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O demônio de Emily Brontë e a Criatura de Mary Shelley


Aos dezenove anos, Mary Wollstonecraft Godwin, seu futuro marido Percy Shelley, John Polidori e Lord Byron entraram em uma competição para escrever cada um uma história de fantasmas. Mary demorou mais que seus companheiros para escrever sua história, mas após um sonho ela criou a base para um romance. Em 1818, Mary Shelley, já casada, publicou pela primeira vez seu romance que mudaria não apenas a literatura gótica mas também a ficção científica e se tornaria uma das obras mais importantes da literatura mundial: Frankenstein ou o Prometeu Moderno.

"É desse modo estranho que nossas almas são construídas, e por tais leves ligamentos que somos atados à prosperidade ou à ruína. Quando olho para trás, parece-me que essa milagrosa mudança de inclinação e vontade foi a sugestão imediata de meu anjo da guarda – o último esforço do espírito de preservação para evitar a tempestade que já então descia das estrelas, pronta para me envolver. Sua vitória foi anunciada por uma incomum tranquilidade e alegria de minha alma, em seguida à renúncia de meus antigos e ultimamente atormentados estudos. Foi assim que aprendi a associar o mal com esses estudos e a felicidade com o abandono deles. Foi um forte empenho do espírito da bondade, mas foi ineficiente. O destino era potente demais, e suas leis imutáveis haviam decretado minha completa e terrível destruição."

(Frankenstein)

No mesmo ano, em Thornton, Yorkshire, no Reino Unido, nascia Emily Brontë. E em 1847, sob o pseudônimo de Ellis Bell, O Morro dos Ventos Uivantes foi publicado pela primeira vez. Emily também era poeta, e seus poemas também foram publicados sob seu pseudônimo, mas Wuthering Heights foi seu único romance. Hoje ele é reconhecido como um clássico da literatura inglesa, uma das histórias mais importantes da literatura mundial, mas na época de seu lançamento recebeu fortes críticas pelo seu conteúdo, considerando-se a estrutura, os traços de romance gótico e as relações pessoais dos personagens, principalmente de seu protagonista, que reúne todas as características do vilão, Heathcliff. Lido como grotesco e repugnante, ele é um dos personagens mais complexos da literatura.

Além de serem duas das mais influentes e talentosas escritoras de todos os tempos, Mary Shelley e Emily Brontë também têm em comum algo a mais: a ligação entre dois de seus mais famosos personagens, Heathcliff e a Criatura criada por Victor Frankenstein. Dois "monstros" que acima de tudo são humanos e carregam sobre seus nomes e suas histórias discussões sobre classe, raça, pertencimento e violência.

Heathcliff, o monstro inegavelmente humano


Assim como Mary Shelley, Emily criou um ambiente único, melancólico, isolado, fazendo uma fusão em perfeita harmonia com o romance gótico e o romantismo. Ler ou adaptar O Morro dos Ventos Uivantes como uma história de amor apenas porque foi escrito por uma mulher no século XIX e não ter consciência do recorte social e racial, excluir a vingança de Heathcliff e o transformar em um protagonista vitoriano idealizado, como o próprio diz, é um grande erro. Enxergá-lo apenas como um monstro e ignorar os motivos que o levaram a se tornar um homem violento e as ações que tomou durante a vida é uma forma rasa de absorver a obra de Emily Brontë e seu personagem principal. O romance não é o ponto chave da história, e o fato de existir pessoas que se amam na trama não a torna automaticamente uma história de amor, não é disso que se trata, pois nem tudo é sobre sentimentos românticos.

Mesmo adotado pelo Sr. Earnshaw, Heathcliff nunca recebeu um sobrenome, e Victor Frankenstein não deu um nome a sua criação, que mesmo nascendo gentil e inocente sempre foi tratado como "demônio" e "monstro", designações usadas para descrever o próprio Heathcliff diversas vezes. Desde a primeira vez que chegou à casa dos Earnshaw, Heathcliff foi tratado de forma diferente, não apenas por ser visto como um intruso pelo filho mais velho da família, Hindley, mas também por conta da cor de sua pele.

O Morro dos Ventos Uivantes (2011)

É importante entender o contexto histórico no qual os personagens estavam inseridos e como a etnia e a classe social de Heathcliff na Grã-Bretanha do século XIX o fazia ser visto pelos Linton e os Earnshaw. Liverpool foi a principal rota de embarcações envolvidas no mercado escravocrata daquele período na Grã-Bretanha. E assim como a Criatura de Frankenstein desconhece seu passado e não sabe de onde veio, o mesmo acontece com Heathcliff, que não é branco, mas não conhece suas origens. A ambiguidade que Emily atribuiu a respeito disso (ele é cigano? Negro? Asiático? Europeu?) faz com que não apenas o leitor fique confuso a respeito de suas origens, mas também o próprio. Essa sensação de não pertencimento que Heathcliff sentiu a vida inteira e as violências que sofreu por sua pele ser mais escura que as dos demais e por ser um estrangeiro o endureceram de tal forma que quando perde o único ser que o enxerga apenas como pessoa - Catherine Earnshaw, que também nunca se encaixou na casa em que cresceu e na sociedade na qual foi incluída, mas que mesmo assim resolveu seguir os costumes se casando com um homem a quem nunca amou, o extremo oposto de Heathcliff - se torna o demônio de Wuthering Heights, um transgressor que desafiou o código moral da sociedade que aos poucos se fez incluir, mas nunca verdadeiramente fez parte. Mesmo após retornar três anos depois de seu desaparecimento em uma noite chuvosa como um homem imponente e de grande status social, Heathcliff ainda é visto como um selvagem, taciturno e emblemático.

