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Ginger Snaps e a licantropia como metáfora para a puberdade feminina

O lobisomem é uma das criaturas mais famosas da história, perpetuada no imaginário popular com um folclore rico em diversos países desde o início dos tempos. A palavra licantropia vem do grego "lykos" e "anthropos", que significam, respectivamente, lobo e homem. Além das diversas representações no cinema, literatura e na cultura popular, a licantropia clínica é um transtorno psiquiátrico no qual o indivíduo acredita poder se transformar em algum animal. 

Mesmo que as representações do lobisomem fêmea sejam escassas e o próprio nome tenha literalmente a palavra "homem" na grafia, o lobisomem é uma criatura que possui traços femininos não necessariamente em sua imagem, mas em sua criação. As poucas vezes que a licantropia foi usada como metáfora para a puberdade feminina, ou simplesmente para o crescimento e desenvolvimento da mulher como um ser monstruoso, foram executadas com muita maestria, como é o caso do filme Ginger Snaps, lançado no Brasil como Possuída em 2000.

A maldição do lobo

A mais popular história de origem do lobisomem é aquela em que um homem amaldiçoado se transforma em um ser metamorfo que é metade lobo e metade homem nas noites de lua cheia, e apenas pode ser detido por balas de prata. Há também a crença de que a licantropia pode ser uma maldição transmitida de forma hereditária, ou seja, de pai para filho. Outra muito conhecida é que para se tornar um lobisomem, é preciso ser o primeiro filho homem nascido após o nascimento de sete filhas mulheres. No Brasil, a lenda do lobisomem também é muito arraigada e possui diversas histórias de criação, mescladas com a mitologia europeia, lendas indígenas e a cultura popular. Mas mesmo dentre tanta abundância de histórias e mitologias, raramente ouve-se a respeito de mulheres lobos. 

Mesmo assim, o lobisomem não deixa de ser uma das criaturas mais próximas do feminino, pois a transformação do homem em lobo durante a lua cheia muito se assemelha ao ciclo menstrual, e o homem se tornar um animal uma vez por mês, remete a algo muito natural para uma mulher. Por conta disso, quando a história do lobisomem é vista sob uma perspectiva feminina, a transformação não necessariamente é mostrada como uma maldição que torna o indivíduo num ser sofredor sem mais controle do próprio corpo. A mulher lobo é, acima de tudo, uma mulher cuja transformação mensal em um "monstro" é algo natural.

O inferno é uma garota adolescente

A transformação da mulher em seres metade felinos não é tão rara de se encontrar. Personagens como a Mulher-Gato existem, que em algumas histórias não é apenas alguém vestida como um gato, mas literalmente transformada em um. Como, por exemplo, a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer do filme Batman: O Retorno (1992), dirigido por Tim Burton. Ou as personagens que encontramos no filme Sangue de Pantera, de 1942, e em seu respectivo remake, A Marca da Pantera, de 1982, nos quais as personagens principais se transformam em panteras quando são emocional ou sexualmente excitadas. E até mesmo na novela Pantanal (versões de 1990 e de 2022) é possível que mulheres se transformem em onça por conta de sua forte ligação com a natureza, dentre muitos outros exemplos.

Sangue de pantera (1942)

Entretanto quando se trata de mulheres e licantropia, os exemplos são mais escassos, mas vale destacar o filme Trick n' Treat, lançado no Brasil como Contos do Dia das Bruxas, em 2007. O longa é uma coletânea com cinco histórias que se conectam e acontecem numa noite de Halloween. O que parece ser um garotinho com um saco na cabeça está sempre presente em todas elas, e logo fica claro que ele não é apenas um espectador, mas sim um tipo de espírito protetor das tradições do Halloween. Entre as histórias está a de Laurie (Anna Paquin) e suas amigas, que estão na cidade para comemorar o feriado. Todas elas estão fantasiadas como princesas de contos de fadas, enquanto a própria Laurie veste-se como a Chapeuzinho Vermelho. Ela e suas acompanhantes parecem estar à procura de um homem, porque chegou a hora da "primeira vez" de Laurie. Num primeiro momento, a ideia inicial é que Laurie pretende perder a virgindade naquela noite, e quando ela começa a ser perseguida por um assassino, é natural acreditar que está em perigo. Mas não é o que acontece. Laurie logo deixa de ser a presa que jamais foi e passa a ser um predador. A adorável moça vestida de Chapeuzinho Vermelho e suas companheiras eram na verdade uma matilha de lobisomens que saíram à procura da primeira presa de Laurie.

Mas o melhor exemplo de licantropia feminina no cinema pode ser encontrado no filme dirigido por John Fawcett. Trata-se da história de Brigitte e Ginger, duas irmãs que têm suas vidas mudadas para sempre após Ginger ser mordida por um lobisomem durante sua menarca, transformando o mito do lobisomem em uma metáfora perfeita para representar o inferno que pode ser uma garota adolescente.

A vida pacata das irmãs Fitzgerald em um bairro de classe média canadense chamado Bailey Downs é entediante, e Ginger (Katharine Isabelle) e Brigitte (Emily Perkins) não se encaixam, ou parecem não querer se encaixar, naquele estilo de vida suburbano. As irmãs não querem crescer, negam qualquer identidade feminina e descartam fazer parte de qualquer lugar pré-estabelecido para elas, até mesmo em sua própria família. A relação tão próxima das irmãs exclui automaticamente a vida em sociedade, e Ginger e Brigitte criam uma espécie de nova realidade ao desenvolverem uma obsessão pela morte, selando um pacto suicida.

