A arte chinesa pela perspectiva feminina


Recentemente, tenho me interessado por conhecer mais da cultura chinesa, e o cinema foi uma porta de entrada para isso. Assisti a alguns filmes dos anos 1990, Raise The Red Lantern (Da Hong Deng Long Gao Gao Gua, no original) e Center Stage (Yuen Ling-Yuk), e comecei a observar a questão do feminino na concepção chinesa, as vontades e os anseios das mulheres retratadas. Os filmes despertaram em mim o interesse em conhecer mais sobre artistas chinesas, especialmente da minha área de atuação, artes visuais. Porém, quando comecei a pesquisa quase não havia informações à disposição. Então, percebi a falta de destaque dessas artistas e ainda mais a importância de falarmos de papéis femininos na sociedade, da identidade cultural e da arte não europeizada. 

O que significa ser uma mulher para a sociedade chinesa e onde estão as artistas chinesas na história da arte? 

Arte chinesa

A arte chinesa é comumente marcada pela tradição. Podemos facilmente imaginar a beleza contida nos vasos de porcelana com seus detalhes em azul, descrevendo uma cena bucólica da aristocracia ou uma paisagem. Podemos também pensar em pinturas feitas delicadamente em extensos pergaminhos, representando a natureza e sua magnitude, a serenidade de uma jovem, ou momentos da história budista. Entretanto, a arte chinesa é muito mais vasta e complexa do que seu lirismo delicado demonstra, especialmente se vista da perspectiva da imagem feminina. 

Existem retratos interessantes das mulheres chinesas na história, como mães, artistas, jovens e cortesãs, figuras (renwu) muito comuns de serem retratadas durante a Dinastia Tang. Nesse período, a figura se sobrepunha ao paisagismo de montanhas (shanshui) como motivo artístico, perdendo apenas para temáticas taoístas e budistas. As terracotas de dançarinas, por exemplo, são curiosas em sua representação; algumas possuem braços muito compridos e serpenteantes, gerando maior impacto visual à percepção do movimento, como se conseguíssemos ver sua bela apresentação capturada pela visão do artista. 

Ainda que representadas na arte chinesa, existe pouco conhecimento das artistas visuais femininas de períodos passados e mesmo atualmente. É árduo o trabalho das artistas.   

Pintora Qiu Zhu da Era Imperial

As pinturas de cortesãs em seus trabalhos artesanais e hobbies musicais, em grupos de mulheres eram muito comuns na Dinastia Ming. Qiu Ying (1494–1552) era considerado um dos grandes mestres do período e criador de trabalhos aclamados, dentre os quais envolvem a temática feminina aristocrática. Suas pinturas minuciosas em estética cenográfica instigaram sua filha, Qiu Zhu (século XVI), a também ingressar no ambiente artístico.

Conhecida por seu nome artístico Duling Neishi, Zhu aprendeu com o pai as técnicas mais refinadas da pintura, manejando os pincéis muito precisamente. Ela tinha gosto por representar temáticas figurativas, mulheres em específico, damas pinceladas com cores brilhantes e detalhes em tinta escura, com a paisagem em segundo plano. Sua arte, embora tradicional, parecia livre de amarras, de forma que ela costumava inserir autorretratos em pinturas de damas dos cenários budistas. 

Na obra Pine Tree and Figure, Zhu pinta num papel dourado em forma de leque o que parece ser um senhor idoso apoiado num tronco de pinheiro, gesticulando para a figura de um menino que está representado de costas para o espectador. Ao redor, é possível perceber uma cena campestre, contendo montanhas e nuvens ao fundo, tudo em tons de verde, azul, amarelo e branco acinzentado. A obra parece conter relações com momentos da vida, a velhice e a juventude nas figuras retratadas, mescladas a uma atmosfera de jornada espiritual pela paisagem ao redor. Em comparação, temos a obra Figure of a Guo Lady, que por sua vez representa uma dama da alta nobreza, montada em um cavalo malhado, observando a ação de duas damas de companhia, uma que lhe direciona um chapéu de palha e outra, à esquerda, que segura um mastro com um brasão, no qual duas figuras de FengHuang (equivalente à fênix da mitologia chinesa) estão voltadas uma para a outra. Pelo fundo, com muitas árvores e rochedos, a jovem dama parece estar prestes a dar um passeio matinal por alguma trilha de um bosque, numa cena bucólica chinesa.

