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A Casa das Sete Torres: os fantasmas da família Pyncheon e o American Dream


Século XVII, Nova Inglaterra. O patriarca, Coronel Pyncheon, contrói a Casa das Sete Torres para ser o grande legado de sua família. Mas uma casa como herança é mais do que a materialidade que protege contra as intempéries naturais e delimita o espaço doméstico. Lembranças, traumas e memórias são partes de uma casa tanto quanto tijolos, paredes, portas e janelas. A cada geração essa história familiar se acumula, perseguindo os descendentes seguintes e assombrando os atuais residentes com as culpas e crimes dos antepassados que, como fantasmas, ainda habitam aqueles cômodos.

O Autor 


Nathaniel Hawthorne nasceu na cidade de Salem, Massachussetts, em 1804. Quando o autor escreveu e publicou A Casa das Sete Torres, em meados de 1850, ele já era bastante conhecido pelo seu romance anterior, A Letra Escarlate, publicado no mesmo ano. A Casa das Sete Torres é um romance gótico no qual a “casa mal-assombrada” é a personagem principal. Os demais personagens e a trama envolvente se dão em torno ou em função desta construção cuja arquitetura remete ao século XVII.

Nathaniel Hawthorne

Os anos 1600s foram marcados pela chegada de imigrantes puritanos à América do Norte. Impulsionados por desavenças religiosas na Inglaterra, estes peregrinos buscaram no Novo Mundo um refúgio da perseguição que vinham sofrendo e um futuro com oportunidades para si e seus filhos. O famoso navio Mayflower, que partiu da Inglaterra transportando as famílias de peregrinos em direção à Massachussetts em 1620, é o grande símbolo de início deste momento histórico. A origem da Casa das Sete Torres remonta a este período, e no primeiro capítulo somos apresentados às condições pelas quais o terreno onde se encontra a casa foi adquirido e como se deu sua construção.

A Obra


Num povoado de peregrinos que viviam um processo de mudanças econômicas e urbanas, uma área valorizada pela sua localização alta e a proximidade de um poço de água potável atraiu o interesse do Coronel Pyncheon. Neste terreno, porém, viviam o carpinteiro Matthew Maule e sua família numa humilde cabana. Motivado pela ganância, o Coronel Pyncheon acusou Maule de bruxaria e participou de seu julgamento, condenando-o à morte. No momento de sua execução, Maule apontou para o Coronel e o amaldiçoou, dizendo que “Deus há de fazê-lo beber sangue!”. Não obstante, depois deste evento, o Coronel adquiriu o terreno por um preço irrisório e lá construiu uma grande casa com sete torres, projetada e construída pelo melhor empreiteiro da cidade, o filho de Matthew Maule.

Deus há de fazê-lo beber sangue!

A maldição se mostrou real ao passar dos anos. A água do poço tornou-se impura e, durante a festa de inauguração da casa, o Coronel Pyncheon foi encontrado morto em seu escritório, sufocado em seu próprio sangue. A casa, como era o desejo de seu idealizador, continuou sendo da família Pyncheon, passando de geração em geração. A contaminação do poço e demais tragédias que aconteceram com outros membros da família contribuíram para a crença de que a casa e a família Pyncheon fossem amaldiçoados pelo fantasma de Maule como vingança pelo seu assassinato e usurpação de seu terreno.

Mais ou menos na metade de uma rua transversal de uma das pequenas cidades da nossa Nova Inglaterra, fica uma velha, decadente casa, com sete torres pontudas, viradas para os vários pontos da bússola, e uma pesada e enorme chaminé no meio. A rua se chama Pyncheon; a casa é a velha Casa dos Pyncheon; e um olmo, de tronco muito largo, que cresce diante da porta, é conhecido por todos os habitantes da cidadezinha pelo nome de Olmo dos Pyncheon.

Depois dessa sombria introdução, pulamos dois séculos e entramos de fato na história. Nesta mesma casa, em meados do século XIX, somos apresentados à atual moradora, a senhorita Hepzibah Pyncheon, uma velha que passou toda sua vida reclusa e, consumida pela solidão e escuridão daquele ambiente, acabou adquirindo feições grotescas. Apesar do bom coração, sua carranca assusta as pessoas, inclusive seu próprio irmão tão querido por ela. Por causa de dificuldades financeiras, ela reabre um comércio que um antepassado, um século antes, havia aberto embaixo da torre que dava para a rua. Uma vez morto, aquele cômodo havia sido fechado, mas agora, envergonhada e humilhada, pois estava contradizendo sua linhagem aristocrática, Hepzibah reabre as portas da mercearia.

