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The Beatles - Get Back: uma luz na fase mais sombria dos Beatles


Quando pensamos em artistas lendários, que marcaram uma geração e comandaram uma revolução cultural, é impossível que os Beatles não sejam os primeiros a surgir em nossa mente. Eles dominaram os anos 1960 e transformaram a cultura pop no que ela é hoje. Eles foram os pioneiros em inúmeras coisas. Os primeiros a produzir um álbum conceitual, praticamente inventaram o videoclipe e a MTV. Foram inovadores no quesito produção musical, pois, além das experimentações musicais, eles deram uma nova roupagem à figura de uma banda de rock quando optaram por abandonar as cansativas turnês para se dedicarem à infinidade de inovações e experimentações disponíveis no estúdio. 

Em The Beatles: Get Back, série documental dirigida por Peter Jackson, somos levados em uma viagem no tempo, precisamente no final dos anos 1960, onde podemos ver os Beatles fazendo mágica no estúdio. O documentário gira em torno das gravações do último lançamento da banda, o álbum Let It Be, e dos ensaios do que seria sua última apresentação ao vivo, o histórico rooftop concert.

Para quem não conhece muito sobre a trajetória do fab four, esse documentário pode aparentar ser apenas mais um dos vários docs sobre a lenda dos Beatles, mas ele é particularmente peculiar, pois tenta (e consegue) lançar uma luz sobre essa fase dos Beatles, considerada por muitos a mais sombria. As gravações do álbum, que começaram em janeiro de 1969, vinham acompanhadas de rumores sobre a separação do grupo que havia surgido desde as gravações do White Album. Eles estavam completamente exaustos, sem empresário — o primeiro empresário dos Beatles, Brian Epstein, considerado por muitos como o “quinto Beatle”, responsável por cuidar da carreira dos quatro e servir como figura paterna, veio a falecer repentinamente em 1967, deixando um vazio na vida do grupo que nunca foi preenchido —, endividados, com enormes diferenças criativas e tendo de lidar com o vício de John Lennon em heroína. Não era um ambiente propício para se tentar compor um álbum e gravar um documentário, mas mesmo assim ali estavam eles, dispostos a criar outra obra-prima. 

"Whisper words of wisdom, let it be"

Com a morte de Brian Epstein, Paul McCartney ficou como o responsável por tentar colocar o mínimo de organização e incentivo na rotina da banda. Sem o empresário, eles ficaram um pouco dispersos e mais rebeldes ainda. Então, Paul era o encarregado de fazer com que tivessem o mínimo de disciplina. Vemos ele comentando sobre isso em Get Back, como se tentasse justificar os momentos em que ele tinha de pegar no pé dos outros: “Quero dizer, temos sido muito negativos desde que o sr. Epstein faleceu. É isso. Não temos sido positivos. É por isso que todos nós estamos cansados do grupo, você sabe. Não há nada de positivo nisso. É um pouco arrastado. É como quando você está crescendo e seu pai vai embora em um certo ponto da sua vida e então você fica de pé. Papai foi embora agora, você sabe, e estamos em nosso pequeno acampamento de férias. Sabe, acho que ou vamos para casa ou fazemos isso. É disciplina de que precisamos. É como tudo que você faz, você nunca teve disciplina. O sr. Epstein disse algo como 'vista os ternos', e nós os vestimos. E então estávamos sempre lutando um pouco contra essa disciplina. Mas agora é tolice lutar contra essa disciplina se for a nossa. É auto-imposto hoje em dia, então fazemos o mínimo possível. Mas acho que precisamos de um pouco mais se quisermos continuar com isso”

Também era Paul quem mais queria estar na banda, ele amava fazer parte dos Beatles, e pegava todo esse amor e transformava em esforço para fazer com que seus amigos se reunissem no estúdio novamente. Apesar disso, ele sentia que o fim do grupo estava próximo e que chegaria um momento em que ele não poderia fazer mais nada para mudar isso. Foi com esse pensamento que ele compôs a canção Let It Be, que no fim serviu como uma música de consolo para os fãs. É difícil deixar ir embora partes significativas de nossas vidas, vamos sofrer e lutar por aquilo porque acreditamos que tudo vá se resolver, mas quanto mais insistimos e adoecemos, vemos que o melhor mesmo é que se “deixe estar''.