À esquerda, Figure of a Guo Lady; à direita, Pine Tree and Figure

Pintoras de períodos datados (como Zhu) costumavam ser filhas de pintores de status, uma situação também comum no Ocidente, visto que a única forma de que pudessem criar arte a seu modo seria se seus pais permitissem, como ocorreu com Artemisia Gentileschi na Itália barroca. Entretanto, viver de arte naquele período era impensável para a mulher. O casamento, como bem exemplificado em Raise the Red Lantern, era a única forma de se obter status e até mesmo de sobreviver. Logo, muitas mulheres foram obrigadas a abrir mão de sua arte para cuidar do marido e dos filhos, enquanto outras, com mais chances, tiveram que lutar pela sorte para existirem no meio artístico. 

As Modernistas 

Pan Yuliang (1895-1977)

Assim como Frida Kahlo, a primeira coisa a chamar atenção em Pan Yuliang (1895–1977) é sua história impactante e sua dualidade entre a terra natal e o estrangeiro. Quando Pan tinha 14 anos, ficou orfã e acabou sob a tutela de um tio, que a vendeu para a prostituição, fator que demonstra como a mulher era inferiorizada e até desumanizada para a sociedade do período. Sozinha, Pan não conseguiria escolher um outro rumo, mas quando conheceu Pan Zanhua, oportunidades começaram a surgir. Despertando seu interesse, tornou-se sua segunda esposa (como visto em Lanternas Chinesas, a poligamia era uma prática possível, até ser “banida” durante o regime maoísta) e começou a receber incentivos em seu gosto pela arte. Sua habilidade logo aflorou e gerou o interesse de Liu Haisu, diretor da Escola de Pintura de Xangai, que a convidou para participar do instituto. Pan tornou-se a primeira mulher a estudar artes nessa escola, um marco importantíssimo para as mulheres que sucederam na área. Após terminar seus estudos, foi chamada a participar da Academia de Belas Artes em Lyon, na França e, desde então, seu nome cresceu mais e mais, até se tornar professora e diretora da Escola de Pintura de Xangai, onde começou seus trabalhos.

No que diz respeito às artes visuais, Pan é um dos nomes mais importantes das artistas chinesas. Sua arte é delicada, algumas com características impressionistas e muitas com nus femininos que lembram a delicadeza e espontaneidade da pintora americana Mary Cassat. O mais interessante é a forma como, apesar de ter aprofundado os estudos de arte na França e realizado muitos trabalhos seguindo os rumos da arte ocidental, vemos claramente temáticas e técnicas chinesas em suas obras, mostrando sua personalidade e origem. É uma fusão estonteante, permeada de cores harmoniosas e detalhes ousados que inferem força magnética às mais delicadas obras. Sua representação de nudes femininos se tornou uma temática forte em seu trabalho, com características de leveza e espontaneidade, mas pouco agraciada na China do período, país cujo retrato do corpo nu era incomum, um tabu, visto como obsceno em regiões mais tradicionalistas — sendo um dos motivos para o pintor Sanyu, que também pintava a nudez feminina, se mudar para Paris na década de 20. 

Na obra Nude Sitting in a Red Bathrobe, de 1955, reparamos que a modelo aparenta estar confortável em sua nudez, em seu retrato ela esboça um sorriso empático e um olhar tranquilo. A figura da mulher não é objetificada, e apreciamos seu volume por observarmos a imagem de um corpo real, como uma mulher se parece, de fato. 

