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Yellowjackets: meninas selvagens e a recriação de clássicos


As yellowjackets são uma espécie de vespa que possuem uma coloração amarela e preta e talvez possam ser confundidas com abelhas, mas as jaquetas amarelas não apenas são mais perigosas que simples abelhas, como também são mais agressivas que as demais espécies de vespas e possuem uma das picadas mais dolorosas do mundo, além de serem extremamente territorialistas. Por isso, se tornam ainda mais perigosas e agressivas quando seus ninhos ou sua rainha estão em perigo. Assim como outras espécies, as jaquetas amarelas possuem um sistema matriarcal: após o acasalamento, os machos morrem rapidamente, enquanto as rainhas fertilizadas procuram lugares protegidos para pôr os ovos. As fêmeas são perigosas e predatórias, por vezes carnívoras. As rainhas geralmente morrem no outono e no inverno uma nova rainha é escolhida para a colônia, e assim o ciclo se repete.

A história da série Yellowjackets tem mais em comum com esses insetos predatórios que apenas o nome do time de futebol feminino de que as protagonistas faziam parte na adolescência. Após um acidente de avião, a trajetória das atletas sobreviventes no meio da floresta também tem muito em comum com o ciclo de vida da jaqueta amarela. Apesar das familiaridades com a história escrita por William Golding em 1954, dessa vez as protagonistas são femininas, e logo fica claro que na série lançada em 2021 as vespas de fato são mais perigosas do que as moscas.

Garotas selvagens


A série, criada por Ashley Lyle e Bart Nickerson, conta a história de um time de futebol feminino do colegial que sofre um acidente de avião quando estão a caminho de um campeonato. O avião cai em uma região inóspita do Canadá e um grupo de meninas e três homens sobrevivem. Ben (Steven Krueger), o treinador das meninas, e dois irmãos, Adam (Peter Gadiot) e Travis (Kevin Alves), um dos sobreviventes que ainda estão vivos após o resgate 25 anos depois. Nos tempos atuais, as quatro protagonistas da série, Shauna (Melanie Lynskey e Sophie Nélisse), Natalie (Juliette Lewis e Sophie Thatcher), Taissa (Tawny Cypress e Jasmin Savoy) e Misty (Christina Ricci e Sammi Hanratty), são as únicas que apresentadas em versão adultas, deixando no ar o que aconteceu com as demais sobreviventes do acidente. Um mistério sobre o que aconteceu nos dezenove meses em que elas passaram na floresta se instaura quando na atualidade as quatro começam a ser chantageadas após receberem mensagens e cartões postais ameaçando revelar os segredos do que realmente aconteceu durante o tempo que passaram esperando resgate.


Nos primeiros minutos do piloto, dirigido por Karyn Kusama (de Garota Infernal), fica claro que as meninas sucumbiram ao canibalismo durante o inverno e que as sobreviventes se transformaram em um clã selvagem para sobreviver. A trama é dividida em duas linhas do tempo, uma em 1996 e a outra 25 anos depois, com as sobreviventes adultas que têm de conviver com os traumas do acidente e segredos ao mesmo tempo que tentam continuar vivendo como mulheres adultas, seja em suas famílias, seus vícios e seus trabalhos.

A série mescla muito bem terror, drama, sobrenatural e até momentos de comédia, e apresenta uma aura dos anos 1990, mas não necessariamente com uma versão romantizada e nostálgica da década, além de demonstrar muito bem as relações pessoais e coletivas de garotas adolescentes e de mulheres adultas. Como por exemplo a versão de Shauna adolescente, que está pouco a pouco desabrochando como uma líder além de descobrir que está grávida, após o acidente de avião, do namorado de sua melhor amiga, Jackie (Ella Purnell), que antes do acidente era a capitã do time e abelha rainha do colégio, mas que agora não consegue se adaptar à vida real fora dos muros da escola, e sua liderança cai por terra quando outras meninas passam a ter mais influência que ela na nova sociedade que se forma. Shauna adulta é uma dona de casa entediada que leva uma vida comum, mas que mata coelhos e retira sua pele sem esforços, assim como também consegue desmembrar um corpo humano. Taissa, que leva uma vida aparentemente perfeita com a esposa, o filho e sua carreira bem sucedida na política, ainda é afetada pelas consequências de suas ações durante o período que ficou na floresta e ainda perde o controle enquanto está sonâmbula, com medo de machucar a família. A versão adulta de Natalie continua sendo decidida e corajosa, mas parece estar ainda mais perdida que sua versão adolescente, viciada em álcool e em drogas por não conseguir lidar com os traumas e sua relação com Travis, que continuou após o resgate, mas que nem sempre foi saudável. E finalmente Misty, que mesmo após vinte e cinco anos ainda é uma mulher solitária e estranha, tão ou mais quanto era na adolescência, sempre excluída e com atitudes um tanto quanto criminosas e psicóticas.

