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Bruxa Natural: ancestralidade mágica


Fiquei extremamente animada quando vi que a editora DarkSide Books iria lançar uma nova coleção de livros intitulada Magicae, cuja temática é todo o universo que envolve a figura da bruxa. Adquiri dois livros dessa coleção: Grimório das Bruxas, escrito pelo historiador Ronald Hutton, e Bruxa Natural, escrito por Arin Murphy-Hiscock, alta sacerdotisa do clã Black Forest e autora de diversos livros sobre magia natural. Hiscock é mestra em Literatura Inglesa, seu contato com a bruxaria foi através de uma pesquisa que fazia para a construção de uma personagem que seria uma espécie de bruxa moderna. Com suas pesquisas, ela acabou por encontrar seu caminho espiritual e desde então se aprofundou nos estudos sobre a Wicca, história da bruxaria e antigas tradições. Foram quatro anos de estudos e práticas até se tornar alta sacerdotisa em 2003, e em Bruxa Natural, Hiscock compartilha alguns de seus aprendizados sobre o caminho da magia natural, com ensinamentos sobre o trato de ervas, flores, óleos essenciais e outras magias.

O livro foi traduzido por Stephanie Borges e é dividido em duas partes, na primeira somos apresentados ao conceito de bruxaria natural, e na segunda, vemos algumas práticas que nos convidam a colocar a mão na massa. Para a definição do que seria a bruxaria natural, Hiscock nos traz a imagem histórica da bruxa que vivia isolada, usando a energia das plantas e árvores ao seu redor para curar os outros. Hoje em dia a bruxa natural vive no meio da cidade ou nos subúrbios, ela pode estar na universidade ou sendo uma dona de casa. 

“Uma bruxa natural se define por sua relação com o mundo ao seu redor, por sua ética e por sua afinidade com a natureza.”
 
Depois de nos explicar como funciona a magia natural — como nos conectamos com ela e com o ambiente ao nosso redor, através de orações, pequenos rituais e meditações que visam conectar o praticante com as forças da natureza, a fim de tornar-se um ser melhor para si mesmo e para o mundo onde habita — a autora nos mostra como trilhar o caminho natural, através do trabalho com a energia das plantas. Um dos pontos mais interessantes é a lista de plantas e suas propriedades, além do apêndice no final do livro, que mostra as associações mágicas das substâncias de plantas, frutas e ervas. Também podemos encontrar receitas para a produção do nosso próprio incenso caseiro, chás curativos, compostagem orgânica para nosso jardim (alô, mães de planta!), sopas, pão e smoothies. Sem complicações, Hiscock apresenta práticas que podem ser feitas por qualquer pessoa do século XXI e que busque trazer a natureza para mais perto de si.

Os ancestrais mágicos da bruxaria natural


Nas primeiras páginas do livro, a autora logo esclarece a diferença entre bruxaria natural e a Wicca, pois muitas pessoas tendem a confundir uma com a outra. A bruxaria é uma prática que envolve o uso das energias da natureza para ajudar a alcançar algum objetivo; a Wicca é uma religião moderna e formal, com suas especificidades. A Wicca teve como grande divulgador e membro Gerald B. Gardner, um antropólogo e folclorista amador que afirma ter descoberto um coven na Inglaterra na década de 1930, que praticava de maneira contínua os preceitos da “velha religião” desde tempos muito remotos. Posteriormente, ele foi iniciado na religião e fundou seu próprio coven. Além disso, Gardner foi o responsável por escrever livros que são hoje considerados como sendo parte do renascimento do paganismo no mundo, como Witchcraft Today (1954) e The Meaning of Witchcraft (1959), que foram publicados após a revogação das leis anti-bruxaria na Inglaterra em 1951.


As obras de Gardner possuem muitas das práticas que permeiam a feitiçaria modernam como rituais orientados para a fertilidade a fim de reverenciar a Deusa Tríplice com cânticos, danças e meditação, celebrados nos oito sabás e nas luas cheia e nova, o ritual de trazer a Lua para baixo, realizar cerimônias de cura e outras obras de magia positiva. Vários desses elementos da Wicca são apresentados em Bruxa Natural, por isso, não é de se espantar a confusão.

Bruxa Natural, de Hiscock, e os livros de Gardner, lembram-me do Kyranides, obra do estudioso alexandrino Harpocration, encontrada no Egito do século IX. Essa obra apresenta uma exposição das propriedades médicas de ingredientes animais, vegetais, minerais e horários onde a combinação desses ingredientes poderia render efeitos mágicos. Além do Kyranides, existiam os chamados papiros mágicos, escritos pelos antigos egípcios na época do domínio do Império Romano, que apresentavam uma tentativa de empregar formas religiosas para fins mágicos. O historiador Ronald Hutton afirma que

“[...] estes papiros influenciaram diversos filósofos neoplatonistas como Jâmblico que definiu o conceito de teurgia como o poder de manipular símbolos que permitiam o contato direto com deusas e deuses, tais como pedras especiais, ervas, partes de animais e incensos. De acordo com ele, tais substâncias tinham esse poder porque o mundo natural, sendo afinal o produto de uma única divindade suprema responsável por emanar todas as coisas, estava essencialmente conectado.”