"A expressão de seu rosto era a de um homem mais velho e mais firme que a do sr. Linton. Parecia inteligente e não guardava marcas da antiga degradação. Uma ferocidade um tanto animalesca espreitava, contudo, nos olhos fundos, queimando com um fogo negro, mas estava controlada. Seus gestos tinham dignidade; não havia neles nada de grosseiro, embora tampouco exibissem graça."

(O Morro dos Ventos Uivantes)

A ideia romantizada que Isabella possui de Heathcliff em nada tem a ver a ideia que ela mesma tinha dele na infância, quando no episódio em que Catherine é mordida pelo cão da família e recebida como hóspede na casa dos Lintons, e Heathcliff é tratado como um criminoso, em nada bem-vindo à casa, e que para eles eram o ser mais assustador que já haviam visto, nas palavras da própria Isabela:

“Coisa assustadora! Coloque-o no porão, papai. Ele é exatamente como o filho da cartomante, que roubou meu faisão manso. Ele não é Edgar?”

(O Morro dos Ventos Uivantes)

Mas Heathcliff adulto, seguro de si e com poses, ganha uma nova roupagem para a jovem Isabella, que se apaixona perdidamente por ele e não percebe que faz parte da vingança planejada por ele até ser tarde demais:

"Ela abandonou tudo isso porque estava completamente iludida – respondeu ele –, imaginando que eu era um herói de romance e esperando favores ilimitados da minha devoção cavalheiresca. Mal posso considerá-la uma criatura racional, tal a obstinação com que teimou em formar uma ideia irreal da minha personalidade e agir de acordo com as falsas impressões que alimentava. [...] Foi preciso uma dose e tanto de perspicácia para perceber que eu não a amava. Acho que ela gostaria que eu tivesse fingido afeto diante de você; fere a sua vaidade ter a verdade exposta. Mas não me importa quem saiba que a paixão era inteiramente unilateral, nunca disse a ela uma única mentira sobre isso. Não pode me acusar de demonstrar um grama de ternura falsa."

(O Morro dos Ventos Uivantes)

A escrita poderosa de Emily Brontë constrói e desenvolve a personalidade de Heathcliff aos poucos, um homem cheio de conflitos internos, misterioso e de certa forma vampiresco. A primeira vez que Heathcliff aparece é durante a noite. Sua volta após seu desaparecimento também se dá durante a noite, e Heathcliff espera pacientemente na porta da casa dos Linton para ser convidado a entrar, como um vampiro que precisa de convite, e após conseguir mexe com toda a estrutura dos habitantes dali, sugando suas vidas aos poucos, se transformando no monstro que todos viram desde sua primeira aparição. Mesmo cometendo atos cruéis, muitas vezes de extrema violência, assim como ninguém é totalmente bom ou ruim, existe um peso nas atitudes do personagem, que possui seu lado amoroso, embora muito bem escondido. Heathcliff sofre tanto quanto os demais, muitas vezes pelas suas próprias ações e as consequências da mesma.

"Por acaso está possuída pelo demônio para falar comigo dessa maneira, à beira da morte? – prosseguiu ele, arrebatado. – Não percebe que todas essas palavras ficarão gravadas na minha memória, corroendo-a fundo e eternamente, depois que você tiver me deixado? Sabe que está mentindo quando diz que a matei; e sabe, Catherine, que esquecê-la seria o mesmo que esquecer minha própria existência! Não é bastante para o seu egoísmo infernal o fato de que quando estiver em paz eu vou estar me contorcendo nos tormentos do inferno?"

(O Morro dos Ventos Uivantes)

Mesmo cego pelo ódio, amargurado e conhecendo apenas violência a vida toda, Heathcliff criou Hareton, filho de Hindley, e o fato do rapaz, que mais tarde se tornou um bom homem e gentil, sentir a morte de Heathcliff como se fosse um pai, contrasta com Linton, filho de Heathcliff e Isabella, que não se tornou intragável convivendo com o pai, mas sim com a mãe. E de certa forma, Heathcliff tem um final reconfortante ao lado do fantasma de Catherine, pois não há divisões de classe e étnicas na pós-vida. Se o mundo terreno não os aceitava, principalmente a ele, ambos encontram paz na morte, assim como todos que os rodeiam.

"Ontem à noite, estive às portas do inferno. Hoje, posso vislumbrar o paraíso. Meus olhos estão fixos nele, e nem um metro nos separa!"

