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Ataque dos cães: o universo masculino sob um olhar feminino


Ataque dos Cães (The Power of the Dog no original), lançado e distribuído exclusivamente pela Netflix, foi dirigido pela premiada diretora neozelandesa Jane Campion, conhecida por obras como Bright Star (2009) e O Piano (1993). O filme foi baseado no romance homônimo publicado em 1967, do escritor estadunidense Thomas Savage, e conta a história de dois irmãos, Phil (Benedict Cumberbatch) e George Burbank (Jesse Plemons), que administram e vivem em um rancho em Montana, em 1925.

A história começa a se desenrolar quando George se casa com uma viúva chamada Rose Gordon (Kirsten Dunst) após um encontro dramático entre Phil e Peter (Kodi Smit-McPhee), filho de Rose. Quando Rose se muda para o rancho, ela rapidamente começa a ser perseguida e atormentada por Phil. A relação entre ele Peter se desenvolve quando o rapaz passa as férias da faculdade no rancho, e então segredos, traumas e tragédias começam a vir à tona.

"Livra-me da espada, livra a minha vida do poder do cão."

O livro de Thomas Savage é uma história muito masculina; as personagens femininas têm poucas falas e a masculinidade domina toda a trama. Jane Campion não removeu e nem modificou a força, a raiva e a personalidade de seus personagens, tampouco tentou domá-los e encaixá-los em uma visão idealizada do masculino perfeito. O contexto familiar em que os irmãos Burbank vivem possui uma história de violência mesmo que seja silenciosa, cicatrizes que nunca foram curadas e segredos nunca revelados.

Ao invés de simplesmente vilanizar Phil e suas ações, Jane Campion vai além e cria um homem complexo que, em conjunto com a atuação de Benedict Cumberbatch, transforma o filme em uma obra-prima de vingança, mas também de amor. Diferentes tipos de amor, um amor que ficou no passado e um homem torturado pelos seus sentimentos. Em Nos Bastidores com Jane Campion (2022), disponível na Netflix, é dito que: 

"Eu adoro a descrição do Phil Burbank. Acho que ele é um dos melhores personagens da ficção norte-americana. Tudo que ele fez ficou no passado. Ele só pode amar com segurança no passado. Amar no presente, como um homossexual enrustido ou como um homofóbico é impossível. Então eu o acho comovente e acho que a relação misteriosa entre ele e o rapaz é emocionante e prazerosa."

A ternura com que Campion conduz a direção, como na cena em que Phil dedilha a flor de papel feita por Peter suavemente, contrasta muitas vezes com a maneira como essas cenas terminam em rompantes de violência, mesmo que apenas psicológica, demonstrando uma magnitude e agressividade masculinas que mais têm a ver com a vida contida que aqueles personagens vivem do que com violência gratuita.

Afinal, o que é ser um homem? E o que é ser um homem que ama outros homens e que vive em um universo heterossexual masculino onde é considerado um líder, um exemplo, um alfa, que apesar de seus sentimentos, não considera homossexuais homens de verdade? E seu ódio não é direcionado apenas para os outros, mas também para si mesmo, e por isso desconta toda sua frustração em Rose.

Após se casar com George, Rose vê sua esperança de felicidade ser transformada em desespero quando vira alvo de Phil, e a insegurança e tristeza de Rose é ampliada diante da violência psicológica do genro. Apenas um simples passo, um bater de portas e um assovio dele é capaz de desencadear crises de ansiedade na mulher.

Uma disputa silenciosa entre ambos logo se instaura, mas parece ser uma disputa de uma pessoa só. A fragilidade de Rose se aflora e a presença de Phil no rancho é tão influente, tão agressiva, tão brutal que até mesmo em sua ausência a mera menção de sua presença é o bastante para Rose começar a enlouquecer.

Eles raramente trocam palavras, Phil sequer fica no mesmo cômodo que Rose, como se não conseguisse dividir o mesmo espaço que ela. Mesmo assim, sua presença é tangível e palpável, como ele faz questão que seja. E aos poucos Rose começa a beber e esconder bebida pela casa.

