últimos artigos

Sandman: o Sonhar, a mitologia, a literatura e a morte


Em 1939, o primeiro Sandman, que usava como identidade secreta o nome de Wesley Dodds, apareceu pela primeira vez na revista Adventure Comics 40, roteirizado por Gardner Fox e com arte de Bert Christman. Wesley Dodds não possuía poderes, mas tinha sonhos premonitórios e sua arma era uma pistola de gás que fazia com que seus oponentes dormissem. Em 1974, a personagem ganhou uma nova roupagem e se tornou Garrett Sanford, um cientista que trabalhava em uma máquina de monitorar sonhos. Após a morte de Sanford, quem tomou seu lugar foi o super-herói Hector Hall. Mas foi apenas no final dos anos de 1980, nas mãos do escritor britânico Neil Gaiman, que o mestre dos sonhos não apenas foi reestruturado, como também recebeu sua versão definitiva, Lorde Morpheus. O autêntico mestre dos sonhos, o irmão mais novo da Morte e um dos sete perpétuos, o governante do Sonhar.

Sandman é uma história que possui início, meio e fim, como um ciclo que se fecha, e conta com 75 edições que mescla o mundo contemporâneo com a tradição clássica dos mitos antigos.

Perpétuos


"Ideias envoltas em algo semelhante a carne."

Os perpétuos não são deuses, mesmo que muitas religiões durante as eras o considerassem deuses. Os sete perpétuos são, na verdade, a concepção em carne e osso de uma ideia e o conceito que representam. Não são reconhecidos por nomes, exceto por Sonho, e cada um tem seu emblema e sua galeria, localizados em seus próprios domínios, que são espécies de reinos astrais. Não-lugares, realidades criadas a partir da consciência coletiva que cada Perpétuo representa. São mais velhos do que a vida na Terra, e mesmo sendo Eternos ou Sem Fim, é possível que um perpétuo seja morto, mas volta em outra forma de si mesmo com alterações de personalidade.

Os Perpétuos

Os Perpétuos podem possuir a aparência que quiserem, e suas formas de serem vistos variam conforme o observador. Como, por exemplo, Desejo, que pode ser homem ou mulher, dependendo do objeto de desejo de cada ser, porque é o próprio querer. E Sonho, que já foi visto e representado com diversas etnias diferentes. A ordem de nascimento, ou melhor, de criação dos mais velhos é: Destino, Morte, Sonho e Destruição. Os três mais jovens são Desejo, Desespero e Delirium, que já foi Deleite.

O mais velho é Destino. Sua criação aconteceu após a criação do universo, e permanece acorrentado ao seu símbolo, um grande livro, no qual tudo o que acontece está escrito. Destino pode vislumbrar o futuro, mas normalmente opta por não olhar adiante no tempo. Seu reino é uma espécie de jardim, que leva a diversos caminhos à sua frente. 

Já a Morte, manifesta-se como uma jovem mulher e habita em uma casa na Terra, não em um reino astral, e seu símbolo é o Ankh. Ela pode aparecer inúmeras vezes ao mesmo tempo e todos que morrem, independentemente da idade ou situação, recebem sua visita. Morte apresenta sempre uma estética gótica, não importa a época em que se encontre, e sempre está de bom humor. É a melhor amiga e a mais próxima de Sonho. 

O Sonho governa o Sonhar, ao qual as mentes e imaginações de todos os seres inteligentes estão ligadas, e seu símbolo é o elmo dos sonhos. Também chamado de Morpheus, acumula muitos outros nomes. Um homem alto, pálido, com o cabelo preto-azulado que sempre usa vestes escuras, Sonho é um ser complexo, cheio de conflitos internos, que por muitas vezes tratou com crueldade os outros, inclusive suas próprias amantes. 

Destruição, o terceiro irmão, não está em contato com a família há séculos, desde que abandonou seu posto e decidiu deixar que os ciclos de destruição da humanidade no decorrer das gerações seguissem seu curso sem ele. É um homem robusto, ruivo e valoroso. Ele é apaixonado pelas artes e por trabalho manual, mesmo que não tendo muito talento para isso, afinal, é Destruição. 

Desejo não tem um gênero definido, como dito acima, ela incorpora o objeto de desejo de cada ser. Ele/ela é muito belo(a) e é impossível não se apaixonar assim que alguém lhe enxerga. Seu emblema é um coração e seu reino fica no limiar, porque Desejo sempre morou no limite, uma grande estátua que tem a sua forma, uma cidadela de carne e osso, como se existisse apenas Desejo no mundo, o ponto central do universo. 

