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A história de John Keats e Fanny Brawne: testemunhos do amor eterno


Há quem acredite que o amor, em sua forma mais irracional e profunda, é um privilégio restrito às obras ficcionais, que excitam o imaginário daqueles que se perdem em meio às páginas de um bom livro, ou nas cenas de um filme emocionante, e se frustram esperando viver um romance à altura. No outono de 1818, contudo, nenhum outro sentimento poderia ter sido mais real, sendo vivido de maneira incondicional em uma área tranquila da cidade inglesa de Londres.

Trinta e sete. Esse é o número de cartas que testemunham um dos casos de amor mais famosos da literatura britânica: o do poeta John Keats e de sua vizinha, Fanny Brawne. Revestidos pelo brilho da juventude, eles tinham, respectivamente, 23 e 18 anos quando se conheceram. Ocupados demais provocando um ao outro, e insistindo que sua relação era baseada em uma indiferença mútua, eles mal poderiam imaginar os frutos que colheriam a partir daquele momento.

John Keats

Até então, Keats tinha a poesia como sua única e verdadeira paixão. Quando se tratava de relacionamentos, ele tendia a se enxergar como dono de um coração gélido, adotando um tom debochado sobre o assunto e reservando a máxima sensibilidade somente ao seu caderno de anotações. Essa autoafirmação pode ser observada, em tradução livre, no trecho de uma carta endereçada ao seu irmão mais novo, George, a respeito de seu contato inicial com Fanny:

Permita-me apresentá-lo à senhorita Brawne. Ela tem mais ou menos a minha altura – com um belo semblante alongado; ela busca parecer perfeita em todos os seus traços, inclusive nos cabelos e nas narinas (que já devem estar doloridas). Sua boca é bonita e o perfil é mais agradável do que o rosto inteiro, que, por sua vez, é pálido e magro, sem mostrar nenhum osso. Sua forma é muito graciosa e seus movimentos também – seus braços são bonitos e suas mãos, levadas. Já seus pés são toleráveis. Ela não tem dezessete anos, mas é ignorante como se tivesse: seu comportamento é monstruoso e nem um pouco contido. Sou forçado a usar o termo “sirigaita”. Estou exausto de seus comportamentos e me recuso a suportá-los por mais tempo.

Apesar da primeira impressão ácida do escritor, não há dúvidas de que os encantos da senhorita Brawne eram mais acentuados do que suas peculiaridades (que, futuramente, também seriam acolhidas de bom grado pelo poeta). Afinal, não demorou muito para que a perspectiva de Keats mudasse e ele se enfeitiçasse pelo charme de seus olhos azuis, da sua erudição e, como ele próprio dizia, pelo seu brilho.

Fanny Brawne (1833)

Temos, então, o início de um romance que se assemelha, de diversas maneiras, às histórias clichês que tanto consumimos: um garoto abastado de qualidades, possuidor de um talento nato e popular entre os jovens encontra uma garota tida como vaidosa e distante. Nesse primeiro ato, eles não se afeiçoam (nem se dão conta da atração que sentem um pelo outro); mas, ao passo que o destino persiste em traçar seus caminhos, o sentimento desagradável é substituído pelo anseio de um próximo encontro, que, por sua vez, evolui para uma paixão arrebatadora. De fato, contamos com o esqueleto perfeito de um enredo de comédia romântica. Mas, por mais mágico que esse contexto possa parecer, é importante lembrar que esse caso realmente aconteceu – e o final feliz nem sempre se concretiza na vida real.

O último e maior dos poetas românticos ingleses

John Keats nasceu em um Halloween, em 31 de outubro de 1795. Mais velho dos cinco filhos de Thomas e Frances, era irmão de George, Thomas, Edward (morto em 1802, com apenas um ano) e Fanny, com os quais sempre nutriu excelentes relações. Perdeu seu pai em um acidente a cavalo quando tinha apenas 8 anos de idade, mesmo período em que seu coração despertou um profundo entusiasmo ao que o serviria de consolo por toda a vida: a literatura.

