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Amor, Sublime Amor: o remake e o clássico

Romeu e Julieta é de fato uma das obras literárias mais famosas do mundo. A história do amor impossível entre uma Capuleto e um Montecchio ganhou várias adaptações para o cinema, TV e teatro. Por falar nos palcos, em 1957 o clássico de William Shakespeare ganhou uma produção original na Broadway, na qual o livro serviu de inspiração. O musical passou por longos anos de produção antes de chegar no palco. Jerome Robbins, diretor e coreógrafo da peça, imaginou sua Julieta como uma menina judia e Romeu com um jovem católico italiano, mas mudou de ideia, e o casal protagonista da produção era composto por uma jovem porto-riquenha e um jovem branco estadunidense. 

Com texto de Arthur Larents, música de Leonard Bernstein, letra de Stephen Sondheim e a direção de Robbins, nasceu West Side Story, que foi um sucesso de crítica e público. A peça entrou em turnê pelo país e foi apresentada na Broadway até 1960, quando os direitos foram comprados para a produção de um filme. 

Larry Kert e Carol Lawrence no musical de 1957

Filme de 1961

Após o sucesso estrondoso no teatro, Amor, Sublime Amor (titulo no Brasil) foi parar na tela do cinema. Para o filme convocaram novamente Jerome Robbins, que participou da direção e da coreografia nos palcos, porém devido a sua inexperiência com cinema foi necessário mais um diretor para co-dirigir, Robert Wise (que mais tarde dirigiu A Noviça Rebelde). O elenco era em sua maioria composto por atores estreantes, pouco conhecidos, exceto Natalie Wood, que já era um rosto mais popular devido a trabalhos anteriores. 

A história segue semelhante a original, mas o roteiro de Ernest Lehman teve algumas alteração. Na trama conhecemos dois jovem que se apaixonam, Maria (Wood), uma moça porto-riquenha, e Tony (Richard Beymer), um estadunidense. Infelizmente esse amor se torna impossível pois o irmão de Maria é líder de um gangue, os Sharks, composta de porto-riquenhos. Esse grupo é inimigo dos Jets, formada por jovens brancos estadunidenses, e Tony no passado foi líder dessa gangue junto de seu melhor amigo. A história tem como plano de fundo os antigos bairros de Upper West Side, na década de 1950. Na época o longa recebeu críticas muito positivas, além disso arrasou nas bilheterias, sendo um dos filmes de maior sucesso do ano. Sua trilha sonora, composta por Leonard Bernstein, tornou-se uma das mais vendidas, e vale lembrar que o filme ganhou 10 Oscars, incluindo na categoria principal, e segue sendo sempre lembrado como um dos maiores musicais da história do cinema. 


60 anos depois...

Quando surge a notícia de que um remake de algum filme que gostamos será feito, sempre ficamos naquela "É necessário?", ainda mais de um grande clássico. É comum alguns diretores terem receio de assumir um projeto como esse, mas, para nossa sorte Steven Spielberg se jogou de cabeça nisso. E a motivação para Spielberg estar nesse projeto é bem especial: durante a infância, o diretor ganhou de seu pai o álbum do musical dos anos 1960. Ele ficou apaixonado, e mais tarde quando, assistiu a obra cinematográfica, deslumbrou-se ainda mais com a história e as personagens. Há muito tempo era do conhecimento público o profundo interesse dele em acrescentar um musical ao seu currículo, como ele mesmo disse em uma entrevista em 2004: 

"Sempre quis fazer um musical. Como Amor, Sublime Amor ou Cantando na Chuva. Sim, quero fazer um musical. Procuro um há 20 anos. Eu só preciso de algo que me anime."

Spielberg e o elenco do filme

Spielberg, conhecido por dirigir grandes clássicos voltados para a fantasia e ficção cientifica, tinha em mãos um grande desafio, produzir seu primeiro musical. O projeto começou a ser desenvolvido em 2014, mas apenas em 2018 saiu do papel e o elenco finalmente pôde ser contratado. E dessa vez um dos erros cometidos no filme dos anos 1960 e na peça da Broadway foi corrigido: o núcleo de porto-riquenhos da história foi composto apenas por atores latinos/hispânicos ou de ascendência latina/hispânica. Isso foi algo muito negligenciado no clássico, quando contrataram atores brancos e os maquiaram para parecer que eram porto-riquenhos. A única atriz que realmente tinha ascendência era Rita Moreno, que ganhou um Oscar por sua interpretação. 

Filme de 2021

Devido a pandemia, o filme, que teria seu lançamento em dezembro de 2020, foi adiado para dezembro de 2021, o que coincidiu com o aniversário de 60 anos do musical clássico. Apesar de usarem como referência a obra de Wise e Robbins, o filme de Spielberg buscou se assemelhar mais ao musical dos palcos de 1957. O enredo que já conhecemos tem uma jovem Maria, interpretada pela estreante Rachel Zegler, e Tony por Ansel Elgort. O casal vive nas telas esse romance proibido tão conhecido.

