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Floradas na Serra e a representação social da tuberculose no Brasil


Em 1954, ano em que Floradas na Serra ganhou uma adaptação cinematográfica, o colunista cinematográfico da revista Manchete, Salvyano Cavalcanti de Paiva, declarou que o tema do filme era “ultrapassado e rococó”. Na opinião dele, a tuberculose era um tema superado em 1954. Naquela época, a tuberculose deixara de ser a responsável por 69,4% das mortes por doenças infecciosas. Porém, como se havia chegado até ali? É preciso falar sobre o passado para se compreender o presente.

Publicado em 1939, Floradas na Serra é o primeiro romance de Dinah Silveira de Queiroz. Assim como a tuberculose foi uma doença mortal no começo do século XX cuja história foi deixada de lado, a escritora também foi esquecida pela literatura. Dramaturga, contista, cronista, Dinah passeou por diversos gêneros literários. Ao contrário da tendência regionalista dos anos 1930, ela escreveu Floradas na Serra focando em uma abordagem mais psicológica, o que fez com que o romance fosse um sucesso de público. Em duas semanas, ele desapareceu das prateleiras das livrarias tamanho o sucesso.

Com uma adaptação para o cinema e duas para a televisão, uma em 1981 e a outra em 1991, Floradas na Serra é o retrato pungente das famosas pensões (ou sanatórios) em que homens e mulheres acometidos pela tuberculose eram internados em Campos do Jordão, São Paulo. Conhecemos a história da pensão de Dona Sofia, em Abernéssia, que abrigará as personagens principais da obra, Elza e Lucília. Apesar de curto, o livro nos abraça com a solidão vivenciada pelas personagens, a exclusão do convívio social por conta da doença e a perspectiva da morte.

As inspirações de Floradas na Serra


Dinah Silveira de Queiroz veio de uma família das Letras e teve um marido que a estimulou muito a escrever. Seu primeiro conto, Pecado, posteriormente publicado no livro A Sereia Verde, foi parar no Correio Paulistano porque seu pai achou o material interessante e decidiu apresentá-lo ao jornal. Portanto, desde sempre podemos perceber o quanto o estímulo, e até mesmo as condições financeiras de sua família, proporcionaram condições para que ela pudesse desenvolver o talento para a escrita.

Além de tratar sobre a tuberculose, Floradas na Serra também contou com lembranças de infância de Dinah. Aos três anos, ela ficou órfã de mãe. Ficou gravado na memória da pequena Dinah quando ela teve que se despedir da mãe de longe, e esta pede que retirem o laço do cabelo da menina para que a mãe possa beijá-lo. Essa é uma cena presente no livro e que aconteceu na vida real, quando Dona Dinorá despediu-se das filhas Dinah e Helena.

Em outra ocasião, uma tia de Dinah pegou a autora chorando enquanto escrevia uma das cenas mais fortes da obra - quando uma das personagens, Belinha, uma tuberculosa, vomita sangue no vestido branco e imaculado. É como se a todo momento Dinah estivesse, de certa forma, expurgando o fantasma da mãe durante a escrita. Isso é reforçado pelo depoimento de Helena Silveira, irmã de Dinah e também escritora:

“Creio que esse fantasma da mãe morta logo que eu nasci foi resolvido por mim na infância, escrevendo-a em minha cabeça. Em Dinah, ela dormiu longos anos, e minha irmã a construiu em pedaços de criaturas de ficção quando fez seu primeiro romance: Floradas na Serra, todo habitado de tísica, hemoptises com o pólen das flores de Campos do Jordão, coincidindo com pulmões sangrando.”

Quando o crítico de Manchete chama Floradas na Serra de “rococó” por conta de sua temática, é como se ele estivesse apagando o ponto central da obra: a epidemia de tuberculose no fim do século XIX e começo do XX no Brasil. Se hoje Campos do Jordão é uma cidade turística, muitas vezes comparada à Suíça, essa não era a realidade até o começo da década de 1930.

Em Floradas na Serra, Dinah evoca a memória coletiva de uma época em que as pessoas tinham de ter os próprios talheres e copos nas hospedarias para impedir a contaminação por tuberculose. Ela evoca, inclusive, como Campos do Jordão foi praticamente projetada para abrigar os tísicos, maneira como se chamavam os acometidos pela tuberculose. É interessante perceber que, na época em que esse livro foi lançado, essa ainda era uma memória bastante recente - e ainda assim desprezada.


É importante lembrar de que até a década de 1930, não havia política preventiva para tratar a tuberculose. Em 1908, Emílio Ribas, um médico, volta da Europa após ter estudado a profilaxia da tuberculose e tem a ideia de transformar Campos do Jordão (que ainda não tinha esse nome), um vilarejo paulista à época, em uma vila sanitária para tísicos. Então, em 1926, a vila sanitária foi reconhecida como Prefeitura Sanitária de Campos do Jordão.