Desespero é a irmã-gêmea de Desejo. Seu reino parece ser frio e envolto em névoa, ratos e janelas, e em cada uma delas está presente uma cena diferente. No mundo humano, as janelas são vistas como espelhos. Assim, um indivíduo perturbado pode olhar no espelho e ver Desespero como reflexo. Seu símbolo é um anel com o qual tem o hábito de perfurar sua pele. 

Delirium, a mais jovem dos Perpétuos, já foi Deleite, mas hoje é um ser mutável e confuso, mental e emocionalmente. Sua aparência é um amontoado de ideias. Seu cabelo é multicolorido, ela usa roupas excêntricas e possui um olho azul e outro verde. Seu reino é um lugar de fácil acesso para as mentes humanas, mas um lugar onde qualquer um pode facilmente se perder.

"Um dia, Delirium já foi Deleite, mas através de circunstâncias desconhecidas mudou há muito tempo. Agora ela está severamente perturbada, mental e emocionalmente. Ainda hoje seus olhos têm matizes diferentes: um é verde esmeralda e o outro, azul. Quem imagina o que Delirium vê através de seus olhos desiguais?"

História geral: entrando no Sonhar 


Clássicos são histórias acessíveis. De fato, na época de seus lançamentos, tanto os livros quanto a arte clássica eram considerados altamente populares, e se muitos dos mais famosos clássicos que existem hoje ainda estão em circulação é porque um dia foram muito populares. Como um dos grandes clássicos da nova geração, Sandman é uma história premiada e completa, que muitas vezes reconta e reescreve histórias clássicas, não apenas da literatura, mas também das mitologias grega, romana, egípcia, nórdica, oriental, cristã e aborígene. Dos contos de fadas às tragédias e comédias shakespearianas, passando pela literatura gótica e pelos mitos antigos, os 75 volumes de Sandman são um compilado de contos divididos em arcos principais e histórias separadas que estão interligados pelos membros da família de Morpheus, muitas vezes tendo como personagem principal o próprio Sandman e como cenário seu reino no Sonhar.

Em Prelúdios e Noturnos, Sonho é capturado no lugar de sua irmã mais velha, a Morte, e permanece preso em uma redoma de vidro por sete décadas. Após se libertar, vai à procura de seus objetos roubados: a algibeira de areia dos sonhos, seu elmo e o rubi dos sonhos. Durante a procura Morpheus ainda se encontra fraco, e no decorrer do primeiro arco tem encontros interessantes como Doutor Destino, John Constantine e o primeiro e único Lúcifer Morningstar.

"Você diz que não tenho poder? Talvez tenha razão, mas dizer que sonhos não têm poder nenhum aqui? E todos vocês perguntem-se... Que poder teria o inferno se os prisioneiros daqui não fossem capazes de sonhar com o céu?"

Em A Casa de Bonecas, enquanto Morpheus procura reconstruir seu reino no Sonhar, lida com sonhos rebeldes e pesadelos perigosos e também uma convenção de serial killers. A personagem Rose Walker é introduzida na história, uma humana que mais tem em comum com os Perpétuos do que imagina e que também é um vórtice dos sonhos. Ela nada mais é do que um ser humano que nasce a cada era e ameaça a existência do Sonhar. 

Terra dos Sonhos conta com quatro histórias independentes: uma sobre a musa da poesia épica, Calliope, mãe de Orpheus, que na história também é filho de Morpheus; outra história sobre uma gata que busca vingança; e uma reformulação da peça Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare

Em Estação das Brumas acontece que após uma reunião com todos os Perpétuos (exceto Destruição), Morpheus parte para o inferno, reino de Lúcifer, à procura de sua amada Nada, que milhares de anos atrás o próprio condenou à danação eterna. Entretanto Morpheus encontra o inferno vazio. Lúcifer abandonou suas obrigações e entrega a chave do inferno a Morpheus, que deve decidir quem será o próximo senhor do submundo. 

Já em Um Jogo de Você, a humana Barbie, conhecida nos seus próprios sonhos como princesa Barbara, viaja pelos reinos mágicos de seus sonhos para combater as forças do Cuco. Entre suas amigas que tentam ajudá-la a voltar ao mundo desperto está a bruxa Thessaly. 

Em Vidas Breves, Delirium e Morpheus partem à procura de Destruição, desaparecido há 300 anos. Durante a busca, Morpheus reencontra seu filho Orpheus. 

O arco de Fim dos Mundos compreende uma pousada no fim dos mundos onde hóspedes contam histórias, muitas com participações dos Perpétuos. 

