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Sobrevivendo à noite do terror: o que torna Laurie Strode a final girl perfeita?


Os apreciadores de filmes de terror, especialmente aqueles que amam um bom slasher, têm sua memória repleta de exemplos de personagens, em grande parte mulheres que lutaram até o fim contra um assassino sanguinário, sobrevivendo para contar a história, seja escapando, seja derrotando o perpetrador com suas próprias mãos, lutando contra toda sorte de adversidades.

Para citar alguns exemplos clássicos, temos as inesquecíveis Sidney Prescott, da franquia Pânico (Scream, 1996), Ellen Ripley, de Alien - O 8º Passageiro (Alien, 1979), e Nancy Thompson, de A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984). Cada uma delas, a seu modo, consegue derrotar o vilão de uma maneira única, estratégica e engenhosa - sejam eles sociopatas com um plano maquiavélico de vingança, um extraterrestre monstruoso ou um molestador de crianças que, literalmente, volta das cinzas para assombrar os sonhos daqueles que aterrorizou no passado.

Tais personagens passaram a ser definidas como final girls, ou o que pode ser traduzido como "garotas finais". O termo foi cunhado em 1987, pela acadêmica e professora estadunidense Carol Clover, que define essa sobrevivente com maestria da seguinte maneira:

“Ela é aquela que encontra os corpos mutilados de seus amigos e se dá conta da extensão do horror que está por vir e o perigo que ela própria corre; aquela que é perseguida, encurralada, ferida; aquela que vemos gritar, cambalear, cair, levantar e gritar novamente.”

[tradução livre]

Ou seja, não se trata apenas de alguém que sobrevive ao acaso ou por sorte, mas de mulheres que, com um olhar aguçado, perspicácia e muita coragem, conseguem, de alguma maneira, permanecer vivas.

Essa é, com certeza, a definição perfeita para todas as nossas final girls. Mas pode-se dizer que Laurie Strode não é uma final girl qualquer. Sem dúvida, os arcos de todas as garotas finais têm o seu destaque próprio e a sua glória. Porém, Laurie é, acima de tudo, uma sobrevivente verossímil, real, quase palpável. Ela poderia ser qualquer uma de nós.


Isso se deve, em maior parte, à atuação da incrível atriz - então apenas uma iniciante - Jamie Lee Curtis. Embora tenha sido selecionada para o papel devido às suas origens de prestígio no cinema - sendo filha da estrela Janet Leigh e do astro Tony Curtis -, Jamie deu vida à Laurie com muita competência e conquistou seu próprio destaque, conferindo um brilho especial a Halloween - A Noite do Terror (Halloween, 1978), cujo roteiro é assinado por Debra Hill em parceria com o consagrado John Carpenter - também diretor do filme. Mas é importante ressaltar que o mérito também é justamente de Debra Hill, a brilhante roteirista que escreveu e deu forma à personagem Laurie.

Apesar de não ser tão lembrada e celebrada quanto John Carpenter na indústria do cinema (o que é bastante injusto), Debra Hill foi fundamental para a composição desse clássico do terror e suas personagens, especialmente de Laurie, que viria a ser conhecida como a grande precursora das final girls, inspirando dezenas de outras personagens e tramas e indo muito além do estereótipo da garota virginal e pura que merece viver simplesmente por isso.

Jamie Lee Curtis e Debra Hill

Tal construção faz com que consigamos nos enxergar no papel daquela garota comum que passa a ser perseguida por um maníaco assassino ao acaso. Laurie é apenas uma adolescente que está prestes a concluir o ensino médio, gosta de estudar e trabalha como babá enquanto seus amigos buscam diversão. A pequena cidade fictícia onde mora, Haddonfield, em Illinois, passa a ser assombrada por um terrível acontecimento na noite de Halloween de 1963: Michael Myers, com apenas 6 anos de idade, mata sua própria irmã, a adolescente Judith, sem qualquer explicação aparente.

