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Os monarcas do pop: a rivalidade de Prince e Michael Jackson

Por mais grandioso que seja, nenhum reino é imune à ganância de seus inimigos. Eventualmente, reis e rainhas são obrigados a lidar com oponentes ambiciosos o bastante para tirar-lhes a paz e os desafiarem a abdicar do trono. No reino do pop, isso não poderia ser diferente.

Antes das coreografias contagiantes de Dua Lipa, dos acordes delicados de Shawn Mendes e das composições controversas de Taylor Swift, o império de um dos gêneros musicais mais amados era comandado por outros nomes. Até hoje, somos lembrados das grandes dinastias: The Beatles, ABBA, Madonna e, é claro, Michael Jackson.

Quase 15 anos após sua morte, ainda há quem pense em destronar o famoso rei do pop e ser acolhido como seu sucessor. Porém, somente quando estava vivo e lotando estádios ao redor do mundo, existiu um homem que se atreveu, de fato, a cumprir esse feito. Ironicamente, ele era chamado de príncipe.

Prince e Michael Jackson foram protagonistas de uma das rivalidades mais marcantes da história da música. Em termos de talento e escândalos, ambos se igualavam; contudo, a preferência do público por um deles segue sendo inquestionável.

Não há como negar a popularidade de MJ. Desde a infância, mais precisamente desde 1969, quando debutou como vocalista do grupo The Jackson 5, o cantor coleciona centenas de milhares de fãs, sendo aclamado pela voz doce e a forte presença de palco. O artista de Indiana revolucionou a indústria de inúmeras formas, tornando praticamente impossível conhecer alguém que não tenha escutado uma de suas músicas – ou, ao menos, ouvido falar de seu nome.

Apesar de ser idolatrado como um verdadeiro deus, o astro não era impassível de críticas, tanto que, por anos, foi um dos principais alvos da imprensa mundial. Ainda assim, não eram só os paparazzis, sedentos por polêmicas, que o viam como um inimigo. No reino vizinho, liderado por um engenhoso músico de Minneapolis, a voz suave e as coreografias do intérprete de I'll Be There pareciam não ser tão apreciadas.

Enquanto Jackson crescia sendo amado por todos à sua volta, Prince aproveitava o anonimato para se aperfeiçoar em todos os aspectos musicais possíveis. Aos dezoito anos, ele sabia tocar dezenas de instrumentos; dominar a própria voz, desde a nota mais aguda até a mais grave; compor letras e melodias que, futuramente, seriam consideradas obras de arte; dançar e rodopiar tocando guitarra; e produzir, sozinho, álbuns completos. Era, com toda a certeza, um prodígio. Mais do que isso, um nobre páreo para competir pelos holofotes com o futuro rei.

O primeiro duelo

É impossível saber ao certo quando os primeiros murmúrios a respeito de tal rivalidade começaram no cenário musical. No entanto, eles chegaram aos ouvidos da imprensa em meados de 1983 – e não havia lugar melhor para o início do conflito: no palco de ninguém mais, ninguém menos que James Brown.

Naquela época, Jackson já era um grande nome na indústria, com hits como Thriller, Beat It e Billie Jean estourando nas rádios de diversos países; Prince, por outro lado, ainda estava construindo sua carreira, degustando pela primeira vez do sabor do sucesso e aproveitando a boa recepção de 1999 e Little Corvette por parte do público. Sendo assim, não havia razões aparentes para uma inimizade entre os dois, que, apesar de jovens e talentosos, viviam momentos diferentes em suas trajetórias profissionais. Porém, algo sobre o jovem de Minneapolis chamava a atenção de Jackson que, quando viu a oportunidade, decidiu testar o adversário em potencial.

Durante um de seus concertos, na cidade de Los Angeles, Brown soube que Michael Jackson estava na audiência e pediu que se apresentasse com ele. Após cantar, dançar e deliciar o público com o famoso Moonwalk, Jackson, que sabia que Prince também estava no local, pediu para que Brown o convidasse ao palco. De acordo com o produtor Quincy Jones, que assistia a conversa a poucos passos dos dois, MJ havia dito a seguinte frase:

"Chame Prince ao palco, eu duvido que ele consiga me acompanhar."

