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O Livro dos Anseios e as mulheres apagadas pela história

 
“Isso realmente aconteceu?”, Tabita perguntou.
“Não, querida”, Yalta disse. “Não tem a intenção de ser factual, mas ainda assim é verdadeiro.”

O livro dos anseios, da autora estadunidense Sue Monk Kidd, conta a história de Ana que, além de uma grande escriba, foi também esposa de Jesus de Nazaré. Como apontado na citação acima, o livro não tem a intenção de ser factual, mas não deixa de ser uma história verdadeira. Muito se discute a respeito de Jesus ter sido casado ou não, muito se fala, inclusive, da possibilidade de Maria Madalena ter ocupado esse papel que fora apagado da história de Jesus, mas principalmente da dela. Madalena também está presente nessa história, mas o papel de esposa é de Ana, que desempenhou muitos papéis além desse, uma mulher que viveu em um tempo em que as mulheres eram silenciadas quase que literalmente ao terem suas línguas arrancadas por ousarem denunciar uma violência. Como dito pela personagem principal, Ana foi uma voz, e o livro de Sue Monk Kidd mostra que não foi a única. 

É evidente que em um livro sobre a esposa de Jesus, ele mesmo não poderia deixar de ser personagem central, e Jesus de Nazaré aqui é, acima de tudo, humano. Um homem, um filho, um irmão, um marido e um pai. Uma figura tão apaixonada e apaixonante que é impossível não amá-lo tanto quanto Ana o amava. Sua perda é um baque não apenas para Maria e Ana, como também para o leitor. Mas essa é a história de Ana, e é ela a narradora de sua própria história. Seja ela uma personagem fictícia ou não, Ana representa as muitas mulheres esquecidas pela história, e o foco de O livro dos anseios é justamente nelas. Ana não apenas conta sua história, como escreve e preserva a de tantas outras. Esse livro foi feito para elas - e este texto também o foi.

"Até aquele momento, eu acreditava que era apenas peculiar — uma aberração da natureza. Uma desajustada. Uma maldição. Já fazia muito que eu sabia ler e escrever, e possuía uma habilidade incomum de transformar palavras em histórias, de decifrar idiomas e textos, de compreender significados ocultos, de manter ideias opostas na cabeça sem que houvesse conflito [...] Uma criança tão inadequada quanto eu precisava ser explicada. Meu pai sugeria que Deus se distraíra enquanto me tecia no ventre da minha mãe, por engano conferindo-me dons destinados a algum pobre menino. Minha mãe acreditava que a culpa era de Lilith, um demônio com garras de coruja e asas de abutre que procurava por recém-nascidos para matar, ou, no meu caso, para contaminar com tendências desviadas. [...] As histórias de meus pais encontraram seu caminho até a carne da minha carne, o osso do meu osso. Nunca me ocorrera que minhas habilidades poderiam ter sido premeditadas, que Deus houvesse tido a intenção de conceder tais bênçãos a mim. Ana, uma menina com cachos pretos turbulentos e olhos da cor de nuvens de tempestade."

Ana cresceu em uma família privilegiada, filha do chefe dos escribas, conselheiro de Herodes Antipas. Mesmo sem entender os anseios da filha, seu pai lhe concedia a permissão de escrever algumas de suas histórias, e para isso lhe dava papiro e tinta, mesmo que sempre existisse uma espécie de tensão e estranhamento entre eles. Ana, muitos anos depois, se veria agradecida por seu pai contribuir para que ela se tornasse uma grande escriba e bibliotecária. Por outro lado, a relação de Ana com a mãe sempre foi quase inexistente. Sua mãe não a entendia, não desejava entendê-la e parecia olhá-la como uma espécie de aberração que fora obrigada a pôr no mundo. A mãe de Ana tinha outro preferido, Judas, irmão adotivo de Ana, um jovem com ideais revolucionários que parecia disposto a tudo para derrubar o poder dos romanos. Durante a infância, Ana e Judas se davam muito bem, ele parecia ser o único que a entendia, e que mais à frente se prontificou a ajudá-la a se livrar de um casamento arranjado. Porém Judas estava mesmo disposto a fazer de tudo em nome de uma revolução, inclusive uma traição imperdoável para Ana.

