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A Feiticeira: a delicada magia da submissão (ou da subversão?)


A feiticeira (Bewitched) foi uma sitcom estadunidense estreada no dia 17 de setembro de 1964. Pelo sucesso de audiência, estendeu-se por 8 temporadas, ficando no ar até 1972. No primeiro episódio da primeira temporada, intitulado Casei-me com uma feiticeira (I, Darrin, take this witch), somos apresentados a Samantha (Elizabeth Montgomery), a feiticeira, e a Darrin Stephens (interpretado pelo ator Dick York, a personagem teve seu nome mudado para James na versão em português da série), um publicitário em crescente sucesso. Durante a noite de núpcias, Samantha revela a Darrin que é uma bruxa, mas o homem não acredita no que lhe é contado. Após uma série de demonstrações de seu poder, que se evidencia majoritariamente pelo movimento de seu nariz, Darrin finalmente toma as palavras da esposa como verdadeiras, e diz que pode conviver com isso, desde que ela deixe de praticar bruxaria. Somos apresentados também a Endora (Agnes Moorehead), a extravagante e magnífica mãe de Samantha, que contesta a escolha da filha de se casar com um reles mortal.

No segundo episódio da primeira temporada, Cheia de truques (Be it ever so mortgaged), conhecemos uma personagem importante da trama, Gladys Kravitz (Alice Pearce), a vizinha bisbilhoteira de Samantha. Casada com Abner Kravitz (George Tobias), Gladys está sempre observando a casa dos Stephens e, frequentemente, presencia os feitiços de Samantha. Quando comunica ao marido as estranhezas que acontecem na casa ao lado, Abner sempre a julga como doida e a faz tomar remédios para se curar, recomendando inclusive que a esposa procure um médico. O pai de Samantha, Maurice (Alfred Herbert Evans), aparece em alguns episódios e, a princípio, também reprova o fato de a filha ter se casado com um mortal. Os pais de Darrin, Phyllis (Mabel Albertson) e Frank Stephens (David James Elliott), e a querida e doce tia Clara (Marion Lorne), uma bruxa idosa da família de Samantha, também aparecem esporadicamente. Larry (David White) e Louise Tate (Irene Vernon) são os melhores amigos do casal e sempre figuram nos episódios. Assim, no decorrer da trama é documentada a vida doméstica de Samantha, bem como os dias cansativos e atribulados de Darrin na McMann&Tate, a empresa de publicidade onde trabalha e que é comandada por Larry.

O ponto de partida da série se refere à proibição de Darrin em relação às práticas de bruxaria de Samantha. No quarto episódio da primeira temporada, Todas as sogras são bruxas (Mother meets what's-his-name), Endora conhece o genro e fica enfurecida ao saber as suas exigências,  argumentando que ele não pode exigir que a filha seja algo que ela não é. Samantha rebate dizendo que agiu de vontade própria ao concordar com as exigências do marido. O nome do episódio em inglês, que em tradução livre seria algo semelhante à Mãe, conhece qual-seu-nome, refere-se ao fato de Endora sempre proferir o nome de Darrin errado, ou sempre perguntar qual é o nome dele. Isso não ocorre por ela ter esquecido como o genro se chama, mas sim como um sinal do desprezo que sente pelo mortal que ousa proibir sua filha de praticar bruxaria.

Samantha é uma esposa magra, branca, loira, que sempre carrega um sorriso no rosto, uma palavra cordial, e está pronta para cuidar do marido e zelar pela casa. Sua vida no subúrbio é ocupada apenas pelos afazeres domésticos, enquanto o marido trabalha na cidade grande, o que retrata perfeitamente o Modo de Vida Americano (American Way of Life), um ideal tão difundido e almejado pela sociedade, especialmente nos anos 1960. Ao abdicar do uso de seus poderes, Samantha também abdica ser quem ela é em favor dos desejos do marido, realizando o trabalho doméstico e reprodutivo para que ele possa crescer enquanto publicitário, o que pode ser comparado ao fato de que diversas mulheres abriam mão da própria carreira profissional, por exemplo, uma pauta bastante discutida pelo movimento feminista da época.