À esquerda, Nude Sitting in a Red Bathrobe; à direita, Combining

Já na obra Combing, de 1961, vemos uma mulher sentada num banquinho trajando um robe com estampa de flores de cerejeira, um símbolo de despertar sexual, feminilidade e amor na cultura chinesa. Na pintura, a mulher representada está encurvada escovando tranquilamente o longo cabelo, também identificado como símbolo de feminilidade e tradição.  O fato de Yuliang representar mulheres asiáticas, bem como a si mesma em seus melancólicos autorretratos, demonstra seu saudosismo com sua nação, sua vontade em mostrar as mulheres asiáticas e o universo feminino pela visão de uma mulher. Sua vida foi retratada em dois filmes, o chinês A Soul Haunted by Painting (Hua Hun, no original), no qual a atriz Gong Li (protagonista de Raise The Red Lantern) representa a artista; e o francês, La Peintre. 

Sun Duoci (1913-1975)

Embora muito reconhecida como polêmica musa e amante do professor e artista Xu Beihong, Sun Duoci foi uma das artistas mais conceituadas de seu período. Tornou-se eventualmente professora de artes numa escola para moças em Anquing, mesmo sem conseguir concluir os estudos (devido a perseguições que vivia por conta de seu romance) e viveu por um tempo em Nova York, convivendo com diversos artistas chineses importantes. Muitas obras foram feitas por Beihong retratando sua beleza na pintura a óleo, num estilo realista ocidental, mas pouco se fala da maestria das obras de Duoci, seus rascunhos, desenhos e pinturas sobre a natureza local em pinceladas fluidas e expansivas. 

Em Two Sparrows on Plum Branch, de 1953, uma pintura do estilo tradicional chinês, Duoci retrata com delicadeza uma cena de harmonia e união entre dois pássaros pousados num galho florido, representando não apenas um momento efêmero da natureza, como também a simplicidade do amor por meio do uso de tintas de tons claros e pinceladas delicadas, quase como se demonstrasse um movimento pacífico do casal de aves. Já em Running Horse, de 1966, também uma pintura tradicional, percebemos uma pincelada grave, movimentada como se estivéssemos correndo com o cavalo, livres e selvagens. A artista também pintou paisagens em estilo pós-impressionista. 

À esquerda, Running Horse; à direita, Two Sparrow on Plum Branch

A impressão gerada por suas obras é de uma mulher de várias faces em sua arte, que pode ser delicada, mas altiva, forte e livre de espírito, apesar das angústias e pesares, como ter se casado com um homem (Xu Shaodi), que nunca amou e lhe era infiel e de não ter concretizado um relacionamento sério com Xu Beihong, apesar de todas as críticas. Assim, vemos uma mulher complexa, apenas desejando se encontrar em sua vida, sua liberdade e seu amor, que teve uma história de desilusão, mas se reergueu como pode, como muitas de nós fazemos. 

Contemporâneas - Dangdai Yishu

Desde a Reforma de 1979, após o período maoísta, uma parcela da população (em especial estudantes, ativistas e artistas) começou a questionar o papel da mulher na sociedade chinesa, despertando uma maior consciência sobre o feminismo e as relações entre corpo e política. Assim, algumas das barreiras que dificultavam a libertação feminina começaram a ruir e as mulheres começaram aos poucos a terem seu estudo e suas vontades valorizados e o expoente de mulheres artistas (ainda que pequeno) começou a crescer. Com essas alterações começaram a surgir as artistas contemporâneas da nüxing yishu (arte feita por mulheres ou arte feminista). 

Yin Xiuzhen 

Yin Xiuzhen é uma das mais importantes artistas chinesas do século. Formada em artes visuais nos anos 90, relata que, nesse período, havia poucas mulheres estudando arte, algo que tem apresentado avanços expressivos. Apesar de falar de sua experiência como mulher e as dificuldades de gênero na China, suas maiores temáticas são a cidade, conflitos sociais e ambientais, retratando a realidade da poluição, problemas de respiração, pobreza acentuada em muitas regiões, a sociedade do consumo e a vida no estrangeiro.  

