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bell hooks, a mulher que deixou o amor como legado

“Uma mulher que fala de amor é suspeita.”

É fato: de todas as questões que intrigam a humanidade, nenhuma parece gerar tanto interesse e discórdia quanto o amor. O mesmo acontece com sua ausência. Seja o amor contido em nossas narrativas bíblicas e mitológicas, o poema mais antigo sobre o tema, The Love Song of Shu-Sin, escrito na Suméria há quatro mil anos, seja o amor como nosso objeto de estudo ou a causa pela qual vivemos e pela qual lutamos. O amor, ou a ausência de amor, é o tema preferido dos artistas e tem um papel fundamental na nossa cultura.

No entanto, muitas figuras públicas que falam de amor e o utilizam como propaganda não o vivenciam de verdade. John Lennon pregava que deveríamos amar uns aos outros enquanto era agressivo em seu casamento. Woody Allen produz até hoje filmes sobre amor mesmo após ter sido acusado por sua própria filha de tê-la estuprado na infância. Ser capaz de vivenciar o amor plenamente, estudá-lo na busca por compreendê-lo e torná-lo constante na própria obra, é um êxito de poucos artistas e de pouquíssimos intelectuais. bell hooks, que nos deixou em 2021, era tanto intelectual quanto artista, e fez desse êxito - o amor como uma ação - a base de seu legado.

Nascida Gloria Jean Watkins no sul segregado dos Estados Unidos em 1952, escolheu chamar-se bell hooks em tributo à bisavó materna Bell Blair Hooks, e em letras minúsculas para que suas palavras falassem por si mesmas. Começou a escrever poesia ainda criança, “sentindo a mesma confiança que, na vida adulta, veria apenas nos escritores homens”, e abandonou rapidamente o tema do amor para compor sobre a morte, após convencer-se de que "fêmeas realmente não tinham nada sério para ensinar ao mundo sobre o amor”. Com o tempo, descobriu que estava errada. As mulheres não somente tinham muito a ensinar sobre o amor como o faziam, mas seus livros não eram reconhecidos como os livros escritos por homens.

“Na cultura popular, o amor sempre é da ordem da fantasia. Talvez seja por isso que os homens tenham produzido a maioria das teorias acerca do amor. A fantasia tem sido em grande parte domínio deles, tanto na esfera da produção cultural quanto no dia a dia. A fantasia masculina é vista como algo capaz de criar realidade, enquanto a fantasia feminina é tratada como puro escapismo. Portanto, o romance, como gênero literário, é o único domínio em que as mulheres falam de amor com algum grau de autoridade. Entretanto, quando os homens se apropriam do gênero das narrativas românticas, suas obras são muito mais reconhecidas que a escrita das mulheres.”

Apesar do amor ter se tornado um de seus tantos interesses, bell não cresceu em um lar completamente amoroso, tampouco em uma sociedade acolhedora. Como as demais famílias de afrodescendentes em Hopkinsville, Kentucky, nos anos 1950, viveu sob as Leis de Jim Crow, que estabeleceram a segregação racial no sul dos Estados Unidos em escolas, locais públicos e transportes de 1877 a 1964.

A família de classe trabalhadora, que ela descreve como “disfuncional” e uma “estranha mistura de carinho e crueldade”, era formada pelo pai, Veodis, que era zelador, a mãe, Rosa Bell, empregada doméstica em casas de brancos, e mais cinco irmãs e um irmão. “Em um dia normal na minha família de origem”, ela conta, “eu receberia atenção carinhosa, e o fato de eu ser uma menina inteligente seria afirmado e estimulado. Então, horas depois, alguém me diria que era exatamente porque eu me achava tão esperta que provavelmente acabaria louca e internada num hospício onde ninguém iria me visitar”.

Deparou-se com uma realidade ainda menos afetuosa ao ser transferida para uma escola integrada na adolescência, majoritariamente branca, onde foi alvo de intolerância e vivenciou anos de “profunda tristeza”. Foi nesse contexto que, ao observar as relações de poder e a intersecção entre raça, gênero e classe na própria comunidade, produziu reflexões que deram forma ao livro E eu não sou uma mulher? Mulheres Negras e o Feminismo, desenvolvido na faculdade e publicado oito anos depois. bell hooks, que há muito sonhava em ser escritora e educadora, movida pelo incentivo das professoras negras na infância e pela fascinação acerca do potencial transformador da educação, conseguiu uma bolsa em Letras na Universidade de Stanford em 1973, tornando-se professora após o mestrado, em 1976.

Baseado no discurso da ativista e abolicionista Sojourner Truth, E eu não sou uma mulher? obteve sucesso quase instantâneo, contribuindo para a discussão do racismo e sexismo enraizados no movimento feminista protagonizado por mulheres brancas. À época do lançamento, hooks era doutora em literatura inglesa e autora publicada, com seu primeiro título sendo o livro de poemas And There We Wept. Com a faca e o queijo para tornar-se prestigiada na academia, seguiu o caminho oposto, e optou por escrever em uma linguagem descomplicada em busca de um alcance democrático.

