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Pagu e sua escrita combativa em Parque Industrial

 

"São Paulo é o maior parque industrial da América do Sul: o pessoal da tecelagem soletra no cocuruto imperialista do 'camarão' que passa. A italianinha matinal dá uma banana pro bonde. Defende a pátria."

Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, escritora integrante do movimento modernista brasileiro e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), vem ganhando cada vez mais o imaginário do público como escritora. Tendo suas obras reeditadas recentemente, aquela que deu vida ao mito Pagu enfim se vê sendo estudada e discutida no ambiente acadêmico e lida pelo grande público, fugindo, assim, da condição de “musa”, que por décadas acompanhou a autora, outrora lembrada apenas como companheira do poeta Oswald de Andrade

Publicada em 1933, a obra Parque Industrial é uma narrativa que retrata as ruas do Brás e o centro de São Paulo como um órgão vivo na luta de classes, unindo a linguagem do modernismo à sua ideologia revolucionária. Tendo conhecido o movimento antropofágico aos 21 anos, a autora fez uso de uma escrita combativa-modernista, registrando o cotidiano operário das personagens. Desse modo, Parque Industrial se cria em meio às metonímias e ao engajamento social que Pagu promovia. A obra, publicada pelo pseudônimo de Mara Lobo, seguindo exigência do PCB, a fim de não expor o passado pequeno-burguês da autora, torna-se, então, o primeiro romance proletário brasileiro. 

“O Largo da Sé é uma gritaria. Voltam cansadas para os seus tugúrios as multidões que manipulam o conforto dos ricos.
Os jornais burgueses gritam pela boca maltratada dos garotos rasgados os últimos escândalos.
O camarão capitalista escancara a porta para a vítima que lhe vai dar mais duzentos réis, destinados a Wall Street.
O bonde se abarrota. De empregadinhas dos magazines. Telefonistas. Caixeirinhos. Toda a população de mais explorados, de menos explorados. Para os seus cortiços na imensa cidade proletária, o Brás.”

De uma leitura (e possivelmente escrita) rápida, a autora faz questão de enfatizar as discrepâncias entre os burgueses e os proletários, que ao se encontrarem no capítulo "Ópio de cor", capítulo que trata sobre o Carnaval na cidade, deixa claro que os burgueses só vão atrás dos operários quando querem algo em troca, seja mão-de-obra ou sexo sem compromisso. "O Carnaval continua. Abafa e engana a revolta dos explorados. Dos miseráveis. O último quinhentos réis no último copo". Pagu, que escreve uma obra com personagens quase que predominantemente femininas, faz da voz revolucionária uma voz feminina, o ventre de toda revolução e mudança. Uma das protagonistas, Otávia, inclusive, é interpretada por muitos como um alter ego de Pagu, que sempre esteve diretamente envolvida com o movimento contra o capitalismo. 

Parque Industrial registra a industrialização no Brasil, mais especificamente a industrialização em São Paulo, que passava de uma economia agrária/exportadora para uma urbana/industrial, e pode ser encarada também como algo além de uma ficção, como um manifesto político. Em diversas passagens temos personagens conversando entre si, sempre trocando frases que soam quase como frases de efeito prontas para estampar um lambe-lambe por aí. Esse ar panfletário fica evidente no trecho a seguir: 

"Nós construímos palácios e moramos pior que os cachorros dos burgueses. Quando ficamos desempregados, somos tratados como vagabundos. Se só temos um banco de rua para dormir, a polícia nos prende. E pergunta por que não vamos para o campo. Estão dispostos a nos fornecer um passe para morrer de chicotadas no "mate-laranjeira!"

O modernismo na obra se dá por sua estética experimental, semelhante ao que seu companheiro, Oswald de Andrade, fazia na época com o uso de metonímias (a parte pelo todo) e uma linguagem sintética, possibilitando, assim, a força modernista do romance. Esses momentos mais experimentais se contrastam com outros mais engajados, semelhante ao que acontecia na vida pessoal da autora, que se protelerizava ao mesmo tempo em que era uma musa modernista adepta da narrativa oswaldiana. 

A linguagem de Pagu em Parque Industrial também é marcada pelo ar cinematográfico que transmite outra característica do modernismo: passamos por cada detalhe do bairro do Brás, por cada ação de cada personagem "em cena", criando assim uma visão muito clara da miséria vivida pelas operárias, que davam suor e sangue nas fábricas de tear. Com parágrafos que beiram o eufórico, temos frases curtas seguidas de mais frases curtas, uma narrativa corrida, porém perspicaz em sua ambientação. Vale destacar que o romance já foi considerado uma forma literária mais burguesa, no entanto, em sua versão oitocentista consolidada, com autores como Balzac e Flaubert, tornou-se uma forma de aprender uma sociedade em movimento, por isso foi o meio literário privilegiado para o engajamento, segundo as diretrizes oficiais do Partido Comunista na URSS, sobretudo a partir de 1934. Nesse sentido, Pagu busca tornar o romance burguês um romance proletário, como Jorge Amado também fez. 

No Modernismo, o espaço das mulheres era reduzido. Mesmo o movimento tendo nomes marcantes como Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, a representatividade do feminino acabou se dando pela representação estética de cada autor, dentro de um período marcado pela diversidade de tendências imagéticas. Tarsila e Anita, no entanto, eram mulheres intelectuais, da classe média alta ou da elite brasileira, o que possibilitava, dessa maneira, espaço e tempo para dedicarem-se aos seus estudos e desenvolvimento artístico. Em contrapartida, Pagu sempre deixou claro como odiava mulheres burguesas, valorizando operárias e desprezando a burguesia intelectual que tanto integrava o movimento. Pagu, por se proletarizar e se afastar dos costumes burgueses de seus colegas modernistas, abandonando o Brás e indo até Santos trabalhar em um fábrica, recebendo um salário que mal dava para pagar seu aluguel, conseguia, então, representar a mulher de um modo distinto daquilo que se tinha exposto na arte modernista, apresentando de fato a mulher revolucionária. 

A voz das mulheres-revolucionárias de Pagu registra a violência, abusos, exploração às quais a mulher é submetida em seu cotidiano, mas também evidencia a força de mulheres que transgrediram em nome de um "bem maior", quebrando paradigmas hierárquicos tão enraizados na sociedade capitalista, lutando por espaço e voz contra a onda da industrialização que tanto queria silenciá-las. Os personagens masculinos, em sua maioria, carregam um ar negativo, muitas vezes ligados com o burguês opressor, o outro lado da mulher-revolucionária-protagonista. 

A posição de escritora que Pagu cultivou não era bem vista por seu partido, como citado anteriormente. A atividade era julgada como muito intelectual, enquanto as mais valorizadas eram as de trabalho braçal em indústrias. Pagu passou quatro anos e meio presa em diversos presídios, sendo a primeira mulher presa no Brasil por motivos políticos, em 1931. Entre os anos 1933 e 1935, visitou países como a China, o Japão, a União Soviética e passou uma temporada em Paris, onde também foi presa. Patrícia Galvão, já separada de Oswald de Andrade e casada com Geraldo Ferraz, atuou como cronista, crítica literária e também envolveu-se com o teatro amador. 

Para encerrar, deixo aqui o poema "Nothing", publicado por Pagu n’A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962:

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
(…)
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

Referências



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Juliana Toivonen
Licenciada em Letras pela Universidade Federal de São Paulo. Entusiasta da literatura de autoria feminina e do resgate de vozes e narrativas perdidas. Pesquisadora na área da literatura portuguesa. Publicou o livro "palavras roubadas de mulheres mortas" pela Margem Edições em 2021.

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