A série mostra muito bem como a adolescência pode ser uma época complicada em diversos aspectos. E passar parte dessa fase no meio da floresta após um acidente de avião fez com que a experiência fosse ainda mais desesperadora. Assim como as supracitadas vespas jaquetas amarelas, as meninas se deixam guiar pelos seus hormônios e seus instintos que ficam cada vez mais selvagens. Como no episódio 5, intitulado de "Blood have", no qual a menstruação das meninas sincroniza e os ânimos começam a ficar exaltados. Além disso, há os "poderes" de Lotti (Courtney Eaton), que parecem desabrochar ou ficar mais fortes, assim como acontece com a famosa personagem de Stephen King, Carrie White, durante a menstruação. Brigas, intrigas, emoções reprimidas, desejos e sexualidade também culminam nos acontecimentos do penúltimo episódio, quando as meninas, após serem drogadas por Misty, se tornam de fatos animalescas, não apenas com elas mesmas mas com Travis, que é perseguido por elas pela floresta como se ele fosse um antílope fugindo de um grupo de leoas famintas, inclusive sexualmente.

De volta aos clássicos


As semelhanças entre Yellowjackets e a trama de Senhor das Moscas são diversas, como o acidente de avião e os sobreviventes serem jovens que pouco a pouco se tornam selvagens, porém a diferença entre meninos e garotas adolescentes torna a trama da série ao mesmo tempo mais agressiva e predatória, mas também mais organizada. O ego masculino e as consequências do mesmo não existem em Yellowjackets. Mesmo que as meninas também não morram de amores umas pelas outras, elas criam um sistema mais organizado, ainda que pareça ao mesmo tempo caótico. O fato delas serem mais velhas que os meninos da história de William Golding também demonstra que os interesses e maturidade são outros. 

Carrie (1976)

A narrativa também tem traços do filme Sangue de Pantera, de 1942, e seu remake de 1982, lançado com o nome de Marca da Pantera. Assim como as personagens principais dos filmes, as atletas da série se comportam de forma selvagem, seja como metáfora de uma pantera ou de uma vespa quando estão excitadas, com raiva ou com ciúmes. 

E Carrie White não é a única personagem de Stephen King que tem espaço para uma homenagem na série; Misty é com certeza uma versão de Annie Wilkes, a enfermeira fã número um do escritor Paul Sheldon no romance Misery - Louca Obsessão, lançado em 1987. Tanto a jovem Misty quanto sua versão adulta é uma mulher desequilibrada que tem surtos e parece não saber lidar com seus sentimentos. Após o acidente, Misty se torna muito importante na comunidade que se forma na floresta por ser a única que possui conhecimentos médicos, e se sente acolhida pela primeira vez, a ponto de desejar que o resgate nunca aconteça. Logo após o avião cair, Misty amputa a perna do treinador que havia sido esmagada por destroços do avião, e logo fica claro que ela é apaixonada por ele desde antes do acidente. A partir de então, ela começa a cuidar de Ben, e seus cuidados muitas vezes envolvem drogá-lo com remédios e cogumelos alucinógenos. A partir daí, rapidamente se desenvolve uma obsessão dela para com ele. O que ela não sabe é que Ben é gay e que, coincidentemente ou não, tem um namorado chamado Paul que também é escritor. No presente, assim como Annie Wilkes, Misty se torna uma enfermeira que vez ou outra muda a medicação dos pacientes, sequestra alguém e o prende em um porão.

Mesmo assim, Misty não é apresentada como uma vilã. As atuações de Christina Ricci e de Sammi Hanratty transformam a personagem em uma das mais carismáticas e queridas da série. A trama no geral faz questão de mostrar os dois lados de cada personagem, tornando-as muito reais. Porque na vida real ninguém é inteiramente bom ou ruim, e uma das melhores coisas de Yellowjackets é como a construção das personagens as tornou pessoas plurais, reais e complexas.

Os temas são finitos, e é quase impossível criar uma história que não tenha sido contada de alguma forma antes, e está tudo bem. O importante é fazer com que esse tema se torne autoral e único a cada vez que for contado, independentemente do formato da história. A série Yellowjackets possui semelhanças com histórias já contadas e tem como referências diversos clássicos, mas a forma que foi escrita e apresentada ao público é única e intrigante. A primeira temporada terminou deixando muitas perguntas a serem respondidas na já confirmada segunda temporada, e se você ainda não conferiu a história desse novo clássico contemporâneo, não perca tempo: a segunda parte dessa história deve ser lançada ainda em 2022.



Arte em destaque: Mia Sodré

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