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O Túmulo dos Vagalumes: a realidade da guerra sob o olhar infantil


Filmes ambientados na Segunda Guerra Mundial são sempre difíceis de assistir. Temos aquele medo de que algo vá acontecer a qualquer cena porque sabemos que os pequenos momentos de felicidade dos personagens podem durar pouco. O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka no original / Grave of the Fireflies em inglês), filme baseado na história semi-autobiográfica de Akiyuki Nosaka, publicada em 1964, foi lançado em 1988 pelo Studio Ghibli, com direção de Isao Takahata, e se encaixa perfeitamente nessa descrição.

O ano é 1945 e estamos num Japão ainda império, devastado pelos conflitos contra os Estados Unidos, poucos meses antes da redenção do país na Segunda Guerra Mundial. Acompanhamos a história dos irmãos Seita (14 anos) e Setsuko (5), e sua luta pela sobrevivência após o bombardeio na cidade de Kobe pelo exército estadunidense, que matou sua mãe. O filme é contado em primeira pessoa – por Seita –, então logo no início já é possível saber do final dos dois irmãos. 

Desde o início os dois irmãos são muitos próximos e Seita faz de tudo para amenizar os impactos da guerra em Setsuko, escondendo a tristeza pela perda da mãe ou o medo constante para não preocupar sua irmã. Mesmo em um ambiente tão hostil, seja a casa da sua tia ou então os dias na rua entre casas destruídas e as constantes sirenes alertando os moradores, Seita consegue proporcionar a irmã pequenas felicidades e oportunidades de “viver” sua infância no meio do caos.

Apesar de ser situado em plena guerra, o filme em muitos momentos parece mostrar uma história para além dos eventos principais que conhecemos, como os ataques de bombas atômicas. Os irmãos vivem num ambiente dividido pelo medo e também pela esperança das pessoas em uma vitória do seu exército.

O nacionalismo e a economia falida do país se mostra principalmente quando eles se mudam para a casa de sua tia. Ela não entende a razão para seu sobrinho não trabalhar ou estudar. Além de comentários ácidos e diminuição dos sentimentos dos sobrinhos, ela também os convence a vender as roupas da mãe para ajudar na renda da família. Por Seita não trabalhar ajudando o exército, ela sempre volta a tratá-los como um fardo, chegando a separar a comida deles da dos outros moradores.

“ – Chega! Vocês terão sopa de arroz para o almoço também. Acha que um verme preguiçoso que nem você merece o mesmo que as pessoas que trabalham duro pela nossa nação?”

A pressão se torna tamanha que Seita prefere se arriscar na rua com a irmã a continuar vivendo naquela situação. Os dois se mudam para um lugar abandonado perto de um rio e conseguem comida através da pequena renda que a família ainda tem no banco, mas logo as compras deixam de ser o suficiente por conta dos altos preços e da escassez decorrente da guerra. Em consequência, eles começam a apresentar os primeiros sinais de desnutrição. Em meio ao desespero de ver sua irmã ficando fraca e doente, Seita aproveita a fuga das pessoas enquanto o exército estadunidense bombardeia a região para roubar alimentos e tecidos de casas que foram deixadas para trás na tentativa de vendê-los. 

Além da fraqueza em decorrência da desnutrição, Setsuko passa a apresentar uma alergia grave na pele, e mesmo quando Seita a leva no hospital, em nenhum momento um auxílio é oferecidos além de questionamentos que parecem não compreender a atual situação de dois órfãos de guerra. E por mais que alguns abrigos para quem perdeu tudo os tenham ajudado com comida, no fundo é possível ver que eles estão completamente sozinhos.

“— Dar remédio? Pelo o que eu examinei, o que essa criança está precisando é de um pouco de comida.— Comida? Onde eu vou conseguir comida?!”