A vida de Ana começa verdadeiramente a mudar quando sua tia, Yalta, irmã de seu pai, chega vinda de Alexandria. Uma mulher madura, inteligente, letrada e ousada, que rapidamente se torna a melhor amiga de Ana, e mais adiante uma mãe que nunca teve. Yalta mostra a Ana que não há nada de errado com ela, ao contrário, que seus sonhos e anseios merecem florescer.

"Quando ergui o rosto, os olhos de Yalta estavam em mim. Ela disse: 'O santíssimo lugar de um homem contém a lei de Deus, mas dentro de uma mulher existem apenas anseios'. Então ela bateu no osso chato sobre meu coração e deu uma instrução que fez algo arder no meu peito: 'Escreva o que está aqui dentro, dentro do seu santíssimo lugar'."

Além de Yalta, Ana tinha uma amiga de sua idade que, assim como ela, aos 14 anos teve o casamento arranjado com um homem muito mais velho, a queml foi retirada a opção de escolha. Tabita era uma moça sorridente que amava cantar e dançar e que estava disposta a aceitar seu destino, mas que tinha uma luz dentro de si que nem mesmo o pior dos casamentos arranjados poderia lhe tirar. Porém Ana, no dia de seu noivado, conhece um homem gentil que mudaria sua vida para sempre e tem a sorte de se tornar viúva mesmo antes do casamento arranjado ser realizado. Tabita é vítima de violência sexual, e ao ter a coragem de denunciar, tem sua língua cortada pelo próprio pai. Os horrores que sua amiga sofreu mexem tanto com Ana que ela tenta a todo custo protegê-la de mais violências e coloca toda sua angústia e ódio no papel, escrevendo a história de Tabita e de tantas outras mulheres que foram estupradas, dando-lhes voz e registrando que aquilo aconteceu.

"Ela não tinha me entendido — eu não estava me perguntando por que Tabita professava seu ultraje nas ruas. Achava bom que acusasse seu estuprador. O que eu não compreendia era por que tais horrores aconteciam. Por que os homens cometiam tais atrocidades? [...] Eu havia aprendido tudo o que sabia sobre estupro nas Escrituras. Uma concubina não nomeada era estuprada e assassinada, depois tinha seu corpo destrinchado. Diná, filha de Jacó, era estuprada por Siquém. Tamar, filha do rei Davi, era estuprada pelo meio-irmão. Essas mulheres estavam entre aquelas sobre as quais eu pretendia escrever um dia, e agora havia Tabita, que não era uma figura esquecida de um texto, mas uma menina que cantava ao trançar meu cabelo. Quem ia vingá-la?"

Afastada da amiga e se vendo hostilizada pela população pelo boato de ter se deitado com seu noivo falecido, Ana encontra novamente o rapaz que não saiu de seus pensamentos desde o dia em que o viu. Ele não apenas se torna seu grande amor, mas também alguém que entendia profundamente seus anseios, um homem gentil de sorriso fácil que lhe chamava de Pequeno Trovão, mas que também tinha seus próprios anseios e deveres.

Salvator Mundi, de Leonardo da Vinci (1500)
“Sou Jesus, filho de José”, ele disse, e certa perturbação passou por seu rosto. Eu não sabia se era porque eu parecera arrogante, pela estranheza de nos encontrarmos de novo, ou por alguma coisa relacionada a seu nome.
[...]
“Então você é muitas coisas. Carpinteiro, canteiro, separador de fios e pescador.”
“Sou todas essas coisas ”, ele diz. “Mas não pertenço a nada disso.”
[...]
“Você chama Deus de pai?”, perguntei. Referir -se assim a Deus não era inédito, mas era incomum. Depois de uma pausa, talvez surpresa, ele disse:
“Essa prática me é nova. Quando meu pai morreu, senti sua ausência como uma ferida. Uma noite , em meio ao pesar, ouvi Deus me dizer: ‘Serei seu pai agora’”.
“Deus lhe fala?” Ele reprimiu um sorriso. “Só em meus pensamentos.”