Naqueles tempos, a tuberculose era a responsável por 70% das mortes por doenças infecciosas. Era uma doença muito comum e que chegou a acometer pessoas famosas, como Nelson Rodrigues e Manuel Bandeira (como não se lembrar de seu famoso poema, Pneumotórax?). Entre 1926 a 1941, as pensões de Campos do Jordão chegaram a receber 3.563 hóspedes com tuberculose. Apesar de historiadores afirmarem que não eram apenas os ricos que tiveram a acesso a Campos do Jordão, a ideia que temos da tuberculose é de que se tratava de uma doença de ricos, uma vez que eram eles que recebiam o tratamento da “climoterapia”, ou seja, refugiar-se em lugares montanhosos para frear o avanço da doença. No entanto, em Floradas na Serra, temos a história de um grupo de jovens com boas condições financeiras. Não era qualquer pessoa que conseguia internar-se nos sanatórios.

A representação social da tuberculose em Floradas na Serra

Uma doença não é apenas um acometimento físico ou mental. Para as teóricas Claudine Herzlich e Janine Pierret no livro Malades d'hier, malades d'aujourdí hui: de la mort collective au devoir de guérison, existe a representação social de uma doença:

“O indivíduo doente, em toda parte e em cada época, é doente aos olhos da sociedade, em função dela e segundo as modalidades por ela fixadas.”


Dessa forma, uma pessoa doente e o meio social interagem constantemente, de acordo com os valores de cada época, percepções que se tem sobre uma doença em um espaço determinado de tempo. Por isso, as percepções do fenômeno patológico podem mudar. Por exemplo, hoje vemos a tuberculose como uma doença praticamente erradicada. A geração que nasceu nos anos 1990 deve se lembrar de ter ido ao posto de saúde para tomar a BCG, ou seja, a vacina contra a tuberculose, conhecida por deixar uma cicatriz muito evidente no braço.

Porém, durante muitos anos, a tuberculose teve uma visão bastante romantizada, até porque ela era conhecida como a “doença dos poetas”. Associada à boêmia e ao aspecto magro, pálido e sem vida, ela representou uma geração. Alexandre Dumas Filho foi acometido pela doença, e inclusive escreveu A Dama das Camélias sob essa inspiração, romance no qual a prostituta Marguerite é vítima da doença. Nessa obra, temos o glamour misturado ao que era definhar de tuberculose. Nas telenovelas, a tuberculose também se apresenta de uma forma parecida. Em Esperança, novela de época de Benedito Ruy Barbosa, que estreou em 2002, temos Camille (Ana Paula Arósio), personagem tísica, e que foi marcada pelas cenas em que escarrava sangue em uma bacia. Essas são algumas das imagens mais conhecidas da tuberculose naquele século XIX e no XX.

Mas como isso aparece em Floradas na Serra? Aqui, acredito que podemos ver uma certa mudança, porque a tuberculose é mostrada de uma forma mais brutal. Como dissemos acima, trata-se de um romance curto, mas cujas passagens evocam o quão condenado você estava ao ser diagnosticado com essa doença:

“Elza olhava nervosamente, cheia de uma curiosidade dolorida. Iguais, vidas iguais à dela.. vidas condenadas. Começou, com voz fraca, a pedir informações. Disseram-lhe em São Paulo que a vida nos sanatórios era muito triste, de uma disciplina terrível… Ficara receosa. Ia para uma pensão de moças, a pensão de dona Sofia, em Abernéssia.”

A construção do livro é bem interessante. Apesar de ter aproximadamente cinco personagens, a história acaba centrando-se em Lucília e Elza. Ambas representam pólos opostos e posturas diferentes diante da tuberculose: Lucília passa boa parte da história negando sua condição; Elza sofre e sente o peso daquele diagnóstico sobre seus ombros.

Vila Abernéssia, em Campos do Jordão, lugar em que Floradas na Serra é ambientado

Elza incorpora a visão de que é o próprio mal por carregar o agente infeccioso que pode vir a contaminar pessoas saudáveis. Ao longo do romance, ela se apaixona por Flávio, um moço tísico, e aí passamos a conhecer um pouco da vida das repúblicas masculinas para a tuberculose. Apesar disso, Elza assume uma postura mais positiva diante da tuberculose, que é sempre despedaçada por suas amigas, como nesta cena:

"- Não sabe? Você parece que gosta de se fazer de boba. Não vê que somos doentes? Que as pessoas têm a horror a nós?

- Ah, você está exagerando… Nem toquei no quadro.