Um ponto muito interessante de sua arte é a utilização de roupas e sapatos usados, que consegue com parentes e conhecidos e utiliza de forma impactante. É perceptível como, apesar de todos os problemas, a artista ama seu país e se comove ao ver jovens desejando tanto ir para o exterior. Suas obras retratam bem esses elementos, como em Trojan, de 2016, exposta na Bienal de Berlim. 

Trojan, de Yin Xiuzhen

A memória também se faz presente em muitas obras, conseguimos perceber a melancolia contida, a fragilidade ou a dureza dos materiais. Xiuzhen atrai facilmente o olhar do espectador, seja com suas pequenas cidades em malas imensas ou em instalações de sapatos com rostos de pessoas projetados. Notamos o sentimentalismo, a documentação do cotidiano, os pesares da artista, algo que induz a reflexão, a sede por conhecer mais de seus trabalhos.

Zhao Xiaoli 

Conhecida por expor suas obras em ambientes virtuais, Zhao Xiaoli é uma jovem artista de Pequim que cria pinturas alucinantes em matrizes alternativas que encontra descartadas. Os vídeos de sua produção são muito performáticos, com cortes precisos e a demonstração do contraste entre o delicado e o bruto. Isso se deve ao modo de produzir de Xiaoli, que é intenso e radical, quase agressivo em sua execução, mas que resulta em peças detalhadas e suaves, com características clássicas evidentes.

Em uma de suas obras mais recentes, de título desconhecido, ela recuperou uma porta quebrada e, sobre a madeira espessa, pintou imensas rosas e flores lilases, com um mar azul e uma nuvenzinha tempestuosa em plano de fundo. O uso de suas cores, sempre vibrantes ou em tons pastéis, confere às pinturas a sensação de calmaria. A força e fragilidade da natureza, já caracterizada em artistas anteriores, porém com seu estilo orgânico de pintar, se mostram ainda mais vivazes adicionadas ao contexto contemporâneo. Suas obras quase oníricas nos fazem desejar estar em um de seus cenários, trazendo à tona uma nostalgia doce e confortante.   

Título desconhecido, de Zhao Xiaoli

Algumas outras artistas importantes e de diferentes áreas do visual que os leitores podem contemplar seus trabalhos e visões do cenário da arte atual são: Xiang Jin, Yu Hong, Cai Jin, Chen Qiulin, Fang Lu, Gao Ling, Han Yajuan, He Chengyao, Hu Xiaoyuan, Lin Tianmiao e  Ma Qiusha. O site do museu Tate de Londres possui uma área denominada “Women Artists in Contemporary China” (disponível por mecanismo traduzido para o português), na qual podem ser encontradas obras, imagens e entrevistas incríveis que valem a pena a visita.  

A vivência das mulheres asiáticas precisa ser valorizada, em particular porque recentemente foi noticiado o assassinato de seis dessas mulheres em duas casas de massagem na região de Atlanta, nos Estados Unidos. O crime foi injustamente desconsiderado como feminicídio e racismo, algo que tornou meus motivos de escrever sobre ainda mais relevantes. A situação é intragável, a fetichização e sexualização dos corpos femininos deve ter um fim o mais cedo possível. 

Precisamos falar de vozes femininas urgentemente e em todos os contextos que devem ser considerados além do “ser mulher”. Trazer destaque, discussões sobre atuação social, visão de mundo, racialidade, sexualidade, entre tantos conteúdos que são essenciais. Espero com este texto fazer um recorte das histórias de mulheres fascinantes da ficção e realidade e atentar os leitores sobre importantes reflexões feministas.  


Texto: Malu Silvestre
Imagem de destaque: Mia Sodré

Comentários

  1. Texto muito bem escrito, e com tanto conteúdo interessante. É nosso dever especial como mulheres conhecer e celebrar nossas irmãs e seu trabalho no mundo inteiro.

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  2. Terminei querendo ler mais e instigada a conhecer outros trabalhos. Muito bom!

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