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Lady Killers: Assassinas em Série. Filhas de seu tempo.


O interesse por histórias sobre crimes reais (true crime) tem aumentado ao longo dos anos e o mercado literário, ciente disso, passou a explorar o assunto com maior foco. A editora DarkSide possui uma coleção com características muito especiais a respeito do subgênero de não ficção. Trata-se da linha "Serial Killers".  

Muito do foco desta área parece girar em torno de homens temíveis. Tente fazer um teste com as pessoas ao seu redor e pergunte quantas mulheres notoriamente assassinas elas conhecem. Mulheres que praticaram crimes em série, que estejam envolvidas em histórias escabrosas — talvez apenas um apaixonado pelo tema consiga responder na ponta da língua. Mas isso não significa nada além de que homens estampam livros de história com seus crimes horrendos numa proporção maior. 

Podemos especular os motivos para tal foco na violência masculina em detrimento dos crimes de mulheres. Talvez o dado mais interessante a respeito seja de que "durante os últimos cem anos, menos de 10% dos assassinos em série eram mulheres". Esse indício está presente no livro Lady Killers, lançado pela DarkSide. No entanto, os dados usados para medir a proporção de mulheres vs homens no cruel mundo dos assassinatos podem ser um tanto alterados. Desde 1970, por exemplo, a numeração vem crescendo de maneira exponencial. Um crescimento que acompanha falhas na memória populacional. Apenas Aileen Wuornos, em 1972, começou a transformar esse cenário. Seu apelido? "A primeira assassina em série da América". É claro que isso não corresponde à verdade.  

Quando você embarca em Lady Killers, possui um vislumbre da psique de mulheres na hora de cometer crimes, e como ela pode ser diferente do que dizem os jornais. 

"Assassinas em série são mestres do disfarce: elas andam entre nós, no mundo, como nossas esposas, mães e avós."
Porém, é curioso notar o quanto a sociedade parece mais disposta a lembrar o nome de homens criminosos; quanto a mulheres, sequer recordam o nome das vítimas. Jack, o Estripador, matou menos que Mary Ann Cotton — mas foi ele quem assombrou toda uma população, não ela. E a ciência psicológica explica esse evento: mulheres são ameaças na teoria. Em fantasias. É difícil, para muitos, imaginar que elas cometam crimes semelhantes aos dos homens. Mesmo no Direito Penal brasileiro, crimes passionais são muito mais ligados às mulheres do que aos homens. Outra entrega fantástica do livro é a frase de Roy Hazelwood, um caçador de mentes do FBI: "Não existem assassinas em série".


Algo ainda mais curioso? Até a tecnologia é adaptada para não reconhecer assassinas, muitas vezes indicando a fala como um erro e redirecionando-a para os homens. Ademais, existe uma obsessão em transformar assassinas em série em objetos sexuais. Objetos de desejo, ou não. Arquétipos são usados o tempo inteiro quando se trata de investigar e anunciar crimes cometidos por mulheres. 

E o que são arquétipos? Em suma, são modelos armazenados em nossas memórias. Eles são capazes de nos guiar durante uma vida inteira. Para um estudo sobre arquétipos, existem diversos pensadores na psicologia mundial. Um dos mais famosos, ainda que não seja unânime, é Carl Jung. Esses arquétipos são responsáveis por associar crimes femininos com algo mais sutil. De menor maldade. Com mais emoção. 

"Devido ao mito da passividade feminina, uma mulher que não internaliza sua raiva é muitas vezes vista não apenas como masculinizada, mas como, literalmente, um homem."

O livro, porém, não tenta explicar todos os motivos pelos quais mulheres, ou qualquer pessoa, matam. Isso é uma pergunta quase mística, incapaz de ser resolvida com exatidão. Quando pensamos chegar numa linha de raciocínio aproximada, outro ato perverso ocorre, e ele gera novas ramificações de estudo sobre a mente de um serial killer. Ainda não existe solução para evitar a morte de alguém nas mãos de psicopatas, mas, por enquanto, admitir que mulheres também incorrem em assassinatos apagados pela história é um começo de estudo. 

Lady Killers faz uma viagem nos anais da história como tentativa de comprovar sua teoria principal: mulheres assassinas sempre existiram e foram ofuscadas pelos homens. Nos deparamos logo de cara com Elizabeth Báthory, também conhecida como "A Condessa Sangrenta", que viveu de 1560 até 1614. 

Ela foi um dos primeiros registros femininos de assassinas em série e tornou-se, nos dias de hoje, uma distorcida referência na cultura pop. Uma cultura que tende a abraçar crimes horripilantes. Elizabeth, aliás, inspirou o nome de oito bandas de black metal; não que isso seja relevante, apenas uma trívia aos leitores. 

Falando em trívias e curiosidades, aos amantes de uma boa edição de livro, uma que salte aos olhos, Lady Killers chega a dar ênfase em diversos momentos a curiosidades, adventos e informações bem estudadas. Cada capítulo conta a história de um nome famoso no "ramo", e descreve historicamente tudo que se passou na época. Ou o que se foi possível registrar. 

A Madame Bathory, por exemplo, detinha uma câmara de tortura. Mas vale a pena dizer que ela foi muito perseguida pela igreja. A satisfação deles era prender aquela mulher rica e "profana", mesmo com provas confusas. Fossem confusas ou não, trezentas e seis pessoas foram até a instituição depôr contra a Condessa Sangrenta, incluindo membros de um Esquadrão de Tortura que ela criou. Os números das vítimas variam entre 175, 200 ou 650 mulheres. Supostamente, ela teria escrito o nome de todas num caderno. 

