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Luke Skywalker: o próprio herói da jornada


Star Wars é uma das maiores franquias do mundo. Não importa se falamos de universo, segmento ou público. Tudo começou há mais de quarenta anos atrás, com um senhor que o leitor deve conhecer por George Lucas. Na época, ninguém poderia saber, mas estavam prestes a transformar o significado da palavra “fã” e a reviver a Jornada do Herói para Hollywood. 

O que é a Jornada do Herói? Trata-se de um conceito de Joseph Campbell que tornou-se um dos maiores livros do século XX. Ele transformou o “herói” em arquétipos e criou arcos narrativos para cada um deles. Óbvio, tal conceito vai perdendo sua força com o passar do tempo, pois Campbell jamais considerou a perspectiva feminina em sua Jornada, e tentou transformar o herói naquele ser quase que perfeito. Pense nesse livro como um guia prático de vários autores para construir seus personagens. 

No entanto, esse mesmo pensamento deve lembrar que a tal Jornada é ocidental. A perspectiva de narração no oriente é bem distinta. A obra alinha-se a Carl Jung ao falar sobre “personagens ou energias que se repetem constantemente e surgem nos sonhos de todas as pessoas e em mitos de todas as culturas”. Novamente, uma visão dividida do significado de todas as culturas. 

Neste texto, vamos analisar como o Luke Skywalker (Mark Hamill) dos três primeiros filmes é a personificação cinematográfica do tal herói. O homem que “todo homem quer ser”; bom, justo, inocente. Aguardando a aventura de uma vida inteira. É inegável a influência que o personagem teve em diversos outros a partir do sucesso promovido pela primeira trilogia. Acontece que na mente do próprio George Lucas, Luke nunca deveria continuar sendo um produto de perfeição. Ele deveria estar em exílio no futuro, só não sabemos qual espécie de exílio. Então, claramente, o diretor Rian Johnson (que, vale lembrar, foi o único que contou com a participação de George no tapete vermelho) recebeu duras críticas por transformar o ídolo de várias gerações em um homem… quebrado. O cinza predominou algo que antes era “totalmente heroico”. Foi um choque para muitos acompanhantes da Saga Skywalker, e um alívio para outros. 

Mark Hamill como Luke Skywalker em O Despertar da Força

Pense na história desse rapaz que nada sabia sobre sua origem, cresceu numa fazenda no meio do deserto e, de repente, tudo mudou. Resgate de princesa, companhia de traficantes, uma missão impossível nas mãos e um Mestre que dava lições falando misteriosamente. Luke passou por um treinamento intenso, mas a Força foi sua aliada. O sangue falou alto. A misericórdia dele também. E no mundo ideal, é isso por que as pessoas anseiam. Pela bondade de Luke Skywalker. Mas o que vem depois? Depois do show, quando a vida se torna pesada demais pelo fardo de lenda, quando o peso do conhecimento de sua linhagem sanguínea o faz questionar diversas coisas? Quando criamos uma narrativa, certa parte da audiência deseja tudo jogado na cara. Mas, mesmo nas prequels, já enxergamos que os Jedi eram muito semelhantes a um culto, mais do que a um grupo de salvadores. Privação do amor, abstinência, ausência de visão política. 

Durante o livro Legado de Sangue (cânon na nova linha de livros de Star Wars), Leia chega a compreender a corrupção do pai. Os Jedi tiraram tudo que ele passou a dar valor, tornando a mente dele suscetível aos Sith. Não vamos, claro, tirar de Anakin (Hayden Christensen) sua parcela de culpa. Mas, ao ver sua esposa grávida, um amor proibido, e os sussurros de um mestre manipulador, ele foi para o Dark Side. Nunca saberemos o motivo ao certo: fraqueza, cansaço, amor? O que pode ser analisado em Star Wars é o recurso da manipulação masculina como algo recorrente. A própria Leia (Carrie Fisher) não escolheu a Força, mas, sim, a política. Ela quis transformar o sistema por dentro e teve um final infeliz. Existem argumentos como “ninguém assiste Star Wars” para ver finais tristes; e alguns até consideram o final do Episódio IX coerente. Mas coerente em quê?

Foi J. J. Abrams quem usou a imagem de John Boyega como um possível Jedi e depois descartou a ideia para usar seu personagem, Finn, como apenas um seguidor de Rey (Daisy Ridley). Também foi Abrams, juntamente de Chris Terrio, aqueles que surgiram com a ideia que fez Oscar Isaac literalmente dizer, com categoria, que jamais voltaria para um filme de Star Wars. A ideia? Transformar Poe em um traficante. O ator tem uma política pessoal específica em não seguir a rota do ator latino que apenas aceita personagens nesse estereótipo. 

