A Rainha do Ignoto: o clássico da ficção especulativa brasileira

A Rainha do Ignoto é a primeira obra de fantasia e ficção especulativa brasileira, escrita pela autora Emília Freitas. Mantida longe dos holofotes durante muito tempo, seu trabalho foi esquecido por décadas. A publicação original do romance se deu em 1899, quando Emília era ativa na sociedade da época como escritora, professora e intelectual. Foi uma mulher de destaque, que discursava em público e sabia criticar os papéis costumeiramente atribuídos às mulheres. Talvez por isso tenha sido invisibilizada na literatura brasileira e apagada das linhas históricas, algo que recentemente muitas estudiosas passaram a resgatar para obter informações sobre sua vida e trabalho.

O livro 

A obra traz como protagonista a figura do Dr. Edmundo, um jovem que decide passar um tempo na aldeia do vilarejo de Passagem das Pedras, no interior do Ceará, após gastar todo seu dinheiro em viagens e futilidades. É um lugar humilde, com moradores que vivem entre a sobrevivência diária e a narração de lendas locais. A lenda mais contada e mais temida é sobre a Funesta, a fada do Areré, uma mulher misteriosa e amaldiçoada que aparece assombrando uma gruta e os campos próximos. Edmundo ouve falar da dama da floresta que aparece à noite, mas é cético diante das histórias de fadas dos camponeses. Confiando mais em sua posição na alta sociedade como médico e viajante, não leva menos do que um susto ao encontrar tal dama em uma de suas caminhadas noturnas, cantando um lamento francês ao descer o rio em um barco junto de dois companheiros peculiares: um orangotango e um terra-nova. Diante daquela visão de uma jovem mulher triste e possivelmente cheia de feitiços, próxima dos animais e do lado selvagem da região, ele fica fascinado. Afinal, ela é tão diferente de todas as outras que conheceu.

Tomado por sua empolgação, ele decide ficar na aldeia e tentar descobrir quem é aquela mulher. Assim, acompanhamos sua trajetória pela região, conforme ele conhece mais sobre os costumes e comportamentos da época, a cultura do interior do Ceará. Vários temas tipicamente brasileiros são trazidos para a narrativa, desde a festa de São João até tradições de casamento e de velórios, pratos e receitas. Mesmo no cotidiano, tudo é moldado pela atmosfera de magia e superstições, o sobrenatural da floresta beirando cada passo dos moradores: dona Matilde pode estar cozinhando o almoço, mas sempre virá alguém pela porta dos fundos comentando sobre alguma “travessura” ou “bruxaria” feita por alguma “entidade” local. Fica clara a forma que o povo da aldeia vive entre um mundo de terra e outro de magia. Nesse caso, é Funesta a personificação disso. Enquanto muitos a respeitam com temor, alguns se fascinam à beira da obsessão, como Edmundo, e outros ainda se enchem de ódio ao encarar a imagem de uma mulher independente, que vive sozinha em um lugar tão inóspito.

O último caso está presente em Probo, o Caçador de Onça, que se no início se mostrava um aliado de Funesta sob a suposta relação que esta nutria com sua filha Diana, com o passar do tempo passa a enxergá-la como um absurdo vivo. Especialmente quando acompanha Edmundo em sua missão de saber quem ela é. O jovem descobre através do Caçador que a Fada do Areré é uma Rainha, a poderosa governante de uma ilha composta por uma população só de mulheres chamadas de Paladinas do Nevoeiro. Elas percorrem o Brasil e o mundo cumprindo tarefas e missões, muitas vezes resgatando e ajudando mulheres, saldando dívidas e condenando malfeitores. No entanto, toda vez que saem à público, se vestem como homens e jamais impõem sua presença feminina na sociedade externa à própria. A relação entre elas é de irmandade e apoio, a Rainha não aceita competições ou egoísmo. A ilha se encontra escondida através de uma passagem no continente e protegida por um intransponível nevoeiro; lá elas vivem bem e de forma independente, sustentando a si mesmas e criando uma pequena sociedade organizada. Quando Edmundo indaga se são amazonas, Probo nega e afirma que são outro tipo de mulheres. E sua Rainha, diferente de tudo que existe.

Ficção especulativa no interior brasileiro 

É interessante ter essa perspectiva de um contexto brasileiro de uma história de época que se passa em uma cidade muito pequena e atormentada pela ligação com um outro mundo de fantasia, especialmente em meados do século XIX, em que muitas obras dentro da ficção especulativa eram lançadas no exterior, como A Ilha do Tesouro (1883), O Mágico de Oz (1900) e Drácula (1897).

Retrato de Emília Freitas reconstruído pela artista Mari Morgan quando da publicação de A Rainha do Ignoto para a editora Wish

Sob a visão de Edmundo, a mulher é algo sublime, a feiticeira misteriosa. Essa figura feminina mística é muito presente no imaginário da sociedade Ocidental, de que as mulheres são bruxas e não-naturais, ou ainda sobrenaturais. Isso é o que atrai o jovem, uma forma de sair de seu cotidiano racional, acadêmico e muito masculino. Para ele, o feminino apresenta maior diversão e excitação com seus segredos exóticos e sua relação com o selvagem, entre as plantas e os animais, tal como é a visão que tem de Funesta ao vê-la cantando no barco. 

A ideia de que uma mulher vive sozinha em meio à floresta é surpreendente demais para sua perspectiva tão séria de homem civilizado, fora do comum, só podendo significar que ela é uma criatura sombria e mágica. Ele foca tanto em sua hipótese que nem passa por sua cabeça que Funesta na verdade é apenas uma mulher solitária, vivendo o luto de um grande amor enquanto tenta ajudar outras mulheres. Ele não a enxerga sem o véu de idealismo que criou sobre sua figura.