Algumas mulheres que trabalham na McMann&Tate como secretárias, executivas ou modelos para as campanhas publicitárias são mostradas às vezes, mas são retratadas ora como insignificantes, ora como perversas e sedutoras, dispostas a destruir os casamentos alheios. No décimo primeiro episódio da primeira temporada, Enfeitiçado? (It takes one to knows one), Darrin quase trai Samantha com uma modelo elegante e sensual que está trabalhando em uma campanha da empresa. Depois de algum tempo investigando, com a ajuda de sua mãe, Samantha descobre que a mulher em questão também é uma bruxa, e que seu nome é Sara. Sara, aliás, fora contratada por Endora para que ela enfeitiçasse Darrin e, assim, ele traísse a esposa. Ou seja, um marido honesto e devoto jamais faria isso, mas, caso ele fizesse, não seria culpa dele, afinal as mulheres são muito sedutoras e convincentes quando querem. Ainda no âmbito do trabalho, as esposas dos executivos, Samantha e Louise, jamais exercem funções profissionais fora de seus lares, visto que isso não competia ao papel de esposas-modelo. 

Observe que, na abertura da série, vemos Samantha voando em sua vassoura e aterrissando diretamente na cozinha, terminando no colo de seu marido; ou seja, ela só pode ser essa mulher graciosa e harmônica, única e exclusivamente por causa da escolha que a tornou uma devota dona de casa, sempre disponível para o marido e, mais adiante, mãe.

A feiticeira (1964)

Salta aos olhos o fato de que nenhuma mulher negra, ou mesmo homens negros, é apresentada na série. Tomando como base o livro escrito por Angela Davis, Mulheres, raça e classe, é possível identificar que essa exclusão acontece porque a vida retratada no seriado não competia à rotina das mulheres negras. Ser dona de casa no subúrbio, cuidar dos filhos e do marido era um "privilégio" que não era parte do mundo ou dos sonhos das mulheres negras, já que elas estavam trabalhando não apenas no âmbito doméstico, mas também fora dele, ao passo que não gozavam da mesma segurança econômica que as mulheres brancas. Segundo Angela Davis: 

“Como consequência direta do seu trabalho fora de casa - tanto como mulheres 'livres' quanto como escravas - as mulheres negras nunca tiveram como foco central de sua vida as tarefas domésticas. [...] Embora raramente tenham sido “apenas donas de casa” elas sempre realizavam tarefas domésticas. [...] Assim como seus companheiros, as mulheres negras trabalhavam até não poder mais. Assim como seus companheiros, elas assumiram a responsabilidade de provedoras da família. [...] as esposas e mães negras, geralmente também trabalhadoras, raramente puderam dispor de tempo e energia para se tornar especialistas na vida doméstica.”

Apesar da proibição do marido, Samantha não deixa de usar seus poderes definitivamente, mas os utiliza sempre escondida de Darrin, tirando as ocasiões em que brigam e apela à bruxaria como forma de enfrentá-lo, ou salvo pequenas exceções, mas sempre restritas ao ambiente doméstico. Afinal de contas, a esposa até pode ir contra os desígnios do marido, às vezes, desde que o círculo social não o saiba, para não enfraquecer sua imagem de líder e provedor do lar. 

No quinto episódio da primeira temporada, Ajude-me se não puder (Help, help, don't save me), Samantha ajuda Darrin a desenvolver alguns conceitos para uma campanha publicitária na qual está trabalhando. Ele os julga bons, mas rapidamente muda de ideia e acusa Samantha de ter praticado bruxaria, pois, somente assim, ela poderia ter tido tão bons insights. Indignada, uma Samantha invisível faz as malas e sai de casa. Darrin somente acredita na esposa após as ideias dela também serem recusadas pelo contratante da campanha, o que o faz acreditar que ela realmente não usou bruxaria, já que os conceitos eram tão ruins quanto os dele. Ou seja, Samantha, uma mulher, não poderia ter as mesmas faculdades mentais de Darrin, um homem, de forma "natural"; portanto, se ela fracassou é porque dizia a verdade. Darrin não permite que Samantha use seus poderes porque ele se sente inferior à esposa quando ela o faz, visto que praticamente não há limites para seus feitos. 