Temos de nos deter um momento para falarmos a respeito da infeliz expressão fisionômica da pobre Hepzibah. Sua carranca – como todo mundo teimava em chamar, todo mundo ou pelo menos as pessoas que tinham oportunidade de entrevê-la, pela janela de sua casa -, a sua carranca prejudicava muito a srta. Hepzibah, atribuindo-lhe o gênio de rabugenta solteirona; e nem parece improvável que, olhando-se com frequência no embaçado espelho, e encontrando perpetuamente a sua expressão carrancuda na fantasmagórica esfera, ela própria fora levada a interpretar tal expressão quase tão injustamente quanto os outros interpretavam.
- Como eu sou mal-encarada! – Ela deve ter muitas vezes sussurrado, consigo mesma.
E acabou achando que era mesmo, curvada ante o fatalismo. Seu coração, no entanto, jamais se fechou. Era naturalmente terno, sensível, cheio de ligeiros tremores e palpitações, enquanto o rosto se mostrava duro, e mesmo feroz.

Depois disso, outros personagens e situações nos são apresentados: a jovem Phoebe Pyncheon, uma parente distante que chega de surpresa para morar com a senhorita Hepzibah; o irmão de Hepzibah, Clifford, depois de um passado obscuro, também retorna à mansão para viver com a irmã; o Juiz Pyncheon, descendente rico da família, um poderoso e influente juiz envolvido com a política; e, finalmente, Holgrave, um artista de daguerreótipo que aluga um espaço na casa, onde vive como inquilino.

A princípio, o livro pode parecer devagar e maçante. De fato, pouca coisa acontece na trama. Os personagens vão sendo apresentados aos poucos e não há um desenvolvimento psicológico, eles estão ali cumprindo seus papéis e interagindo entre si. Depois de conhecer a origem da casa, entramos pela porta e não saímos mais dela. Nós, leitores, nos tornamos quase que a própria casa observando seus residentes. Somos avisados quando toca a campainha, acompanhamos os subires e desceres de escadas, a preparação do café da manhã, a arrumação do quarto e o tempo gasto no jardim. 

House of the Seven Gables em Salem, Massachusetts (1915)
O mundo de fora nós acompanhamos pela janela, junto com Clifford que, de sua poltrona, observa o movimento da rua. É uma narrativa deliciosa para conhecer os hábitos e a rotina doméstica de uma família e de uma cidade da Nova Inglaterra no século XIX. Pelo trabalho na mercearia, conhecemos os principais artigos vendidos naquela época; pelos olhos de Clifford, vemos a chegada de novos imigrantes italianos e irlandeses; pelo Juiz Pyncheon, ficamos sabendo um pouco mais sobre a organização da classe política.

Há uma sombra de mistério que envolve os personagens, e só mais adiante são revelados o passado e a real identidade de um deles. No entanto, a maestria narrativa de Hawthorne está em criar um ambiente pesado, cheio de desconfiança, uma atmosfera sombria cujos elementos fantásticos são apenas sugeridos – cabendo ao leitor decidir se são obras do sobrenatural ou não.

Essa atmosfera torna a leitura ofegante. Começamos nós, leitores, a nos sentirmos sufocados pelas paredes da casa. Até que, num momento, uma ruptura. A leitura vagarosa e apreensiva culmina numa repentina troca de cena e, num virar de página, dois personagens saem pela porta e tomam um trem. Mas o alívio não vem, porque a mudança veloz de paisagem vista pela janela do trem mais a incerteza do destino, transformam o diálogo de Clifford com outro passageiro num questionamento desesperado sobre o que é e para onde vai o progresso humano. Ao mesmo tempo que estes personagens atravessam vilas e campos sobre uma estrada de ferro, na casa restou um homem para quem um único momento no tempo parou. Um segundo congelado. Sozinho e sentado na cadeira, o narrador o provoca, chama-o para se levantar e cumprir todos os afazeres listados no papel que carregava em seu bolso. O narrador conversa conosco, leitores, e com o próprio personagem, chamando-o a tomar uma atitude. Mas o tempo passa, o sol se põe e assistimos, à meia-noite, uma passeata de todos os fantasmas daquela família que ainda habitam aquela casa até que, por último, o homem sentado vê a si mesmo caminhando em último lugar.

A morte é um elemento presente do começo ao fim. Construída sobre um assassinato, a casa carrega a culpa deste crime para as gerações seguintes, que são assombradas com fins trágicos e uma vida atormentada, como a de Alice Pyncheon. Quem nos conta sua história é o artista Holgrave. Segundo ele, Matthew Maule, neto do primeiro Maule e filho do empreiteiro que construiu a casa, hipnotizou a moça para que esta contasse – em estado hipnótico – onde estava o documento perdido que garantia à família Pyncheon terras que haviam sido, há um século, dadas pela Coroa Inglesa. A revelação não veio, mas sob os poderes de Maule, Alice perdeu toda sua autonomia e, não importava a hora, o dia e ocasião, o filho do empreiteiro comandava seus passos e ações, não importa de onde eles estivessem.

