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Jezebel: a tentativa de Bette Davis de ser Scarlett O’Hara


Bette Davis
é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores atrizes de todos os tempos. A estadunidense tem no currículo duas estatuetas do Oscar somadas com mais dez indicações para comprovar tal declaração. Entretanto, quando seu nome é mencionado, três assuntos surgem automaticamente: o fato de ela ter sido considerada uma atriz difícil de lidar, pelo seu comportamento impetuoso, forte, franco e perfeccionista; a inimizade escancarada que ela e Joan Crawford tinham uma com a outra — e que rendeu a famosa frase dita por ela após a morte de Crawford: “Você nunca deve dizer coisas ruins sobre os mortos, apenas coisas boas. Joan Crawford está morta... Ótimo!” —, ou, por fim, o mito hollywoodiano que cerca Bette Davis e Scarlett O’Hara.

Há quem diga que antes mesmo de E O Vento Levou iniciar sua produção, os nomes cotados para serem Scarlett e Rhett eram os de Bette Davis e Errol Flynn. Porém, aparentemente, a atriz recusou o papel por detestar Flynn e/ou por achar que ele não seria a melhor escolha para dar vida ao personagem Rhett Butler. No entanto, de acordo com David O'Selznick, produtor do longa de 1939, o nome de Bette nunca chegou a ser cogitado devido ao fato de ela ter comprado os direitos da peça Jezebel alguns anos antes, deixando-o furioso por enxergar a ação como uma tentativa deliberada da atriz e da Warner Bros de sabotarem seu épico longa passado na guerra civil.

É inevitável não comparar a história de Julie Marsden com a de Scarlett O’Hara, mesmo com o filme de Bette sendo lançado um ano antes da versão cinematográfica da obra de Margaret Mitchell. Afinal, ambos os filmes têm a guerra civil estadunidense como história de fundo, um triângulo amoroso e mulheres consideradas rígidas e frígidas como protagonistas. Sendo assim, então, em que o filme de Bette Davis e o de Vivien Leigh se diferem?

Bette Davis e Henry Fonda em Jezebel

Na obra de Jezebel, que tem esse nome em referência a Jezabel, uma rainha fenícia esposa de Acabe, rei de Israel, e conhecida por sua perversidade, vemos Bette Davis interpretando Julie Marsden, uma jovem aristocrata na sociedade de 1852, em Nova Orleans. Órfã, sua família se resume em sua tia Belle (Fay Bainter), seu tutor, o general Theopholus Bogardus (Henry O'Neill) e seu noivo, Preston Dillard (Henry Fonda). Julie é uma mulher que não se importa em seguir as normas sociais arcaicas da época e muito menos com o que as pessoas dirão sobre não tê-las. A prova disso é mostrada quando a vemos pela primeira vez na tela, atrasada para a própria festa, rejeitando trocar suas vestes por um vestido de gala e indo receber seus convidados vestindo trajes de montaria. Tal ato é desaprovado não só por sua tia, mas também por vários convidados que cochicham suas opiniões. Logo de cara percebemos que diferente da personagem de Vivien Leigh, Julie é mais desbocada, independente, e faz o que bem quiser, sem se importar se são atos afrontosos, como beber um copo de whiskey, já que as bebidas, na época, eram exclusivamente servidas para os cavalheiros.

Podemos dizer que os trinta minutos iniciais de Jezebel servem apenas para apresentar os personagens: quem eles são, como são e o que os motiva. Entendemos a persona de Julie, e notamos que apesar de ser um típico rapaz sulista, Preston tem uma mente mais aberta do que a de outros moradores da região. A trama mesmo começa a acontecer quando o baile Olympus acontece, momento em que como uma forma de provocar o noivo por não ter ido com ela à modista ver seu vestido para o baile, Julie resolve desistir do vestido branco que tinha encomendado e opta por um vermelho. Tanto sua tia como a dona da loja insistem para que ela fique com o vestido encomendado, pensando no escândalo que seria para os convidados, e para o noivo de Julie, uma moça solteira sem trajes brancos em um vestido de gala, mas Julie, como a indomável, persistente e à frente do tempo que é não desiste facilmente e rebate dizendo: “Estamos em 1852. 1852, não na Idade Média. As garotas não têm que andar de branco porque não são casadas.” No mesmo dia, Preston, depois de discutir com Julie, diz que se no dia do baile ela insistisse em usar o vestido, os dois ficariam em casa tricotando.

Julie então resolve dar o troco no noivo e chama seu amigo e ex-namorado Buck Cantrell (George Brent) para que ele a leve ao baile, mas Buck, ao conversar com ela e ver o vestido, se recusa a levá-la, alegando que pensa unicamente na reputação e bem estar dela. Preston chega, e ao ver o vestido de Julie, insiste para ela trocá-lo, porém, Julie consegue persuadi-lo. Quando chegam no baile a atmosfera muda, e Julie, que aparentava não se importar com o julgamento alheio, dá lugar a uma garota assustada ao notar que todos os olhos do salão estão voltados para ela. O incômodo de Julie fica ainda mais evidente quando ela é obrigada a dançar e nota que no meio do salão só restavam os dois, enquanto os outros se afastaram sutilmente deles, tratando-os como leprosos. Ela implora para Preston deixá-la ir embora, mas ele permanece impassível e totalmente apático. Depois do escândalo do baile, Dillard deixa Julie e sua tia em casa, e se despede ainda totalmente desconectado da moça. Tia Belle insiste para que Julie não o deixe ir, mas Julie, orgulhosa, não a dá ouvidos, e o vê partindo com total crença de que ele ainda irá voltar como fez tantas vezes antes. É aí que Bette Davis nos mostra do que é capaz: enquanto a voz de Julie aparenta plena confiança de que seu amado irá voltar, seus olhos transmitem medo de perdê-lo.