Retrato de Elizabeth Báthory, de artista desconhecido

Elizabeth não chegou a encarar um julgamento, mas sim a prisão perpétua dentro de seu castelo sanguinário. Muito esforço foi feito para apagar a memória dela da história, mas as transcrições de seu julgamento vieram à tona em 1720. Duas últimas curiosidades sobre ela: Raymond McNally, historiador, declarou que ela inspirou o filme Drácula (1931). A última, um pouco mais assustadora, é que morreu em 22 de agosto de 1614 e sua cripta foi aberta em 1995. Nada havia lá dentro.

Outras histórias levadas pela memória do tempo e por pessoas interessadas em desaparecer com a marca deixada pelas mulheres nos assassinatos em série, talvez por não levá-las a sério, assumindo um caráter histérico aos assassinatos, são bem demonstradas durante todo o correr do livro. 

Nele, conhecemos Nannie Doss, "A Vovó Sorriso" (1905-1965). Ela foi manchete em diversos jornais, criando uma história sobre amor. Ela queria um amor perfeito. A "Vovó" matou cinco maridos e calmamente descreveu como envenenou quatro deles. Até mesmo o juiz que a entrevistou para admitir sua entrada no manicômio a descreveu como a criminosa mais inteligente que já tinha entrevistado. 

Também somos apresentados a Lizzie Halliday, "A Pior Mulher da Terra" (1859-1918). O caso de Lizzie faz paralelo com o de Aileen Wuornos pois, mesmo após Lizzie ser acusada até pelos crimes de Jack, o Estripador, foi Aileen quem ganhou o título de primeira assassina em série. Halliday não agia por emoções abruptas ou motivos sexuais. Ela usou de esfaqueamento, tiros, espancamento e algo que hoje em dia só podemos chamar de ser uma competente stalker. A despeito de tudo isso, Tori Telfer, autora do livro, descreve bem:

"A 'amnésia coletiva' foi a responsável pelo esquecimento de Lizzie e ascensão de Aileen."

No livro, a autora fala sobre as vidas e crimes de catorze mulheres. Elas são Elizabeth Ridgeway, a "Santa Diabólica"; Raya e Sakina, "As Doces Víboras"; Mary Ann Cotton, "A Mulher Maldita"; seguida por Darya Nikolayevna Saltykova, "Atormentadora"; Anna Marie Hahn, "Iceberg Anna", Oum-El-Hassen, "O Rouxinol"; Tillie Klimek, "Sacerdotisa dos Barbas-Azuis". A lista continua com Alice Kyteler, "A Feiticeira de Kilkenny"; Kate Vender, "A Bela Degoladora", as Criadoras de Anjos de Nagyrév ,"Sororidade Letal"; e, por fim, Marie-Madeleine, "A Rainha dos Envenenadores". 

Falar sobre assassinatos nunca é uma missão fácil de digerir aos escritores de livros, mas Tori Telfer faz um trabalho estupendo em descrever cada uma dessas mulheres, suas motivações, seus fins e o meio social no qual estavam inseridas. Não adianta ficar longe demais do mal. Quando somos puritanos e fugimos dele, a maldade torna-se uma ideia. Uma ilusão, um sonho distante. Esquecemos da realidade. Mesmo Joyce Carol Oates tem uma fala sobre isso, a qual diz que adentrar a mente de um assassino é uma experiência extrema de estudo da humanidade. É, talvez, preciso descobrir onde o humano se transforma em monstro. Onde eles se separam. O que os leva até ali. 

Para quem deseja um estudo inteligente e pleno em referências, esse é o livro ideal. Verdade que sua fonte de pesquisa não é brasileira, mas poderia muito bem ser feito um estudo no país. Na linha da sinceridade, a maior parte desses estudos são feitos nos Estados Unidos. O Brasil ainda não possui uma base de dados que atenda a tamanho detalhe, sequer consegue categorizar penalmente os assassinatos reincidentes com muita precisão. 

O livro ainda nos traz alguns dados interessantes acerca do tema em geral. A maioria dos serial killers, de acordo com a pesquisa da autora, não importa o gênero, são brancos. Outro fato constatado durante o livro é a solidão das mulheres que cometeram crimes antes mesmo de iniciar seus atos de violência. O único interesse por elas vinha depois, quando repórteres, padres, jornalistas e todo o tipo de pessoa parecia subitamente interessada. 

A leitura de Lady Killers é arrebatadora. Humana. Estudada. E sem glamourização. Questões são levantadas para nos fazer pensar qual é o fio que nos separa de atos violentos. E que, mesmo quando se deparando com a consequência dos seus atos, as mulheres narradas só queriam uma coisa: continuarem vivas. 

Crimes são obras de seu tempo e nos dizem muito sobre a sociedade no qual ocorrem. E você aprenderá sobre isso com a leitura dessa edição especial, trabalhada com esmero, e repleta de questionamentos. Como esse, com o qual encerramos:

"Se os crimes refletem os anseios de seu tempo, então atualmente estamos na era do assassinato em massa, do terrorismo. Nossos desejos violentos ainda nos levam a desfechos violentos, mas os desfechos mudam conforme as décadas vêm e vão."




Texto: Nathalia de Morais 
Arte em destaque: Mia Sodré 

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