Apesar do ambiente sombrio e sobrenatural da casa, o elemento que percorre toda a narrativa não é o susto, tampouco o medo. O sentimento que reina é a tristeza profunda em saber que a felicidade não será encontrada. Os fantasmas que assombram a casa da família Pyncheon são as suas próprias memórias, os crimes cometidos pelos seus antepassados, a cobiça que, geração após geração, continua presente. Apesar de serem bons em suas almas e corações, essa história familiar lhes nega a alegria, e o que resta é uma vida de vergonha, reclusa, isolada da sociedade.

No entanto, quando a luz do sol deixou o alto das sete torres, também a animação desapareceu do rosto de Clifford, que ficou olhando vaga e tristemente em torno de si, como se estivesse perdido alguma coisa preciosa e lamentasse a perda tanto mais quanto não sabia precisamente do que se tratava.
- Eu quero a minha felicidade! – murmurou afinal, áspera e indistintamente, mal articulando as palavras. – Por muitos e muitos anos a esperei! É tarde! É tarde! Quero a minha felicidade!
Pobre Clifford! Estás velho e gasto por sofrimentos que jamais deviam ter te atingido. Estás em parte louco e em parte imbecilizado; uma ruína, um fracasso, como quase todo mundo é – embora alguns em grau menor, ou menos perceptivamente, que os teus semelhantes. O destino não tem felicidade armazenada para te fornecer; a não ser o teu lar tranquilo no velho casarão da família, com a fiel Hepzibah, as tardes de verão com Phoebe e essas reuniões domingueiras com o tio Venner e o artista do daguerrótipo mereçam ser chamados de felicidade! Por que não? Se não é a mesma coisa, é maravilhosamente semelhante a ela, principalmente no que se refere àquela qualidade etérea e intangível que faz com que tudo desapareça em fase de uma instrospecção muito de perto. Apodera-te dela, pois, enquanto podes! Não murmures, não questiones, mas tira dela o melhor proveito!

O Sonho Americano 


A procura em vão da felicidade prometida está no próprio conceito de American Dream, que ajudou a fundar os Estados Unidos como nação e trouxe os peregrinos da Inglaterra para o Novo Mundo. A casa e a família Pyncheon são uma metáfora dos Estados Unidos e sua história de fundação. Como os Pyncheon, a família do autor, os Hathornes, haviam chegado nas novas colônias no século XVII. Um dos antepassados de Nathaniel Hawthorne havia participado dos julgamentos das bruxas de Salem e condenado muitas mulheres e famílias à morte. Dizem que, envergonhado desta história, Nathaniel mudou seu sobrenome de Hathorne para Hawthorne, mas este desconforto não se limita ao campo individual e familiar. Nathaniel Hawthorne nos mostra que este passado também assombra a história de seu país.

O que o autor quer dizer é que não é possível buscar a felicidade quando tudo começa errado, pois não é possível pegar o passado e jogar para baixo do tapete. Assim como o Coronel Pyncheon participou do julgamento de Maule para adquirir suas terras por um preço irrisório, os julgamentos das bruxas de Salem (como ficou depois conhecido esse evento histórico) foram também um meio pelo qual a classe política e dominante, recém-chegada nas colônias, pudesse adquirir terras e lotes por preços baixíssimos. As bases de fundação desta nova nação – que viria a se tornar os Estados Unidos da América – começava pelos meios errados. Assim como o Coronel Pyncheon construiu uma casa em terreno usurpado pensando em seus descendentes, era sobre o solo adquirido por meio de assassinatos cruéis que aqueles colonizadores vindos da Inglaterra estavam construindo um novo lar para seus descendentes. Como os Pyncheons vinham sendo assombrados pelos crimes cometidos pelo seu antepassado, os futuros americanos do Novo Mundo, filhos dos colonos puritanos vindos da Inglaterra, também teriam essa marca em sua história.

Dito tudo isso, a pergunta que se coloca é: é possível a gente se livrar do passado? É possível começar de novo? A geração seguinte carregará para sempre os crimes e culpas das gerações anteriores? A resposta, em parte, é que sim. Não importa de onde viemos, nós carregamos em nós – no âmbito familiar e social – o que foi construído pelos nossos pais e avós. Apesar deste tom pessimista, Hawthorne nos dá um alento com um final de esperança e a possibilidade de encontrar a felicidade que foi prometida, e negada, aos personagens.

O desfecho planejado por Hawthorne ficará para os curiosos que se aventurarem pela Casa das Sete Torres. Os Pyncheon conseguiram seguir adiante com suas vidas, apesar do passado obscuro impresso nas paredes do legado da família pelos seus antepassados? Há uma saída, para um dia, os americanos descendentes dos colonos puritanos ingleses encontrarem, nesta nova nação, a felicidade que lhes foi prometida? Aos corajosos, uma boa leitura.


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Arte em destaque: Caroline Cecin

Giovana Faviano
Historiadora de formação. Interessada em tudo que envolve subjetividade e criatividade humana. Ama ler, escrever e cozinhar. Se não está fazendo uma destas três coisas, então está tomando um cafézinho.

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