Como Prince ainda estava longe de ser tão famoso como Jackson, James Brown não o conhecia, mas confiou no cantor e afirmou à audiência que alguém chamado Prince performaria com eles – sem imaginar, é claro, que estava prestes a se tornar o pivô de uma das polêmicas mais famosas do pop. 

Prince agarrou a oportunidade, indo ao encontro e aceitando uma guitarra da banda de seu anfitrião. Em um primeiro momento, seus acordes e presença de palco cativaram a todos, mas a impressão não durou muito. Em poucos minutos, ele havia arrancado a própria jaqueta e pulado em um dos postes de luz implantados no cenário, que não resistiu ao seu peso e caiu em cima da audiência. O incidente não foi bem recepcionado pela imprensa, nem pelo público, mas Michael Jackson pareceu se contentar com a humilhação do colega, afirmando que "ele foi ridículo, uma piada. As pessoas começaram a correr e gritar. Eu fiquei com tanta vergonha. Tudo está gravado em vídeo".


Em uma entrevista concedida à revista QC, em 2018, Jones reviveu os bastidores que sucederam o desastroso momento. De acordo com o amigo íntimo de Jackson, Prince não só ameaçou o cantor naquela noite, como tentou atropelá-lo: 

"Michael filmou tudo que aconteceu naquela noite. Prince soube e disse que o mataria se ele mostrasse a gravação a alguém; mas, de uma forma ou de outra, as imagens foram descobertas. Foi um confronto de superstars que, geralmente, é visto como um triunfo para Michael Jackson e uma rara humilhação para Prince. [...] Antes de ir embora, Michael disse que ele o aguardou na limusine para tentar atropelá-lo."

Além do relato do produtor, não há provas de que as ameaças e a intenção de atropelamento aconteceram. Contudo, se antes não havia motivos para um confronto entre os dois músicos, agora existiam o suficiente para o início de uma guerra. 

A ascensão do príncipe

Nada poderia agradar mais a imprensa do que o fato de que o querido e inabalável Michael Jackson não era tão querido ou inabalável assim. A partir daquele momento, Prince deixou de ser visto apenas como um artista em ascensão pela mídia, passando a ser o inimigo de uma das maiores estrelas da atualidade – o que o tornava ainda mais interessante. Não é à toa que os lançamentos que vieram após o incidente, o álbum e o musical Purple Rain (1984), foram tão aguardados.

Há quem acredite, até os dias de hoje, que o conjunto da obra é uma resposta a Thriller (1982). Sendo ou não o caso, as músicas inovadoras, a produção impecável e a voz deleitável apresentadas no disco surpreenderam os críticos e consagraram Prince como o músico completo que conhecemos hoje, lhe rendendo duas estatuetas no Grammy e um Oscar na categoria Melhor Trilha Sonora Original. 

Prince no Oscar (1985)

Em entrevista para Vibe Magazine, o produtor executivo Alan Leeds, que trabalhou nos bastidores de diversos concertos de Prince, disse que Jackson compareceu em muitos deles durante a tour do álbum:

"Trabalhei em quatro shows do Purple Rain em Los Angeles, em 1984. E agora que sei que Mike estava na plateia, muitas vezes assisto as gravações dos concertos para ver se consigo localizá-lo. Isso faz você pensar: por que Mike esteve lá quatro noites seguidas? Ele que já criou Thriller, fez o Moonwalk, fez os vídeos inovadores e vendeu um milhão por semana; que está oficialmente no Guinness Book of World Records. Sim, Purple Rain vendeu 15 milhões de unidades, mas dificilmente foram os 33 milhões que Thriller vendeu. Então, por que ficar tão curioso para saber quem está atrás de você? Então percebi que você não pode ter tanto sucesso sem ser competitivo. Michael sabia que Prince era uma ameaça."

Quincy Jones entendia que Prince não agradava seu cliente, mas era inevitável que o sucesso inesperado do cantor chamasse sua atenção. O produtor insistiu que uma colaboração entre ele e Jackson geraria um excelente comoção.

