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The Stepford Wives: Mulheres Perfeitas, de Ira Levin, e sua crítica feminista

No início dos anos 1970, a segunda onda feminista estava a pleno vapor. Com um impulso trazido pela enorme repercussão do best-seller A Mística Feminina (1963) – escrito pela jornalista e ativista Betty Friedan –, questionava-se e desmistificava-se cada vez mais o papel de submissão e devoção ao lar e ao marido que era imposto às mulheres e o mundo passava a tomar maior consciência acerca da opressão e das restrições a que estas eram submetidas. Ganhava ainda mais força, então, o ideal de que as mulheres eram, assim como os homens, seres complexos e capazes, que podiam e queriam ser muito mais do que apenas “rainhas do lar”, esposas e mães devotas.

É nesse contexto que se passa a história de The Stepford Wives, escrito por Ira Levin e publicado em 1972, lançado no Brasil sob dois nomes e em duas ocasiões diferentes: como As Possuídas, no mesmo ano com um título e capa que, definitivamente, não captam a essência da obra – e Mulheres Perfeitas, em 2004. 

Muito aclamado após o sucesso do icônico thriller O Bebê de Rosemary – publicado em 1967, que se popularizou ainda mais graças à clássica adaptação cinematográfica de 1968 –, em Mulheres Perfeitas, o escritor nova-iorquino nos apresenta à protagonista Joanna Eberhart, uma fotógrafa semiprofissional de 30 e poucos anos, casada com o advogado Walter há 10, e mãe de dois filhos, que se muda com sua família da agitação da cidade grande para uma pequena comunidade suburbana, em busca de uma rotina mais tranquila e segura. Joanna, muito confiante e consciente de tudo que uma mulher pode produzir e alcançar, deseja ser mais do que a Sra. Walter Eberhart. Ela não se contenta em apenas cuidar de seu lar e sua família e almeja também aperfeiçoar sua carreira como fotógrafa e se dedicar a ela: 

“Desejou que eles fossem felizes em Stepford. Que Pete e Kim se dessem bem na escola, e que ela e Walter encontrassem seus amigos e se realizassem. Que ele não se importasse com as suas viagens para o trabalho - de qualquer modo, a ideia da mudança partira dele. Que a vida dos quatro fosse enriquecida e não empobrecida, como receara ao deixar a cidade - a cidade imunda, superpovoada, varrida pelo crime, embora tão palpitante.”  

Contudo, apesar do cenário idílico e tranquilo, Stepford parece esconder algo sinistro. Logo a perspicaz Joanna desconfia daquele lugar aparentemente perfeito, que mesmo em meio à profusão de ideais e avanços trazidos pelo movimento feminista, aparenta se encontrar estagnado em um comercial de margarina dos anos 1950, preservando os já ultrapassados estereótipos e padrões de família do estilo de vida estadunidense – o american way of life.

Em Stepford, a única Associação ativa é frequentada exclusivamente por homens. As mulheres não demonstram qualquer outro interesse além de manterem a si a às suas casas impecavelmente belas e arrumadas, se dedicando inteiramente às tarefas domésticas e a seus corpos esculturais, enquanto seus maridos trabalham fora, se aperfeiçoam profissionalmente, confraternizam e participam das atividades políticas e sociais da cidade. 

Walter se mostra um marido muito compreensivo para Joanna, um homem com ideias progressistas e até mesmo feministas, interessado no Movimento de Libertação das Mulheres e disposto a apoiar a esposa em seus objetivos profissionais. Porém ele decide se juntar à Associação Masculina, alegando que seria mais fácil mudar por dentro os parâmetros antiquados da cidade, quem sabe até ajudando a possibilitar a inserção de mulheres…  Mas nada é bem o que parece ser. 

Em meio a tamanho estranhamento e desconforto, Joanna conhece Bobbie e Charmaine, as quais também se mudaram recentemente para Stepford, que assim como ela são as duas únicas mulheres que têm objetivos, desejos e expectativas para além de cuidar de seus lares e maridos, e que não estão interessadas apenas “em saber se sabões cor-de-rosa são melhores do que os sabões azuis ou vice-versa”. 

Mas quando Charmaine repentina e surpreendentemente se transforma em mais uma alienada esposa e dona de casa perfeita de Stepford, e o mesmo logo ocorre à antes autêntica e determinada Bobbie, Joanna tem certeza de que há algo muito terrível acontecendo naquela cidade. 

“Como uma atriz, num comercial. Era isso o que ela era, pressentiu Joanna subitamente. Era isso que todas elas eram, todas as esposas de Stepford; atrizes de anúncios, felizes com detergentes, ceras, sabões, xampus e desodorantes. Atrizes belas, de busto grande e talento pequeno, desempenhando o papel de donas de casa suburbanas de maneira pouco convincente, boa demais para ser real."