Desde o início do longa é perceptível as diferença entre ele o filme de 1961, e neste texto teremos algumas comparações, mas nenhum dos filmes será desmerecido. Enquanto no clássico cores muito vivas e saturadas são usadas, neste longa, com o apoio do diretor de fotografia Janusz Kaminski (que trabalha com o diretor desde A Lista de Schindler), as imagens na tela são ainda mais lindas, vibrantes, porém menos fantasiosas. Nos momentos de maior tensão cores mais frias são usadas, mas isso não faz com que se perca o espírito da obra. A coreografia feita por Justin Peck se assemelha um pouco a de Rise e consegue ser fluída, rítmica e bem construída, mas com um toque moderno. E nas primeiras cenas somos abraçados pela nostalgia ao assistir os membros dos Jets, liderados por Riff (Mike Faist), percorrem as comunidades de West Side, caminhando a passos minimamente coreografados. Enquanto os jovens passam pelos lugares, notamos mais uma vez um grande acerto da produção, a paisagem; ela é essencial aqui, pois deixa claro o contexto da época. Esses bairros que vimos de Upper West Side serão destruídos, a comunidade dos Jets é provavelmente (não que fique explícito no filme) da Lincoln Square, que é adjacente ao local onde os Sharks vivem, a San Juan Hill, que na década de 1950 foi um bairro, uma comunidade em especial, composta por afro-americanos e porto-riquenhos, local hoje em dia não existente, pois foi destruído para a construção de grandes edifícios. Além do conflito entre as gangues, os dois grupos precisam enfrentar a perda de seu território; aquele lugar não os pertence mais.

Os Sharks, liderados por Bernardo (David Alvarez), têm consigo uma desvantagem ainda maior. O grupo sofre com o preconceito de sua origem, e devido a esse processo de gentrificação ficarão sem ter onde morar. Mas no filme as duas gangues são tratadas quase como iguais em dificuldades e conflitos. Porém a situação é muito mais delicada para os porto-riquenhos, que precisam lidar com a xenofobia e a pobreza. 

Todo o elenco escolhido para representar essa duas gangues se sai muito bem, em especial Mike Faist, que dá vida a um Riff extremamente interessante. O ator consegue ter muita presença em cena, enquanto o Bernardo de Alvarez não tem a mesma competência e carisma que George Chakiris em 1961, quando seu personagem era carismático e tinha um certo charme especial.  

Um dos maiores acertos está na protagonista feminina. Em seu primeiro papel de destaque no cinema, Rachel Zegler interpreta uma Maria tão pura quanto a de Natalie Wood. Ela expressa apenas com o olhar toda a ingenuidade e doçura a personagem. Devido a sua pouca idade (quando ela atuou no filme tinha por volta de 18 anos), parece ser mais fácil se conectar ao drama do primeiro amor que ela vive. Zegler desbancou cerca de 30.000 candidatas para o papel, e não é à toa que encanta quando solta sua voz nos números musicais. Precisa ser dito que quem realmente canta no filme é a atriz, isso porque Natalie Wood foi dublada por uma soprano chamada Marni Nixon, que na época não recebeu os royalties devido ao seu trabalho no filme, e Bernstein acabou lhe dando de seus direitos pessoais uma contribuição para ela. Mais tarde, após uma batalha na justiça, a cantora conseguiu seus devidos direitos e reconhecimento pelo trabalho na trilha sonora. Era muito comum atores serem dublados em cenas musicais em filmes; a própria Nixon dublou Audrey Hepburn em Minha Bela Dama.  Obviamente no filme de Spielberg essa técnica não é usada, pois todos os atores usam suas vozes. 

Se Maria conquista a todos em cena, Tony, entretanto, não tem esse mérito. O protagonista masculino, que foi interpretado por Richard Beymer (que inclusive visitou o set de filmagem do remake) nos anos 1960, também teve sua voz de canto dublada. O próprio personagem Tony não é muito interessante, verdade seja dita. Poderia até ser feito esse paralelo com a obra de Shakespeare, em que é Julieta que tem um espírito mais decidido e corajoso, enquanto Romeu é mais aéreo. Pode-se dizer o mesmo sobre o filme e seu personagem ex-membro do Jets, nessa versão atual é interpretado por Ansel Elgort, que solta sua voz, agradável até, mas não entrega muito êxito em sua atuação, e olha que o roteiro de Tony Kushner explora muito mais sobre a vida de Tony. Nele, ele está em liberdade condicional após ter passado um ano preso por quase mater um rapaz membro de uma gangue rival. Elgort tem um jeito de galã, e se sai bem nisso, alcança boas notas quando canta, mas é engolido em cena por qualquer ator com quem contracena. Mas quando o próprio personagem que não desperta tanto interesse, até mesmo se fosse um excelente ator no papel precisaria tirar leite de pedra. 