Se a academia era uma ilha distante, hooks construiu um barco grande o bastante e convocou o máximo de pessoas possível para participar de uma revolução que, sem elas, não ocorreria. Bem como a profissão de educadora - e, já dizia Paulo Freire, um de seus maiores mestres, que a educação é um ato de amor -, sua decisão de romper com a tradição acadêmica e escrever para todos foi uma escolha amorosa, de amor ao coletivo.

Nos anos seguintes, enquanto lecionava em diversas universidades, embarcou em uma luta antirracista, anticapitalista e antipatriarcal influenciada por James Baldwin, Sojourner Truth e Martin Luther King Jr., e lançou uma série de obras que articulam raça, gênero, classe e educação. Suas críticas ao feminismo branco e economicamente privilegiado, predominante durante a primeira e segunda ondas do movimento, instigaram mulheres negras ao redor do mundo a se oporem contra uma perspectiva que favorecia os sistemas de opressão. Seu primeiro compromisso era fomentar o amor próprio. É através dele que se cria coragem para erguer a voz, frase que dá nome à coletânea de ensaios de 1989, na qual bell denuncia o silenciamento da mulher negra em espaços públicos e privados, e discorre sobre a ideia de que o pessoal é político. 

Em Tudo sobre o amor, publicado em 2000, há um capítulo dedicado ao amor-próprio em que afirma:

“O amor-próprio não pode florescer em isolamento. Não é uma tarefa fácil amar a si mesmo. Axiomas simples que fazem o amor-próprio soar fácil só tornam as coisas piores. Eles levam muitas pessoas a se perguntarem por que continuam presas a sentimentos de baixa autoestima e auto-ódio se é assim tão fácil se amar. [...] Quando vemos o amor como uma combinação de confiança, compromisso, cuidado, respeito, conhecimento e responsabilidade, podemos trabalhar para desenvolver essas qualidades ou, se elas já forem parte de quem somos, podemos aprender a estendê-las a nós mesmos.”

bell hooks foi uma intelectual que, sob todos os aspectos, jamais se limitou. Da mesma forma como não se restringia à ilha acadêmica, desbravou os mares da cultura, política, corpo, mente e espiritualidade, formando uma geração de pensadores e ativistas de dentro para fora. Há um senso de gratidão impressionante nas palavras de quem, ao tê-la como espécie de guia para a vida, a perdeu neste plano. Ao contrário de um luto que desnorteia, bell nos deixa com uma obra que nos sustenta e uma sensação de tristeza ainda doce. Quão fácil é ser tocado por ela, quão difícil é aceitar o convite para ser transformado. Isso só é possível quando aceitamos seu chamado de regresso ao amor, e o elegemos como centro da vida, compreendendo-o como ato que ultrapassa o sentimento.

Para hooks, amar é um ato revolucionário, e revoluções não acontecem da noite para o dia. Se o amor é uma ação, a transformação pelo amor está nos detalhes. A prática do amor teve início na escolha pela docência, percorrendo um caminho longo em escritos acessíveis que influenciaram e influenciarão gerações. Para nós, que estamos do outro lado, o amor como ato começa no momento em que fechamos seu livro e decidimos sobre o que acabamos de ler. Essa foi uma mulher que nunca escreveu sem fazer uma convocação. Lê-la implica na necessidade de agir. Seu legado, que difere em cada um de nós por ter se conectado de formas diferentes com cada pessoa, propõe que desloquemos o amor desse espaço de cinismo, onde é tido como fraqueza, e o situemos como uma potência fundamental.

Perto de fazer quarenta anos, bell hooks foi surpreendida com uma doença grave. Com medo da morte, se negou a morrer sem que encontrasse o “tipo de amor pelo qual [seu] coração vinha procurando”. O temor fez com que começasse a pensar o significado e o papel do amor em uma sociedade que prega o desamor, enquanto o mantém no reino da fantasia, resumindo-o ao espectro romântico e sexual. Pelas próximas décadas, dedicou-se a preencher cada aspecto de sua vida com amor, e encorajou leitores a fazer o mesmo.

Quando faleceu em 2021, notícias reportavam que ela morreu em sua casa em Kentucky, rodeada dos amigos e da família. Seu desfecho sereno remete ao trecho de Tudo sobre o amor em que reflete sobre a morte: “Amar permite que transformemos nossa celebração da morte em uma celebração da vida. [...] O amor nos empodera para viver plenamente e morrer bem. Então, a morte se torna não o fim da vida, mas uma parte dela”

O amor foi sempre um ato, praticado até o fim.



Arte em destaque: Caroline Cecin
Diana Joucovski
Escritora e entusiasta da arte em suas múltiplas linguagens. Sonha tanto acordada quanto dormindo e, quando não devaneia uma realidade própria, transita pelo universo do cinema e da literatura. Queria ter algo de culta, mas não pode evitar ter nascido à beira do século em que Stephanie Meyer escreveu Twilight.

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