últimos artigos

Fome de Viver: o desejo da juventude e do amor eternos


O filme The Hunger, que no Brasil ficou conhecido como Fome de Viver, foi lançado em 1983. Baseado no livro homônimo do autor estadunidense Whitley Strieber, é uma história melancólica e sensível sobre o amor, a solidão, o envelhecimento e a finitude da vida, mesmo que esta seja eterna. Além disso, o filme aborda a bissexualidade com naturalidade e inicia discussões importantes como "e se a imortalidade não acompanhasse a juventude eterna?" e "e se o medo da solidão fizesse com que os que mais amou sofressem eternamente?"

"— Me dê mais tempo.
— Não posso. Não posso.
— Então me mate. Me liberte.
— Não posso."

Com um modo muito único de retratar o vampirismo, em Fome de Viver somos apresentados aos vampiros Miriam Blaylock (Catherine Deneuve), seu marido, John (David Bowie), e à doutora Sarah Roberts (Susan Sarandon), que acredita que o envelhecimento é uma espécie de doença relacionada ao sono e ao tipo sanguíneo e que pode ser curada.

Não demora para que os caminhos de Sarah e do misterioso casal de professores de música se cruzem. Na verdade, Miriam parece ter muito interesse na Drª Sarah, ao mesmo tempo em que John precisa lidar com algo que um vampiro normalmente sequer pensa, o envelhecimento. 

Miriam e John 

O filme não deixa claro quantos anos Miriam Blaylock e John têm e nem há quanto tempo estão juntos, mas durante os flashes de memória de John, fica claro que quem o transformou foi ela há pelo menos alguns séculos, e que ela é uma espécie de vampira egípcia antiga que não envelhece na mesma velocidade de seus amantes e que, ao transformar John, prometeu que aquela vida seria para sempre. 

"— Você disse para sempre. Eternamente. Lembre-se?
— Todos os dias.
— Para sempre, você dizia. Jamais envelhecer. Você se lembra?
— Pare.
— Eternamente jovem.
— Pare.
— Um beijo. Me beije. Pense em mim como eu era. Me beije como antes."

John não apenas é loucamente apaixonado por Miriam como parece ser dependente dela, de seu amor e de sua presença. Fica tão desesperado ao notar que está envelhecendo, que seu tempo com ela está se esgotando e que logo será substituído que tenta a todo custo parar o envelhecimento, então vai à procura de Sarah em sua clínica.

A frieza com que Miriam lida com o processo de envelhecimento de John faz parecer que ela não se importa, mas na verdade é evidente que ela passou por aquilo muitas vezes. E mesmo que ela não o ame na mesma intensidade, é nítido que sua perda vai doer muito, por isso ela prefere se manter distante até que seja tarde demais.

"Rezei para jamais perdê-lo. Sei o que está acontecendo com você. Vivo esse sofrimento mais uma vez."

Mesmo que já tenha passado por isso diversas vezes, Miriam não parece lidar bem com a perda. Na verdade, seu medo da solidão e seu sentimento de posse faz com que ela mantenha todos os seus amantes consigo, definhando eternamente em caixões próximos a ela. Não é apenas egoísmo da parte dela, é sem dúvida cruel, mas Miriam parece simplesmente não conseguir se desprender das memórias e dos sentimentos acumulados há séculos e distribuídos em tantos amores. Ela se agarra às lembranças deles, já que não consegue mais olhar para eles quando começam a envelhecer. Miriam se alimenta do restante de vida que seus corpos carregam, sugando seu amor até a última gota, até que não lhes reste nada, apenas corpos vivos em caixões de madeira.

"Não há liberação, meu querido. Não há descanso. Não há como fugir. Os humanos morrem de uma forma, nós morremos de outra. O fim deles é definitivo. O nosso, não. Na terra, na madeira apodrecida, na escuridão eterna, nós ainda enxergamos, ouvimos e sentimos."

Miriam e Sarah 

Outra questão bem abordada no longa é a bissexualidade, não apenas de Miriam, mas também de Sarah. A história deixa claro que Miriam durante os séculos teve amantes mulheres também e que seu relacionamento e paixão foi tão forte e intenso quanto aquele com John. Tudo acontece com muita naturalidade, inclusive a atração que ambas parecem sentir uma pela outra antes mesmo que Sarah vá visitar Miriam enquanto a vampira ainda está em seu processo de luto.

A partir daquele momento, a ligação entre as duas fica mais forte, e é como se Sarah sentisse a perda de John através de Miriam. Sarah não consegue parar de pensar na mulher misteriosa e fascinante que a observa como se conhecesse todos os seus segredos e os segredos do mundo inteiro, e Miriam começa a enxergar uma oportunidade de um novo amor. Um novo recomeço. Um novo "para sempre".

"— O que está tocando?
Lakime, de Delibes. Lakime é uma princesa da Índia. Ela tem uma escrava chamada Mallika [...]
— É uma canção de amor?
— Eu lhe disse que era cantada por duas mulheres.
— Parece uma canção de amor.
— Então, deve ser."

O desejo que ambas sentem uma pela outra faz com que seu relacionamento se desenvolva rapidamente, e dessa vez Miriam faz com que Sarah beba seu sangue sem que ela saiba o que pode acontecer, sem seu consentimento, apenas porque pode. Mesmo que se recuse a ceder, quando a fome de Sarah fica incontrolável, ela vai à procura de Miriam, que acredita ter encontrado um novo amor para possuir e passar uma eternidade finita. Mas Sarah tem outros planos.

No final, Miriam sofre nas mãos daqueles que mais amou e finalmente entende o quão agridoce pode ser a vida eterna quando não é permitida a possibilidade de viver.

"— Sarah, fique comigo.
— Não posso."

Nesse filme sobre vampiros em que essas criaturas não possuem presas e que precisam de uma cruz de Ansata para se alimentar (símbolo egípcio da vida eterna), os vampiros possuem anseios, medos e paixões como todo ser humano. Mostra ainda que a monstruosidade, quando é retratada pela perspectiva de uma mulher-monstruosa que comete atos monstruosos, parece ser muito mais assustadora e chocante pelo simples fato da crença popular que mulheres não podem ser monstros tão cruéis quanto um homem. O fardo que a vida eterna pode se tornar e a solidão intrinsecamente fixada em um ser imortal pode transformar esse ser em uma criatura egoísta que precisa absorver o amor para se sentir completa, mesmo que esse vazio nunca possa ser preenchido. 


Arte em destaque: Mia Sodré  

Comentários

  1. VIVA A BISSEXUALIDADE!!!!!!! ENTRE VAMPIROS MELHOR AINDAAAAAA!
    QUE ANÁLISE PERFEITA! SAÍ ATÉ ARREPIADA! BÁRBARA, VOCÊ É LINDA!

    ResponderExcluir

Formulário para página de Contato (não remover)