Seis anos depois de enterrar o pai, ele e seus irmãos receberam a triste notícia de que sua mãe, aos 35 anos, havia falecido. Órfãos e sob a custódia da avó, Alice Jennings, eles passaram a viver com dois empresários e amigos próximos da família: John Sandell e Richard Abbey. Obrigando o futuro poeta a deixar de lado sua vocação para dedicar-se à medicina, Abbey tirou Keats da escola e o matriculou em um treinamento de cinco anos, em Edmonton.

Assim, o rapaz, aos 14 anos, tornou-se um aprendiz do médico da família e, aos 15, já tinha conhecimento o suficiente para ser um assistente de cirurgia. Em 1816, recebeu a licença para exercer a profissão, mas, como havia previsto em seu poema “To Hope” – em que clama que, se não pudesse viver da poesia, não viveria de jeito nenhum –, a carreira de médico durou pouco.

Aos 21 anos, ele abandonou os estudos e, na companhia de Thomas e George (sem a irmã, que permaneceu vivendo com a família Abbey até se casar com um espanhol e se mudar para Madrid), instalou-se em um apartamento em Hampstead, onde reuniu todos os poemas que havia escrito desde então em um pequeno livro intitulado Poems, publicado no mesmo ano. Já em 1817, durante uma breve viagem ao litoral, ele passou a escrever o que viria a ser seu primeiro poema longo: “Endymion”. A obra, por sua vez, foi publicada em 1818 – mesma época em que Thomas foi diagnosticado com tuberculose; que George, recém-casado, migrou para a América; e que Keats conheceu Fanny Brawne.

1ª edição de Poems, de John Keats

A brilhante estrela

Nascida em 9 de agosto de 1800, Frances “Fanny” Brawne era, assim como Keats, a irmã mais velha de outros dois filhos da viúva Frances, Samuel e Margaret. Por ser sobrinha daquele considerado o “exemplo supremo do dândi”, Beau Brummell, aclamado pela civilização inglesa por suas relações amigáveis com o príncipe regente George IV e pelo seu excelente senso estético, grande parte dos estudiosos acredita que a paixão por moda da jovem fora uma herança do tio. 

Para além da costura e da dança, arte com que ela também era familiarizada, Fanny possuía uma demasiada facilidade em flertar e exprimir suas fortes convicções. Sua habilidade de cortejar os solteiros da região, inclusive, chegava a confundir Keats, que, muitas vezes, sentia-se enciumado e desmerecedor da atenção da menina.

Ela também tocava piano muito bem e tinha The New London and Country Songster como uma de suas obras favoritas. E embora não fosse uma leitora voraz de poesia, tinha sido influenciada por Keats a alimentar uma verdadeira admiração pelo trabalho de Lord Byron.

Quando se conheceram, em algum momento em novembro de 1818, Keats estava interessado em uma mulher mais velha, a independente Isabella Jones, a quem o inspirou a escrever um de seus poemas mais famosos, The Eve of St. Agnes, que descreve um encontro sexual extremamente controverso. Entretanto, tal interesse nunca progrediu para algo profundo o suficiente a ponto de ser comparado ao seu relacionamento com Fanny. Como o próprio poeta contou ao seu irmão, alguns meses antes de conhecer a futura musa, “Isabella é um enigma para mim. Devo dizer que não tenho qualquer pensamento libidinoso sobre ela”. Já em outubro daquele mesmo ano, ele revelou em seu diário: “Eu espero nunca me casar. A solidão é tão sublime quanto é prazerosa”.

É provável que John Keats seja, até hoje, a maior vítima do destino, pois sua opinião a respeito do matrimônio não só mudou, como se tornou um desejo tão grande quanto impossível de ser almejado. 

Em 1º de dezembro de 1818, Thomas, seu irmão caçula, é vencido pela tuberculose. Apesar das circunstâncias, o ocorrido serviu como o pontapé inicial do namoro entre ele e Fanny. Uma vez que ela perdeu o próprio pai para a doença, a ligação entre os dois criou um vínculo baseado não só pelo sentimento e pelo apego de um ao outro, mas também pela essência da perda que compartilhavam.

Por nutrirem um carinho considerável pelo poeta, que, naquela época, já havia se tornado um amigo próximo da família, os Brawnes convidaram-no para se juntar a eles na noite de Natal, em Elm Cottage. Fanny, mais tarde, escreveu para a irmã de Keats que aquele havia sido o dia mais feliz de sua vida (confissão que denuncia a probabilidade de que, naquela noite, os sentimentos do poeta haviam sido revelados).