Quando Ana se vê em perigo em meio à uma multidão raivosa pronta para lhe apedrejar, é salva por Jesus. Pouco depois eles se tornam noivos. Na Bíblia é dito que fora Maria Madalena quem Jesus salvou do apedrejamento, mas há muito se discute a respeito não apenas acerca da forma com que o papel de Madalena no apostolado ter sido apagado, como também lhe terem lhe incumbido papéis que hoje são muito discutidos, como se não existisse individualidade no que diz respeito ao feminino durante a história. Maria Magdala está presente aqui, de fato é uma seguidora fiel de Jesus, uma das únicas a estar ao seu lado até o fim. Mas ao colocar Ana no papel da mulher quase apedrejada, e mais para frente Tabita como a mulher que lava os pés de Jesus, a autora dá não apenas voz e individualidade a elas, mas também lhes concede a chance de cada uma ter sua própria história para além de Jesus de Nazaré.

Ao se casar com Jesus, Ana se muda para Nazaré juntamente com a tia, Yalta. Ana é recebida por Maria e Salomé, irmã de Jesus, com muito carinho, mas também com certa antipatia pelos seus dois outros irmãos mais novos e suas esposas. Na pequena casa, ela se sente feliz com o marido, contudo, em meio a tantas tarefas domésticas, os anos se passam e ela percebe seu fogo por ser algo a mais aflorar, e após uma dolorosa perda, Ana se lembra de que precisa escrever para respirar e viver plenamente, que precisa renascer e voar. Quando descobre que sua tia planeja retornar a Alexandria à procura de uma filha há muito tempo perdida, Ana começa a sentir que seu tempo em Nazaré também está chegando ao fim.

“Devo me doar a algo. Por que não à maternidade?”
“Ana, não duvido de que deva se doar à maternidade. Só questiono o que é que você deve dar à luz.”

Ana não é a única - Jesus também parece disperso e a cada dia sente que o momento de seguir seu destino se aproxima. Quando as ameaças de Herodes Antipas impedem que ambos sigam o mesmo caminho, o amor um pelo outro permanece até a imortalidade, mas ambos entendem que precisam trilhar destinos separados. Assim, Ana parte em direção a Alexandria com a tia, e é lá que a vida dela verdadeiramente dá seu passo inicial.

As mulheres de Alexandria

A cidade egípcia de Alexandria foi fundada por Alexandre, o Grande, e tornou-se o centro administrativo do Império Macedônico. Após sua morte, na divisão de seus reinos, coube a Ptolomeu I, um dos generais de Alexandre, o reino do Egito. Sendo assim, também estava em suas mãos o controle da maior biblioteca de todos os tempos, que durante séculos foi o ponto central de conhecimento do mundo. As lendas a respeito da destruição da biblioteca de Alexandria incluem como personagens centrais Júlio César e Cleópatra, assim como Amer ibne Alas, governador provincial do Egito pouco depois da conquista do local comandada por ele em 642. 

Muito se discute a respeito das diversas teorias sobre destruição da Biblioteca de Alexandria. Mesmo que os incêndios tenham de fato acontecido, o porquê ou quem deu a ordem, — se é que não foi um acidente — permanecem até os dias de hoje no campo das especulações. Júlio César era defensor da cultura, um homem culto, tornando difícil acreditar que ele permitiria a destruição do bem mais precioso da humanidade. E a respeito de Amer ibne Alas, desde o século XVIII pesquisadores debatem a veracidade desses fatos a respeito de a culpa pela destruição da biblioteca recair sobre ele.

Os filósofos de Alexandria, de Masolino da Panicale (1428)

A cidade de Alexandria que Ana e Yalta encontram ao chegarem em 28-30 d.C, é um lugar vibrante, e a biblioteca se encontra de pé. Lar de estudiosos, filósofos, artistas, políticos e religiosos, um lugar onde o conhecimento era perpetuado. Mesmo que não se tenha certeza dos fatos que ocasionaram sua destruição, a perda de cerca de 90.000 obras que a biblioteca abrigava em seu interior ainda é uma das mais inegáveis tragédias da história da humanidade.

“A biblioteca é tudo o que esperava?”
“É um santíssimo lugar”, eu disse.