A primeira tentativa de aproximação foi um convite para participar de We Are The World (1985), que já contava com nomes como Cyndi Lauper, Bob Dylan e Stevie Wonder confirmados. De acordo com Leeds, Jones organizou um almoço para que os dois ídolos se encontrassem e discutissem sobre a oferta. O executivo lembra que, depois do encontro, "Prince me disse que achou Michael um pouco estranho. E isso significa muito quando vem de um homem que gosta de usar saltos altos e pijamas em clubes noturnos". 

Prince recusou o convite. A atitude foi vista como mais um de seus atos de arrogância, uma vez que a canção era uma forma de arrecadar dinheiro para a Etiópia e reverter a situação de fome no país – no entanto, a realidade é que ele apenas rejeitou cantar no single, mas colaborou com a criação de uma nova música para o álbum.

"Eu disse a eles que não queria cantar a canção, mas que escreveria outra com prazer."

4 The Tears In Your Eyes foi produzida durante a Purple Rain Tour e lançada como a sexta faixa no álbum do grupo USA for Africa. Dez anos depois, Prince participou da apresentação de We Are The World, realizada durante uma das edições do American Music Awards, mas optou por não cantar, preferindo se manter, ao lado de Jones, chupando um pirulito.


A segunda tentativa de apaziguar o antagonismo entre os dois ícones da música ocorreu durante a produção do sétimo álbum de MJ, o aclamado Bad (1987). Como o single narrava a briga entre dois adversários, Jones tinha a ideia de transformar o futuro hit em um dueto entre os rivais do pop. 

Prince chegou a comparecer na casa de Jackson, em Hayvenhurst, para tratar do assunto diretamente com ele e seu produtor, mas rejeitou a ideia assim que ouviu a primeira frase da música.

"Eu comecei a imaginar o clipe na minha cabeça. A primeira frase da música era 'your butt is mine' (sua bunda é minha), e eu fui logo dizendo 'quem vai cantar isso pra quem? Porque você com certeza não vai cantar pra mim, e eu com certeza não vou cantar pra você'. Então, de cara, tivemos esse problema." 

Ele sugeriu outra música para Jackson e, cerca de um mês após o encontro, enviou uma demo de Wouldn’t U Love to Love Me para o cantor, que, como o esperado, recusou a proposta. Era uma tortura, tanto para um quanto para o outro, aceitar que somente um deles teria total controle sob o projeto.

Apesar das negociações frustrantes, Prince profetizou para Jackson e sua equipe que Bad seria "um grande sucesso, mesmo que eu não esteja nele”, encerrando, assim, qualquer possibilidade de parceria entre eles. 

O próximo "confronto" de Prince e Jackson foi testemunhado no ano seguinte, em 1986. O ex-engenheiro de som de Prince, David Z, contou em 2009 sobre uma suposta briga entre a dupla durante uma partida de pingue-pongue. 

Jackson teria aparecido com seus guarda-costas no Samuel Goldwyn Studio, em West Hollywood, onde Prince estava finalizando seu novo musical, o Under the Cherry Moon (1986). Depois de conversarem por alguns minutos, os dois se permitiram a um momento de lazer e, colocando as desavenças de lado, deram início ao jogo. Z relatou que Prince provocou Jackson com piadas como: “Vamos, Michael, coloque a cabeça nisso” e “você quer que eu te acerte com a bola?”. 

"Houve um momento em que o Michael deixou cair a raquete e colocou as mãos na frente do rosto para que a bola não o acertasse. Depois, saiu com seu guarda-costas enquanto Prince zombava 'Você viu aquilo? Ele jogou como a Helen Keller'.”

Quando em Vegas

Nos anos seguintes ao esforço em vão de Quincy Jones em unir os artistas, uma guerra fria se instalou. As alfinetadas, rejeições e tentativas de ferir ou humilhar um ao outro cessaram e passaram a ser lidas através das entrelinhas de seus trabalhos. Assim, os tabloides, apelando por qualquer informação a respeito da competição entre Prince e Jackson, começaram a inventar e distorcer diversas histórias sobre a tumultuosa relação – uma delas era que Prince estava se comunicando por telepatia com o famoso chimpanzé de estimação de Michael Jackson, o Bubbles, a fim de enlouquecê-lo.