Esses autores da Antiguidade acreditavam que a magia e a religião estavam interligadas, e enfatizavam a necessidade de os humanos se reunirem com o divino essencial.

Voces magicae


Arin Murphy-Hiscock diz que, para as finalidades de Bruxa Natural, o termo “bruxaria” se refere à prática de trabalhar com energias da natureza para atingir objetivos, sem um contexto religioso, ou seja, uma bruxa pode ser Wicca ou não. Eu gosto de dizer que a bruxaria é como yoga, você não precisa ser de uma religião específica para praticá-la. Hiscock difere dos autores neoplatonistas e do próprio Gardner, ao dizer que para fazer magia a religião não é necessária.

Mas, afinal, o que é magia? O historiador Carlos Roberto Nogueira, em sua obra Bruxaria e História, propõe uma definição do que é magia, dentre os inúmeros conceitos que existem desde a Antiguidade até os dias de hoje. Para ele, “a magia parece estar ligada a uma concepção dramática da natureza, onde o mago não atua por fenômenos sobrenaturais, mas sim intervém na ordem natural — por conseguinte divina — que existe para um mental específico, transformando o caos existente, e incompreensível para os membros da coletividade que não o mago, em um cosmos inteligível e manipulável pelo conhecimento de segredos e práticas ocultas”. Nogueira também fixa a ideia de Lévi-Strauss de que não é possível desligar a ação mágica do plano divino, portanto, não há religião sem magia, ou magia que não contenha, ao menos, um grão de religião.


Neste caso, pode-se dizer que mesmo que Hiscock diga que para fazer magia natural, o praticante não precisa ter uma religião, ele também não poderá ser uma pessoa cética ou que seja avessa a ritos religiosos, pois em Bruxa Natural encontramos diversos elementos que remetem à uma religião, nesse caso à Wicca, tais como juramentos e orações para divindades, identificados como Senhor e Senhora — sendo uma possível referência à Wicca, o Senhor e Senhora são os correspondentes à Deusa Tríplice e ao Deus-Cornífero — celebrações dos sabbats e criação de santuários. A autora, inclusive, reforça a todo momento que apesar da semelhança com a Wicca, a bruxaria natural é diferente. Creio que essa seja uma forma de atrair um público mais diverso.

O saber popular


Ao fazer uma breve história da bruxaria natural, Hiscock diz que as práticas da bruxa natural moderna surgem das benzedeiras e praticantes da magia popular e que “os trabalhos desses ancestrais espirituais da bruxa natural incluíam a realização de partos e a preparação dos mortos para o funeral, assim como o uso de várias plantas para curar a mente e o corpo”

De fato, na Grécia antiga existiam indivíduos intitulados de pharmakeis (masculino) ou pharmakides (feminino), que parecem ter se especializado, acima de tudo, em poções. Haviam também os rhizotomoi, “cortadores de raízes”, que atuaram na magia e, em termos modernos, também em medicamentos baseados principalmente nas ervas. Segundo o historiador francês Jean-Michel Sallman, autor de As bruxas - Noivas de Satã, antes do nascimento da ciência médica no século XIX, o uso das plantas medicinais representava o único método curativo à disposição dos doentes. Inclusive, entre as bruxas medievais, as plantas mais usadas, como a meimendro preta e a beladona, plantas altamente tóxicas, mais tarde tiveram seus componentes usados na fabricação de medicamentos.

Bruxa Natural é um livro bastante interessante e bem pertinente aos tempos atuais, em que as pessoas estão com as mentes mais abertas para descobrir outras práticas espirituais além do âmbito cristão. Para não assustar, a autora enfatiza que você não precisa estar ligado à uma religião para praticar o que está no livro. Ela também enfatiza sobre a nossa ligação com a natureza, tão esquecida pela maioria de nós, porque a ideia de que somos superiores à natureza é mais agradável e assim vamos explorando, maltratando e aniquilando sem pensar nas consequências e sem buscar a cura para os danos causados. Por conta dessa ligação esquecida com a natureza, o ser humano está cavando a própria cova. 


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Arte em destaque: Mia Sodré 
Milena
1997. Maranhense de nascença e piauiense de coração. Estudante de letras, mãe de planta e filha perdida da Mary Shelley. Também é o tipo de pessoa que não sai de casa sem levar um livro na bolsa.

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