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Mr. Darcy é autista?

É necessário começar este artigo dizendo que isto não é, de modo algum, um anacronismo. Embora pessoas autistas não fossem reconhecidas pela sociedade da época de Jane Austen, elas sempre existiram - mas eram tratadas como estranhas, antipáticas ou idiotas. Sendo assim, e dado o fato de que Austen, como outros escritores ao longo do tempo, baseou muito de seus escritos em pessoas e situações da vida real, existe a possibilidade de que Mr. Darcy - seu grande herói romântico - tenha sido inspirado em uma (ou mais) pessoa autista. 

O autismo é formalmente chamado de Transtorno do Espectro Autista, tratando-se de um padrão neurológico divergente. Em alguns casos, pode ser mais intenso e refletir-se em questões motoras, mas, os níveis mais amenos são caracterizados, basicamente, por inabilidades sociais dado o fato de que a pessoa autista compreende o mundo de uma maneira diferente. Tal compreensão a faz ser literal, por exemplo, enquanto as pessoas não-autistas utilizam ironia, sarcasmo e metáfora em sua comunicação diária. A ideia de cura do autismo é parte de um pensamento eugenista, e não deve ser incentivada. O grau mais leve de autismo era chamado de Síndrome de Asperger, todavia, devido ao fato de que o homem que a estudou e nomeou, Hans Asperger, ter sido nazista e eugenista, hoje em dia usa-se somente o termo "autista" para todos os graus, desde os mais leves até os mais intensos. 

A primeira vez que o termo "autismo" foi publicado aconteceu em 1943, pelo neurologista e pediatra Leon Kanner. Em seu artigo intitulado "Autistic disturbances of the affective contact", Kanner explanou os casos de 11 crianças que, embora muito inteligentes, possuíam dificuldades sociais, tais como problemas de comunicação literal, falta de interesse sociais, falta de espontaneidade, seriedade (para além do esperado na idade) e inabilidade social. Com o tempo, descobriu-se que nem todas as pessoas autistas apresentam os mesmos padrões - por isso, hoje entende-se o autismo como um espectro, no qual o indivíduo pode ter mais dificuldades em certos aspectos do que em outros. De qualquer forma, onde quer que se esteja no espectro, se a pessoa apresentar determinadas características, ela será considerada autista. 

Se olharmos para Orgulho e preconceito numa visão irônica, poderemos entender Mr. Darcy como alguém tão orgulhoso que não consegue sair de sua bolha - o que causa diversas situações constrangedoras ao longo do livro, especialmente já que os sentimentos das personagens não acompanham suas situações sociais. Contudo, se olharmos para o que Mr. Darcy fala de maneira literal, encontraremos um homem que possui dificuldades imensas e genuínas para expressar-se, portar-se e entender seus próprios sentimentos e os dos outros. Toda leitura é um reflexo de nós mesmos - não é possível viajar no tempo e conversar com Jane Austen para entender suas referências o que ela pensaria daquilo que falamos de suas obras -, mas um assunto tão relegado ao longo dos séculos como a saúde mental merece pelo menos alguns minutos de nossa atenção ao olharmos para o passado. 

Jane Austen

O autismo em Orgulho e preconceito 

Desde o início do livro, é possível perceber que há algo diferente em Mr. Darcy. Ele é tido como arrogante, convencido, mal-educado e antipático. Conforme a história avança, descobrimos que ele apenas não sabia ao certo se comunicar com as pessoas à sua volta - permitindo que somente seus amigos mais próximos lhe conhecessem bem o suficiente para saberem que ele é, na verdade, uma pessoa querida, muito leal e justa. 

Darcy parece incapaz de compreender que Elizabeth o odeia. Ela passa boa parte do livro lhe mandando sinais não-verbais de que está, no mínimo, desconfortável com sua presença, mas ele ele não consegue enxergar nenhum deles. Isso, de acordo com o espectro autista, pode ser explicado pela incapacidade de entender o que não é explicado de forma clara e verbal. Ao ter seu pedido de casamento rejeitado, Mr. Darcy pede que Elizabeth lhe explique por que ela o rejeitou, o que ela não gosta nele. 