Nada de novo no front: o papel da mulher na sociedade da época

No final, acabamos descobrindo que nem sua independência e a importância de seu trabalho como Rainha é suficiente para que Funesta se sinta confiante e merecedora de felicidade. Ela não era uma feiticeira que queria dominar o mundo dos homens. Era apenas uma mulher tentando sobreviver no meio dele, pois a rejeição masculina lhe pesara muito e ela não via como fugir disso. Se nem o amor lhe era suficiente, como um reino poderia ser? 

Percebe-se que a insegurança da personagem é uma indicação da socialização feminina, que ensina mulheres que só serão completas se tiverem o amor de um homem. Edmundo não pergunta a ela como se sente ou o que ela quer. Ele apenas a tem como objeto de fascínio. Tanto é que, após anos estudando e vivendo escondido na sociedade da Rainha, ele simplesmente perde o interesse: essa mulher não é mais uma feiticeira escondida fazendo coisas sórdidas, é apenas uma jovem comum e triste que vive em um mundo cheio de mulheres comuns.

A oposição entre cultura/natureza dá moldes à história de Emília. Os espaços sociais de homens e de mulheres estão bem delimitados: um nas cidades e centros urbanos “civilizados”, outro, em meio às florestas e lugares escondidos. Tanto é que, conforme o lugar se afasta dos centros das cidades mais dominados pelo homem, como em Passagem das Pedras, a separação entre cidade/campo, cultura/natureza, realidade/magia vai se desbotando e as coisas se misturam no dia a dia dos moradores. Passagem das Pedras serve como um refúgio para ambas perspectivas, em que cultura/natureza convivem juntas e, assim, é onde Edmundo tem o primeiro contato com Funesta, o único lugar em que seus mundos podem se tocar.

A mulher como ser místico 

Na posição de racionalidade que coloca em si mesmo como homem, Edmundo é incoerente quando se deixa guiar pela paixão que projeta em cima de uma mulher que nem conhece. As lendas do vilarejo não ajudam. Também é comum, mas não aceitável, que a imagem de Funesta seja distorcida como uma bruxa, fada ou feiticeira, pois era preferível usar isso como explicação sobre uma mulher morando sozinha sem um homem do que vê-la como um ser humano independente e pleno. Mesmo para ele, é mais fácil enxergá-la como irracional e incompreensível do que como a governante de um país inteiro. Alegam que o misticismo é perigoso porque é irracional, mas deixando ir cegamente atrás de Funesta e depois se entediando tal como uma criança com um brinquedo novo, como podemos considerar Edmundo racional?

A suposta superioridade da cultura e da razão como atribuídas aos homens e da inferioridade da natureza comandada por emoção e mística sobre as mulheres é mais uma forma de deslegitimar seus feitos e forças, como se elas só pudessem ser poderosas se tivessem a ajuda de seres sobrenaturais. 

Primeira edição de A Rainha do Ignoto, publicada em 1899

Há muitos paralelos em nossa realidade e a forma com que Funesta e suas Paladinas do Nevoeiro são vistas e tratadas pelos homens, inclusive a própria autora foi subjugada em uma ilha distante sob um nevoeiro de esquecimento durante metade de um século. Provavelmente por escolher mostrar o rosto e nome de mulher em uma sociedade machista ao invés de se fantasiar com vestimentas masculinas, tal como suas personagens.

Mesmo Probo, o Caçador, se revolta quando vê Funesta como Rainha. Note que ele é um matador da natureza, sua cabana está cheia de pedaços de animais mortos e empalhados. Ele não sabe respeitar sem temer e, quando teme, mata. Ao associar Funesta como fada, bruxa da natureza, ele associa o poder dela ao perigo e ela não se torna mais diferente aos olhos dele do que os animais que caçou por medo, como a onça. A própria personagem possui animais como amigos, algo que a cultura racionalista e masculina não aceita: um homem não poderia se assimilar aos seres inferiores, incluindo as mulheres.

O único misticismo, bruxaria e perigo que Funesta representava era o da criação de uma sociedade justa que tratava as mulheres como seres humanos dignos, com respeito e amizade para com animais e entrega à natureza, sem separações ou repartições com a “civilização”. Sua imagem como perversa e feiticeira não é diferente daquela dada às mulheres independentes e poderosas fora de sua ilha no Ignoto. Se há tragédia no fim da história, também não é surpresa. A presença de Funesta é marcante o suficiente para a vermos com compreensão e admiração, e mesmo a definirmos não como bruxa, mas como a representação de uma figura feminina forte e capaz de mudar o mundo. Enquanto isso, Edmundo, tão prestigiado doutor, ignora as possibilidades do novo mundo apresentado e volta à sua zona de conforto longe da natureza, de Funesta e do Ignoto, em uma sociedade racionalizada, mas que carece de magia e imaginação.

Emília de Freitas tem sido retomada em discussões literárias com as recentes republicações de sua obra sendo lançadas no Brasil, e muitas a consideram um ícone feminista justamente por mostrar mulheres em posições de poder e regentes de uma nação, ainda que sob uma atmosfera de nevoeiro e reclusão. Seu romance é um clássico da literatura brasileira diferente de todos que já conhecemos, mas acredito que uma das maiores reflexões que ele traz é também um questionamento: será essa a única forma que as mulheres encontrarão um dia de possuir lugares legitimados e importantes na sociedade, sem sofrerem repressão? Esperamos que não.




Texto: Camila Ferrari 
Arte em destaque: Mia Sodré 

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