Esse esforço de Paul em fazer com que a banda se reunisse ou cumprisse com as obrigações faziam com que os outros três torcessem o nariz para o seu entusiasmo, tachando-o de mandão. E fez com que, por muito tempo, ganhasse a fama de tirano entre os fãs e o público em geral. Não é um Paul McCartney tirano ou mandão que vemos em Get Back. Podemos vê-lo completamente exausto, bocejando e coçando os olhos de sono (ou ressaca) mas, ao mesmo tempo, vemos em sua expressão e atitude que ele queria muito estar ali reunido com seus amigos para fazer música. Um dos momentos mais fantásticos do documentário é quando Paul simplesmente senta, começa a balbuciar uns acordes, e em pouco tempo surge com o que seria o próximo single da banda e uma das canções mais memoráveis dos Beatles, Get Back. “Estávamos sentados no estúdio e inventamos do nada. Começamos a escrever palavras ali mesmo”, disse Paul em entrevista sobre o processo de composição do hit. 

No doc vemos todos colaborando juntos na música e Paul decidindo que Get Back deveria ser uma música de protesto depois de ler no jornal sobre o Projeto de Lei de Imigração do CommonWealth, que visava impedir que os asiáticos quenianos chegassem à Grã-Bretanha, e enquanto isso, a frente nacional fascista, incitada pelo político de direita Enoch Powell, espancava paquistaneses nas ruas. É extremamente gratificante vê-los usando o poder que eles sabiam que tinham para alertar as pessoas sobre situações urgentes através de sua arte. O fato mais importante sobre os Beatles é que eles não alienaram-se sobre as coisas que estavam acontecendo no mundo e, consequentemente, faziam com que as pessoas que escutassem suas músicas também se mantivessem a par das coisas. Escutar a discografia dos Beatles é como mergulhar na história dos anos 60 porque está tudo ali: as revoluções, as guerras, as drogas e o amor. 

"The long and winding road"

Ainda na primeira parte, vemos George Harrison deixando os Beatles, em um momento que pode ser considerado o mais triste de todo o documentário. George vinha lutando por mais espaço nas composições da banda e há muito tempo havia provado seu talento como compositor, mas ainda se sentia pequeno ao tentar se colocar no mesmo patamar que Lennon & McCartney. Superficialmente, a atitude de George em abandonar as gravações do álbum pode ser encarada como um surto ou birra, mas sabemos que ele tinha chegado ao seu limite quando John Lennon (muito chapado para raciocinar) sugere que o substituam por Eric Clapton

Posteriormente ouvimos John e Paul conversarem e reconhecerem que falharam com George: “É uma ferida profunda que permitimos. Ontem – é uma ferida que infeccionou ainda mais profundamente, e não lhe demos nenhum curativo”. Essa conversa pode ser considerada como um verdadeiro tesouro, pois John e Paul não sabiam que estavam sendo gravados. O diretor da primeira versão do documentário, Michael Lindsay-Hogg, foi muito astuto em esconder microfones nos vasos de planta da cozinha do estúdio onde os Beatles almoçavam, mas foi Peter Jackson quem trouxe a conversa tão sincera e reveladora à tona. Nela podemos sentir o tom de preocupação na voz dos dois amigos ao perceber a tristeza que causaram no outro, e a sinceridade e maturidade em reconhecer que estavam errados. Naquele dia, George escreveu simplesmente em seu diário: “Levantei-me, fui para Twickenham, ensaiei até a hora do almoço – deixei os Beatles – fui para casa”. A primeira parte do documentário termina com uma das músicas da carreira solo de George Harrison escrita naquela época, Isn't It A Pity: “Isn't it a pity? / Isn't is a shame? / How we break each other's hearts / And cause each other pain? / How we take each other's love / Without thinking anymore / Forgetting to give back / Isn't it a pity?”. Ao fazer isso, Peter Jackson deu um novo significado à música para os fãs. 


Além de “Isn’t It A Pity'', assistimos encantados George ensaiando outras de suas grandes composições, como All Things Must Pass, música-título de seu primeiro álbum solo, e Something, que apareceria como single do álbum Abbey Road, o “verdadeiro” último álbum dos Beatles gravado meses depois de Let It Be. Para os fãs, poderia parecer que para os Beatles era fácil produzir uma obra-prima atrás da outra, mas ao assistir Get Back vemos o trabalho exaustivo que eles tinham no estúdio tendo de compor um álbum inteiro em poucos dias, ensaiar as músicas (inúmeras vezes), gravar tudo e planejar um show. As caras cansadas e bocejos que vemos no documentário nos mostram que o fazer artístico é muito mais do que possuir talento. 