Uma pessoa neurotípica teria percebido isso de cara, pois não é como se Lizzie fizesse questão de esconder o ranço que sentia por ele. Mas para Mr. Darcy, enquanto lido dentro do espectro autista, essas interações eram coisas dentro do absoluto normal: longe de ser algo hostil contra ele, se Elizabeth não aceitava dançar era porque ela não se sentia com vontade de dançar - não necessariamente com ele, mas com qualquer um. Na próxima vez em que se encontram num baile, a pergunta muda para "Você sente vontade de dançar?" - pois isso foi o que Mr. Darcy registrou da última conversa que teve com ela a respeito de dança. Ele demonstra, assim, que se preocupa com a vontade dela, que se lembra perfeitamente da expressão que ela havia utilizado (outra característica que alguns autistas apresentam: a excelente memória) e que não havia entendido que ela estava apenas sendo suficientemente educada para sair de uma situação que lhe causava desconforto sem dizer na cara dele que não o suportava. Além disso, pensando em outro exemplo que não a interação direta entre Mr. Darcy e Elizabeth, ele também possui uma dificuldade imensa para perceber os sentimentos de Jane por seu amigo, Mr. Bingley, o que culmina no desastroso conselho que ele deu ao outro, tentando salvá-lo de um casamento sem amor - sendo que Jane demonstrava seu afeto visivelmente, mas de maneira tímida. Porém, Mr. Darcy, como alguém que não consegue reconhecer sentimentos direito, não soube processar o interesse apaixonado, mas sutil, de Jane como amor. 

Orgulho e preconceito (2005)

Visto como alguém arrogante, ao analisarmos com cuidado os comportamentos e falas de Mr. Darcy no livro, podemos perceber como, ao contrário de sua tia, Lady Catherine de Bourgh, por exemplo, o que o move não é um sentimento inato de superioridade - embora ele saiba muito bem quem é dentro da sociedade, a questão é essa. Ele não tenta ofender as pessoas ou "colocá-las em seu lugar" - apenas expressa sua visão de mundo tal qual lhe foi ensinado, através de uma educação rígida repleta de morais da época. O que é ou não adequado era sabido por todos - e ele se baseia por isso. Uma jovem não poderia ser chamada de prendada caso não soubesse pintar, bordar, tocar o piano etc. Não é que ele despreze as outras, mas, sim, que a regra social é essa. Sua dificuldade em entender os espaços cinzentos da sociedade lhe faz agarrar-se ainda mais às regras. Ele não consegue ler as pessoas direito e verdadeiramente não entende por que há quem se ofenda com seu comportamento, que está dentro de todas as regras. 

Mr. Darcy também tem dificuldades em entender as segundas intenções das pessoas. Todo seu relacionamento passado com Wickham é baseado nisso - embora o outro provavelmente tenha se mostrado alguém com sua própria agenda fora dos princípios esperados da sociedade e da educação na época, Darcy, como um indivíduo que vive de forma clara e direta, não estava esperando por aquilo. Quando tudo acontece, é um choque. Ele não sabe lidar com Wickham, tentando racionalizar a situação. Ao encará-lo novamente, é difícil para Darcy verbalizar seus sentimentos - coisa que ele só consegue através de uma carta, o que é outra característica autista: a necessidade de organizar os pensamentos e sentimentos de forma visual, seja através da escrita ou de outra maneira, para que eles possam ser explanados. 