Em Entes queridos, o final se aproxima e as três bruxas, ou as Fúrias, procuram vingança junto a uma mãe desesperada à procura do filho. Sonho precisará fazer uma escolha destrutiva e a Morte terá de agir. 

Em Despertar, muitos se reúnem, de deuses a humanos, para um grande velório. Tudo termina com William Shakespeare cumprido sua parte da barganha que fez com o mestre dos sonhos escrevendo a peça A Tempestade

Os volumes 29 a 31, 38 a 40 e 50 são intitulados Espelhos Distantes, Convergências e a A Canção de Orpheus, que reconta o famoso mito grego de Orfeu e Eurídice.

Mitologia e literatura 


Os antigos deuses gregos, romanos, egípcios, nórdicos, entre outros, não são mais cultuados. Porém a mitologia sempre teve e ainda tem muita influência na arte, filosofia, história da humanidade e nos antigos mitos, que de certa forma ajudaram a construir a sociedade como a conhecemos hoje. Sandman é um exemplo rico e completo de como reescrever e apresentar um clássico para novas gerações sem que a história original perca sua força e importância, sempre deixando claro o respeito pelo autor original e a história dos mitos em geral. A obra faz diversas referências não apenas ao mundo atual, mas consegue com muita mestria criar uma junção entre o mundo antigo e diversas mitologias e a literatura clássica. Como no volume A canção de Orpheus, no qual um dos mais famosos mitos gregos ganha uma nova roupagem; desta vez, Orfeu é filho de Morpheus e não de Apolo. 

Cronte e Orpheus, de Neil Gaiman e Bryan Talbot 


Mas o próprio Sonho muitas vezes é confundido com o deus Apolo, como no volume em que encontra o Imperador romano Augustus:

"—Então você é Apolo? Imploro-te, não seja Apolo das tormentas, mas Apolo de aspecto mais gentil.

— Não sou Apolo. Não sou nenhum deus solar. Mas poetas e sonhadores são meu povo, e não é sem precedentes sermos confundidos."

Assim como em um de seus nomes, Morpheus é o nome do deus grego do sono. Mas sua vida muito se assemelha a de Apolo, como sua forma de se apresentar aos outros, seu modo de agir e seus inúmeros relacionamentos com mortais, ninfas, musas, feiticeiras, princesas e deusas. E durante os 75 volumes de Sandman, também foram apresentadas Musas além de Calliope, fadas, as Górgonas, as Parcas ou Moiras, deuses como Loki e Thor, Bastet e o próprio Lúcifer.

Dentre os exemplos de autores e histórias clássicas da literatura, vale destacar a relação que Morpheus tem com William Shakespeare. Em meados do século XVI, Sonho se encontra pela primeira vez com um aspirante a escritor, então faz um trato com ele em troca de duas peças, Sonho de Uma Noite de Verão e A Tempestade. Ao apresentar a primeira peça a Morpheus, a companhia de Teatro de Shakespeare também recebe como público o rei e a rainha de Faerie, Oberon, Titânia e até mesmo Puck, personagens da comédia shakespeariana. A última peça encomendada por Morpheus encerra não apenas o trato entre ambos, como também a saga de Sandman, o último volume que é intitulado de A Tempestade, quando, antes de sua morte, ele entrega a peça pronta para Morpheus. 

"Tá bem, aí vai, a ideia da Barbie. É mais ou menos assim... Bem, todo mundo tem um mundo secreto dentro de si. Todo mundo. Todas as pessoas do mundo inteiro, não importa o quão chatas sejam ou sem graça por fora. Por dentro, todas elas têm mundos inimagináveis, magníficos, maravilhosos, estúpidos e fantásticos. Não apenas um mundo, centenas deles, milhares talvez. Não é uma ideia estranha?"

A primeira edição de Sandman foi publicada há mais de 30 anos, e até hoje continua a ser atual, com sua inegável qualidade gráfica e textual, uma verdadeira obra-prima dos quadrinhos e da literatura no geral. A obra é um clássico instantâneo, que assim como aqueles escritos há mais de 200 anos, continua a ser popular e acessível, por isso as inúmeras referências aos clássicos e as importantes discussões a respeito de diversos pontos relevantes no mundo atual. Sandman será eterna, assim como os Perpétuos.


Se interessou pelo livro? Você pode comprá-lo clicando aqui!

(Participamos do Programa de Associados da Amazon, um serviço de intermediação entre a Amazon e os clientes que remunera a inclusão de links para o site da Amazon e os sites afiliados. Ao comprar pelo nosso link, você não paga nada a mais por isso, mas nós recebemos uma pequena porcentagem que nos ajuda a manter o site.)

Referências 

Comentários

Formulário para página de Contato (não remover)