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As paixões e os desejos volúveis de Julien Sorel em O Vermelho e o Negro


O Vermelho e o Negro veio para mim em alguma referência, lida ou ouvida, mas já há tantos anos que esqueci qual era exatamente. Foi uma boa surpresa quando encontrei um volume antigo em uma prateleira de um sebo. Li lentamente, conhecendo as minúcias das personagens, mantendo-as na mente por horas e dias após a leitura de cada capítulo. Acho que foi assim que me familiarizei com o protagonista, Julien Sorel, pois passamos muito tempo juntos. Eu não tinha grandes expectativas para ele, e estava certa nisso: muito ele promete, mas pouco cumpre. Ao mesmo tempo, é possível que tenha sido isso que fez com que eu achasse interessante um personagem de inclinações egoístas e sonhadoras que acha que o mundo lhe deve algo e justiça.

Stendhal lançou a obra em 1830, que acabou por se tornar um dos romances psicológicos e históricos mais conhecidos do século XIX. Abordando a época da Restauração na França (pouco antes da Revolução de 1830), há muito a ser conhecido daquele tempo através da narrativa sobre Julien. Os costumes, as modas, a alimentação e os hábitos, as opiniões políticas tanto ignorantes quanto tenazes, o meio rural e o meio urbano do país. É um livro que dá uma boa noção de como as pessoas viviam em diferentes lugares franceses naquele tempo, como se comportavam mulheres e homens, crianças e adultos. Nesse último caso, não diferiam muito. Especialmente Julien. A única diferença é que adultos têm mais poder e exercem escolhas mais complicadas e que afetam mais pessoas, geralmente envolvendo dinheiro.


É nessa questão que se inicia a jornada de Julien. Ele é um rapaz pobre, filho de um carpinteiro em Verrières, um cidade pequena do interior da França. Seus poucos passatempos se resumem em ler textos religiosos, idolatrar Napoleão Bonaparte e pensar ambiciosamente sobre o futuro em que será portador de uma fortuna boa o suficiente para elevá-lo na sociedade. Para isso, pensa em entrar para o clero ou o exército. As opiniões de Julien são bem duvidosas, pois ele claramente odeia a própria situação e direciona sua vontade de enriquecer como uma vingança tanto contra os ricos quanto contra os pobres. Ele apoia Napoleão ao mesmo tempo em que esconde esse fato por ter medo de ser condenado. Ele tem uma pose de inteligente e sabe o que dizer em muitas situações, o que faz com que as pessoas se encantem por alguém tão jovem e esperto. Porém, tudo o que realmente sabe são frases prontas, pouco conhecimento literário e a Bíblia em latim decorada, que cita sempre que possível para dar indícios de sua inteligência. Isso faz com que consiga um trabalho como preceptor dos filhos do prefeito e, assim, ele o aceita como uma possibilidade de ganhar dinheiro e começar a trilhar seu caminho para a fortuna e direções religiosas.

O que Julien não contava, no entanto, era se apaixonar pela esposa do seu patrão, e que fosse correspondido. A Sra. De Rênal era uma mulher conhecida por sua generosidade e inocência, alvo da raiva de Julien por ser uma burguesa que supostamente o despreza por ser pobre. Na realidade, isso é o pensamento que ele criou, quando na verdade ela o admirava por ser tão jovem e belo. Devido ao trabalho com seus filhos, Julien acaba se aproximando dela e, ao ser ignorado por ela por causa do decoro social da época, se apaixona em meio à raiva e à vontade de ter sua aprovação. Querendo dar o troco, ele passa a tratá-la mal e a ignorá-la tal como pensa que ela o faz. 

Como se tendo um apreço por rejeição, a Sra. De Rênal se entristece e se apaixona pelo jovem. Em algum momento, suas mãos se tocam e Julien cede. Ambos admitem a paixão pelo outro e aos poucos passam para noites escondidas no quarto dela. A ambição de Julien por um cargo importante na vida é enevoada pela paixão ardente e furiosa que sente por sua dama. Ele clama amá-la e a enche de juras amorosas, implorando e desesperando-se de emoção e choro toda vez que ela ameaça deixá-lo e vice-versa. Quando rumores começam a tomar a pequena cidade, ele não tem escolha a não ser fugir. Acaba tendo que ir para um seminário estudar com outros moços que querem ser padres. Pela sua habilidade de memória e fala, torna-se um dos melhores alunos e recebe admiração suficiente para lhe ser oferecida uma proposta de emprego, dessa vez na grande Paris, trabalhando em um cargo de confiança para um marquês. Julien sai do seminário, pois a possibilidade de receber uma boa quantia de dinheiro lhe é sedutora. Talvez assim possa encontrar sua amada com maior facilidade. Então ele vai. 