"Everybody had a hard year, everybody had a good time"

A presença de Yoko Ono é outro grande esclarecimento de Get Back. Até hoje escutamos o falatório de que ela foi a grande causadora da separação dos Beatles, simplesmente porque as pessoas não sabem do que falam ou porque são machistas e xenófobas. Vimos que a preferência de John por Yoko causava, sim, um certo ressentimento nos outros, especialmente em Paul, que sentia que havia perdido seu grande parceiro musical. Havia ali uma tristeza em Paul por ver John preferindo colaborar artisticamente com outra pessoa depois de tantos anos. Mas este e outros problemas eram causados por eles mesmos, não por Yoko. Quando ela começou a se envolver com John, as feridas já estavam abertas há muito tempo. No documentário podemos ver Yoko, plena, lendo seu jornal, conversando com outras pessoas e cuidando de sua vida como namorada de um rockstar, algo invejado por muitos. 

E precisamos falar sobre como Ringo Starr é, sem dúvidas, a figura mais carismática e adorável de todo o documentário e, mais do que isso, um baterista incrível. É mágico ver sua conexão com os outros três, como ele sabia exatamente qual batida acrescentar na música. É quase como se ele pudesse ler suas mentes e chegasse com “eu sei exatamente do que você precisa”. Isso nos lembra o enorme lugar de Ringo nos Beatles. Ele foi o último a entrar na banda e entrou por ser extremamente talentoso. Quando os Beatles assinaram com uma gravadora, eles tiveram de dispensar Peter Best e procurar o baterista mais talentoso da cidade, título que já pertencia a Ringo Starr desde aquela época. Em uma cena do documentário, perguntam a Ringo se ele gosta da Índia, ao que ele responde “não muito”. É impossível não soltar uma risadinha, pois a história conta que ele foi o primeiro a ir embora do retiro espiritual por não ter se dado bem com a comida indiana.

A viagem para a Índia surge em determinado momento de Get Back, mostrando cenas que foram gravadas pela câmera de John enquanto estavam por lá. Paul e John falam sobre sentirem-se envergonhados em lembrar dessa fase de suas vidas, quando caminhavam pela Índia vestidos de branco seguindo os ensinamentos do guru Mahareshi Mahesh Yogi. John diz que olha para fotos e vídeos da viagem e sente como se eles não estivessem sendo eles mesmos ali, como se estivessem completamente cegos pela influência do guru. De fato essa viagem foi tanto enriquecedora como traumática para eles. Depois de meses no curso de meditação transcendental, eles descobriram que Mahareshi estava usando a presença deles ali na Índia para lucro pessoal e que o guru também vinha assediando algumas mulheres do grupo. George discorda de Paul e John, e diz que eles foram para a Índia não para se perderem, mas para encontrarem seu verdadeiro eu, que talvez eles não seriam quem eles estavam sendo naquele instante sem os aprendizados adquiridos naquela viagem. Nisso George tem razão, pois como John seria capaz de compor canções como Across The Universe sem as imagens sobrenaturais que experienciou com a prática da meditação transcendental? 

O fim do documentário culmina no desfecho do que seria um dos momentos mais marcantes da cultura pop, a última apresentação ao vivo dos Beatles realizada no telhado do prédio da Apple Studios. É impossível não se arrepiar ao ver a felicidade que eles estavam sentindo em tocar juntos ao vivo depois de tantos anos. Vemos eles olhando uns para os outros e se lembrando do porquê permaneciam juntos: para vivenciar momentos como aqueles (destaque para Paul McCartney soltando um gritinho de satisfação ao ver que a polícia tinha chegado). A nossa maior felicidade como fãs é ver o quão apreciados eles foram enquanto estiveram juntos; ao contrário de muitos gênios que morreram antes de serem reconhecidos, eles conquistaram e vivenciaram toda a glória que lhes pertencia por direito. 

Milena
1997. Maranhense de nascença e piauiense de coração. Estudante de letras, mãe de planta e filha perdida da Mary Shelley. Também é o tipo de pessoa que não sai de casa sem levar um livro na bolsa.

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