Com George vivendo em outro país, e após ter abandonado os estudos para se dedicar à poesia, Keats passou a arcar com os cuidados do irmão enfermo, o que fez com que as dívidas começassem a crescer e precarizar seu estilo de vida. Assim, pouco tempo depois do falecimento do caçula, Keats aceitou o convite do melhor amigo, Charles Brown, de viver com ele em Wentworth Place. 

Engana-se quem pensa que essa mudança foi negativa para o relacionamento do poeta com Fanny, muito pelo contrário: ela possibilitou que o sentimento entre eles evoluísse ainda mais. Isso porque, em meados de abril de 1819, a família Brawne, com o intuito de reduzir custos com o aluguel, alocou uma das casas adjacentes na propriedade. Dessa forma, Fanny e Keats passaram a viver sob o mesmo teto e, consequentemente, se verem diariamente.

Ocupando a outra metade de Wentworth Place, Keats, é claro, não pôde deixar de ouvir e ver as idas e vindas de Fanny. Os dois jovens amantes viviam separados apenas por uma parede, através da qual eles podiam escutar os movimentos e sons um do outro. 

Por viverem na mesma casa, e frequentarem os mesmos eventos, os encontros entre os dois não eram tidos como suspeitos. Sendo assim, o amor entre eles cresceu discreta e livremente, sendo observado apenas pelo seu círculo mais íntimo de amigos – entretanto, a condição financeira do poeta preocupava a mãe de Fanny, que temia pelo destino incerto daquela relação. 

Ambrótipo de Fanny Brawne (cerca de 1850)

O constante contato instigou a criatividade do artista que, tendo a musa inspiradora sempre por perto, escrevia incessantemente, muitas vezes com ela no mesmo recinto. 

Apoiado sobre o seio amadurecido do meu belo amor,
Para sentir para sempre sua queda e ondulações suaves,
Acordado para sempre em uma doce inquietação,
Ainda assim, ainda para ouvir sua respiração suave,
E assim viva para sempre - ou então desmaie até a morte.

(Poema Bright star! would I were steadfast as thou art)

À medida que seus escritos se tornavam cada vez mais belos e complexos, mais sua paixão se aprofundava. A intensidade daquele amor, até então julgado como inocente, começou a incomodar os inquilinos de Wentworth Place, sobretudo Brown, que julgava a personalidade de Fanny carente de atributos que merecessem tamanha atenção de um gênio como John Keats.

Visto que precisava fazer algo em relação à arriscada aproximação entre os jovens, ele, que também se dedicava à escrita, propôs a Keats que viajassem para Shanklin, um vilarejo na Ilha de Wight, e passassem o verão trabalhando no litoral na companhia de um antigo amigo, James Rice. Apesar de perdidamente apaixonado, Keats tinha consciência de que aquele amor traria muitos males para a vida de Fanny, dado que ele não tinha condições de se casar com ela, nem o egoísmo de isolá-la de melhores pretendentes. Sendo assim, ele aceitou a proposta, deixando a namorada, completamente devastada, na esperança, como escreveu para a irmã, de “tentar a sorte da minha caneta”.

Algumas semanas depois de se instalar no litoral inglês, Keats sucumbiu à saudade da amada, escrevendo-a no dia 3 de julho de 1819:

Eu nunca fui feliz por muitos dias seguidos: a morte ou a doença de alguém sempre me impediu disso – e, agora, quando nenhum desses problemas me oprime, devo confessar que outro tipo de dor está me assombrando. Pergunte-se, meu amor, se você não está sendo muito cruel ao me fazer me apaixonar dessa maneira, destruindo minha liberdade. Confesse isso na carta que você deve escrever imediatamente, com as mais doces palavras, beijando-as logo em seguida, para que eu, ao menos, toque meus lábios onde os seus tocaram.

Quanto a mim, não sei como expressar minha devoção de uma forma tão justa: quero uma palavra mais brilhante que brilhante, uma palavra mais justa que justa. Eu quase gostaria que fôssemos borboletas e vivêssemos apenas três dias de verão – três dias com você me encheriam mais de prazer do que cinquenta anos na sua ausência.