O modo como Phil automaticamente desconfia das intenções de Rose, mesmo sem nem conhecê-la, mostra que a feminilidade não faz parte da vida dele e nunca fez. Ele nunca precisou entendê-la porque jamais se interessou por ela. Phil é misógino, não confia nas mulheres, não apenas em Rose, mas em todas as mulheres, até mesmo em sua própria mãe. A presença de Peter faz ele odiar sua parte sensível, porque o rapaz é tudo o que ele jamais poderia ser, já que construiu uma barreira de proteção tão grande ao seu redor que para as outras pessoas é como se nada pudesse abalá-lo. Uma barreira masculina e agressiva que não permite que seus sentimentos saiam do controle e nem transparecerem para além dele, mas que na realidade é um ser humano frágil, vivendo sob um disfarce, e que apenas encontra paz em seu local de refúgio em uma parte isolada do rio, onde pode reviver suas memórias.

Sua ligação com seu irmão, George, é quase tão importante quanto a que teve com o tão citado Bronco Henry, que para ele era mais que um amigo, mais que um amante, o homem que lhe ensinou tudo. Para Phil, a ideia de perder seu irmão para um casamento com uma mulher que odeia é quase tão ruim quanto a morte.

"A nós, irmãos Rômulo e Remo, e ao lobo que nos criou."

Rose apenas se permite sorrir quando Peter se instala no rancho para passar as férias, e o rapaz logo percebe que há algo de errado com sua mãe e que Phil tem muita influência no lugar e na vida dela. A relação que Peter tem com a mãe é de carinho e cumplicidade, algo que Phil Burbank jamais presenciou e não entende. Quando Phil começa a se aproximar do rapaz, Peter percebe o que ele está tentando fazer, e logo fica claro que o rapaz tem seus próprios planos. 

"É o Phil, não é? Ele é frio."

"Ele é só um homem, Peter, só mais um homem."

[…]

"Mãe, não precisa fazer isso. Vou dar um jeito para não precisar fazer isso."

Mesmo que comece a se aproximar de Peter para enganá-lo e ferir ainda mais Rose, a cumplicidade que encontra naquele rapaz é fascinante, e pela primeira vez Phil se solta e mostra mais de seu próprio eu, sem amarras. Mas Peter, apesar de ser visto como um rapaz frágil, é mais forte do que parece, e desconstrói a imagem masculina agressiva que Phil conhece. A relação de ambos se desenvolve de forma lenta e a mudança de tom com que Phil passa a tratar o rapaz após ele conseguir sua confiança é visível e começa a se parecer com um amor do passado.

"Quantos anos tinha quando conheceu Bronco Henry?"

"Mais ou menos a sua idade"

"Era seu melhor amigo?"

"Sim. Era,sim. Mais que isso. Uma vez ele salvou minha vida. Estávamos longe, nas montanhas, caçando alces, e o tempo virou. Bronco me manteve vivo encostando o corpo no meu saco de dormir. Adormecemos daquele jeito."

"Nus?"

O filme fala muito nas entrelinhas, há diversas coisas não ditas nos silêncios. George é um homem calado e retraído, e apenas com o olhar e a expressão corporal demonstra que temo mais a dizer do que aparenta. E mesmo que seja contido, seu sentimento por Rose é genuíno e seu casamento também é uma forma de libertação do irmão e da solidão.

O foco de Ataque dos Cães não está nas mulheres e está tudo bem, não é uma história de guerra entre o feminino e o masculino, é muito mais complexo que isso. O longa de Jane Campion mostra com muita delicadeza a história de um homem de seu tempo, torturado por seus próprios demônios. A direção de Campion não faz com que o público apenas entenda e se solidarize com Rose, mas também com Phil, seu algoz.

O filme não julga as ações dos personagens, mas expõe de maneira clara muitos tipos de amores, solidão, violência e saudade. É um filme sensível mesmo em seus modos brutos e violentos.



Arte em destaque: Caroline Cecin

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