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Outra face da lua: a poesia de Marilyn Monroe

 

"meu corpo é meu corpo
cada parte dele."

O ano é 1962. Poucas semanas após a morte de Marilyn Monroe, Andy Warhol produz um conjunto de cinquenta serigrafias idênticas, baseando-se em uma propaganda do filme noir Niagara (1953), estrelado por Marilyn. Essa reprodução, que um dia se tornaria uma das mais importantes obras da arte contemporânea ocidental, Warhol batiza de Marilyn Diptych (Díptico Marilyn, em tradução livre). Um díptico é um objeto milenar composto por duas placas conectadas, usadas para representar a dualidade e aquilo que se completa. Na Idade Média, a igreja anotava em dípticos os nomes dos vivos e os nomes dos mortos. Na obra de Warhol, metade das serigrafias são coloridas, ilustrando uma Marilyn viva, e a outra metade é em preto-e-branco manchado, lamentando a perda de um ícone.

Díptico Marilyn é tanto uma homenagem quanto uma crítica acerca da exploração da imagem de Marilyn. Ao criticar a reprodução em massa de uma pessoa, Warhol abre caminho para refletirmos o modo como celebridades são criadas para serem compreendidas e consumidas como personalidades unidimensionais, gerando o que conhecemos como a persona, ou o casulo que protege a verdadeira identidade do artista enquanto o assombra. Todos nós conhecemos a persona de Marilyn Monroe e, passados quase sessenta anos de sua morte, o mundo permanece cultivando a figura da loira superficial, ora ingênua, ora femme fatale, conforme o papel que ela precise desempenhar na mente de seus consumidores.

Marilyn Monroe é Norma Jeane - e Norma Jeane tem consciência de que sua identidade é um díptico entre o público e o privado, a fama e a solidão, o sensual e o vulnerável. Sua depressão crônica, a dependência química e os problemas amorosos não concernem o mundo para além da crucificação da figura pública errante, pois ela precisa ser vista, reproduzida e monetarizada como um ideal. O ideal de Marilyn é o que hoje chamamos de “uma mulher escrita por um homem”: uma figura solar e sedutora, de uma tristeza validada pela romantização, e uma inteligência que serve quase como acessório. Porém, Norma Jeane possui uma biblioteca com mais de quatrocentos livros, de Fiódor Dostoiévski a Jack Kerouac, e um coração de poeta que ecoa a melancolia de Sylvia Plath com a disruptura de uma alma vítima da intensidade.

Norma Jeane Mortenson nasceu em Los Angeles, em 1926. Filha de um casal separado, nunca descobriu a identidade do pai. Quando tinha oito anos, sua mãe, Gladys, acometida pela esquizofrenia paranoide, sofreu um colapso mental e perdeu a guarda da pequena Norma. A menina passou, então, a viver sob os cuidados de uma amiga da mãe, Grace, que a levou para o casal de inquilinos de Gladys. A estadia teve breve duração pois, no ano seguinte, Norma deixou os inquilinos para viver com Grace, relatando ter sido abusada por um deles. Passou por mais duas famílias antes de se transferir para um orfanato, retornar para Grace e ser abusada novamente, dessa vez pelo marido da guardiã, fator que a condenou à peregrinação entre famílias e orfanatos até os dezesseis anos. Para se livrar das instituições, acabou embarcando em seu primeiro e frustrante casamento - com o vizinho, James Dougherty.

Foi descoberta pelo fotógrafo David Conover aos dezoito anos, enquanto trabalhava em uma fábrica de munições. Iniciava-se, então, a invenção de Marilyn Monroe: a garota que, aos olhos de Conover, era “metade criança e metade mulher”, assumiu o loiro dourado de Jean Harlow, o pseudônimo Jean Norman, e começou a ganhar notoriedade através de trabalhos como modelo pin-up. Em 1946, conheceu Ben Lyon, um executivo da 20th Century Fox que lhe deu não somente um contrato, mas a definição de como Norma seria eternamente vista - e simplificada - pelo público ao descrevê-la como “o sexo em uma película de filme”. Norma Jeane se tornou Marilyn, nome escolhido por Lyon em homenagem a Marilyn Miller, uma atriz cuja morte precoce abalou Hollywood, e Monroe, escolhido por Norma em homenagem a mãe.

Marilyn perdeu o contrato com a Fox em 1947, assinou com a Columbia em 1948 e, ao deixar a produtora no mesmo ano, se envolveu com o agente Johnny Hyde, da William Morris Agency (WMA), trinta e um anos mais velho do que ela. Como todos os homens ao seu redor, Hyde contribuiu com a invenção de Marilyn - pagou-lhe uma cirurgia no queixo e, pelo que se especula, outra no nariz. Deixou a esposa para pedir Marilyn em casamento, oferta que ela recusou múltiplas vezes, apesar de nutrir sentimentos por ele. A razão pela qual Marilyn gostava de Hyde, segundo ela, era porque o agente conhecia “não somente Marilyn, mas Norma Jeane. Ele tinha consciência de toda a dor e desespero em mim [...] ninguém nunca me amou dessa forma”.

