cunho revolucionário e anticapitalista, se ignoradas as convicções de seu criador. Até mesmo sua vestimenta vermelha, cor tão associada a tais grupos, foi apenas uma coincidência, visto que outras cores haviam sido cogitadas, mas não se adequavam bem aos truques de chroma key. Com certeza não contamos com os movimentos friamente calculados e a astúcia de nosso saudoso herói. 

Referências 

  • Entretenimento ou projeto de esquecimento? A turnê de espetáculos das séries Chaves e Chapolin Colorado no Chile (1977) (Priscila de Andrade Rodrigues)
  • O México profundo sob o olhar do México imaginário: conflitos culturais e políticos em Chapolin Colorado (1970-1979) (Priscila de Andrade Rodrigues)
  • “Oh, e agora, quem poderá me ajudar?”: surge o herói paródico Chapolin Colorado (Patricia Vieira da Silva)
  • Movimentos friamente calculados: política, televisão e cultura em Chapolin Colorado (1970-1979) (Priscila de Andrade Rodrigues)
  • El chavo y la vencidad en Chile año 1977


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Victória Haydée
Sul-mato-grossense, cientista social por formação e escritora por vocação. Vampira oitentista fã de new wave.

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