Entretanto, não é na grandiosa biblioteca que Ana encontra de fato seu lugar, mas em uma pequena comunidade na qual sua tia já havia passado anos de sua vida e para onde segue junto de Ana após muito tempo de isolamento e incertezas na casa do tio em Alexandria. Comandada por uma mulher chamada Escépcis, Os Terapeutas eram uma comunidade dedicada ao conhecimento, onde até mesmo uma mulher poderia escrever e preservar suas histórias. É impossível não fazer o paralelo entre Ana, Escépcis e Yalta com outra mulher, que não foi apagada pela história, mas que foi brutalmente assassinada: a filósofa e matemática Hipátia.

Hipátia de Alexandria foi a primeira mulher documentada como matemática. Lecionou filosofia e astronomia, além de ser chefe da escola platônica da cidade.

Hipátia era filha do professor e filósofo Téon de Alexandria, e cresceu rodeada de conhecimentos e estudou na Academia de Alexandria, onde mais tarde se tornou professora e diretora. Nunca se casou, nem teve filhos, viveu para preservar e compartilhar conhecimento, dona de sua própria vida e uma das mulheres mais inteligentes da história da humanidade que encontrou seu fim de maneira cruel e trágica.

Hipátia foi assassinada brutalmente por uma multidão de cristãos que a despiram na rua e desmembraram seu corpo para, no final, jogá-la às chamas. As razões pelo assassinato da filósofa permanecem um mistério. Acredita-se que por ela exercer tanto poder na cidade e ser detentora de tanto conhecimento era considerada perigosa, principalmente por ela ser mulher, e também porque Hipátia ensinava a todos sem distinção, pagãos ou cristãos, o que o Patriarca de Alexandria, Cirilo, não aceitava, pois era um cristão fervoroso e grande defensor da igreja ortodoxa.

Morte da filósofa Hipátia, em Alexandria, por Louis Figuier (1866)

Mesmo se sentindo em casa com Os Terapeutas, Ana, que passou anos longe de Jesus, vive em angústia querendo vê-lo outra vez. Quando finalmente recebe a carta de Judas dizendo ser seguro retornar, as palavras de seu irmão a perturbam mais do que acalmam, e quando retorna a Nazaré já é tarde demais para salvar seu amado. 

Ana e as demais mulheres permanecem até o final da execução brutal de Jesus. Após sua morte, Ana tem certeza de que sua casa nunca foi Nazaré, mas sim qualquer lugar em que estivesse com ele. Todavia ela acredita que ambos vão se encontrar novamente no lugar que chamam de imortal, então Ana parte novamente em direção a Alexandria, para seu lar e sua função de vida, como bibliotecária e mais tarde líder dos Terapeutas. As décadas se passam e as palavras, a presença, a bondade e os ideais de Jesus se perpetuam. Aos poucos sua imagem alcança outro patamar: Jesus não era mais apenas um homem, ele era o messias, era o filho de Deus. E Ana não fazia parte de sua vida; segundo a história, ela nunca o fez, afinal, ele era um santo. Apesar de doer em Ana ser apagada da vida de seu amado, ela chega à conclusão de que sua vida como está é o suficiente, e que ela e seus escritos sabem a verdade. O leitor saberá a verdade.

“Falam de Jesus como se não tivesse sido casado”, Lavi me disse. [...] Refleti sobre aquele mistério por alguns meses. Seria porque eu não estivera presente enquanto ele viajava pela Galileia durante seu ministério? Seria porque as mulheres eram com tanta frequência invisíveis? Acreditariam que torná-lo celibatário faria com que parecesse mais espiritual? Não encontrei respostas, só a dor de ser apagada. [...] Ocorre-me que os ecos de minha própria vida provavelmente desaparecerão assim como o trovão. Mas esta vida, tão ilustre, é o suficiente. [...] Sou Ana. Fui esposa de Jesus de Nazaré. Sou uma voz.”



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Referências

  • Bibliotheca Alexandrina (Eliane Serrão Alves Mey)
  • Biblioteca de Alexandria: o Helenismo e a dinâmica cultural dos Judeus (Geraldo Coelho Dias)
  • Hipátia: vida, representações e morte (Camila Kulkamp) 

Comentários

  1. A meu ver, faz muito mais sentido historicamente que Jesus fosse casado do que solteiro, um ermitão virgem que pregava por aí. E é até difícil explicar, sem escorregar na misoginia, por que é tão ofensivo assim pensar nele como um homem casado.

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