A partir de então, para a alegria do coração de Fanny, mais cartas passaram a ser entregues em Wentworth Place. Nos escritos, o poeta expressava abertamente o desejo, a paixão e o amor inigualável pela jovem. O sentimento, e a saudade, eram tão fortes que surpreendiam, inclusive, ao próprio remetente. 

Completamente fascinado, Keats perguntava-se o que alguém como Fanny Brawne via nele, acreditando veementemente de que ela jamais o amaria tanto quanto ele. De fato, a insegurança, não só com o trabalho como com a própria imagem, sempre se fez presente na vida do poeta que, inclusive, chegou a desabafar em uma carta direcionada ao seu amigo, Benjamin Bailey, “Nenhuma mulher está interessada em saber se John Keats, com seu um metro e meio de altura, gosta dela ou não”. Entretanto, Fanny não era, de forma alguma, como as outras mulheres que ele havia conhecido.

Um dos aspectos mais evidentes dessa relação reside no fato de que Keats parecia apto, desde o início, a falar com Fanny sem qualquer tipo de restrição, diferentemente de como se dirigia diante de outras pretendentes. Ele sentia que podia dividir qualquer pensamento com a jovem.

Carta de John Keats a Fanny Brawne

Em 8 de julho, ele volta a escrever para sua doce menina. Agora, a respeito do prazer de seus olhos; do amor de seus lábios; da felicidade de seus passos; e de como seu coração está cheio dela:

Eu nunca soube antes o que um amor como esse era capaz de me fazer sentir. Eu não acreditava que um sentimento assim pudesse existir; tinha medo dele, e agora quero que as chamas dele me tomem por completo. Mas se você realmente me amar, não haverá fogo tão ardente quanto nós, quando umedecidos e banhados pelo prazer.

Em 25 de julho, depois de um dia árduo de trabalho, Keats volta a se permitir a apreciar um momento de completa entrega:

É impossível que você olhe para mim com os olhos que eu tenho sobre você: não pode ser. Perdoe-me se vaguei um pouco esta noite, pois estive o dia todo ocupado em um poema muito abstrato e estou profundamente apaixonado por você – duas coisas pelas quais deve me desculpar. Eu, acredite, não tenho idade para deixar você tomar posse de mim; na primeira semana em que te conheci, escrevi-me teu vassalo; mas queimei a carta, pois, quando a vi novamente, pensei que tivesse manifestado alguma antipatia por mim. Se você sentir por algum outro homem o que eu senti por você à primeira vista, estou perdido. [...]

Meu querido amor, não posso acreditar que alguma vez houve ou há algo para você admirar em mim, especialmente no que diz respeito à aparência – não posso ser admirado, não sou uma coisa para ser admirada. Mas você é, eu te amo.

Longe do poeta, Fanny era confortada pela certeza de que ninguém a amava tanto quanto ele. Entretanto, o deleite que as palavras doces de Keats causava foi brutalmente substituído por um coração partido quando ela recebeu a notícia que, após sua estadia em Shanklin, ele se mudaria para a região de Westminster.

Os estímulos que a saudade de Fanny haviam causado só serviram para mostrar que era hora de deixar sua brilhante estrela para trás e retornar para o solo grosseiro e sombrio da Terra. Ele não tinha qualquer condição de sustentar o estilo de vida que ela merecia e ansiava: seus divertimentos nobres, a qualidade de suas vestimentas e as inúmeras festas que sonhava em participar estavam longe de seu alcance. Sendo assim, a motivação de morar na cidade partiu não só da necessidade de ganhar a vida por conta própria – escrevendo para jornais e revistas locais –, mas também da esperança de que, longe de Wentworth Place, ela se apaixonaria por alguém mais próximo de sua realidade. 

O seu plano, porém, não seguiu da forma que esperava. Dez dias antes de seu 24º aniversário, e com somente alguns dias de morada no quarto alugado em Westminster, Keats retornou para Wentworth Place e se viu novamente fascinado pelo semblante meigo de sua amada. Atraído violentamente de volta para os braços de Fanny, ele lhe escreve nos dias seguintes:

Minha querida menina,

Estou vivendo o hoje no ontem: fiquei fascinado o dia todo. Eu me sinto à sua mercê. Escreva-me em poucas linhas que nunca será menos gentil comigo do que foi ontem. Você me deslumbrou. Não há nada no mundo tão brilhante e delicado.