Inegavelmente o grande show desse filme fica com Ariana DeBose. A jovem atriz, vinda da Broadway (na verdade, grande parte do elenco veio de lá), é Anita, a porto-riquenha namorada de Bernardo e colega de apartamento de Maria. A atriz brilha em todas as cenas em que aparece, canta e dança lindamente, até quando está em meio a muitas pessoas se destaca. Anita é uma personagem fascinante e o que a atriz entrega é muito satisfatório de ver, foi um acerto gigantesco tê-la no elenco.

Por falar em Anita, no longa também temos a presença de Rita Moreno, a intérprete da porto-riquenha no clássico e até hoje muito aclamada pelo papel. Spielberg lhe deu uma personagem nova na trama, Valentina, uma senhora porto-riquenha, viúva de Doc e dona de uma loja. É ela que oferece teto e emprego para Tony, e de alguma forma exerce um papel fundamental na vida dele. Vê-la em cena é um deleite de tão lindo, principalmente em um número musical muito especial. A produção teve um cuidado primoroso em inclui-la no longa de uma forma muito nostálgica, que homenageia a atriz e a obra da qual fez parte 60 anos atrás. 

A obra de 2021 é de fato uma adaptação da peça musical de Arthur Larents, porém as comparações em sua maioria são feitas com o filme de Rise. As letras de Sondheim e trilha de Bernstein são mantidas como uma homenagem e honram toda a sua obra. Pode-se dizer que as canções de West Side Story sempre serão a alma da história, elas são necessárias.  Existem algumas trocas na ordem e em como as cenas musicais são executadas, um exemplo é canção "Gee, Officer Krupke", que acontece numa delegacia, enquanto no clássico é em uma rua. Temos também leves alterações nas letras de algumas canções e em seus arranjos, são mudanças fundamentais que dão mais autenticidade ao filme. 

Amor, Sublime Amor mantém a alma de seu antecessor, se atualizando para o público dessa geração e homenageando fãs do clássico. Ele permanece num ótimo ritmo, em momento algum decai. A história do casal é bem mais desenvolvida e explorada, eles passam mais tempo juntos em cena. O conflito entre as gangues é realista. As brigas são mais violentas; logo no início do filme um Jet tem sua orelha ferida por um rival; no filme original, cenas de violências tão explícitas são praticamente inexistentes e as brigas são coreografadas e bem teatrais. O longa expressa sensibilidade em trazer para as telas alguns temas como a xenofobia, e preconceito racial, e é  competente ao trazer um personagem transgênero para a história. 

Em seu primeiro musical Spielberg corrige alguns erros (não todos) da história original. Sua adaptação emociona e enche os olhos do expectador, expressando seu amor e respeito a um filme que fez parte de sua vida. Seu Amor, Sublime Amor tem aquele gosto nostálgico de um grande clássico, que esse diretor tão competente conseguiu executar majestosamente. É um filme de alto padrão, tem um elenco sensacional, elementos técnicos e roteiro muito bons e a direção de alguém que nasceu para dirigir musicais. Fico muito feliz que Steven tenha realizado seu sonho, ganhamos uma obra-prima, e afirmo com tranquilidade que essa versão consegue ser superior ao seu filme original.

E a resposta para o questionamento feito anteriormente sobre a necessidade desse remake, é "sim". Ele era necessário, não porque tinha erros (algo comum em clássicos mais antigos), mas sim porque eles foram em parte corrigidos. Remakes são bons quando seus problemas anteriores são resolvidos e ainda assim suas histórias permanecem fiéis a suas obras de origem. 

Infelizmente o filme não teve uma bilheteria rentável, isso devido a pandemia e ao período em que foi lançado, quando estavam em cartaz grande blockbusters para competir. Porém foi sucesso de crítica e ganhou algumas premiações, dentre elas o Globo de Ouro como Melhor Filme de Musical ou Comédia, e Zegler e DeBose também faturaram prêmios. E não foi diferente no Oscar de 2022: o filme recebeu 7 indicações, dentre elas a de Melhor Filme e Melhor Direção, e, claro, Melhor Atriz Coadjuvante para Ariana DeBose. Fica aqui uma dica de um filme que precisa ser apreciado com carinho. 




Arte em destaque: Mia Sodré

Maria Fontenele
Piauiense, nascida em 2000, se arrisca a escrever desde pequena. Apaixonada por reprises de filmes antigos, sonha em viver num musical dos anos 60, mesmo sem saber cantar. Chora ouvindo Scorpions, e tem uma lista tão grande de livros que jura que vai ler tudo antes de morrer.

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