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O feminino gaúcho: as mulheres em O Continente, de Erico Verissimo


Quando os ventos da mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.

(Erico Verissimo)

O escritor e a máquina de escrever


Ir às livrarias para ele era cumprir um rito.

A obra de Erico Verissimo, sendo extremamente vasta e única, proporciona ao leitor uma verdadeira imersão no mundo da ficção, não apenas regional, mas universal, pois Erico não escreveu apenas para o público gaúcho de seu estado tão amado, mas a todos que se curvassem diante de sua obra com um olhar curioso sobre o mundo. O Continente, o primeiro livro da trilogia O Tempo e o Vento, de que vamos tratar aqui, foi publicado em 1949, e relata o começo da história de formação do Rio Grande do Sul através da família Terra Cambará.

Erico Verissimo

A relevância que o feminino tem na vida de Erico perpassa toda sua bibliografia ficcional, pois este, quando criança, precisou optar em ficar com a mãe, ou com o pai, devido à separação matrimonial destes. Erico escolhe a mãe. Assim como, também, em suas obras opta pela mulher, sempre. Tratar da figura feminina com tanta maestria, mostrando força, ternura, bravura e determinação, passa a ser um dos grandes objetivos desta obra que traça uma linha em cerca de 150 anos de história, entre ficção e realidade, do estado gaúcho, levando o leitor a conhecer desde o período colonial até o republicano.

Não se nasce mulher, torna-se mulher


Sempre que algo importante acontece, está ventando.

O sujeito forma-se a si mesmo através de uma perspectiva histórica. Ou seja, somos o que somos porque a sociedade nos molda. Pensando nessa ideia existencialista de Jean-Paul Sartre (filósofo francês do século XX), pois “a existência precede a essência”, ideia essa situada no feminino por Simone de Beauvoir, com a frase que intitula esta parte do texto, Ana Terra é uma ideia cultural da mulher gaúcha, pois sexo é biológico, e gênero é uma construção social. Daí a ideia de a personagem ter se formado a guerreira que o leitor conhece. O meio violento e patriarcal em que Ana está inserida obriga-a a se tornar o que mais tarde a crítica literária chama de “personagem símbolo do feminino gaúcho''.

Ana Terra, a primeira identidade feminina que o leitor conhece, é filha de Henriqueta e Maneco Terra. Ao perceber-se em uma terra tão vasta, mas tão desabitada, cuja passagem do tempo era calculada olhando as fases da lua, em uma estância e em um tempo em que não se ensinava a ler, Ana sente uma lacuna em sua vida que somente será preenchida quando conhece Pedro Missioneiro, um índigena cujos sentimentos são despertados em ambos, e do qual, como fruto desse amor, resultará o nascimento de Pedro Terra.

Ana Terra em O Tempo e o Vento (2013)

O significado do nome de Ana relata bem o que a personagem representa o tempo todo na trama: cheia de graça (Ana); solo (Terra). Ana é quem nos mostra a natureza feminina que compõe a mulher: a aridez da terra, para aguentar situações difíceis e rígidas, e a graça e ternura para dar colo a um filho. Ana é a própria Gaia, que na mitologia grega foi chamada de Mãe-Terra. É ela quem, representando a garra e a fertilidade, dá continuidade à família, em um mundo áspero, dominado pela prepotência masculina, em que a mulher só servia para “fiar, chorar e esperar”, isto é, trabalhar como dona de casa e sentir o amargor da angústia pela espera do marido e filhos, até voltarem das guerras. Forte e decidida, Ana Terra é o início da árvore genealógica.

A figueira no centro da praça


Noite de vento, noite dos mortos.

Bibiana Terra, filha de Arminda Melo e Pedro Terra, é a personagem que acompanhamos por mais tempo na obra. Por carregar o sobrenome de sua falecida avó, Ana Terra, Erico insere a personagem exatamente dessa forma: Bibiana é a reencarnação de Ana, isto é, a continuação das mulheres fortes na família (Bi: dois. Portanto, duas vezes Ana). Bibiana é o espelho de sua avó em suas atitudes, opiniões e jeitos, mostrando-nos a importância da continuidade do espírito feminino e selvagem sobre a história.

Bibiana Terra em O Tempo e o Vento (2013)

No primeiro momento em que Erico nos apresenta Bibiana, o leitor percebe uma personagem um tanto quanto diferente de Ana Terra. Bibiana é, de certa forma, frágil e inocente. Mas a percepção do leitor muda quando ela cresce e casa-se com o Capitão Rodrigo Cambará. Devido às circunstâncias da vida de casada com o galã de Santa Fé, cidade cenário da obra, e a guerra sendo o lar deste, Bibiana obriga-se a criar uma espécie de carcaça sobre si para aguentar os baques da vida, não permitindo que seu amor por Rodrigo seja abalado por exterioridades. Sendo conhecedora da sina das mulheres, ensinada por sua avó a “fiar, chorar e esperar”, Bibiana torna-se paciente e determinada.