(carta de 11 de outubro de 1819)

Eu poderia ser martirizado por minha religião – o amor é minha religião – eu poderia morrer por isso. Eu poderia morrer por você. Meu credo é o Amor e você é seu único princípio. Você me arrebatou por um poder que não posso resistir; e ainda assim pude resistir até te ver; e desde que te vi, muitas vezes me esforcei para "arrazoar contra as razões do meu Amor". Não posso mais fazer isso - a dor seria muito grande. Meu amor é egoísta. Não consigo respirar sem você.

(carta de 19 de outubro de 1819)

Keats, então, retorna para a abrigada do melhor amigo no final de outubro de 1819, mesmo mês em que, em segredo, ele pede Fanny em casamento.

O vermelho

Não havia nada forte o bastante para corromper o amor de um poeta por sua musa. Contudo, no inverno gélido da Inglaterra, haviam males grandes o suficiente para separá-los da forma mais dolorosa e irreversível.

Em 3 de fevereiro de 1820, uma corrente fria sobrevoou toda a Inglaterra, que nevou exasperadamente durante a noite em que Keats retornava para Wentworth Place, em uma carruagem aberta, após uma breve estadia em Londres. Ao adentrar na casa, tremendo e ardendo em febre, ele deitou em sua cama e tossiu, expelindo um líquido. Na escuridão, ele pediu a Brown, seu companheiro de quarto, para acender uma vela. Ele o fez. E, então, como se confessasse ao amigo um presságio, ele disse: “Eu conheço o vermelho deste sangue. É sangue arterial. É o sangue que anuncia minha morte. Eu vou morrer”. Keats, com base em sua formação médica e nos cuidados que depositou durante o leito de seu irmão mais novo, reconheceu de imediato que a cor do sangue vinha de seus pulmões.

Certo de seu destino, ele escreveu para sua noiva, que morava literalmente do outro lado de sua parede, no dia seguinte à hemorragia: “Dizem que devo permanecer confinado neste quarto por algum tempo. A consciência de que você me ama fará desta casa uma agradável prisão”. 

John Keats por Joseph Severn (1821)

Entretanto, Fanny não provocou o conforto que ele tanto desejava em seu confinamento. Estar ao lado da amada fez com que suas ansiedades, incertezas e medos se fundissem ao amor, paixão e culpa que sentia em relação a ela. Keats sentia-se extremamente responsável por prometê-la uma vida de amor e sonetos para, então, colocar aquele destino sombrio entre seus caminhos. Ele chegou, até mesmo, a sugerir que eles rompam o noivado. "A doença", ele escreveu, "é uma barreira entre mim e você!".

Keats se vê, então, diante do pior momento de sua vida. Seus pensamentos eram um misto de emoções, sendo a ansiedade a principal delas. Ele era atormentado pela possibilidade da morte; pelos seus sentimentos por Fanny; pelo fantasma de seu irmão caçula, levado pela mesma doença que invadia seus pulmões; pelas péssimas condições financeiras; pela indiferença pública à sua poesia; e pela vergonha de viver às custas dos amigos. Em uma de suas crises, no meio da noite, ele confessa para Fanny que teme não ter deixado nenhuma obra imortal. Não houve esperança, nem poesia no decorrer daquele mês.

Com a doença avançando, em meados de 1820, a relação entre o casal começava a tomar rumos incertos e desnivelados. Tê-la morando perto, mas longe de seu abraço, era terrível; no dia a dia, ele a vislumbrava no jardim e a observava indo e vindo, além de se deliciar com o som suave de sua voz. Para Fanny, aquela havia sido uma época de profunda angústia, especialmente devido às sufocantes, e ciumentas, demandas do poeta: “Não pense em nada além de mim. Não viva como se eu não existisse. Não me esqueça!”. Eles, que costumavam caminhar lado a lado pelas margens de Hampstead, agora se viam em um mundo limitado às paredes de Wentworth Place, onde Fanny podia ouvir as tosses incessantes do noivo, que traziam à tona memórias da época em que a mesma enfermidade havia matado seu pai. 