Orgulho e preconceito (2005)

Darcy vive de acordo com as regras sociais: como não entende direito os motivos interiores das pessoas e não sabe identificar ou lidar com emoções, ele tomou por guia as estritas regras da época. É comum que a pessoa autista observe atentamente o mundo ao seu redor, tente compreender os padrões de comportamento e crie regras para si de acordo com o que apreendeu. Quando alguém sai dessas regras - como a família Bennet, por exemplo -, a pessoa autista pode se sentir extremamente desconfortável, interpretando aquilo como algo bizarro e perturbador, o que a leva a se afastar, pois é difícil encontrar um outro padrão quando já existe um estabelecido. 

As amizades podem ser um campo confuso para pessoas autistas. Certamente o são para Darcy - ele não tem muitos amigos; de fato, o único amigo realmente próximo dele é Mr. Bingley. Todavia eles não têm muito em comum. Mas o que define bem seu relacionamento é a maneira como Bingley é gentil por natureza, e não julga Darcy, aceitando as pessoas como elas são. Enquanto grande parte da sociedade enxerga a pessoa autista como alguém antipática ou arrogante à primeira vista, são pessoas gentis e sem pré-julgamentos que conseguem lidar melhor com alguém neurodivergente. Sem a gentileza e a falta de julgamento concebido apenas pela aparência, seria impossível para uma pessao autista ter amigos - assim como o que acontece com Mr. Darcy. 

Orgulho e preconceito (1995)

Embora Darcy esteja interessado em Elizabeth e queira se aproximar dela, ele não sabe fazer isso direito. Então, ainda que tenha deixado claro desde o início que não gosta de dançar, pede para dançar com ela. Quando dançam, Darcy não sabe ao certo o que fazer além da dança em si - é desconfortável para ele, está fora de sua zona de conforto e, como muitos autistas, ele não sabe ter uma conversa fiada. Elizabeth, constrangida pelo silêncio da dança, dá dicas de quais tópicos seriam adequados para eles se entreterem - mas Darcy não pega dica alguma, dizendo aquilo que lhe é mais verdadeiro: que o silêncio seria preferível. Ele não entende que aquilo cortou totalmente o flerte naquele momento, está apenas dizendo a verdade e se comportando de acordo com o que a norma social dita: se gosta de uma garota, a convide para dançar e seja cavalheiro. 

É comum que pessoas autistas sintam-se mais à vontade em casa. Isso também acontece com Mr. Darcy. Quando Elizabeth visita Perberley com seus tios e encontra Darcy por lá, ela é surpreendida pelo fato de que ele parece muito diferente. Isso porque, agora, ele está amigável e não parece mais aquele sujeito orgulhoso que ela conhecera. Sem precisar das máscaras sociais e da preocupação constante em representar o papel de perfeito cavalheiro dentro das rígidas regras sociais da época, Darcy fica tranquilo. Estando tranquilo e cercado por pessoas que o conhecem desde pequeno - e o consideram alguém muito gentil e fácil de lidar -, ele pode relaxar e se permitir ser quem é. 

Autistas são conhecidos por não gostarem de mudanças. A rotina é algo muito importante para eles. Mas além disso, eles também raramente mudam de opinião. Isso porque a pessoa autista analisa meticulosamente uma situação. A partir do momento em que ela se decide a respeito de algo, aquela será sua decisão para sempre - ou, pelo menos, por um bom tempo, até que surjam fatos concretos que a façam reavaliar seu pensamento acerca daquela questão. Uma das frases mais famosas ditas por Mr. Darcy em Orgulho e preconceito é: "Minha boa opinião, uma vez perdida, está perdida para sempre". Isso é muito autista. No aspecto romântico, a partir do momento em que se dá conta de seus sentimentos por Elizabeth e do quanto eles são verdadeiros, ele sabe que quer casar com ela. Isso não vai mudar. Ela pode rejeitá-lo, o tempo pode passar, mas aquilo é fixo, é uma decisão - e Darcy não tende a mudar de opinião. Ele é constante, ele é leal - o que é um traço do espectro autista. 