Na segunda parte de O Continente, vemos uma Bibiana destemida, especialmente ao decidir que morará novamente em seu chão; o chão que seu pai, Pedro Terra, morou, e no qual ela e o irmão, Juvenal, cresceram e viram a vida passar. A personagem não desiste: casa o filho, Bolívar, com a neta de Aguinaldo, Luzia, dono este do Sobrado que está instalado na terra dos Terra. Com o conhecimento da doença de Luzia, e com a esperança de que a mesma morra antes que ela, agora idosa, Bibiana mostra o sangue guerreiro que corre em suas veias. Bibiana é como a figueira no centro da praça de Santa Fé: alta, na medida certa para dar uma boa sombra, velha, na medida certa para ter experienciado todos os tipos de drama, e firme, com raízes tão profundas que se algo ou alguém um dia a remover, não saberá se adequar a outra terra.

A princesa moura


Existe na vida dum homem de honra duas coisas sagradas que ele deve fazer respeitar à custa de todos os sacrifícios: a cara e a casa.

Luzia, como o próprio nome já diz, ilumina os que estão ao seu redor. Porém a luz aqui tratada não é a que brilha, mas a que deslumbra a visão de todos com seus “modos de cidade” e sua beleza esplêndida capaz de, segundo Bibiana, seduzir os homens. Luzia é dona de uma personalidade um tanto quanto medonha, sendo comparada pelo Dr. Carl Winter, médico alemão imigrante, com a Teiniaguá, uma lenda local que conta a história de uma princesa moura transformada pelo diabo em lagartixa, e que tem em sua cabeça uma pedra preciosa de um brilho ofuscante que atrai e cega os homens. Não é apenas sua beleza que a faz ser peculiar, mas sim o prazer sentido pelo sofrimento alheio, um dos pontos que impulsiona o ódio de Bibiana.

Bolívar e Luzia em O Tempo e o Vento (2013)

Luzia é a única personagem da trama que não se deixa mandar pelo marido. Muito pelo contrário, é ela quem dita ordens a Bolívar. Por ter estudado na Europa, seu pensamento é moldado de acordo com os ideais que lá circundam, ou seja, as vontades da mulher já começavam a entrar em vigor e, por isso, é diferente das outras personalidades femininas da obra trilógica de Verissimo, já que estas estão inseridas em um mundo machista, sem esperanças de melhora. Luzia é a personagem que lê e que debate com quem for, não importando o sexo, como vemos no trecho a seguir, em que ela discute, à mesa, com Dr. Winter, Bibiana e Bolívar:

“[...] a ideia dos gaúchos em geral é a de que o cavalo e a mulher foram feitos para servirem os homens. E nós nem podemos ficar ofendidas, porque os rio-grandenses dão muito valor aos seus cavalos…”

David-Peyre (1977) compara Luzia com a famosa personagem de Gustave Flaubert, escritor francês do século XIX, Emma Bovary, do romance Madame Bovary: “Podemos dizer de Luzia o que Flaubert escreve de Emma: no fundo de sua alma, entretanto, ela espera um acontecimento”. O adultério, a doença e a instrução feminina são características reconhecidas nas duas personagens que odeiam a vida bucólica e pacata, procurando, ao máximo, irritar os personagens ao seu redor, como uma forma de entretenimento para seu próprio ser que está aborrecido.

Por isso, Luzia difere da bravura de Ana, e da persistência de Bibiana, sendo uma personagem que, por ler, possui senso crítico aguçado e interpreta as ocorrências naquela província, causando turbulências nas relações pessoais dos moradores do Sobrado.

O tempo e a Terra


O que Ana, Bibiana e Luzia têm em comum é a resistência própria que as mulheres daquele período, principalmente, precisavam ter, pois estas estavam enraizadas em uma época e lugar em que a esperança se esvaía com o vento. Cabe a elas a continuação da vida, já que os homens da casa, entre pais, irmãos, filhos e maridos, precisavam ir à guerra, cuja possibilidade de retorno era, na maioria das vezes, nula. São elas, por isso, a terra: o imóvel, o firme, o resistente e o fértil.

Das três, foi Bibiana quem viveu mais tempo, vendo tudo acontecer ao seu redor. Conhecedora de toda sua árvore genealógica e de todos que passaram pelo chão que Ana Terra lutou tanto para manter na família, e no qual ela, agora, voltava a descansar, sempre escutando em seus pensamentos o som da máquina de fiar da avó. Bibiana é aquela que representa a garra necessária para uma geração permanecer no seu território. Bibiana ficou, quando tudo ao seu redor já havia ido. Bibiana é, portanto, o próprio tempo.

Referências 

  • O existencialismo é um humanismo (Jean-Paul Sartre)
  • Madame Bovary (Gustave Flaubert)
  • O Continente (Erico Verissimo) 


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Arte em destaque: Mia Sodré

Comentários

  1. Que texto maravilhoso. Muito boa a sua análise das personagens, me deu vontade de começar a leitura hoje. Parabéns!

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