Manchete do National Enquirer (1987)
Apesar dos absurdos divulgados pela imprensa, foram poucas as situações que trouxeram à tona a rivalidade entre os músicos. A maioria delas, inclusive, só chegaram aos ouvidos e aos olhos do público após a morte de MJ, em 2009, e, depois, de Prince, em 2016. Uma delas foi contada por will.i.a.m, em 2015, durante uma entrevista para a revista Esquire com o editor colaborador da Rolling Stone, Steve Knopper

De acordo com o integrante do Black Eyed Peas, ele havia sido convidado para um show de Prince em Las Vegas e, como era um grande amigo de Jackson, que, naquela época (2006), morava na cidade, conseguiu com que o rei do pop fosse convidado para a plateia. Durante o concerto, Prince iniciou um solo de baixo e caminhou até a audiência, na direção do assento de MJ, e começou a tocar o instrumento a poucos centímetros do rosto do cantor. Na manhã seguinte, Will se dirigiu à casa de Jackson para acompanhá-lo no café da manhã e conversar sobre a apresentação. MJ, então, dividiu sua opinião:

"Prince sempre foi um malvado. Ele nunca foi legal comigo."

Michael Jackson faleceu em 25 de junho de 2009, no aniversário de 25 anos de Purple Rain. Naquele ano, Prince, que já havia afirmado que era contra covers (por respeito ao trabalho original dos artistas), reproduziu a canção Shake Your Body to the Ground, do Jackson 5. Já em 2013, cantou e dançou um dos primeiros sucessos da carreira solo do rival, a canção Don't Stop 'Til You Get Enough, durante o Montreux Jazz Festival. Quando questionado sobre a morte de Jackson pelo jornal francês Le Monde, em 2009, ele respondeu: "É sempre triste perder alguém que a gente ama".    

Mesmo com a controversa opinião que um nutria pelo outro, estava claro que a competição partia de um reconhecimento mútuo: o talento nato de ambos. Não, eles não eram melhores amigos; mas se respeitavam e admiravam um ao outro. Apenas Michael Jackson era páreo para Prince; apenas Prince era páreo para Michael Jackson. E essa rivalidade podia, em muitos momentos, ser estressante, mas possibilitava um desafio entre egos que, em suma, originava composições de arrepiar, melodias viciantes e videoclipes lendários. Um sempre queria superar o outro, e quem ganhava com isso não era apenas a imprensa sensacionalista, mas o público, que se encantava com a genialidade dos dois artistas.

Por muito tempo, a mídia tentou usar a suposta inimizade entre os astros para transformar um em vilão e o outro em mocinho, sem entender que, ao contrário da ficção, eram as semelhanças que os perturbavam e não as diferenças. Ambos tinham a mesma idade; cresceram guiados pelo mesmo sonho; abriram portas para diversos artistas; eram perfeccionistas e extremamente dedicados ao ofício; e queriam, de uma forma ou de outra, provar que eram o melhor, sem se dar conta de que seus talentos, de muitas formas, se completavam. 

"Prince era alimentado pela competição. Ele gostava e precisava disso, como muitos grandes artistas. Ele se deleitava em saber que a competição estava logo atrás dele, ou que ele estava aos pés de seu principal rival. Ele gostava de ter Michael Jackson lá, porque gostava da rivalidade. E certamente, isso é parte do que leva você a se tornar melhor. Como você vai se destacar se você não vencer seu rival?"

(Susan Rogers, ex-engenheira de equipe de Prince)

Infelizmente, nunca saberemos do impacto que uma parceria entre os dois seria capaz de render, mas nos confortamos com as inúmeras heranças deixadas pelas duas lendas que, assim como a maioria dos reis, eternizados pelos livros de história, marcaram gerações e viverão para todo o sempre através da música. 



Arte em destaque: Caroline Cecin
Caroline Cecin
Nascida no verão de 1998 em Mogi das Cruzes. Jornalista e mãe de gato em tempo integral. Apaixonada por palavras, escritoras do século XIX e cantoras dos anos 1970.

Comentários

  1. Que história fantástica! Não fazia ideia dessa rivalidade entre os dois, adorei conhecer. Texto impecável!

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