A outra face da lua

"Todo mundo tem violência dentro de si. Eu sou violenta."

Os cadernos de Norma Jeane foram encontrados por Anna Strasberg anos após o falecimento de Lee Strasberg, o professor de teatro a quem os bens de Marilyn foram destinados. Os escritos revelaram uma mulher solitária, insegura e reflexiva, cuja vida foi uma jornada em busca de conhecimento de si mesma e do mundo. Marilyn amava o pensamento, o cinema, a literatura e as artes plásticas, e era, acima de tudo, uma sonhadora. Enquanto lutava, simbólica e judicialmente, para abandonar as comédias hollywoodianas, sonhava em interpretar toda a obra de William Shakespeare. E enquanto debochavam de sua capacidade, almejava criar a própria empresa de produção cinematográfica. Se seu maior desejo era ser reconhecida, seu maior pesadelo foi a rejeição - o que acabou acontecendo no penúltimo ano de vida, quando seu último filme, Os desajustados (The misfits no original), foi fortemente rejeitado pela crítica, impedindo-a de novos trabalhos.

"Medo de me dar as novas falas
talvez eu não seja capaz de aprendê-las
talvez eu cometa erros
as pessoas vão pensar que não sou boa ou vão dar risadas e
me rebaixar ou vão pensar que não consigo atuar.
Mulheres pareceram inflexíveis e críticas -
pouco amigáveis e frias em geral
com receio de que o diretor pense que não valho nada.
[...]
tenho tido momentos que foram excelentes, mas o ruim
é o mais pesado de carregar por aí e sinto que não tenho
confiança
louca deprimida"

As notas, ora em forma de prosa, ora em poesia, abrangem temas como a solidão, a insegurança, o medo, a melancolia, a vida e a morte, porque era o sentido da vida e sua própria existência que Marilyn buscava compreender. “Vida - sou de ambas as suas direções”, ela registrou em uma passagem: 

"de alguma forma permanecendo de cabeça para baixo
na maior parte
mas forte como uma teia de aranha no
vento - eu existo mais com a geada fria e cintilante.
Mas os meus raios borbulhantes têm as cores que
vi nas pinturas - ah vida eles
traíram você."

A poesia de Marilyn Monroe é díptica, podendo ser tão honesta quanto clandestina. É como se, confessando parte de sua alma, outra parte devesse permanecer oculta para preservá-la, pois nem em sua intimidade Marilyn possuía total direito sobre si mesma. Em 1955, na caderneta de um hotel, ela registrou o pesadelo de uma cirurgia invasiva:

“eles me abrem (...) e não há absolutamente nada lá - Strassberg está profundamente desapontado mas ainda assim - academicamente impressionado que ele tenha cometido um erro desses. Ele pensou que haveria tanta coisa - mais do que ele tinha sonhado possível em quase todo mundo mas ao invés disso não havia absolutamente nada - desprovida de todo sentimento humano vivo - a única coisa que saiu foi uma serragem finíssima - como de uma boneca de pano.”

O sonho de uma cirurgia se transforma em pesadelo a partir do momento em que o díptico é quebrado e a expectativa do doutor, que pode ser entendido como o público, é frustrada pela descoberta de um “vazio completo”, nas palavras subsequentes de Marilyn. Esse vazio, que contém apenas a serragem da boneca de pano, é diferente do vazio da superficialidade, aquele que o mundo espera encontrar em Marilyn no eterno explorar de seu corpo - é uma ausência de sentido, um excesso de solidão e uma falta de algo que Norma não consegue nominar, e que talvez esteja oculto nos esconderijos de seus fragmentos.

"Apenas partes de nós alguma vez
tocarão partes dos outros -
a verdade de alguém é apenas isso
na realidade - a verdade de alguém.
Podemos apenas compartilhar a
parte que é aceitável dentro do conhecimento do outro
portanto a gente
está quase sempre sozinha.
Como deve ser na
natureza evidentemente - no máximo talvez isso pudesse fazer
nossa compreensão buscar
a solidão do outro."

Como parece acontecer com a maioria das celebridades, Marilyn enfrentou a solidão de uma vida constantemente assistida e multiplamente interpretada. Fosse em passagens de seus cadernos ou entrevistas, a sensação de estar solitária era tão frequente em suas palavras que tornou-se, inclusive, uma síndrome: a síndrome de Marilyn Monroe, cunhada por Elizabeth Macavoy em livro homônimo, no qual a doutora argumenta que, antes da morte física da atriz, houve primeiro uma morte psicológica causada pela solidão. “Conforme eu crescia”, Marilyn contou em uma entrevista, “sabia que era diferente das outras crianças porque não havia beijos nem promessas em minha vida. Me sentia muitas vezes solitária, e desejava morrer”.

