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The Velvet Vampire e as dores do luto vampiresco


*este texto trata de temas sensíveis: violência sexual, perturbações psicológicas, luto e adultério.

Em The Velvet Vampire, dirigido pela estadunidense Stephanie Rothman, somos introduzidos a um filme de vampiro um tanto inusitado: o cenário em que ele decorre, na maior parte do tempo, é o deserto. Acredito que o cenário controverso para a natureza dos vampiros, aquele que estamos acostumados pela história clássica, também se manifesta na personalidade da vampira protagonista, Diane LeFanu (Celeste Yarnall) que, apesar de se apresentar como uma mulher dominadora, intimidante, vivencia uma solidão desoladora e mórbida que a deixa imensamente perturbada em determinadas ocasiões, o que traz um viés dramático ao enredo.

Já no início do filme nos deparamos com uma cena chocante do que gosto de chamar de “terror realista”: uma jovem caminha pela noite solitária e encontra um homem que tenta estuprá-la, mas ela o mata e lava o sangue numa fonte, isso com extrema naturalidade da protagonista. A estética de elementos em vermelho (nas luzes da rua, no vestido da vampira) presentes na cena alertam do perigo iminente, provocando o espectador. E se ela não fosse uma vampira? Sabemos que muitas mulheres sofrem com abusos de violência sexual e essa cena é uma forma de denúncia. O filme nos faz refletir nesse e em outros instantes sobre os locais em que a mulher é influenciada a se encaixar na sociedade por meio de comportamentos que a corroem por dentro.


A seguir, o filme expõe a preocupação estética e psicológica no momento em que Diane adentra a Galeria Stoker, uma referência a Bram Stoker, autor do aclamado Drácula, e observa um jovem casal, Susan (Sherry E. DeBoer) e Lee Ritter (Michael Blodgett), discutindo se determinada escultura era sensual ou macabra em suas formas. A vampira divertidamente se insere no diálogo e os convida para passar uns dias em sua luxuosa casa no deserto, proposta a qual eles aceitam, até porque Lee revela grande interesse pela encantadora Diane. Mas, assim que chegam ao local, começam a se sentir inexplicavelmente observados. De fato, a femme fatale de vermelho observa sua intimidade por um espelho falso e inclusive invade seus sonhos enquanto dormem.

Em certo momento da história, a mulher os leva para conhecer uma mina, mas o casal se perde dela, fazendo com que o marido decida ir procurá-la sozinho, deixando a esposa esperá-los retornar. A jovem, no entanto, é assombrada tanto por por horrores de sua mente quanto pelos reais, na fragilidade de sua breve solidão. Quando os outros retornam, a vampira relata que seu desaparecimento se deve ao encontro de uma pedra de sangue, a qual a atraiu pela beleza, mas sua descrição da pedra comove certo desconforto quando revela:

“Não pude resistir. Precisava tê-la. Não há vida sem sangue. E aqui está ele, preso para sempre nessas pequenas veias vermelhas.”

A partir de então, os acontecimentos estranhos ficam mais recorrentes na vida de Susan e Lee. O marido, muito interessado por Diane, a beija na primeira oportunidade, enquanto sua esposa, cansada, decide se bronzear e acaba picada por uma cobra. Essas cenas simultâneas parecem demonstrar a traição como relacionada com o ato de ser atacado por uma serpente. No entanto, mais à frente percebemos como Diane recorre à sensualidade como uma defesa de sua solidão e entendemos que ela é uma vítima tanto quanto Susan.


O momento em que se quebra a máscara de Diane é quando ela leva o homem para conhecer o cemitério onde seu marido está enterrado e entendemos o quanto ela se sente solitária e vive um forte luto pelo finado. Na lápide, é possível ler a inscrição “Victor LeFanu”; o sobrenome também é uma referência ao autor Sheridan Le Fanu, cujo romance Carmilla, a Vampira de Karnstein supostamente teria influenciado Stoker a escrever Drácula. Diane explica então as motivações que não a permitem deixar o deserto: os indígenas locais fizeram uma cerimônia fúnebre especial para seu marido, de forma que ela deveria permanecer ali, caso contrário o corpo do finado viraria pó.

A arte imita a vida. Assim como a rainha Vitória mantinha seu falecido marido, o príncipe Albert, vivo em memória (e crença) e reverenciou seu luto por longos anos, Diane o fazia com Victor, numa relação obsessiva com o cadáver, da mesma forma que apresentou com a pedra de sangue. Percebemos uma comparação com uma antiga crença de que a preservação de um corpo, com todos os cuidados e devoção, era capaz de trazê-lo à vida novamente, como a vampira afirma:

“Os mortos podem viver se você quiser.”

Enquanto outros segredos e mortes ocorrem após essa revelação, que é um ponto-chave, vemos Diane cada vez mais perturbada em seus pensamentos e entendemos que ela não se importa de perder tudo, ela precisa ter o sangue. Sua sede, especialmente num lugar deserto, jamais será saciada. A protagonista não percebe que sua sede real é muito mais humana do que sanguinolenta, está no vazio que ela sente de viver após ter morrido duas vezes (uma no sentido figurado, quando seu marido faleceu).


Desesperada, a vampira cria sua última armadilha, e nesse ponto já sabemos que Lee cairá facilmente, pois é uma personagem que se deixa levar por qualquer emoção que ele pense dar sentido à sua vida medíocre. Assim, Diane o seduz e permite que Susan veja e se abale; ela sente que precisa dessa vitória, pois para ela nada mais faz sentido. Apesar disso, afinal, vemos que Susan consegue se desprender da teia de horrores que se tornou sua vida; ela se fortalece, enquanto Diane apenas a segue, assustada por não ter conseguido sua presa. Susan enfrenta Diane junto a estranhos de uma cidade portando cruzes que fazem a vampira queimar. Nesse momento percebemos que sentimos muito por Diane, vemos que existem muitas mulheres como ela que muitas vezes não sabem prosseguir sozinhas e vestem uma máscara de "empoderamento" que não condiz com seus sentimentos.

Após a morte de Diane, descobrimos quem provavelmente a transformou e é justamente a quem Susan recorre num momento de medo: o proprietário da galeria em que ocorre a cena inicial, Carl Stoker (Gene Shane). Ele aparenta ser um vampiro ainda mais perigoso que Diane, e nesse momento o filme acaba, com as nossas esperanças dilaceradas, acreditando que a final girl afinal pereceu pelas mãos de mais um homem que ela julgava de confiança.

Este texto estaria incompleto se eu não indicasse The Love Witch, um filme também dirigido por uma mulher, Anna Biller, que parece ter muitas referências vinculadas a The Velvet Vampire. A personagem Elaine, interpretada por Samantha Robinson, também vivencia uma história trágica que culmina em uma sequência de abusos e infelicidades ao seu entorno em cenários que parecem quase fora da realidade, fazendo perceber o encontro do horrendo psicológico com o misticismo local. A quem assistiu algum dos filmes, indico imensamente o outro. A quem não viu nenhum e não está acostumado com o tipo de narrativa, espero que essa análise comemorativa de 50 anos seja de alguma ajuda. 






Malu
Artista e futura arte-educadora, estudiosa da Medusa na história da arte, encantada pela arte oriental e da Antiguidade. Dançarina de Tribal e ATS por amor. Atraída por misticismos, mistérios e músicas dos anos 70/80 como se vivesse no filme Suspiria (1977).

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