Um ano se passa e Julie se encontra reclusa e deprimida desde o término com Preston, saindo apenas para cavalgar sem companhia, se recusando a receber Buck ou qualquer outro cavalheiro, e exigindo, mais que nunca, os cuidados de sua casa. Em uma virada do destino, chega a notícia de que Preston Dillard está voltando para Nova Orleans, com o objetivo de tomar medidas de negócios necessárias devido a um novo surto de febre amarela que vem se espalhando. Crente de que ele voltou por sua causa, Julie resolve fazer as malas e ir para Halcyon, sua plantação de algodão, prometendo dar uma grande festa como as que costumava fazer, tudo para conseguir o perdão de seu amado, podendo assim reavivar o noivado.

O que ela não esperava, no entanto, era a volta de Preston casado com uma yankee. Vestida de branco para recebê-lo, como se pensasse no que seu vestido vermelho causou aos dois, quando finalmente o encontra, Julie se põe de joelhos pedindo perdão, até que Amy (Margaret Lindsay), a esposa de Preston, entra na sala. Julie, apesar de claramente chocada, não perde a compostura e a trata civilizadamente. A epidemia de febre amarela que leva o personagem de volta para a trama mantém Julie e seus convidados confinados em Halcyon, o que gera um conflito repleto de farpas e dramas.

E o Vento Levou (1939)
Se a história de Jezebel se concentrasse mais na história da protagonista e em seu envolvimento tanto com Preston quanto com Buck, talvez o filme fosse páreo para a grande obra-prima que E O Vento Levou se tornou. No entanto, Jezebel se perde entre seus diálogos políticos, com um roteiro que pouco se concentra em desvendar as camadas de Julie, a fim de, talvez, conquistar a empatia do público e fazê-los crer que ela é uma personagem capaz de redenção. Ao invés disso, o lado bondoso de Julie é apresentado de forma apressada, nos minutos finais do filme, quando ela descobre que Preston contraiu febre amarela e acha um modo de fugir dos bloqueios das fronteiras, fazendo com que um escravizado a leve pelos pântanos num bote. Como diante do aumento dos casos os doentes eram enviados a uma ilha, abandonados para evitar o contágio com a sociedade ainda saudável, a atual esposa de Preston implora ao médico que o levará ao local que trate de tudo para que ela vá com ele. Ao ouvir a conversa, Julie tem um lapso de gentileza, e tenta convencer Amy a deixá-la ir com Preston, argumentando que só o amor que ela tinha por Preston não era o bastante.

“Não é uma questão de provar o seu amor ao dar a vida. Nada é tão fácil. Tem conhecimentos e força para lutar pela vida dele e pela sua? Amy, já não é entre nós duas. Eu o farei viver. Eu sou capaz. Faça o que fizer, eu posso fazer mais porque sei lutar melhor. (...) É a mulher mais corajosa que eu já vi. Acredito que tem coragem para o salvar ao dar-me o direito de ir no seu lugar. Não tem medo de morrer. Peço-lhe um sacrifício maior em nome de Preston, a vida dele. Peço-lhe, para provar que sou corajosa, forte e altruísta. Ajude-me, Amy. Ajude-me a me tornar pura, como você é. Deixe-me provar que sou digna do amor que lhe tenho.”

Amy apenas lhe pergunta algo que, segundo ela, somente Julie poderia lhe dizer: se Preston ainda a amava. Julie lhe responde dizendo que Dillard ama sua esposa, reconhecendo que fez muito mal a ele, e que tentou roubá-lo de Amy, mas que não havia mais amor por ela em seu coração. Desse modo, Amy agradece pela franqueza e deseja que Deus os acompanhe, lhe dando a benção para que Julie vá com ele. A personagem de Davis segura o pulso da esposa e sem dizer uma palavra, lhe dá um olhar rápido, repleto de gratidão.

Quando terminamos de assistir Jezebel, percebemos que as comparações com o filme de Victor Fleming são praticamente infundadas, mesmo com as semelhanças que cercam os dois filmes, como o fato de ambos passarem uma imagem totalmente ilusória sobre o período da escravatura. Scarlett O’Hara não é Julie Marsden, tal como Vivien Leigh não é Bette Davis. Apesar de ambas as personagens terem diversos aspectos em comum, que vão muito além da atmosfera da trama, suas diferenças são ainda maiores. Talvez a única coisa que as obras têm em comum, além do fato das duas atrizes terem vencido o Oscar por suas performances, seja o caso de que não poderiam haver melhores atrizes para interpretá-las. Quando vi E O Vento Levou pela primeira vez, me lembro de pensar que ninguém poderia ter sido Scarlett tão magnificamente quanto Vivien Leigh, e digo o mesmo sobre a senhorita Julie de Bette Davis. Ambas estavam destinadas a representarem esses respectivos papéis, e que bom que tudo ocorreu como ocorreu, porque hoje, quando vejo ambas as atuações, penso no quanto elas tornam o processo de assistir as produções ainda melhor. Mesmo que o filme de Bette não tenha o mesmo charme e a produção de grande escala que o de Leigh, ele ainda assim vale a pena, só pela chance de ver a esplêndida Bette Davis em ação.



Arte em destaque: Sofia Lungui

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