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Páramo: um encontro de Guimarães Rosa com a encruzilhada entre a vida e a morte

Falar sobre a morte é falar sobre a vida, e falar sobre a vida é falar sobre a morte. O conto Páramo, publicado postumamente no livro Estas Estórias, de Guimarães Rosa, exala uma angústia sublime e imponente ao abordar esse estranho paralelismo entre o viver e o morrer, no qual, ao contrário do que postula a geometria euclidiana, as paralelas da vida e da morte por vezes se cruzam, se tocam, se unem, e se transformam.

Na epígrafe do conto, por intermédio de Platão, Guimarães cita o dramaturgo grego Eurípedes: “Quem sabe a vida é uma morte, e a morte uma vida?”, adiantando o tom e o tema do que está por vir.

A narrativa, então, se inicia numa breve incursão filosófica que revela a crença do narrador na imortalidade da alma e na existência de uma “espécie diversa de morte, imperfeita e temporária, no próprio decurso desta vida”, da qual o indivíduo que morre ressurge “mais real e novo”. Em seguida, o narrador faz uma sutil brincadeira com o leitor: fala inicialmente de um homem que teria sido enviado contra sua vontade a outro país e, logo no momento seguinte, trata esse homem como sendo ele mesmo, o narrador. Ou seja, acontece uma troca na narração, que passa da terceira para a primeira pessoa no virar de um parágrafo. Esse não é um detalhe sem importância. Aliás, atentar-se aos narradores de Guimarães é altamente recomendável ao se ler os causos do escritor mineiro.

Neste conto, ao contrário do que encontramos em suas estórias mais conhecidas, o cenário não é o sertão brasileiro, e sim uma altíssima capital andina, para onde o narrador é forçadamente enviado. A escrita, com ares lovecraftianos, reflete o clima frio da cidade, com seu ar rarefeito e o vento gelado vindo do alto das montanhas, vento que trará ao narrador a única companhia que terá por algum tempo: o homem com a semelhança de cadáver a viver dentro de si.

Ainda durante a viagem até o cárcere dos Andes – como o narrador por vez se refere à sua estadia na cidade -, um encontro com um conhecido anuncia o destino de nosso protagonista. O colega o faz sentir-se em seu próprio velório. A despedida adiada dos dois soa como se fosse a última.

A morte vem a ele com os ventos gelados e úmidos que descem dos páramos, com a dificuldade de respirar típica de quem não está acostumado às elevadas altitudes. O soroche – nome pelo qual o mal-estar é conhecido – lhe pouparia seu corpo, mas não o seu ser. Longas e tediosas caminhadas diárias foram receitadas pelo médico para que seu organismo se acostumasse ao ar rarefeito. A emoção viria pelas eventuais e incisivas lágrimas; era o meio como seu corpo responderia à condição, e o médico avisa-lhe que as deixe fluir livremente.

Dia após dia, o homem sai para caminhar pelas ruas e ruelas mais escondidas que encontrava, pois não queria ser visto chorando. Em sua companhia estavam o frio do lado de fora e o cadáver que arrastava consigo do lado de dentro. O cheiro amadeirado dos ciprestes e eucaliptos alinhados ao redor da cidade eram-lhe cheiro de sarcófago, e ainda mais lhe convencia de que estava mesmo preso, encarcerado vivo-morto numa tumba, a espera de seu enterro e partida definitiva.

Havia medo e havia angústia naquela companhia. Por mais que a solidão o afetasse profundamente, o fardo de carregar seu próprio defunto atormentava sua alma perdida.

Seus passeios então se transformam em jornada, mas para onde? Ou melhor: uma jornada por onde? Era ele um morto no reino dos vivos? Um vivo no reino dos mortos? Qual seria a diferença, afinal?

Caminhando, ele encontra a bondade, encontra o ódio, a esperança e a tentação. Não se dobra a nenhum deles, pois não resolvem a angústia de sua companhia. Desolado, lembra de A Ilha dos Mortos, pintura de Arnold Böcklin, um homem de túnica branca permanece em pé sobre o barco que o leva à sua última morada: uma ilhota cercada por altos paredões de pedra, com longos pinheiros no centro.

A Ilha dos Mortos, de Arnold Böcklin

Mas, antes de tudo, encontra uma procissão. O desejo de segui-la, de caminhar lado a lado com aqueles homens encapuzados a seguir enormes santos em andores absurdos, é o desejo de purgar todos seus pecados, de redimir-se e livrar-se de vez do calvário interregno que o assola. As lágrimas, traiçoeiras – ou, então, muito sábias –, lhe fazem desviar o caminho. Entretanto, serão as mesmas lágrimas que o levarão, mais adiante, a juntar-se à derradeira procissão, uma que não carrega santos, mas um rapazinho morto a ser enterrado no cemitério da cidade. A vergonha que o impediu de juntar-se aos homens da primeira procissão é a vergonha que o trouxe a esta, onde a choradeira generalizada a diluiria até desaparecer.

No fim da procissão, o enterro, a consolidação da morte e, por que não, a consolidação da vida. Mas ali no cemitério, um último encontro, fortuito, uma misteriosa convergência de corpos, ainda estaria por vir e revelar-lhe ou, quem sabe, conceder-lhe uma partida e a outra.


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Texto: Jonathan Fenile
Arte: Sofia Lungui
Jonathan Fenile
Vou lendo a vida e escrevendo o que encontro em suas linhas.

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