"Pulsos são para garotas. Eu vou cortar a garganta."

Para algumas pessoas, como a personagem Margaret White, mãe de Carrie, a menstruação é vista como uma maldição para a mulher, e é assim que Ginger a enxerga também em um primeiro momento. A relação difícil entre as irmãs Fitzgerald com a mãe é evidente, mesmo que Pamela (Mimi Rogers) faça de tudo para se aproximar das filhas. Durante dias, Ginger sentiu dores nas costas e nos seios, ficando mais irritada do que o normal. Ao mesmo tempo, o pacato bairro das irmãs começa a ser aterrorizado por mortes brutais dos cachorros da vizinhança. A chegada atrasada da menstruação de Ginger deixa sua mãe em êxtase, pois ela acredita que finalmente pode se conectar com a filha, mas Ginger se afasta ainda mais dela. E poucos minutos depois de o sangue escorrer por suas pernas pela primeira vez, Ginger é atacada por uma criatura monstruosa durante a lua cheia.

"Bee, estou amaldiçoada [...] Fiz de tudo pra ser diferente, mas meu corpo ferrou comigo. Se eu sair por aí comprando tampões, me queixando de TPM, me dê um tiro, está bem?"

Após ser atacada brutalmente por um lobo gigante, Ginger é salva pela irmã. Já em casa, seus ferimentos começam a se curar muito rapidamente, e logo no dia seguinte, ela começa a notar diferenças em seu corpo e em sua personalidade. A partir disso, não demora muito para que Ginger e Brigitte deixem de ser tão unidas. Porque seja lá o que estivesse acontecendo com Ginger, pela primeira vez na vida, Brigitte não faz parte. Como a mãe delas apontou, a menstruação das irmãs estava três anos atrasada, mas a partir daquele momento, elas não são mais iguais, diferentes e únicas. Ginger e Brigitte se tornam pessoas distintas, e o fato de Ginger estar literalmente se tornando um monstro muda radicalmente a relação entre elas:

"Eu tenho muitos pelos, e daí? Quer dizer que tenho hormônios que podem me deixar feia mas não me tornam um monstro.[...] talvez tenha razão. Acho que sou um monstro, de olhos pequenos e verdes [...] estou crescendo e você não."


Mas Brigitte não desiste da irmã, nem quando ela se torna perigosa, e até mesmo se infecta propositadamente para tentar atrair e curar Ginger, pois faria de tudo por ela. Em um primeiro momento, Brigitte tem certeza de que o comportamento da irmã não mudou apenas por conta das cólicas e da variação hormonal, e logo começa a marcar em um calendário, esperando pela próxima lua cheia para ter certeza de que suas teorias têm fundamento. Mas logo nota que as mudanças de Ginger não necessariamente têm a ver com o ciclo lunar, e sim com o ciclo menstrual da garota. Ginger está de fato se tornando um lobisomem, mas sua transformação também tem a ver com a puberdade. Como apontado por Erin M. Flaherty

"Como resultado, Ginger eventualmente abraça a licantropia e, ao fazê-lo, também abraça sua identidade como mulher. Ela se torna a 'maldita força da natureza' de seus sonhos adolescentes, e ao contrário do lobisomem macho, cujo monstruosidade é uma sombra de pesadelo de sua própria normalidade, a monstruosidade de Ginger é ela próprio reflexo, um olhar inabalável para um eu fantástico de outra forma inatingível para ela no mundo que ela vive."

A diferença entre o lobisomem macho e o lobisomem fêmea fica ainda mais clara quando Ginger se torna sexualmente ativa, e após ter relações sexuais com um colega de colégio, passa o vírus para ele, que logo começa a se transformar. Mas ele parece estar doente, tornando-se animalesco, assustado e fora de controle, como se não conseguisse controlar seu próprio corpo e suas emoções. Mesmo que Ginger também não consiga controlar sua sede de sangue, ao se tornar uma mulher, ela abraça sua feminilidade em conjunto com sua monstruosidade.

"Sabe, ninguém acha que garotas podem fazer isso. Acham que uma garota pode ser vadia, galinha ou a virgem que mora ao lado. É assim que o mundo funciona."

Em 2004, o longa ganhou duas sequências. Em Possuída 2: Força Incontrolável, a protagonista é Brigitte, que agora está sozinha e viciada na droga derivada de uma planta chamada acônito, que na verdade funciona como um veneno, não como uma cura, apenas retardando a transformação. Brigitte é internada em uma clínica para viciados, tendo de lidar com os sintomas da transformação ao mesmo tempo em que foge de um lobisomem macho que a perseguia. Já Possuída: O Início funciona como um tipo de prequel que nada tem a ver com a história original, mas ainda segue Ginger e Brigitte e a maldição do lobisomem.

Mesmo tendo a ajuda de Sam (Kris Lemche), que atropela a criatura que atacou Ginger e tenta, junto de Brigitte, encontrar uma cura, é ela quem segue com a irmã até o final e a acolhe tanto na morte quanto acolheu em vida. A transformação em lobo de Ginger é permanente; após a mordida, ela não é uma mulher metade lobo, e sim uma loba. Ao abraçar a monstruosidade, ela descarta a humanidade. Pois a metáfora da transformação em lobisomem torna o corpo feminino monstruoso ao se opor à estabilidade dos corpos masculinos.

Referências



Arte em destaque: Mia Sodré

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