Em diversos momentos, quando Samantha faz algo extraordinário aos olhos do marido, ele a acusa de ter praticado feitiçaria, insinuando que, se não fossem suas práticas sobrenaturais, ela não seria capaz de se destacar em relação a ele. Samantha sempre usa seus poderes para resolver a vida doméstica a fim de entregar a casa arrumada, a janta preparada, e ela mesma, perfumada e com o vestido mais bonito do armário, ao marido que chega cansado do trabalho. Obviamente, Darrin não fica sabendo dessa parte da história, mas a mensagem é evidente para a dona de casa que assistia a série na época: ainda que você não seja uma feiticeira, aja como uma e dê sempre um jeitinho de cumprir todas as suas obrigações do dia, não importa o quão extenuantes e difíceis elas sejam.

No décimo sétimo episódio da primeira temporada, A magia das coisas simples (A is for aardvark), Darrin admite que o seu ego é o culpado por ele reprovar as práticas da esposa, já que ele não quer que ela tenha nada que ele não possa dar. Ele é o típico caso do marido que não bate e nem trai a esposa, não deixa faltar nada dentro de casa para ela e os filhos em termos materiais e econômicos, mas exerce outras formas mais sutis de abuso. Conservador, a personificação da meritocracia e da moral cristã, Darrin acredita que tudo deve ser conquistado com muito esforço e trabalho a fim de reafirmar o seu próprio valor enquanto homem.

Samantha podia se livrar de Darrin se quisesse, visto que ela era muito mais poderosa que ele, mas não o fazia porque os problemas maritais, segundo suas convicções, sempre podem ser resolvidos com amor. Ainda que saiba do poder da esposa, isso não é o suficiente para impedir Darrin de tentar controlá-la, porque ele tem certeza de que ela não ousaria desafiá-lo de maneira agressiva. Em algumas situações, as mulheres não têm os meios necessários para se livrar de relacionamentos abusivos, mas há casos em que, mesmo tendo condições financeiras e uma rede de apoio, elas não conseguem se desvencilhar dos parceiros devido a fatores como dependência emocional e a crença de que os homens agem da maneira como agem porque lhes é natural. Afinal de contas, tem-se a ideia de que o amor pode curar todas as feridas. A criação social das mulheres constrói uma percepção que as acorrenta psicologicamente a relacionamentos desgastantes e ruins. Da mesma forma, as leis existentes a respeito da violência contra a mulher, embora extremamente importantes, pouco impedem que os homens continuem as matando, as estuprando ou cometendo abuso psicológico, porque essas são externas às suas vidas, e pouco influenciam na ideologia social fixada no imaginário masculino quanto ao seu suposto papel de superioridade.

Durante a série, mulheres solteiras por nunca terem se casado, divorciadas ou viúvas, são retratadas como seres incompletos, ou seja, precisam encontrar um marido para preencherem suas vidas. Por não estarem sob a supervisão masculina, são mostradas como rebeldes, desmioladas, perdidas e desequilibradas. Gladys, a vizinha dos Stephens, embora estivesse casada há anos com Abner, é tachada como louca e desequilibrada porque conta o que observa na casa de Samantha ao marido, este que, de maneira desdenhosa e desinteressada, não acredita na esposa e a faz tomar medicações. Os maridos - Abner, Frank e Larry - por outro lado, fazem o mesmo em situações semelhantes, e são os exemplos de homens que desacreditam na palavra das esposas, as julgando exageradas, necessitadas de remédios e de intervenção médica, encaminhando-as para psiquiatras homens que pensam como eles.


De maneira análoga a Gladys, Endora é retratada como chata e intrometida, já que é divorciada e sempre perturba o lar aparentemente perfeito da filha, bem como Serena (interpretada também por Elizabeth Montgomery), a prima solteira e idêntica a Samantha. Serena é uma personagem e tanto. Ao contrário de sua prima dona de casa, ela é livre, adepta ao movimento hippie, e exerce sua natureza de bruxa de maneira desimpedida. É interessante que ambas sejam interpretadas pela mesma atriz, assim como seu grau de parentesco, que denota que não são muito próximas, mas também não muito distantes. Serena parece ser outra face de Samantha, seu lado bruxa enterrado pela tentativa de viver como mortal.