(O Morro dos Ventos Uivantes)

O monstro gentil


O sentimento de não pertencimento que Heathcliff carregou a vida inteira também foi sentido pela Criatura de Frankenstein. Visto como monstro e abandonado pelo próprio criador, renegado por todos e sem chances de viver como qualquer ser humano, a Criatura foi construída com partes diferentes costuradas de diversos corpos humanos e também animais. Ela carrega em si mesma diversas histórias de origem, dividida em partes diferentes eternamente sem nunca se sentir completa, tendo consciência de que as partes separadas de seu corpo um dia foram tratadas com mais humanidade do ela que jamais foi tratada. E mesmo assim, à luz da lua, a Criatura vaga pela noite, tomando consciência e aprendendo tanto ou mais que qualquer ser humano, mas quanto mais conhece a humanidade, mais se decepciona e é ferida, mesmo quando o que quer é apenas ser amada e incluída. Aos poucos, a doce, inocente e gentil Criatura se endurece e conhece o lado ruim do ser humano, tornando-se tão vingativa a ponto de cometer assassinatos e viver para destruir seu criador e vice-versa.

A maldição de Frankenstein (1957)

"Monstro abominável! Demônio que tu és! As torturas do inferno são leves demais para teus crimes. Diabo desgraçado! Repreendes-me por tua criação; venha, então, para que eu possa extinguir a centelha que tão negligentemente concedi."

(Frankenstein)

Se o Prometeu mitológico é conhecido como um protetor e desenvolvedor da humanidade, que sofreu um castigo de Zeus após roubar o fogo dos deuses para que o humanos assim pudesse tê-lo, o Prometeu de Mary Shelley é o oposto. Criada de forma profana, após Victor Frankenstein a construir com pedaços de cadáveres, a Criatura é um ser duplo, humana e inumana, sagrada e impura, pois não nasceu e sim foi construída. Inimigo da raça humana porque é visto como um ser inferior, monstruoso e selvagem, um alguém que deve ser destruído. Mesmo privada da vida em sociedade, a Criatura sozinha aprende sobre os seres humanos e a respeitar a natureza. Mas assim como Heathcliff, após tentar se encaixar na sociedade que tanto o despreza, a Criatura se torna aquilo que sempre enxergaram quando a viam, um monstro, um demônio, um assassino:

"Como posso comover-te? Nenhum entreato te fará virar um olhar favorável sobre tua criatura, que implora tua bondade e compaixão? Acredite em mim, Frankenstein: eu era benevolente; minha alma brilhava de amor e humanidade. Mas não estou só, miseravelmente só? Tu, meu criador, abomina-me; que esperanças posso então reunir de teus semelhantes, que me devem nada? Eles me rejeitam e me odeiam. [...] Se a humanidade soubesse da minha existência, faria como tu e se armaria para me destruir. Devo então não odiar aqueles que me abominam? Não me submeterei aos meus inimigos. [...] Pode você se admirar que tais pensamentos tenham me enchido de raiva? A única coisa que me espanta é que, naquele momento, em vez de arejar minhas sensações com exclamações e agonia, eu não tenha corrido entre a humanidade e perecido na tentativa de destruí-la."

(Frankenstein)

Assim como o protagonista de O Morro dos Ventos Uivantes, a Criatura de Frankenstein é extremamente bem construída, e é fascinante como Mary Shelley criou uma história atemporal. Heathcliff conheceu apenas violência a vida inteira, nunca foi aceito, e se tornou um homem assustador e vingativo. A Criatura era um "monstro" mesmo que fosse altamente humana e gentil, e o que fizeram com ela a transformou literalmente no oposto. O mesmo aconteceu com Heathcliff; as questões raciais e sociais para com a personagem dele são muito bem construídas por Emily Brontë. Ambas criaram personagens únicos e complexos cada um à sua maneira, mas que têm muito em comum, especialmente pelas suas histórias de origem, como o sentimento de vingança que corrói e destrói a ambos e afeta os que estão ao redor.

Referências

  • Heathcliff, Race and Adam Low’s Documentary, A Regular Black: The Hidden Wuthering Heights (Claire O’Callaghan, Michael Stewart)
  • Heathcliff: The Black Dog that Became a Bourgeois Gentleman – the Combined Issue of Race and Social Class in Wuthering Heights (Malin Larsson)
  • Aspectos inovadores na escrita gótica: o morro dos ventos uivantes (Alessandro Yuri Alegrette)
  • O Duplo em Frankenstein (Marília Mattos)
  • A ciência monstruosa em Frankenstein: aspectos do pós-humano (Anderson Soares Gomesa)


Arte em destaque: Mia Sodré

Comentários

  1. Que ótimo paralelo. A construção das dores tem muito em comum mesmo. Adorei!

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  2. Texto incrível! Admito que fiquei morrendo de vontade de reler Frankenstein agora haha.

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  3. Li O morro dos ventos uivantes pela primeira vez faz pouco tempo e adorei o paralelo com Frankenstein que li já faz alguns anos. De fato as suas histórias de origem se parecem muito. Duas obras incríveis.

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