(...)

- Letícia já me falou sobre isso. Avisou-me. Há uma moça de Capivari que fica transtornada quando ouve tossir…"

Aqui, podemos ter uma ideia do imaginário social da tuberculose. Todo tísico devia ser afastado do convívio social, excluído, como algo indesejado. Em todas as epidemias e pandemias pelas quais este mundo já passou, percebemos um comportamento parecido. Inclusive, é interessante porque, em Floradas na Serra, temos a impressão de que estamos em um hotel de luxo pelas descrições de Dinah. Por que o sanatório tem uma fachada de hotel? Para esconder aquela condição “horrenda” que era ter tuberculose.

Elza tem tanta vergonha de estar doente que esconde a tuberculose até do namorado, Osvaldo. Além disso, a família da jovem não sabe, exceto sua mãe. A mãe é cúmplice no trato; mentira à família dizendo que Elza ia viajar e estudar. Trata-se de mais um ponto colocado por Dinah no livro para mostrar o forte estigma social que a tuberculose carregava.

Por outro lado, temos Lucília. Interpretada por Cacilda Becker na adaptação cinematográfica, ela representa o lado transgressor, digamos assim. Como dissemos, ela não aceita ter a doença, embora carregue uma melancolia muito grande dentro de si. Lucília arrisca-se em atividades difíceis, recusa o tratamento de Dr. Celso e, aos poucos, vai definhando. Em um determinado trecho do livro, ela comenta que não há ninguém esperando por sua cura.

Cacilda Becker como Lucília na adaptação cinematográfica de Floradas na Serra

Se antes Lucília nos parece frívola, ao longo da história vai ganhando nossa empatia. Chegamos a torcer mais por ela do que por Elza e as outras moças. A mãe de Lucília também morrera de tuberculose. Com a morte do pai em um acidente trágico, Lucília é criada pela irmã mais velha, Judith. Entre elas acontece uma briga por conta de Lauro, affair de Lucília e que acaba se interessando e se casando com a outra irmã. Aqui, é importante observar que Dinah parece punir sua personagem com a tuberculose, já que Lucília ficava atormentando o cunhado para que ele se confessasse arrependido de ter se casado com Judith. A partir do momento do diagnóstico, Lucília vai para o sanatório e lá fica. É praticamente uma moradora permanente da pensão de Dona Sofia.

A solidão de Lucília atenua-se quando ela conhece Bruno, um escritor. No entanto, é fogo de palha. O amor dura pouco e termina com ele indo embora, sem motivo aparente. É como se Lucília estivesse condenada à infelicidade para sempre. Ela é uma personagem intrigante e que nos revela sua fragilidade nos momentos mais inesperados. No entanto, não consigo deixar de pensar na impressão de que, talvez, Dinah tenha punido a personagem com a tuberculose por ela ser tão abertamente questionadora, diferente de outras moças de sua idade.

Floradas na Serra foi o começo de Dinah Silveira de Queiroz na carreira literária - e que começo, aliás. A partir daí, ela escreveria tantas outras obras que se tornariam clássicos da literatura brasileira, como A Muralha. Por isso mesmo, é um absurdo que não seja estudada como deveria nos cursos de Letras. A literatura de Dinah é um retrato muito interessante do que era ser uma mulher branca, escritora e de classe média naquele Brasil dos anos 1940.

A autora sempre teve muito carinho por sua primeira obra, evidenciado por esta declaração para a revista Manchete, em 1954:

“Defendi meu primeiro romance quando poderia abandoná-lo. Muitos autores renegam seus livros de estreia. Tenho, em relação a Floradas na Serra, porém, uma atitude de respeito. Não será a minha obra favorita, pelo contrário. Mas sabe o que representa para mim? Cem mil leitores, e dentre eles milhares de amigos. Sou humildemente grata a essa renovada simpatia.”

Por tanta versatilidade e qualidade de sua escrita, ela certamente faz jus à ocupação da cadeira 7 da Associação Brasileira de Letras (ABL). Floradas na Serra é um romance de um tempo que, ao contrário do que o crítico de Manchete afirmou, jamais será rococó. A literatura dá vida eterna ao que ficou enterrado no passado. Em tempos de pandemia do coronavírus, olhar para esses momentos de epidemia do passado faz ainda mais sentido. 

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Referências


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Arte em destaque: Mia Sodré 
Jessica
Tradutora e apaixonada por pesquisar sobre temas obscuros, sejam telenovelas ou peças de teatro perdidas por aí. Gosta de passar o tempo revirando o Arquivo Nacional em busca de novas descobertas ou lendo sobre a Old Hollywood. Parece séria, mas adora ouvir Gretchen sozinha na sala.

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