Não é surpresa para a leitora quando ele conhece a filha do marquês de La Mole e, mais uma vez, repete o comportamento de apaixonar-se pela jovem rica e associada ao seu patrão. Mathilde de La Mole é uma jovem imperiosa, sabe que é bela, rica e dona de opiniões afiadas e fortes. O jogo amoroso de Julien recomeça: paixão, remorso, amor, raiva. Para machucá-la e chamar sua atenção, ele passa longos períodos fingindo não notar sua existência. E Mathilde, acostumada a ser o centro das atenções, morde a isca e faz de tudo para obter um lugar em seu coração. E então, quando Julien resolve admitir amá-la, ela o rejeita. Assim eles se mantêm, ao mesmo tempo em que a Sra. De Rênal, distante em sua casa no interior da França, ama Julien com o ardor e a certeza de ser amada de volta. 


Claramente, ele torna-se obcecado pelo auge de boas sensações que estar apaixonado desperta. A verdade é que Julien é vaidoso e não pensa nas consequências de suas ações, apenas nas maneiras de realizá-las e em alcançar as ambições que cria em sua cabeça e que mudam a cada hora. Ele se deixa levar pelos ambientes, pelas pessoas, ainda achando que segue o percurso que traçou para si. Mas, mais uma vez, é muito imaturo e deixa que os prazeres levianos o conduzam, bem como toda forma de paixão ardente que parece acometê-lo ao ser rejeitado por uma mulher. É assim que ocorrem seus relacionamentos com as personagens femininas.

Para compreender o comportamento dessas personagens precisamos entender como funciona a questão do amor e do romance, principalmente na sociedade ocidental. Para a escritora burkinabe Sobonfu Some, que aborda o amor no contexto de sua aldeia na África e fora dos padrões ocidentais, aqui as pessoas iniciam seus relacionamentos no topo da montanha, então, obviamente, o próximo passo é a descida. Não existe uma construção harmônica da base para o topo, o conhecer e o construir de uma relação de colaboração, respeito e equilíbrio. Sendo assim, quando a paixão intensa esmaece, a pessoa perde o interesse. Julien demonstra isso ao desejar e em seguida rejeitar ambas as mulheres. É como se possuir o amor delas o entediasse e o não tê-las fosse aquilo que o motivasse a buscá-las. A ambição de possuir o direciona, e quando consegue o que quer, afasta-se o suficiente para que aquilo pareça inalcançável, portanto, desejável outra vez.

Na realidade, o que ele quer é o calor da emoção, o preenchimento que a busca pelo prazer em um contato físico e emocional lhe garantirá por certo tempo. Quando esvaziar-se, ele correrá desesperado a buscar na mesma fonte novamente. Essa lógica diz que não se pode desejar que já se tem. 

Podemos até não culpar Julien por suas atitudes quando reconhecemos que o ideal de amor romântico no Ocidente é esse. Esquecer de si mesmo e fazer de tudo pelo outro e para viver aquela paixão avassaladora é o que sempre pregaram as grandes histórias de amor. E O Vermelho e o Negro, apesar de não ser considerada uma história de amor, traz muito disso em sua trama: o amor como a única forma de felicidade plena, independentemente de conjuntura social e econômica, a paixão e a atração como sinônimos desse amor e o sacrifício. No entanto, podemos reconhecer a irresponsabilidade de Julien para consigo mesmo, seus sonhos e com as duas mulheres que clamava amar. Se alguém correspondeu ao ideal do amor romântico ocidental, com certeza foram elas, que deram seu suor e sangue para viver aquilo que em suas mentes acreditavam que um homem como Julien proporcionaria: segurança, afeto, sabedoria. 

Gerard Philipe e Danielle Darrieux como Julien Sorel e Sra. De Rênal na adaptação cinematográfica de O Vermelho e o Negro

Ao final, ele sacrifica tudo o que tem em nome de suas paixões e de seus desejos (talvez seja aqui que corresponda ao ideal romântico). Foi no primeiro sinal de ser idolatrado e visto como queria ser visto, jovem, sábio e capaz, que ele deixou de buscar tornar-se aquilo que queria e passou a focar naquilo que parecia. Tamanha imaturidade ao querer tudo de uma só vez o levou a ter nada. A falta de foco e, principalmente, de ética, realçaram sua mesquinhez e seu narcisismo, levando-o à perdição completa. 

Seus desejos e suas paixões mostram toda a volatilidade de sua personalidade. Esta baseava-se apenas no desejar e nunca no realizar. O privilégio de ser um homem que lia e falava bem em uma época em que mulheres não ocupavam posições estudadas e numa região em que poucas pessoas liam o levou adiante com força. Mas ele, esquecendo-se de que nada é garantido e de que seus sonhos não lhe seriam sempre oferecidos nas mãos, preferiu focar no que lhe dava prazer, emoção e até mesmo sofrimento. O maior desejo que Julien clamava ter era o de ser um homem rico e respeitado da alta sociedade francesa quando, na verdade, claramente seu maior desejo não era nada mais, nem nada menos, do que ser amado. 



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Arte em destaque: Mia Sodré
Camila Ferrari
Pesquisadora e apreciadora de tons sóbrios. Com um pé na realidade e outro em algum mundo fantástico, é através da leitura e da escrita que define as bordas de si mesma. Sente o aroma de café de longe e é habilidosa em deixar livros espalhados pela casa.

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