Padmé Amidala merecia mais


É certo que a trilogia prequel de Star Wars não ocupa um lugar cativo nos corações dos fãs da saga. E uma das maiores decepções é em relação à abordagem da personagem Padmé Amidala (Natalie Portman) nos três filmes. 

O primeiro vislumbre que tivemos de Padmé no Episódio I — A Ameaça Fantasma foi a promessa de mais um pouco de representação feminina nos filmes da saga; ela possivelmente viria como um Leia (Carrie Fisher) 2.0, personagem que ajudou a criar um novo modelo de representação feminina na cultura popular e no cinema, especialmente em filmes de ficção científica e fantasia. 

Assim como Leia, Padmé é uma entre os garotos, a única personagem feminina na trilogia prequel que possui uma contribuição relevante na história, a famosa “Personagem Feminina Forte” que o diretor acreditou que já seria representação feminina suficiente dentro dos filmes, uma verdadeira smurfette das galáxias. No Episódio I, somos levados a acreditar que Padmé cumpriria majestosamente o legado de personagem feminina forte da vez, afinal, ela, além de rainha de Naboo, é senadora e uma figura ativa nas decisões políticas que envolvem a república galáctica. Padmé aparece majestosa em seus trajes e maquiagem exóticas, sua expressão é a de uma adolescente raivosa (ela tinha apenas 14 anos quando assumiu o trono de Naboo) que não aceita que ninguém lhe diga o que fazer, nem mesmo os Jedi. Apesar da pouca idade, Padmé consegue transpassar, através da maquiagem pesada, um ar de sabedoria e confiança. Ela deixa bem claro que vai lutar ao lado de seu povo até que a justiça seja feita. Amidala é uma lutadora comprometida na luta contra as forças poderosas do mal, uma líder forte e um prodígio brilhante tão hábil com política e diplomacia quanto com uma arma. 

Uma das melhores cenas envolvendo o possível potencial de Amidala no Episódio I é quando ela chega em Naboo com Anakin Skywalker (Hayden Christensen) e Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) para tentar salvar seu povo e saca uma arma. Nosso coração se aquece e vemos que Leia teve a quem puxar. Infelizmente, toda a imponência de Padmé começa a se esvair quando ela resolve ajudar no resgate de um menininho que era escravo no planeta Tatooine. Esse menino como sabemos, é Anakin, o protagonista da história, e a partir de sua aparição tudo vai girar em torno dele, inclusive Padmé, que surge no Episódio II — Ataque Dos Clones como o interesse amoroso dele. Ela, uma mulher diplomata de 22 anos, se apaixona por um jovem padawan de 17 que ela ajudou a resgatar quando ele era uma criança com apenas 9 anos de idade. 

Como se isso já não causasse estranheza o suficiente, Padmé vai sendo praticamente apagada da narrativa nos episódios seguintes, como se o diretor não soubesse mais o que fazer com ela ou como se ele realmente não se importasse. Ela era relevante apenas quando o protagonista ainda não estava presente na história; agora, a sua presença na narrativa será útil apenas para que Anakin alcance seus objetivos. A forte, heroica e atraente rainha Amidala do Episódio I é reduzida a uma mulher maltratada, que abandonou todas as suas causas e ambições do espírito para abraçar o desespero e a morte no Episódio III — A Vingança dos Sith

Esse é um fenômeno que acontece com uma certa frequência em filmes que apresentam a Personagem Feminina Forte — tipo de personagem feminino retratado no cinema, geralmente em filmes de ação, que é encarado como uma visão estereotipada que os homens têm do que pode vir a ser uma mulher forte. O estereótipo foi chamado de "Síndrome de Trinity” por Tasha Robinson em seu artigo escrito para o Dissolve, “We’re losing all our Strong Female Characters to Trinity Syndrome”. A inspiração para o nome do termo veio da personagem interpretada por Carrie-Anne Moss em Matrix e diz respeito a enredos em que a PFF desaparece totalmente no modo personagem-troféu-subserviente para que o protagonista masculino da história seja triunfante em sua missão. 

O começo da queda 

Padmé surge em A Ameaça Fantasma vestida em seus trajes majestosos de rainha, fazendo discursos em nome da democracia, mostrando coragem em suas decisões nos debates políticos como senadora para tentar evitar a guerra a todo custo, como heroína que se ajoelha em troca de ajuda para salvar seu povo, e quando a diplomacia falha, ela não hesita em pegar em uma arma para defendê-los. Com todos esses atributos, era de se esperar que ela apresentasse uma contribuição ainda maior para a trama de Ataque dos Clones, mas seu maior papel neste e no episódio seguinte foi o de donzela em perigo e de mulher-troféu. 