À medida em que o inverno se aproximava, a preocupação com a condição de Keats aumentava. Entretanto, ele agarrou-se em uma pequena, embora ingênua, esperança: os médicos acreditavam que, caso ele partisse para a ensolarada Itália antes da estação mais fria do ano, suas chances de sobreviver aumentariam. Com a ajuda de seus amigos mais próximos, extremamente preocupados com seu bem-estar, a viagem à Itália se fez certa.

Mecha de cabelo de John Keats

Naquele mesmo período, durante julho e agosto, Keats tornou-se sua versão mais possessiva e ciumenta, manipulando emocionalmente e tentando controlar os  sentimentos de Fanny. Ele lhe escreveu: “Estou enojado com o mundo bruto para o qual você está sorrindo. Eu odeio homens e mulheres ainda mais”. A frenesi do poeta fez com que os sentimentos, antes ternos e doces, pela jovem se misturassem a uma depressão e raiva profunda.

No último mês de sua estada na Inglaterra, em setembro, Keats estava no auge de sua doença. Apesar da confusão de suas emoções, seu amor por Fanny era nítido e ele, queimando em febre e implorando pela companhia da amada, é acolhido pelos Brawnes. Ele fica na presença constante da amada até o dia de sua viagem.

O pensamento de deixar a Srta. Brawne está além de todas as coisas horríveis – a sensação de escuridão vindo sobre mim – eu vejo eternamente sua figura desaparecendo eternamente.

(Carta para Charles Brown, 30 de setembro de 1820)

Na noite anterior à sua partida, os dois se dão presentes: ele, uma pintura em miniatura de si mesmo, pintado por Joseph Severn; ela, uma mecha de seu cabelo. Eles também trocam anéis e Fanny o presenteia com uma série de cartas, as quais são enterradas com ele — fechadas, uma vez que ele nunca teve coragem de encarar a tristeza que o tomaria se ele as abrisse.

A juventude fica pálida, fina como um espectro, e morre

Em novembro, um mês após se instalar na capital italiana, ele lamentou: “Ó, como eu gostaria de ser enterrado perto de onde ela mora!”. John Keats morreu em 23 de fevereiro de 1821, aos 25 anos de idade, em um pequeno quarto localizado no número 26 da Piazza di Spagna, em Roma, aproximadamente às 23 horas. 

Túmulo de John Keats

Ao receber a notícia de sua morte, Fanny cortou seus cabelos e se vestiu de preto durante os seis anos seguintes. Em 1828 e 1829, seu irmão e sua mãe, respectivamente, faleceram e ela se viu na necessidade de reconstruir uma vida para si mesma. Em 1833, mais de doze anos depois da morte de Keats, ela conheceu Louis Lindo, com quem se casou e teve três filhos. Apesar de casada, ela nunca retirou o anel de noivado dado pelo poeta.

“Anseio por acreditar na imortalidade. Jamais poderei me despedir de você. Se estou destinado a ser feliz com você aqui – quão curta é a vida mais longa. Desejo acreditar na imortalidade – desejo viver com você para sempre.”

(John Keats para Fanny Brawne)

Referências



Arte em destaque: Mia Sodré

Caroline Cecin
Nascida no verão de 1998 em Mogi das Cruzes. Jornalista e mãe de gato em tempo integral. Apaixonada por palavras, escritoras do século XIX e cantoras dos anos 1970.

Comentários

  1. Não estou sabendo lidar com a dor que é ler esse texto.

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    1. Eu mesma escrevendo o texto rs como lidar com uma história de amor tão linda e triste dessas?

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  2. Perfeito. Estou encantada por esse texto e essa história <3

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    1. Fico muito feliz que tenha gostado, Nathani! Obrigada mesmo! :D

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  3. Que texto incrível! É impossível não suspirar e se emocionar com essa história que mistura arte, literatura, poder, amor e muita tristeza também. Sempre que leio algo sobre eles começo a imaginar como teriam sido esses momentos juntos, tanto os bons quanto os difíceis. Obrigada por escrever de maneira tão honesta e rica de conteúdo Caroline, já até salvei esse post nos meus favoritos <3

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    1. Fico muito feliz que tenha gostado, Sofia! :') Essa é, com certeza, a minha história de amor da vida real favorita. Linda demais, né? Obrigada mesmo pelo carinho!

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