O Império Japonês na Segunda Guerra Mundial

Mesmo em meio a destruição, os personagens do filme mostram uma grande confiança em seu exército. Tal sentimento vem da influência de vitórias do Império japonês contra a URSS e a China. O Japão era contra uma influência ocidental na Ásia, assim começaram uma expansão imperial pela China em 1931 – mas oficializada apenas em 1937, conhecida como Segunda Guerra Sino-Japonesa – a fim de adquirir uma maior influência no território. Essa guerra durou até 1945; por isso, em muitos momentos a partir de 1940 – quando o Japão se alia ao Eixo –, os combates e violências da guerra Sino-Japonesa se mesclam com os da Segunda Guerra.

Apesar de ser um país rico, o Japão não era favorecido quando se tratava de recursos naturais como seus vizinhos. Buscando dominar essas matérias-primas existentes em outros países asiáticos e também expulsar as influências ocidentais vindas da Europa, o exército japonês começou uma expansão militarista em todo o sudoeste do continente, principalmente dos países com influência dos Aliados.

As tropas japonesas trabalhavam seus ataques de forma coordenada e paralela, garantindo vitória em relação as tropas dos outros países, exceto as estadunidenses. Como eles eram o país com maior chance de combater essa expansão, os militares japoneses começaram a atacar de forma centralizada e com menos chance de recuperação para o exército estadunidense. Em 1941, Pearl Harbor é atacada, mas diferente do que os japoneses acreditavam, os Estados Unidos se recuperaram e também tinham uma economia que permitia continuar na guerra durante muitos anos — e lucrar com ela.

A partir de 1942, o exército estadunidense foi se recuperando do ataque à base naval, abrindo uma vantagem nos novos conflitos com o Japão, que começou a sentir as consequências com as perdas de seus territórios conquistados na morte e destruição de sua marinha e aeronáutica e também na falta de suprimentos que vinham através da marinha para a população. Apesar de tudo, o Japão não aceitava se render e ainda acreditava em uma reviravolta, até suas cidades começarem de forma estratégica a sofrerem bombardeios incendiários, conhecidos como Meetinghouse, situação que foi retratada em diferentes momentos do filme.

A escrita como fuga dos traumas de guerra

O Japão de O Túmulo dos Vagalumes é o mesmo que Akiyuki Nosaka conheceu durante a guerra. O autor nasceu na cidade de Kamakura, mas se mudou para Kobe ainda bebê e foi criado pela tia após a morte de sua mãe. Ele também era filho do político Sukeyuki Nokasa, porém, por ele ter sido um pai ausente, os dois só tiveram seu primeiro contato quando ele já era adulto.

Durante os anos de guerra ele perdeu uma das irmãs por desnutrição e seu tio durante o bombardeio de Kobe. Após essa situação, ele e sua irmã Keiko – a bebê que foi a maior inspiração para o seu conto – se mudaram para uma outra casa, mas a pouca comida para os moradores acabou sendo fatal também para ela.

No pós-guerra, o Japão passava por uma grande crise pagando as contas por seus crimes de guerra e também se recuperando das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. O autor continuou enfrentando dificuldades durante alguns anos, chegando a ser preso. Depois de ingressar na faculdade e abandonar o curso, Nosaka encontrou na escrita um refúgio para a culpa e traumas deixados pela guerra, escrevendo não só suas vivências, mas também músicas para crianças. Virou redator, e alguns anos antes da sua morte se tornou membro da Câmara Japonesa.

O que torna O Túmulo dos Vagalumes um filme tão triste é que não há nenhum herói ou final feliz, e desde o começo sabemos disso, mas ninguém está preparado para ver isso através da dor infantil. Os vagalumes no título e em uma fala de Setsuko ao irmão, quando pergunta “Por que os vagalumes tem que morrer tão cedo?”, não são somente uma forte simbologia do enredo, mas também das perdas pessoais de Nosaka, pois o filme mostra sem eufemismos os piores temores que a sociedade – para além da visão europeia que conhecemos tão bem – sentiram durante aquele período: o medo, o luto, necessidades, e a solidão de quem sobrevive sem sua família.

Referências 

Carolina Pereira
Santista, 20 anos, estudante de psicologia e de filosofia. Amante de idiomas, café, mar e tudo o que Edgar Allan Poe tenha colocado no mundo. De vez em quando tem vontade de fugir e viver como um hobbit.

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