Tendo em vista que a série começa em 1964, e tem a última temporada exibida já nos anos 1970, é imprescindível pontuar alguns aspectos políticos da época. Segunda a historiadora Gabriela Larocca, em meados dos anos 1960 e 1970, 

“os lares de subúrbio pareciam se abrir para comportamentos mais permissivos às atividades sexuais, sendo que tanto adultos quanto adolescentes abraçaram uma atitude mais experimental em relação ao sexo. Sendo assim, as noções tradicionais de família, gênero e sexualidade começaram a ser profundamente abaladas durante estas duas décadas.”

Essa mudança aconteceu devido aos diversos movimentos políticos que buscaram a igualdade de direitos em relação às pautas raciais, de classes e feminista que eclodiram na época. O movimento feminista, especificamente, passava pelo período que ficou conhecido como “segunda onda”, e lutava, sobretudo, pela garantia e preservação dos direitos sexuais e reprodutivos no âmbito legislativo. É nesse período que as primeiras pílulas anticoncepcionais são liberadas para uso, e discussões sobre a discriminalização do aborto são trazidas a debates públicos, assim como assuntos referentes à comunidade LGBTQIA+ e ao feminismo negro. Nesse período, as taxas de nascimentos diminuíram e as de divórcio aumentaram juntamente com a quantidade de mulheres atuando no mercado de trabalho. Essas pautas ameaçavam os setores conservadores da sociedade estadunidense, visto que questionavam as instituições da família e do casamento, gerando respostas duras por parte do Estado patriarcal e dos setores religiosos que zelavam pela manutenção das instituições vitais para a reprodução do sistema capitalista, entre elas a família e a própria religião. 

Barbara Avedon, uma das roteiristas de A feiticeira, afirmou que,  por de trás do matrimônio de Samantha e Darrin, havia uma metáfora: manter o poder das mulheres escondido dentro dos limites do casamento. A principal mensagem por trás do sucesso da série referia-se a uma ordem social que não podia ser perturbada, representada por Samantha e seu casamento, por mais que diversos fatores externos tentassem, simbolizados por Endora, Serena e companhia.

É interessante notar a escolha simbólica da personagem da bruxa pois, ainda que desde o advento do capitalismo e da Idade Moderna a feiticeira seja caçada e queimada na fogueira por representar o perigo e o pecado, aqui sua imagem é subvertida ao ideal doméstico feminino. De certa forma, a série reconhece o poder de agência das mulheres, mas pontua que ele deve ser mantido sob supervisão, vide todas as confusões causadas pelos poderes de Samantha usados sem a autorização do marido. Ou seja, algumas bruxas podem até ser aceitas desde que se comportem. Conforme pontua Silvia Federici no livro Calibã e a bruxa, a perseguição às mulheres ditas bruxas sempre cumpriu um papel de manutenção da ordem social e reprodução do capitalismo, exatamente o mesmo motivo pelo qual os poderes de Samantha devem ser contidos: 

“A caça às bruxas foi um instrumento de construção de uma nova ordem patriarcal em que os corpos das mulheres, seu trabalho e seus poderes sexuais e reprodutivos eram colocados sob o controle do Estado e transformados em recursos econômicos” 

Apesar de tudo, não podemos dizer que Samantha não é subversiva igual a mãe, Endora, e a sua prima, Serena, mas à sua própria maneira. São dois lados da moeda: ao mesmo tempo em que a personagem pode ser lida como a esposa perfeita, ideal e submissa, dizer que ela não escolheu esse papel, por livre e espontânea vontade conforme afirma diversas vezes, é retirar dela sua agência. Afinal de contas, ela enfrenta toda a família para fazer o que ela queria: ser a esposa devota de um mortal no subúrbio. Samantha pode simplesmente ter internalizado a ideia de que ela tinha uma escolha, quando na verdade não tinha, mas como vamos saber, exatamente? Claro, estamos falando de uma personagem fictícia e aqui podemos conjecturar à vontade, mas e se tratando de mulheres reais? Ambas, Endora e Samantha, exercem as suas vontades à maneira que lhes cabem. Devido ao contexto político da época, a imagem que a série queria passar era referente à necessidade de submissão da esposa e o dar conta das suas tarefas domésticas como em um passe de mágica, mas as leituras feministas mais recentes nos permitem interpretar a questão sob esse novo paradigma. Teria o feitiço virado contra a feiticeira?



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