Nas cenas iniciais do Episódio II, já podemos ter o vislumbre do que Padmé virá a se tornar: a nave dela é atacada a caminho de uma votação no senado galáctico e, por “sorte”, a sua sósia morre em seu lugar. Ao se encontrar com Palpatine (Ian McDiarmid) e os Jedi, eles sugerem que ela fique sob a guarda constante de um cavaleiro Jedi, pois eles temem por sua vida, e é claro que o poderoso cavaleiro guardião de Padmé vai ser Anakin, recém-chegado do seu treinamento. Além disso, é nesse filme que o recém nomeado Chanceler Palpatine começa a manipular Padmé, se aproveitando dela para ser bem sucedido em seus planos malignos. Aqui ela se encaixa perfeitamente em uma das características da Síndrome de Trinity, cuja autora afirma que “a personagem feminina é tão capaz e forte que nunca precisou de resgate, mas quando a trama começa a ficar séria, ela é repentinamente capturada ou ameaçada pelo vilão e precisa da intervenção do herói. Ferir seu orgulho é uma parte fundamental da história”

Ou seja, a mulher que antes lutava, agora é protegida deixando que os homens fiquem com todas as ações e decisões, como se ela não fosse forte o bastante para a luta; a mulher que era uma rainha com forte opinião política, amada por seu povo e nomeada senadora por se mostrar uma política inteligente e competente, é agora usada como instrumento para que o vilão alcance seus objetivos, como se ela fosse ingênua demais para não perceber a manipulação. Alguns poderão dizer que todos estavam sendo manipulados por Palpatine, mas ao contrário de Padmé, eles estavam presentes na ação, realizando missões para tentar impedir o inimigo. Até o próprio Anakin estava em uma missão, que era proteger a senadora e tentar resistir aos seus encantos, enquanto passeavam pelos campos de Naboo em clima de romance, ignorando o iminente colapso da Galáxia.

Até as roupas de Padmé mudam. Em Ataque dos Clones, seu figurino possui uma paleta de cores mais claras e neutras, em contraste com as roupas exuberantes e pesadas que usou no filme anterior; os vestidos passam a ter um ar mais melindroso e algumas roupas estão coladas ao corpo, deixando a pele bastante evidente. Destaque para o figurino que ilustrou os cartazes do Episódio II, o qual ela usou em seu último lampejo de contribuição para a saga, lutando contra bestas alienígenas e enfrentando um exército de clones. 

O sacrifício da rainha

Em A Vingança dos Sith, Padmé se torna o pivô da ida de Anakin para o Dark Side quando ele tem uma visão na qual ela está morrendo no parto. A partir daí, ele vai justificar todos os seus atos grotescos e psicopáticos com o medo que ele tem de perder sua esposa. Palpatine o seduz com uma proposta para que, se ele aceitar virar seu aprendiz, ensine a Anakin a como dominar a morte para que assim ele salve a sua amada. A impressão deixada é a de que foram muito preguiçosos ao escrever o roteiro do terceiro episódio; em vez de se esforçarem para achar um motivo mais plausível para a vilania de Anakin, resolveram simplesmente jogar toda a culpa em Padmé. 

Sabemos que esse era o destino de Anakin Skywalker, tornar-se o maligno Darth Vader, mas não explicitaram muito bem esse destino e jogaram em sua esposa a culpa pelas centenas de pessoas que ele matou para salvá-la. É tão irônico quando ele tenta matá-la e, no final, já transformado em Darth Vader, a primeira pessoa por quem ele procura é ela. Quando Palpatine o avisa de sua morte, ele solta um grito de desespero. Com isso, podemos concluir que a iminente morte de Padmé fez com ele matasse centenas de pessoas, e a sua morte concreta vai servir como motivação para as outras centenas de mortes e outras coisas malignas que ele virá a cometer como o maior vilão das galáxias. Esse ponto da história de Padmé pode se relacionar com outra característica da Síndrome de Trinity em que Robinson afirma que “a Personagem Feminina Forte desaparece completamente da segunda metade do filme, ou do terceiro ato, e seus únicos atos significativos para a trama são ser feita de refém ou morrer, para forçar o personagem masculino a reagir. Em última análise, ela só existe para atender às necessidades do protagonista, suas motivações ou seu desenvolvimento”

No momento de seu parto, que também acaba sendo seu leito de morte, Padmé consegue sobreviver até o momento em que nomeia seus filhos, Leia e Luke, e ainda encontra forças para dizer a Obi-Wan (Ewan McGregor) que, apesar de tudo, ela ainda acredita na bondade de Anakin. Como se a violência cometida por Anakin contra Padmé — um claro exemplo de violência doméstica — não fosse suficiente, ainda nos fizeram assistir ao reducionismo dela quando a matam por causa de sua biologia feminina, além de fazer com que ela mostre amor ao homem que a matou nos seus últimos minutos de vida. 