Após 15 anos trancafiado em algo como um manicômio judiciário, Michael escapa e volta para casa, obstinado a marcar com sangue mais uma noite de Halloween em Haddonfield. Ele não tem qualquer motivação, como bem define seu psiquiatra, Dr. Sam Loomis (Donald Pleasence): ele é apenas a personificação do mais puro e absoluto mal. No que pode se chamar de um mero acaso, Laurie cruza o caminho de Michael, que, então, passa a persegui-la ao longo daquele dia 31 de outubro de 1978, culminando com a morte brutal de seus três amigos na noite de Halloween.

Diante do massacre, Laurie não é uma dessas sobreviventes ao estilo Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984), que dispõe de um preparo físico invejável e manuseia armas com intimidade. Embora faça algumas escolhas equivocadas - como se esconder no guarda-roupas ou baixar a guarda para o assassino mais de uma vez - e apesar de ser, por fim, resgatada por um homem, Laurie consegue salvar as crianças sob seus cuidados e supera o psicopata, se defendendo com uma agulha de tricô, um cabide e a faca carregada pelo próprio Myers, permanecendo viva com astúcia e engenhosidade.


Ao longo desse processo, Laurie chora, grita, se apavora, toma decisões ruins, tal qual uma mulher que passa a ser perseguida por um psicopata faria, guiada por seu instinto de sobrevivência. Ela é, sobretudo, humana, não é uma super-heroína que abate o inimigo sem qualquer dificuldade.

Em Halloween (2018) e Halloween Kills (2021), 40 anos depois, temos uma Laurie que envelheceu naturalmente, tornou-se mãe e avó e ainda sofre de estresse pós-traumático, decorrente daquela noite de 1978 que, para sempre, reverberará em sua vida. Durante todos esses anos, ela se preparou, na certeza de um novo confronto com Michael, que, assim como ela previa, novamente escapa da instituição onde se encontrava preso e parte em busca de terminar aquilo que não havia conseguido 40 anos antes: voltar para casa, dizimando qualquer um que atravesse seu caminho.

Nesse ínterim, Laurie aprende a se defender e a manusear armas de fogo e transforma sua casa em um grande forte de proteção e, como viemos a saber ao final, em uma armadilha mortal (ou quase). Durante esse processo, ela passa por dois divórcios, se afasta de sua única filha, Karen, enfrentando dificuldades em sua criação e, consequentemente, de sua neta, Allyson, a quem, apesar disso, ela tenta proteger do mal, daquele a que se refere como the boogeyman (em português, o bicho-papão) a todo custo.

Mas, apesar de ter se tornado uma sobrevivente forte, corajosa e precavida, Laurie ainda está longe de ser uma heroína perfeita. Ela comete erros e continua sendo muito humana, tentando proteger a si e àqueles que ama, enquanto lida com questões familiares e emocionais, como todas nós.


E é justamente isso que torna toda a trama de Halloween e a saga de Laurie ainda mais instigantes, verossímeis e, consequentemente, únicas. E é inegável que o trabalho dessas duas profissionais na construção dessa personagem icônica foi fundamental para o sucesso da franquia e da permanência de Halloween em um lugar especial no imaginário dos fãs dos clássicos filmes de terror. 

Hoje temos como protagonistas da série de filmes três gerações de mulheres, sendo a principal uma mulher de mais de 60 anos - algo que, por si só, já quebra paradigmas. E este ainda é um reflexo do legado de Debra Hill, como a própria Jamie Lee Curtis defende em entrevista, apesar de seu falecimento em 2005. Ela deve ser lembrada por  sua contribuição inestimável que abriu caminhos e possibilitou essa construção atual. 

O que podemos esperar é que o trabalho impecável e esse importante legado de Debra Hill continuem a ser respeitados (e que sejam cada vez mais disseminados, para que seu nome como roteirista seja tão conhecido quanto o de John Carpenter) e que, nesta nova empreitada de Halloween, a saga de Laurie Strode, que chega ao seu final com Halloween Ends em 2022, tenha uma conclusão digna, que respeite a essência dessa que pode ser considerada a epítome da final girl.

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Arte em destaque: Mia Sodré

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