Ao longo da trama, Ira Levin, por meio de Joanna, nos conduz por uma atmosfera de mistério, desconfiança e incertezas, nos dando sutis pistas do que poderia estar ocorrendo em Stepford. Haveria algum composto químico na rede de abastecimento da cidade que estaria transformando aquelas mulheres em verdadeiros zumbis viciados em afazeres domésticos e em cultivar a aparência física? Estariam elas sendo vítimas de uma terrível conspiração arquitetada pelos homens, com a conivência e a participação de seus próprios maridos? 

Por fim, com a chegada de novos moradores a Stepford (o que aborda ainda sutilmente a questão do racismo, já que se trata de uma família negra cuja esposa, Ruthanne, pondera se o estranho comportamento das demais mulheres se daria devido à cor de sua pele), temos a chocante revelação do bizarro segredo do local, e é quase impossível não ficarmos desconfortáveis e boquiabertos. A exemplo do que ocorre em O bebê de Rosemary, o autor deixa muito ainda a cargo da imaginação do leitor - o que mostra a habilidade com que Ira Levin desenvolve tramas tão intrigantes, que nos cativam e nos deixam pensando por um bom tempo.

Não por acaso, a primeira adaptação cinematográfica da obra, que recebeu o título de Esposas em Conflito (1975), ficou conhecida como um clássico filme de terror feminista (e que, a propósito, será discutido no Cineclube Clássico neste mês de maio). A trama, inclusive, inspirou Jordan Peele na concepção do aclamado Corra! (2017), que levou o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2018. Lamentavelmente, o segundo filme baseado na obra, Mulheres Perfeitas (2004) – que impulsionou o segundo lançamento do livro no Brasil, com o mesmo título –, embora estrelado por um elenco de peso encabeçado por Nicole Kidman, não faz jus à obra literária, pela escolha em abordar tal enredo com contornos de comédia. 

É inegável a forte crítica presente no romance de Ira Levin que, de forma metafórica, ilustra brilhantemente como até o mais pretensamente progressista dos homens pode se sentir ameaçado pela liberdade adquirida pelas mulheres, sendo a favor de seus direitos até a segunda página, desde que estes não ameacem seu conforto e seus privilégios, que estarão sempre em primeiro lugar. A Associação Masculina é o mais perfeito exemplo desse pacto narcísico (em uma referência paralela ao termo cunhado pela psicóloga e ativista, Dra. Cida Bento) que pode se estabelecer entre os homens em detrimento das mulheres. 

Fato é que essa crítica se apresenta ainda muito atual, pois esta é uma pauta que não se encontra totalmente superada, apesar do tempo transcorrido. No ensaio Sejamos todos feministas (2015), a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie nos apresenta um panorama esclarecedor sobre a importância do feminismo, cuja luta se baseia em preservar, acima de tudo, o direito e o poder de escolha das mulheres (inclusive a escolha de se dedicarem inteiramente a ser donas de casa, mães e esposas, se assim, de fato e conscientemente, desejarem), resumindo perfeitamente essa expectativa que ainda é predominantemente imposta às mulheres, bem como certas posturas e comportamentos que ainda se esperam apenas delas, mesmo que isso custe sua felicidade e seus reais objetivos, sonhos e potencialidades: 

"Conheço uma mulher que odiava tarefas domésticas, mas fingia que não, já que fora ensinada a ser 'caseira', como 'uma boa esposa' tem de ser. Finalmente ela se casou. E a família do marido começou a reclamar quando seu comportamento mudou. Ora, na verdade ela não mudou. Ela apenas se cansou de fingir ser o que não era."

Até os dias de hoje, o termo “Stepford Wife” (em tradução livre, esposa de Stepford) ainda é usado na língua inglesa, tendo sido consagrado para descrever as donas de casa e esposas supostamente exemplares e perfeitas, o que mostra o impacto da referida obra literária e o quanto as questões abordadas nesse romance concebido na década de 1970 ainda se mostram presentes, expondo com perfeição a clássica história de terror da vida real - a manutenção de uma estrutura patriarcal e sexista, que explora e diminui mulheres. 


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Referências



Arte em destaque: Mia Sodré 

Vanessa Vieira
Brasiliense, encantada por histórias – reais e inventadas – desde criancinha, sempre encontrou nos livros e nos filmes seus melhores companheiros. Formada em Letras e apaixonada por Literatura e Cinema, tornou-se servidora pública na área da Cultura, sempre acreditando no potencial que esta tem de transformar e salvar vidas.

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