Sim, Anakin a matou, ao contrário do que o robô disse sobre ela, afirmando que ela estava saudável mas que, por algum motivo, ela tinha perdido a vontade de viver. Anakin começou a matar Padmé desde o momento em que os dois se envolveram romanticamente, seu processo de domesticação acontece à medida em que sua relação com o Jedi se desenvolve na trama. Quando eles engatam em um romance sem futuro, Padmé perde seu interesse por política, e sua vida começa a girar em torno de ser uma esposa e uma futura mãe. Ela deixa de ser apresentada como uma senadora e uma guerreira e passa a aparecer apenas na casa onde mora com Anakin, como uma boa dona de casa. 

Podemos ver essa domesticação claramente se compararmos as cenas iniciais de Padmé nos três filmes: em A Ameaça Fantasma, ela surge em seus trajes majestosos como Rainha Amidala em uma mensagem onde ela alerta ao Vice-Rei que tome cuidado, pois ela já tem conhecimento de seus boicotes contra Naboo, e o fingido Vice-Rei treme ante a presença majestosa dessa jovem rainha, ele definitivamente não quer irritá-la. Em O Ataque dos Clones, ela surge em uma cena de conflito, sua nave foi atacada e sua sósia morre em seu lugar, pois mais uma vez Padmé se disfarça para conseguir concluir suas missões como senadora. Já em A Vingança dos Sith, vemos uma Padmé escondida no canto, esperando que sua presença seja notada por seu marido, Anakin. Durante o encontro com ele, ela revela que está grávida e o questiona sobre o que eles irão fazer a respeito; vale lembrar que nesse filme ela é oito anos mais velha que ele, seria mais natural que ela já tivesse pensado a respeito e achado uma solução, mas ela prefere esperar pela aprovação dele. 

Sobre essa cena, Diana Dominguez, autora de “Feminism and the Force: Empowerment and Disillusionment in a Galaxy Far, Far Away”, diz que “se Padmé quer uma resposta útil, seria melhor ter perguntado a Jar Jar”. Dominguez, em sua análise da mãe de Leia, insiste na aceitação da morte por Amidala como um ato definitivo, mas não desconhecido, de traição ao feminismo. 

Em Defesa de Padmé 

Ao longo dos três filmes, vemos Padmé perdendo toda a sua liberdade e força enquanto o poder de Anakin aumenta constantemente. No final, ela implora que Anakin mude de ideia e fuja com ela, mesmo tendo conhecimentos das atrocidades que ele cometeu; ela está disposta a renunciar a todos os seus ideais apenas para ficar com ele. Nas cenas deletadas do Episódio III que aparecem em The Art of Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith, o artista Iain McCaig nos revela uma Padmé Amidala que não desiste de seus ideais através de artes conceituais do filme: “No momento em que Padmé percebe que Anakin pode se tornar um monstro, ela deve fazer o que precisa fazer, por amor. Ela deveria matá-lo". Existe outra cena deletada, também foi revelada por McCraig, em que Padmé reúne simpatizantes da República Galáctica para juntos formarem uma união de planetas preocupados com a democracia. Padmé é a sua líder. “[Anakin] vai embora. Momentos depois, chegam os Separatistas e, logo atrás de suas costas, [Padmé] está começando a rebelião para derrubá-lo”, disse McCaig. “Porque Padmé pode ver que ele está se tornando um monstro.” 

Impossível não sentirmos uma melancolia quando lembramos da frase de Padmé sobre o momento em que vê o senado aplaudindo a criação do Império Galáctico: “Então, é assim que a liberdade morre. Com um estrondoso aplauso”. Aqui, ela nos faz lembrar da forte figura política que ela foi no inicio da história e que poderia ter sido no decorrer. Infelizmente, não tivemos a oportunidade de ver esse momento de Padmé, pois ela era uma personagem feminina em um filme dirigido e escrito por homens que trabalhavam em uma indústria dominada pela ideologia patriarcal. E mesmo com suas controvérsias, Padmé sempre será lembrada e admirada pelos fãs, porque sabemos do potencial que ela teve e sabemos que ela é apenas mais uma personagem feminina que foi injustiçada em filmes de ficção científica. Infelizmente, a lista é extensa e não para de crescer. 




Texto: Milena Machado  
Arte em destaque: Mia Sodré 

Comentários

  1. Padmé é uma personagem excelente em A Ameaça Fantasma - filme que me fez gostar de Star Wars - que se torna apenas uma chorona que morre de tristeza em A Vingança dos Sith e eu quis arrancar os cabelos quando vi o que foi feito dela ao longo da trilogia...

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