J. J. Abrams não seguiu a deixa para Finn liderar uma revolução Stormtrooper, anunciada nas entrelinhas quando ele derruba a Capitã Phasma (Gwendoline Christie). Seu tratamento foi tão revoltante no último filme que o ator também se recusa a retornar ao universo de Star Wars. E também foi Abrams quem deu a imagem do homem e mulher negra como trooper que sofre lavagem cerebral, como mostrado no  último filme. Mesmo com tantos problemas, homens e mulheres brancas decidiram que o maior de todos eles foi transformar Luke em humano. Nós temos atores não-brancos sendo maltratados, uma protagonista cujo poder foi reduzido à linhagem sanguínea patriarcal, e o maior problema, de repente, era que Luke não é mais perfeito. 

Mark Hamill como Luke Skywalker na cena em que pensa em assassinar seu sobrinho, Ben Solo

Entendendo que o universo de Star Wars não é composto apenas pelos filmes, existem detalhes colocados de lado capazes de explicar seu comportamento: os Jedi, para Luke, não eram mais heróis. Eles levaram seu pai ao limite. A vida como lenda pode ser cansativa para qualquer um. É também importante, mas apenas rabiscado por cima no terceiro filme: Ben Solo (Adam Driver) era influenciado desde o ventre de Leia por Palpatine (Ian McDiarmid). Ele ouvia vozes das sombras desde o momento em que nasceu; mas não tinha um guia. Até o instante em que sua mãe decide que Luke, seu tio, deveria treinar o rapaz. 

O mais velho conseguia sentir a influência sendo transportada ao sobrinho e teve algo que muitos odeiam: medo. Luke temeu pela própria vida, pelo destino da Galáxia, seu medo levou o treinador da Academia Jedi a cometer seu maior erro: tentar golpear o sobrinho. Aqui temos um tópico debatível, que talvez fuja de sua personalidade, mas não torna nada menos crível. Homens, quando tomados pelo medo, cometem atitudes impensadas. E Luke não pensou. Ao não pensar, ele fez um erro que custou sua aliança com Ben. Lendo os quadrinhos (novamente, lembramos que houve todo um erro nos filmes em não transmitir todo o enredo), vemos que os Cavaleiros de Ren buscam Ben, e seus amigos Jedi perseguem-no. A explosão do Templo foi feita pelos Cavaleiros e por Snoke, na tentativa de transformar Ben num pária, sem lugar algum para ir. 

Retornando ao lendário Skywalker, ele sente o peso da falha nas costas. Luke chega ao seu momento noturno, onde ele adentra o conceito do pesar. Na Teoria do Imaginário, de Gilbert Durand, o noturno está mais associado ao feminino, assim como o crepuscular. O diurno é o grande herói, quem Luke era, o homem que desafia deuses, que quer, digamos, sobreviver. Matar a morte. Enquanto isso, o noturno vem com a descida, o refúgio, transformação, regeneração. Mesmo na fotografia de Luke nos três primeiros filmes, podemos notar o contraste com a pessoa cinza que ele se tornou. Isolou-se na ilha por achar que seus poderes, e os poderes dos Jedi, não resolveriam uma Guerra. Leia o trecho a seguir:

“símbolo de um temor fundamental do risco natural, acompanhado de um sentimento de culpabilidade (…) pecado, revolta e julgamento, [remetendo ao] terror dos nossos antepassados diante da aproximação da noite.” (DURAND, 2002, p. 91)

Essa teoria pode ser usada para explicar a transformação pela qual Luke é submetido. Porém, não apenas de diurno e noturno vive o homem. Ao tornar-se crepuscular, que é o conceito cíclico, ele aceita seu papel de volta. Ele aceita que tem de enfrentar sua maior falha: Ben Solo, agora Kylo Ren. E a própria morte de Luke no fim do terceiro ato é o homem aceitando que a missão é um ciclo, do qual ele não mais faz parte. Notem que ele ascende, como o herói que era em seu regime diurno. Nada mais teme. Sabe que a Galáxia está em boas mãos, e encerra sua missão; ao menos por enquanto, já que em Star Wars nada parece seguir uma única linha. Então, o público teve a oportunidade de compreender a mudança no personagem, o abraçando como homem, não apenas lenda. 

Mark Hamill como Luke Skywalker em A Ascensão Skywalker

E, ao fim, ele torna-se uma. Depois de ascender, afundar, buscar refúgio e ter seu retorno, ninguém pode negar que seu duelo com Kylo Ren foi um dos melhores momentos em todos os nove filmes. O Jedi estava do outro lado da Galáxia e uma projeção sua conseguiu salvar o restante dos que lutavam contra a Primeira Ordem. Talvez o elemento de nostalgia esteja conectado com a rejeição ao seu conto no Episódio VIII, mas essa é uma discussão sem fim. Fãs apaixonados estarão sempre apaixonados, surgindo com suas teorias, debatendo acaloradamente. 

Ao final, ele foi um herói. Ele retornou. Combateu seus medos. Saiu da caverna diretamente para a eternidade. 



Texto: Nathalia de Morais 
Arte em destaque: Mia Sodré 

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