Os Guarda-Chuvas do Amor e a melancolia romântica


O melodrama é um gênero cinematográfico que se entrega à mais pura vivacidade, seja nas cores que saltam na tela, no tom melancólico da feição no rosto do elenco, ou em sua trilha musical ostensiva. Uma coisa é certa: nada passa batido. No romance musical de Jacques Demy não é diferente – embora este apresente diferenças. Os Guarda-Chuvas do Amor (1964) carrega em sua forma o fulgor, a potência romântica e a dita vivacidade de espíritos jovens. Sendo assim, nada diferenciaria este filme aqui abordado de trabalhos posteriores de Demy, como Duas Garotas Românticas (1967). Mas o musical lançado em 1964 é diferente. Os Guarda-Chuvas do Amor é um filme melancólico, que mostra que dentro da “vivacidade” dos espíritos românticos habita também a angústia, o desamparo e a solidão que é própria da realidade.

O musical de Jacques Demy acompanha o romance de um jovem casal na cidade de Cherbourg, na França. Geneviève (Catherine Deneuve), uma moça que trabalha na loja de guarda-chuvas de sua mãe viúva, é apaixonada por Guy (Nino Castelnuovo), um mecânico que também é apaixonado por Geneviève. O romance dos dois ganha contornos dramáticos posteriormente, mas não pretendo estragar a experiência  – por enquanto – de qualquer leitor que não conheça esse clássico e tenha a pretensão de ver.

Logo no começo da obra, uma frase curiosa é dita pelo colega de trabalho de Guy, após o personagem de Castelnuovo dizer que vai ao teatro assistir uma ópera com sua amada: “Aquela cantoria toda me aborrece, prefiro o cinema”, diz o colega enquanto canta a mesma fala. Aqui há uma certa ironia que me levou a outra reflexão: o que nos leva a crer que um filme, ou qualquer outra forma de arte, é uma obra-prima? Não é a qualidade técnica irretocável ou o subtexto genial pensado (ou não) pelo autor, mas sim, quando se tem a impressão de que – nesse caso – o diretor não teve outra escolha. Ou seja, que a obra tinha que ser feita da mesma forma que foi, caso contrário, não teria o mesmo impacto, ou teria um impacto completamente diferente.

Os Guarda-Chuvas do Amor se trata de um musical com um visual estonteante, sim, é lindo de assistir e igualmente divertido em certos momentos. Entretanto, esse estilo tão vivo também carrega a melancolia. Isso não quer dizer que Jacques Demy alterne entre a melancolia e a doçura, as duas coisas estão ali de forma concomitante, e isso é uma das características mais evidentes dessa obra. Existe um contraste entre os sentimentos dos personagens e o visual, porém, ao mesmo tempo, esse visual policromado faz parte do universo melancólico dos personagens. O filme demonstra que nem o universo mais idealizado e ingênuo consegue escapar da realidade dos afetos humanos.

Os personagens são cheios de romance e vivacidade, e é justamente por isso que eles vão se encontrar com a solidão e sua incapacidade de lidar com a mesma. Sim, é permitido amar no universo idealizado pelo diretor francês, todos estão abertos ao amor como um projeto de vida, mas o ideal nunca é um ideal de verdade. Não é que tudo está fadado à tristeza, é que a vida humana é multifacetada, ela tem muitas cores e é cheia de sentimentos de afeição pelo outro. Contudo, ao colocar a paixão como protagonista – e nesse caso ela é –, o ser também coloca-se em risco. Nem mesmo o musical mais vibrante pode escapar da melancolia que a vida per si causa.

Então por que apresentar essa dura realidade em um musical repleto de cores vivas, e não em um romance em preto e branco? Porque a tristeza no filme de Jacques Demy também é doce, ingênua, viva, e não mórbida. Ela é diferente, até os sentimentos mais angustiantes têm um traço de doçura. Por isso o diretor não teve outra escolha, a não ser produzir um musical nessa tonalidade. Sendo assim, não é de estranhar que muitos definem Os Guarda-Chuvas do Amor como “agridoce”, pois ele é acre e doce ao mesmo tempo, concomitantemente. Eu iria além: diria que é mais doce. Mesmo na cena em que Guy revela uma triste notícia para Geneviève, está presente ali uma ternura particular, que pode ser percebida pelo simples gesto das mãos. No fim das contas, o que todos nós buscamos é um guarda-chuva metafórico para se proteger da inescapável melancolia da vida.



Texto: Shade Sami
Arte: Sofia Lungui

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