Adélia Sampaio e seu Amor Maldito


Ao amor que não ousa dizer seu nome, Adélia Sampaio e seu Amor Maldito o dizem com todas as letras. Amor Maldito é uma obra audiovisual brasileira resgatada à memória nacional que é fruto de seu tempo, e tem muito a dizer sobre o tratamento da sociedade para com relacionamentos e pessoas não heterossexuais. Além disso, o filme ainda é um marco, sendo o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher negra no Brasil.

Nele conhecemos a história de Fernanda (Monique Lafond), que está sendo julgada pelo assassinato de Sueli (Wilma Dias), sua ex-esposa, que se suicida nos primeiros minutos do filme. Durante a narrativa, que varia entre o julgamento e flashbacks, descobrimos que Sueli e Fernanda acabaram separadas em algum momento, sendo que Sueli se envolveu com um jornalista chamado João Acyoli    um homem de família casado e com filhos, segundo seu próprio depoimento perante o tribunal  , cuja união resultou em uma gravidez. Abandonada por João, Sueli se desespera e acaba com a própria vida.

A diretora, Adélia Sampaio, uma mineira de 77 anos nascida em Belo Horizonte, começou a trabalhar em uma empresa de audiovisual chamada Difilm em 1969, exercendo a função de telefonista e de responsável pela programação de um cineclube. Saindo da Difilm, Adélia passou a integrar a equipe de produção de grandes produções da época, como O Segredo da Rosa (1974). Além disso, ela participou de mais de setenta obras audiovisuais nas mais diversas funções. Dirigiu, em 1979,  seu primeiro curta-metragem, o filme Denúncia Vazia, cuja temática marca bem o tom do que viria a ser sua filmografia. Adélia fez três outros curtas antes de dirigir seu primeiro longa, Amor Maldito, em 1984.

Em entrevistas, a cineasta contou que a produção do longa foi uma grande saga. A princípio, a diretora tinha três financiamentos da Embrafilme para produzir longas, advindos dos sucessos que foram seus curtas. Mesmo assim, devido à temática do filme, a Embrafilme cortou o orçamento até chegar ao veto definitivo, alegando “imoralidade”. Por conta disso, o filme foi rodado em esquema de cooperativa, ou como dizemos hoje “na base do amor”. Bendito amor aliás, que engajou toda uma equipe a trabalhar mesmo que só com a ajuda de custo.


As dificuldades de produção não foram as únicas, devido ao tema considerado “imoral”, sua distribuição foi um empecilho. A solução, dada por um dos donos das salas de cinema, foi vender o filme sob a vestimenta de filme pornô, o que depois de conversas com a equipe, foi acatado. Adélia relembra em uma das suas entrevistas que o filme "[...] foi salvo pelo crítico Leon Cakoff, que fez um texto elogiando a condução do filme e alertando que não era pornô”. Na época, a produção foi bem recebida, fazendo bastante sucesso.

Amor Maldito é uma miríade de temas que vão se grudando. Sueli é filha de pais evangélicos em uma cidade pequena, que sonha em ser miss e famosa na cidade grande e, por conta disso, é expulsa de casa. Fernanda é uma advogada do Rio de Janeiro e, tudo leva a crer que a personagem foi expulsa de casa pelo pai que não a aceitava como era (no filme não fica explicitado um motivo exato, mas pelo que sabemos, a situação era insustentável há muito tempo).

Divergindo radicalmente da cena de abertura do filme, onde vemos uma Sueli feliz, coroada miss e finalmente tendo realizado seu sonho, na segunda cena a vemos desesperada, jogando-se do quinto andar. Assim, é por conta de seu suicídio, que Fernanda, sua ex-esposa, é acusada de assassinato.

Em uma das cenas seguidas à morte de Sueli, nós nos vemos em uma igreja, com um pastor no altar pregando sobre a moça, acusando-a de blasfema por ter se suicidado — o filme não se envereda muito pelo tema, mas, sem me estender muito, se ainda hoje o suicídio é um tema muito tabu e, não raro, seu julgamento pelo viés religioso acontece, na época, a visão pecaminosa sobre o ato predominava ainda mais —, e de ter sido "corrompida" por Fernanda. 

A linha de pensamento que trata Fernanda como a corruptora de Sueli é, aliás, o ponto alto da acusação, que a vê como uma “ameaça à família, a imagem do "homossexualismo" e a corrupção do que há de mais nobre: o amor”. O advogado de acusação é um arquétipo bem conhecido no audiovisual: canastrão e teatral.


O tribunal no qual Fernanda está sendo submetida é muito emblemático: uma mulher acusada de ter corrompido sua ex-esposa e de tê-la assassinado. Essa suposta acusação de corrupção vem em duas frentes: na da Lei dos Homens e nas Leis de Deus. Para a moral daquela igreja do pai de Sueli, um relacionamento entre mulheres certamente é a porta para o inferno. Para a Justiça, o relacionamento delas é imoral, deturpando todas as regras de sociedade bem conhecidas: mulheres casadas com homens provedores para a formação da família nuclear heterossexual.

A ficção é uma extrapolação da realidade, mas não deixa de ser simbólico o quanto o roteiro do filme conversa tanto com a época e, infelizmente, com discursos ainda atuais. Nos anos 70 e 80, em grandes centros de realização audiovisual como São Paulo e Rio de Janeiro, filmes de exploração faziam bastante sucesso entre o público enquanto usavam da temática do lesbianismo a rodo, transformando relações entre duas mulheres em pura e simples objetificação de dois corpos femininos por um olhar masculino. E, não por coincidência, a “solução” de um exibidor para poder colocar Amor Maldito nas salas incorreu justamente dessa exploração. Na sociedade brasileira dos anos 80, não raro encontram-se vídeos julgando relações homoafetivas como “anti-naturais”. Nessa época, os movimentos feministas e LGBT (na época chamados de movimentos gays ou GLS) ainda estavam se consolidando na luta.

