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A seca como personagem em Vidas Secas, de Graciliano Ramos


O romance de 30, ou o neorrealismo, como foi chamada a 2ª fase do modernismo brasileiro, é uma literatura que questiona a sociedade da época e tudo o que está ligado à problemática social enfrentada pela população brasileira da primeira metade do século XX, impulsionando os leitores a observar as tribulações destacadas em todas as regiões do país. No entanto, apesar de focalizar em uma região específica do Brasil, não é apenas regional, mas nacional, pois é uma literatura que trata de matérias recorrentes a todos, em todos os tempos.

A seca na região Nordeste do Brasil é um dos grandes problemas enfrentados durante todas as épocas, desde o Brasil Colônia (1530 a 1822). No ano de 1915, ano este que gerou para a literatura nacional o romance O quinze, de Rachel de Queiroz, obra que também traz a seca como elemento condutor do romance, ocorreu uma das maiores escassezes de água já vistas, assim como nos anos 1877 e 1932. O que há em comum nestes três anos é que milhares de sertanejos migraram para os entornos de centros urbanos, como, por exemplo, Fortaleza, capital do Ceará, estado mais afetado pela estiagem.

Em Vidas secas, publicado em 1938, Graciliano Ramos relata, de forma escassa e sólida, umas das maiores catástrofes da seca que assola o sertão nordestino, e que se perpetua por tempo suficiente para desesperançar todos os habitantes locais. Graciliano desafia o leitor a mergulhar na seca que avassala a vida de Sinhá Vitória, Fabiano e os dois filhos do casal, o menino mais velho e o menino mais novo, em um tempo e época em que ninguém conhecia o sabor da água.

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.

Os opostos intitulados


O título “Vidas secas” nada mais é que a comunicação dos opostos. As palavras "vida" e "seca"’ postas uma ao lado da outra nos permite compará-las: vida é o que existe entre nascimento e morte, o que mantém o ser humano em movimento. Já seca é o oposto, pois se trata da morte, de algo acabado. As coisas, como disse Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático, só existem porque existem seus opostos, daí o título da obra ser um antagonismo necessário para construir a narrativa, pois a família da história é o que mantém a trama acontecendo, é o que dá sentido à ambientação já morta. E a seca é o que assola esta família, impedindo-os de ver esperança, de ver um recomeço.

Porém, sendo a seca muito mais potente que a vida humana, pois a natureza é superior ao homem, é ela quem ditará as regras. Diferente de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e Os sertões, de Euclides da Cunha, dois escritores modernistas que também trabalharam a temática do sertão, a seca não é uma coadjuvante que só enfeita, que orna o cenário, que está ali para ressaltar a epopeia vivida pelas personagens. Não. A seca é a grande protagonista da obra que racha e arrasta a infertilidade humana, e Graciliano mostra isso muito bem:

Olhou a caatinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo - anos bons misturados com anos ruins.

Graciliano Ramos

Uma palavra, uma metáfora


A natureza infértil, isto é, a seca, estabelecida por Graciliano na obra, nada mais é que uma metáfora. A personagem Baleia, a cadelinha da família, mostra-nos, através de pensamentos, vasto conhecimento de mundo, superior ao dos outros personagens, pelo menos se tratando de vocabulário. Já as personagens humanas pouco falam e, quando o fazem, em sua maioria utilizam de onomatopeias, murmúrios e gemidos, e/ou frases curtas, que indicam o que querem dizer, o que justifica a escolha do autor de colocar uma terceira pessoa para narrar a obra, alguém que tudo sabe, alguém para jogar palavras nas bocas das personagens, já que os protagonistas não possuem opinião crítica sobre os acontecimentos. Eles apenas seguem o caminho traçado por um terceiro, quase como marionetes. Essa obra jamais existiria se a narração fosse feita por Fabiano, por exemplo.

Vemos aqui a animalização do ser humano e, consequentemente, a humanização dos animais, já que a vida levada pelas personagens não difere muito da vida levada pelos animais. Então os humanos são tão animalizados que os animais são quase mais humanos que os próprios humanos, pois Graciliano nos apresenta, desta forma, não apenas uma escassez geológica, mas de conhecimento, de palavras, por parte das personagens humanas. Vemos, por isso, o local social em que o homem se encontra: à margem da sociedade, por estar no sertão; e à margem da vida, por viver num solo infértil, sem promessas de melhora. Longe dos centros urbanos, longe de uma melhora de vida, a estiagem seca não somente o sertão, mas suas palavras, suas mentes.

A chave tilintou na fechadura, e Fabiano ergueu-se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando:

- Hum! hum!

Feminino infértil


A personagem feminina cujo nome inicia com o pronome de tratamento "sinhá" (senhora) seguido do nome de batismo "Vitória", é apresentada pelo autor como uma mulher forte e, assim como a protagonista da obra, a seca, é a condutora do restante das personagens. Mesmo à margem da sociedade, é Sinhá Vitória quem “segura as pontas” em casa: sacia a fome dos filhos, mesmo à custa do papagaio, bicho de estimação da família, e toma a atitude de lutar por uma melhora da realidade atual destes. Ou seja, assim como é a seca que comanda a obra e dá continuidade a tudo, é Sinhá Vitória, esta representada pela fertilidade, pela vida, quem faz a trama seguir um caminho e, consequentemente, chegar a um fim. Sinhá Vitória é, por isso, o antagonismo da seca; aquela que luta pela chuva. Temos aqui uma obra que relata a batalha entre a vida e a morte.

Assim como a trama encerra fechando um ciclo, cada capítulo também o faz, pois são independentes, mostrando que a aridez não possui um fim concreto: começa e termina em um momento, para poder reiniciar em outro. Daí a ideia de desesperança apresentada nos parágrafos anteriores deste texto: se não há um fim, não há melhora de vida. A vida do sertanejo é uma espiral.

Uma possível coadjuvante


Ao relatar a seca nordestina, o autor não necessariamente fala de aridez. A obra pode ser muito bem interpretada como uma metáfora para uma vida difícil, dura, seca: personagens à margem da sociedade que nadam numa pobreza desesperançada; a caatinga que enfeita suas mentes secas de vocabulário; a fala rasa e rachada por uma terra que não possui um único broto. Graciliano utiliza da ambientação para comparar seus personagens à tal. Nosso querido escritor alagoano não estava interessado no clima, mas na úlcera que é ser humano.


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