Uma das maiores dificuldades que pessoas autistas encontram no dia a dia é lidar com o excesso de estímulos sensoriais. Pode ser terrível - ou mesmo verdadeiramente doloroso - estar no meio de uma multidão, com muitos cheiros, vozes, toques, tudo ao mesmo tempo. Festas, nesse sentido, são difíceis. Não é à toa que Mr. Darcy sente-se horrível em bailes. Além dos estímulos sensoriais - pessoas, vozes, música alta, dança -, ele encontra-se numa cidade desconhecida, cercado por pessoas que ele não faz ideia de quem sejam, mas que querem sua atenção, querem conversar sobre trivialidades, querem que ele seja adorável. Ele, desconfortável, precisa lembrar-se de todas as regras sociais e tentar segui-las rigidamente para não ser estranho - mas não consegue ir além disso. Socializar é um inferno para ele. 

Orgulho e preconceito (2005)

A questão a respeito do possível autismo de Mr. Darcy é que ele não muda - não realmente. O que acontece é que o tempo passa. Com a passagem do tempo, Elizabeth tem mais possibilidade para conhecê-lo e entender suas motivações, sua maneira de pensar e agir. Ela compreende que Darcy não entendia as questões mais delicadas dos sentimentos envolvidos na história e que tentou, genuinamente, fazer o melhor. Quando ela explica para ele seu ponto de vista, Darcy imediatamente retira-se e encontra maneiras de consertar tudo o que havia feito de errado. Isso não aconteceu porque ele mudou (o que seria um indicativo contra o possível autismo, já que a pessoa autista não vai deixar de ser autista com o tempo), mas sim porque alguém lhe explicou racionalmente o que ele havia feito de errado. Assim, ele pôde compreender a situação sob a perspectiva de alguém que decifra melhor os caminhos sociais e sentimentais do que ele. Da mesma forma, Elizabeth não ficou com Darcy porque ele se tornou melhor ou diferente, mas sim porque percebeu que ele era um homem justo que realmente a amava e estava mais preocupado em reconhecer seus erros e repará-los do que com reputação, convenções sociais ou mesmo sua fortuna. Ela, então, soube aquilo que Bingley já sabia muito bem. 

Claro: Darcy é apenas uma personagem (por mais que queiramos que ele seja real). E uma personagem escrita num século distante do nosso. Certamente Jane Austen não o escreveu com a intenção de fazê-lo parecer autista. Todavia é sabido que ela era uma observadora muito sagaz, e que suas personagens e situações eram, por vezes, tiradas da vida real e melhoradas através de seus olhos de boa romancista. Pessoas autistas (e neurodivergentes, no geral) sempre existiram. Se Mr. Darcy exibe tantas características dentro do espectro, isso significa que ele é uma personagem autista? 

Não significa. Em literatura, tudo é interpretação. Mas enxergá-lo sob essa ótica abre diversas possibilidades - e, inclusive, pode levar a um maior entendimento da pessoa autista. Seja como for, seguimos amando Orgulho e preconceito e considerando Mr. Darcy um dos nossos personagens favoritos. 

Referências 

  • Austen and autism: reading brain, emotion and gender differences in Pride and Prejudice (Mikhal Dekel) 
  • Spatial anxiety: adapting the social space of "Pride and Prejudice" (Christina Neckles)
  • Autism Spectrum Disorders: looking backward and looking forward (Michael Rutter) 
  • Asperger's syndrome: from Asperger to modern day (Ami Klin) 
  • Adolescents and adults with Autism Spectrum Disorders (Marsha Mailick Seltzer, Jan S. Greenberg, Julie Lounds Taylor, Leann Smith, Gael I. Orsmond, Anna Esbensen, Jinkuk Hong) 


Mia Sodré
Mestranda em Estudos Literários pela UFRGS, pesquisando O Morro dos Ventos Uivantes e a recepção dos clássicos da Antiguidade. Escritora, jornalista, editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre e faz amizade com todo animal que encontra.

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