Uma parte revoltante do longa é o encontro dos advogados de defesa e acusação durante um recesso do julgamento. Mesmo que rivais no tribunal, naquela sala os dois mostram para o espectador o quanto objetificam Sueli ao olharem fotos dela nua, retiradas de um ensaio feito com o jornalista com quem ela estava se relacionando. Essa cena, além de comentar brevemente sobre a objetificação e erotização dos corpos das mulheres, ainda fornece o plot twist para o final do filme: quem passa a ser julgada como pessoa corruptora é Sueli, não mais Fernanda. Não seguir os valores morais impostos para alguém como Sueli (filha de um pastor da cidade pequena) a leva a julgamento, mesmo que ela não esteja viva para se defender.

Ao realizar o filme, Adélia também faz uma pontuação acerca do abandono parental dos homens. Descobrimos que da relação da Sueli com o jornalista veio um noivado de quatro meses, e só então,  uma gravidez. Assim que o jornalista descobre sobre o futuro filho, ele a abandona, oferecendo dinheiro para a realização de um aborto. Sueli recusa, se desespera com o futuro, e comete o suicídio.

Finalmente, depois de muitos depoimentos e horas de tribunal, Fernanda é absolvida pelo júri popular e vai visitar sua amada. Como discurso final Fernanda diz palavras bastante significativas para aquela situação a qual ela foi submetida:

"Eu sou o outro lado da moeda, o “lado falso” como diria o senhor pastor, e minha verdade soa como mentira. Eu quero deixar bem claro que os insultos não aderem à minha pele, não se aprofundam no meu sangue, eu sou uma mulher assumida! Jamais menti para cobrir as minhas fraquezas, talvez tenha chegado a isso por não professar religiões, por não estar preocupada em ir ou não ir para o céu. Eu amava Suely. Eu gostava dela. Sua morte é um pouco da minha própria morte."
Na época de seu lançamento o filme fez um grande sucesso, porém, anos mais tarde, Amor Maldito e as obras de Lélia caíram em certo esquecimento. Em 2013, quando Edileuza Penha escreveu sua tese sobre o cinema feito por mulheres negras, citando o nome de Adélia Sampaio, seu pioneirismo e um pouco de sua filmografia, seus trabalhos começaram a ser resgatados e reconhecidos pelo seu marco e legado.


Por falar em legado, como foi mencionado no parágrafo de abertura do texto, Adélia é considerada a primeira cineasta negra que dirigiu um longa-metragem aqui no país. Pioneirismo importante com certeza, pois abriu muitas portas, porém, questão que merece uma análise menos superficial. Mulheres cineastas sempre existiram, desde que o audiovisual passou a se popularizar como linguagem artística. Porém, é sintomático entendermos que esse cenário audiovisual é de muitas formas elitista, machista e racista. Lélia Gonzales tem uma vasta obra explicitando as relações de desigualdades para com o povo negro no Brasil. O audiovisual, no final das contas, é uma área que explicita esses sintomas. Em toda a cinematografia brasileira, o primeiro projeto de longa metragem feito por uma cineasta negra datar de 1984 é um ponto extremamente importante para percebermos nossos caminhos até aqui e o quanto a situação ainda não é tão diferente. Estudos do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (GEMAA) apontam que entre os anos de 1970-2016, 85% dos diretores de filmes eram homens brancos, seguidos por 2% de mulheres brancas e 13% de homens que não tem dados mais específicos. Tais estatísticas apontam para duas coisas: 1) a falta de especificidade nos dados sobre a não-branquitude e 2) a presença predominante de um cenário masculino. São dados que assustam, visto que metade da população brasileira não é branca. Eles mostram que o caminho ainda é longo e merece ser pautado como se deve, com respeito e ouvindo as vozes das cineastas negras que estão produzindo hoje.

Mas, apesar da consideração acima, reconhecer o pioneirismo de Adélia Sampaio e resgatar sua obra é significativo. Amor Maldito é um retrato do seu tempo, o que não é sempre positivo. Algumas vezes o tom do filme, especialmente no núcleo do pai de Sueli, é bem exagerado, se tornando até um pouco confuso de entender o porquê de alguns elementos em tela. É inclusive nesse problema de tom que a irmã de Sueli também se encontra em um papel quase infantilizado. Revisitar o filme depois de quarenta anos de seu lançamento é uma tarefa cuidadosa e delicada para não cairmos em anacronismos, e dito isto, cabe pontuar que a representação da Sueli (que parece ser bissexual) foi um pouco incômoda para mim como mulher bissexual nesta sociedade atual.

De maneira geral, apesar das críticas que são cabíveis, Amor Maldito trata de pontos bem interessantes, e a personagem de Fernanda é ótima. O filme carrega em si um marco importante e sua redescoberta nos faz pensar sobre alguns porquês: qual é o caminho que ele abriu e como ele está sendo trilhado atualmente.


Referências: 




Texto: Larissa Marinho 
Arte em destaque: Mia Sodré 

Comentários

  1. Sensacional, adorei saber um pouco sobre o filme e fiquei bem curiosa para assistir. Alguma ideia de como encontrá-lo ou se ele está disponível em alguma plataforma digital? Um abraço.

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