"doce e incerto  ̶c̶o̶n̶t̶u̶d̶o̶ - resiste bravamente no vento  ̶a̶p̶e̶s̶a̶r̶ de estar tremendo o tempo todo. Aquelas folhas vão relaxar, expandir-se ao sol e a cada pingo de chuva elas resistirão até quando estiverem socadas e rasgadas. Acho que estou muito só - minha mente pula. Eu me vejo no espelho agora, sobrancelhas franzidas - se eu me encostas perto verei - o que não quero saber - tensão, tristeza, decepção, meus olhos  ̶a̶z̶u̶i̶s̶ turvos [...]. A boca me torna mais triste, ao lado dos olhos mortos. [...]"

Ou, em uma passagem direta, como um grito de desespero: 

"Solidão!!!!!
Eu estou sozinha. Eu estou sempre
sozinha
não importa o que aconteça."

Norma falava de si mesma em terceira pessoa, determinando, de acordo com o fotógrafo Sam Shaw, o que “Marilyn” poderia ou não fazer. Tanto ela quanto Arthur Miller, seu último marido, referiam-se a ela como “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, história que a nós é conhecida como O Médico e o Monstro, o maior exemplo literário de dualidade na psique humana. Certa vez, durante uma sessão fotográfica à beira-mar, Marilyn confessou a André de Dienes que em sua próxima reencarnação gostaria de ser uma borboleta. E dentre as inúmeras interpretações que poderíamos fazer desse desejo, uma me é inevitável: a morte como último mecanismo para alcançar a liberdade psíquica a partir do momento em que, nas dobradiças do díptico vida/morte, matéria e espírito se transformam para libertarem-se um do outro.

"Oh droga queria estar -
morta - absolutamente inexistente -
desaparecida daqui - de
todos os lugares mas como eu conseguiria
Sempre existem pontes - a Ponte do
Brooklyn
Mas eu amo aquela ponte (tudo é lindo daqui e o
                  ar é tão puro caminhando) me parece -
cheio de paz lá mesmo com todos aqueles
carros enlouquecendo lá embaixo. Então
teria que ser outra ponte
uma feia e sem vista - exceto
que gosto em particular de todas as pontes - existe algo
nelas e além do mais
nunca vi uma ponte feia" 

Em 1962, após dezoito anos de uma vida dupla, três casamentos e uma vasta filmografia, Norma Jeane foi encontrada morta numa manhã de domingo, em sua casa em Los Angeles. Veio a óbito por uma overdose de barbitúricos, não sendo essa a sua primeira, e o nível elevado das substâncias fez com que a morte fosse considerada como um possível suicídio. Falecia com ela, no entanto, apenas uma de duas partes: Norma, a criatura humana genuína, portanto mortal, deixara de existir em seu último suspiro; já Marilyn, o mito meticulosamente construído, portanto imortal, permaneceria vivo na proporção em que fosse lembrado. E embora fosse Norma Jeane quem sofrera, era por Marilyn Monroe que o mundo lamentava, como não deixaria de ser mesmo sessenta anos depois.

A cultura das celebridades constrói mitos sobre pessoas com igual velocidade em que as destrói. Marilyn foi sua primeira vítima mais notória, mas nem de longe foi a última - seu caso não é tão diferente do que vimos ocorrer com Lindsay Lohan, Britney Spears e Amanda Bynes, e não diferirá de tantos que ainda veremos surgir. Poderíamos nos perguntar “até quando?” e vivermos uma vida inteira sem obter a resposta, como nos questionar se, caso Norma pudesse ter sido ela mesma, veríamos seu lado literário desabrochar a ponto de tornar-se, quem sabe, poeta. Mas Marilyn faleceu, deixando escritos que Stanley Buchthal batizou de Fragmentos - uma escolha curiosa para nomear registros de uma díptica e poética existência aniquilada por um mundo que não descansou até vê-la em pedaços.

Referências

  • Fragmentos: Poemas, anotações íntimas e cartas de Marilyn Monroe (Stanley Buchthal)
  • Marilyn Monroe: The Biography (Donald Spoto)
  • Marilyn Monroe Makeup Artist's Dream (LiveAuctionTalk)
  • The Story of: Marilyn Monroe’s Signature Blonde Hair (29 Secrets)
  • Marilyn Monroe Syndrome (Exploring Your Mind)



Arte em destaque: Mia Sodré 
Diana Joucovski
Escritora e entusiasta da arte em suas múltiplas linguagens. Sonha tanto acordada quanto dormindo e, quando não devaneia uma realidade própria, transita pelo universo do cinema e da literatura. Queria ter algo de culta, mas não pode evitar ter nascido à beira do século em que Stephanie Meyer escreveu Twilight.

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